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Os empreendimentos de Economia Solidária, de modo geral, possuem dificuldades para acessar linhas de crédito, financiamentos, entre outras formas de obter empréstimos, quando começam a desenvolver suas atividades coletivamente. Nos grupos pesquisados não foi diferente. Pode-se perceber o que impossibilitou o acesso ao crédito para alavancar o empreendimento, como apresenta a presidenta do EES1:
A gente até buscou, mas não foi possível conseguir. Quando a gente buscou, a Caixa Econômica Federal queria que a gente se transformasse numa micro-empresa, para fazer um crédito tipo solidário entre um e outro e tal. A gente disse não, então vamos procurar em outro lugar, mas a gente não vai abrir mão da estrutura jurídica que a gente tinha criado. Então fui muito mais com entidades com retorno, como é também na sede aqui, do que em bancos ou coisas assim (EES1).
Na primeira tentativa de buscar crédito, os associados foram limitados pela questão burocrática, pois os órgãos que dispõem de linhas de crédito exigiam a mudança da estrutura jurídica da cooperativa. Além de ser uma organização pública estatal que obtinha condições de disponibilizar linhas de crédito para esses empreendimentos solidários, exigiam garantias às quais a grande maioria dos empreendimentos não dispõe, especialmente quando estão iniciando suas atividades.
Não. Qual é a garantia que a gente ia dar? A gente não tinha nada, era só nós. Nós não tínhamos nada. Hoje o gerente do Banco do Brasil vem aqui, não precisa nós ir lá. Eles vêm aqui, sabe, hoje não, pode dar o prédio.
Também a gente tem coisas concretas pra dizer, mas é um problema. É muito sério, sabe, quando a gente tá mal não tem ninguém (EES1).
Há falta de linhas de crédito específicas para a Economia Solidária e há falta de garantias, como apresenta esse empreendimento, no entanto, após o grupo obter alguma garantia, quando o grupo é constituído juridicamente, tendo um mercado formado, os gerentes dos bancos os procuram, como apresenta a presidenta do EES1.
A solução para esse empreendimento foi buscar projetos com retornos financeiros encontrados em outras entidades de apoio, os quais serão apresentados com maior destaque posteriormente. “[...] a gente teve apoios, [...] a gente buscou projetos com retornos financeiros e a gente assumiu os retornos e pagou os retornos” (EES1). Foi através de apoios com retornos financeiros em outras entidades que o grupo EES1 conseguiu inicialmente superar esta dificuldade de acesso ao crédito.
O grupo EES2 afirmou que obteve crédito através do programa Caixa RS57, contemplando que a dificuldade em acessar o crédito é a burocracia. “Mas a burocracia é braba, porque com a papelada que foi pedida não teve problema nenhum”. Hoje já está quitado este empréstimo. No entanto, ainda falta capital de giro e crédito para dar continuidade ao grupo, como em 16.698 grupos em todo o Brasil, 1396 no Rio Grande do Sul e dos 116 de Porto Alegre 76 precisam de financiamento (SIES, 2009).
A falta de crédito, de capital de giro para os empreendimentos de Economia Solidária, pode ser amenizada através da ampliação de empreendimentos do mesmo segmento, em especial das cooperativas de crédito.
Em sua origem, a cooperativa de crédito não é um intermediário financeiro, como são os bancos e as companhias de seguro, por exemplo, mas uma associação de pequenos poupadores que se unem para potencializar seu acesso ao crédito, mediante o financiamento mútuo (SINGER, 2002a, p. 67).
57 A geração de emprego e de renda é um dos principais fatores de estímulo ao desenvolvimento
sustentável do país. A CAIXARS nasceu justamente com o objetivo de incentivar o crescimento econômico, promovendo a inclusão social. Tais princípios são a base de todas as ações desenvolvidas pela CAIXARS, que torna mais acessíveis as linhas de crédito e o financiamento às empresas de todos os portes e nos mais variados setores da economia. Dessa forma, é possível colocar em prática projetos que contribuem para a abertura de novos postos de trabalho e proporcionam maior qualidade de vida aos gaúchos. Disponível em: <http://www.caixars.com.br/detalhe.php?acao=inst_historico>. Acesso em: 20 out. 2009.
Para o grupo EES1, a grande saída para esses empreendimentos que necessitam de crédito é a união de cooperativas, ou seja, associados que possam formar essa cooperativa que disponibiliza crédito solidário para o desenvolvimento dos empreendimentos. “Olha, existem já várias iniciativas de cooperativas de crédito. Acho que é bem interessante, que talvez seja a grande resposta que a gente vai encontrar, assim. Criar alternativas de crédito” (EES1).
A alternativa de acesso ao crédito que é apresentada por esse grupo, através da criação e do fortalecimento de cooperativas de crédito já existente, é igualmente questionada pelo próprio grupo, como apresenta a presidenta do ESS1:
[...] mas ao mesmo tempo é sacana isso sabe, porque ó, porque assim ó, tu pega um banco público tá, qualquer um que seja, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDS, é um banco público, é um dinheiro público, então esse dinheiro, ele vai ficar pros grandes, é isso? Porque então a gente vai organizar um outro caixa aqui fruto do meu, do teu, do dinheiro de cada um pra gente se financiar. É incrível isso também, é uma coisa que te deixa indignado (EES1).
A “indignação” desse grupo consiste justamente na presença de grandes sobras, de grandes excedentes de dinheiro público que ficam em poder dos grandes bancos, enquanto as pequenas organizações precisam juntar as suas sobras e criar uma base econômica que possa se autofinanciar e contribuir com outros empreendimentos.
Uma alternativa também a esses empreendimentos seria recorrer aos bancos populares, como é caso da Associação dos Moradores do Conjunto Palmeras (BANCO PALMAS58). Está presente aí uma ambiguidade, pois o Estado é que deveria apoiar estas iniciativas com fim social, disponibilizando esses créditos necessários para a criação desses grupos de geração de renda, como é o caso do EES1, que procurou outras fontes, até mesmo no exterior, de onde vieram recursos especialmente para a construção da sede da cooperativa.
58 Um caso conhecido em todo o Brasil de Banco Popular é o Banco Palmas. Esse banco teve início
na segunda metade da década de 90 e surgiu através de uma avaliação da própria associação frente às limitações do processo de urbanização da localidade, onde com as benfeitorias urbanas realizadas estava expulsando moradores daquela localidade. Sendo assim, essa associação começou a desenvolver ações de geração de renda com preços mais competitivos, disponibilizando pequenos empréstimos, não se baseando nos programas governamentais de juros altos e avalistas como garantia (BARBOSA, 2007). Hoje o Banco Palmas já disponibiliza, para vários grupos dentro da própria comunidade, o crédito solidário. Através da moeda palmas fortalece várias cooperativas, de confecção, de produção de materiais de higiene, entre outros. Disponível em: <http://www.bancopalmas.org/pt/conheca_nos.html>.
5.5 A VIABILIDADE ECONÔMICA DOS EMPREENDIMENTOS SEGUNDO A