ALFABETIZAÇÃO CRÍTICO-LIBERTADORA
A escola, eleita por excelência como um espaço de produção de conhecimentos, onde o currículo se efetiva, tem um papel importante para a garantia da promoção do desenvolvimento e das habilidades para o domínio da língua escrita e falada.
Mas, ainda hoje, o que se verifica são práticas mecânicas, que elegem a cultura da reprodução, da competitividade e da não comunicação, além da seletividade de conteúdos que não respeitam o saber de experiência feito dos alfabetizandos, principalmente os das classes menos favorecidas.
[...] as escolas, ao invés de considerar a realidade concreta dos educandos, acabam distribuindo desigualmente determinadas habilidades e formas de conhecimento que beneficiam apenas os alunos de classe média, enquanto que os educandos da classe trabalhadora são sempre prejudicados (FREIRE; MACEDO, 2006, p. 4).
Desse modo, nos moldes de uma educação bancária, perpetua-se a máxima de que os educandos devem se adaptar ao espaço escolar e que se isso não ocorrer, são culpados por produzirem seu próprio fracasso.
De maneira oposta à educação crítico-libertadora, a educação bancária ignora a dialogicidade nas relações entre os sujeitos e entre os sujeitos e a realidade,
desfavorecendo a conscientização de que são seres capazes de transformarem a realidade, em determinado tempo e espaço. É a negação do caráter histórico e transformador do ser humano
Ao eleger a prática dialógica como um conceito fundamental para a realização dessa pesquisa, deve-se deixar claro que Freire concebe o diálogo como uma comunicação democrática entre os sujeitos, em uma relação de horizontalidade, em que todos têm o mesmo direito de expressão.
Em uma concepção de alfabetização crítico-libertadora, o diálogo deve acontecer em diferentes momentos e espaços, entre educadores e educandos, abordando não apenas os conteúdos predeterminados, presentes em um currículo massificador, como ressalta Freire:
[...] para esta concepção como prática de liberdade, a sua dialogicidade comece, não quando o educador-educando se encontra com os educando- educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo programático da educação (FREIRE, 1983, p. 83).
Para Freire,o chão da escola é um local de conscientização dos sujeitos que constituem o processo educativo. Onde sujeitos e objetos do conhecimento interagem dialeticamente em um movimento constante, permeado de problematizações e indagações. Essa interação só acontece por meio do diálogo democrático que permite que todos, sem exceção, possam fazer da palavra um instrumento de expressão verdadeira. Assim, Freire sintetiza o que se deve entender como diálogo:
[...] é o encontro no qual a reflexão e a ação, inseparáveis daqueles que dialogam, orientam-se para o mundo que é preciso transformar e humanizar, este diálogo não pode reduzir-se a depositar ideias em outros. Não pode também converter-se num simples intercâmbio de ideias a serem consumidas pelos permutantes. Não é também uma discussão hostil, polêmica entre homens que estão comprometidos nem em chamar ao mundo pelo seu nome, nem na procura da verdade, mas na imposição de sua própria verdade (FREIRE, 1979a, p. 96).
Para o autor, o diálogo22 permite a comunicação efetiva entre os sujeitos, a concretização de uma educação humanizadora, real e com vistas à emancipação
22
O conceito de diálogo em uma perspectiva freireana será um dos eixos de análise dessa pesquisa, recebendo, portanto um destaque especial no capítulo de análise dos dados coletados.
crítica dos sujeitos, ao respeitar as diferenças da realidade de cada indivíduo, bem como de seus saberes.
Em Educação Como Prática da Liberdade, Paulo Freire assim define diálogo:
E que é o diálogo? É uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se, então, uma relação de simpatia entre ambos. Só aí há comunicação (FREIRE, 1983, p. 115).
Freire concebe o diálogo como um momento em que os interlocutores, estando em mesmo patamar de comunicação, refletem sobre sua realidade: “através do diálogo, refletindo juntos sobre o que sabemos e o que não sabemos, podemos, a seguir, atuar criticamente para transformar a realidade” (FREIRE; SHOR, 2011, p. 168).
Ainda em Medo e Ousadia – O Cotidiano do Professor, Freire explicita novamente a sua concepção de diálogo:
Ao nos comunicarmos, no processo de conhecimento da realidade que transformamos, comunicamos e sabemos socialmente, apesar de o processo de comunicação, de conhecimento, de mudança, ter uma dimensão individual. Mas o aspecto individual não é suficiente para explicar o processo. Conhecer é um evento social, ainda que com dimensões individuais. O que é o diálogo, neste momento de comunicação, de conhecimento e de transformação social? O diálogo sela o relacionamento entre os sujeitos cognitivos, podemos, a seguir, atuar criticamente para transformar a realidade (FREIRE; SHOR, 2011, p.65).
Referindo-se a esse conceito de diálogo como transformação, Santos (2008, p. 115) vem corroborar a concepção dessa dinâmica, ao afirmar que “no processo dialógico, os sujeitos encontram-se em cooperação para transformar o mundo”.
A transformação da realidade só é possível se for dada aos sujeitos a oportunidade da palavra e da reflexão crítica de sua realidade.
Nas escolas brasileiras, em geral, percebe-se que oportunizar ao educando situações em que possam fazer uso da palavra, como meio de expressão e exercício de cidadania não é prática pedagógica comum, já que a cultura do silêncio permeia uma educação bancária, em que educandos, passivamente, aceitam “os conhecimentos” a eles transmitidos.
Ivani Fazenda destaca o conceito de cultura do silêncio como uma prática comum nas escolas.
[...] tal como a escrita, a expressão oral também requer contínuo exercício. Somos produto da “escola do silêncio”, em que um grande número de alunos apaticamente fica sentado diante do professor, esperando receber dele todo o conhecimento. Classes numerosas, conteúdos extensos, completam o quadro desta escola que se cala (FAZENDA, 2010, p.17). Diante do exposto, constata-se que são várias as situações que desfavorecem a comunicação entre os sujeitos. Por isso,
[...] o diálogo é uma espécie de postura necessária, na medida em que os seres humanos se transformam cada vez mais em seres criticamente comunicativos. [...] Na medida em que somos seres comunicativos, que nos comunicamos uns com os outros, enquanto nos tornamos mais capazes de transformar nossa realidade, somos capazes de saber que sabemos, que é algo mais do que saber. [...] Através do diálogo, refletindo juntos sobre o que sabemos e não sabemos, podemos, a seguir, atuar criticamente para transformar a realidade (FREIRE; SHOR, 2011, p. 167-168).
É função dos educadores que pretendem contribuir para um processo de alfabetização crítico-libertadora promover a prática dialógica, por meio de desafios, provocações aos educandos, oportunizando reflexões de suas realidades e, consequentemente, ações de transformação, como forma de inserção dos sujeitos em seu mundo, como construtores de sua história.
3.4. A LEITURA DO MUNDO PRECEDENDO A LEITURA DA PALAVRA: