A essa grande rede de atores sociais que lutam pelos direitos daqueles surdos que elegeram a língua de sinais como seu principal meio de comunicação podemos chamar de movimento social dos surdos, ou simplesmente Movimento Surdo,22 cujo cerne e ação está nas associações. Suas reivindicações perpassam os mais diferentes campos, tais como o político, o cultural, o educacional, dentre outros, e nem sempre podem ser atendidas pela simples promulgação de leis. Para serem satisfeitas, tais reivindicações almejam mudanças muito mais profundas, que exigem amplas transformações sociais e quebra de paradigmas incrustados na sociedade. É isso o que mantém o Movimento Surdo ativo. Apesar das inúmeras conquistas legais acima relatadas, o reconhecimento social das demandas dos surdos ainda não foi completamente alcançado. Ainda são bastante comuns os relatos de preconceitos sofridos,23 expressos nas situações mais simples. Isso será explorado de maneira mais adequada na análise do nosso material empírico, que busca evidenciar justamente essa luta por transformar sentidos já cristalizados acerca da surdez.
Essa luta pela redefinição de sentidos não é uma questão exclusiva dos surdos e perpassa boa parte dos movimentos sociais da atualidade (DAGNINO, 2000; MELUCCI, 1996; MENDONÇA, 2006b), principalmente no que diz respeito a noções convencionais tais como cidadania, política e participação. Evelina Dagnino (2000) aponta três redefinições principais, desencadeadas pelos movimentos sociais:24 a) o desenvolvimento de um conceito de democracia que transcende os limites das instituições políticas e inclui as práticas culturais; b) a redefinição da noção de cidadania e da noção de direitos; e c) a reivindicação da transformação do Estado e não a sua recusa.
A primeira dessas redefinições surge de uma percepção dos movimentos sociais de que há uma ordem social limitadora e excludente, que não contempla seus valores e interesses. Essa ordem é reproduzida por meio de significados culturais espraiados nas práticas sociais. A própria questão da pobreza, antes de ser um problema econômico é, segundo Dagnino (2000), um problema cultural relacionado à reprodução das hierarquias sociais. Nesse sentido, os movimentos sociais passaram a lutar contra uma desigualdade já impregnada no cotidiano como algo natural e a estabelecer “uma conexão entre cultura e
22 Termo utilizado pela Feneis, pelas associações e pelos principais autores brasileiros que pesquisam sobre o assunto (PERLIN, 1998, 2002, 2003; STROBEL, 2006; SKLIAR, 1998a, 1998b, etc.).
23 Apenas para exemplificar, uma reportagem publicada em 25 de janeiro de 2008 no site da Folha de S.Paulo trazia a seguinte manchete: “Menina surda tem matrícula condicionada em escola particular no Maranhão”. 24 A autora acredita que não é possível generalizar os efeitos dos movimentos sociais dada a sua
heterogeneidade, pluralidade e contextos diferenciados onde estão localizados. Ela também considera que a herança patrimonialista na política brasileira pode ainda se fazer presente em alguns movimentos sociais.
política como constitutiva da sua ação coletiva” (DAGNINO, 2000, p. 83). O político ganha novo sentido ao ser revelado como parte do cotidiano e em última instância cria-se um novo entendimento de democracia.
... os movimentos populares urbanos alcançaram essa mesma compreensão da imbricação entre cultura e política assim que perceberam que não tinham que lutar apenas por seus direitos sociais – moradia, saúde, educação, etc. – mas pelo próprio direito a ter direitos. (DAGNINO, 2000, p. 82)
Em decorrência da ampliação da concepção de democracia, que se torna mais alargada e enraizada no cotidiano das pessoas, a autora aponta para uma segunda redefinição, que diz respeito à noção de cidadania. A categoria cidadão ganha novos contornos. Passam a caber nela não apenas grupos que reivindicam tratamento igualitário como também grupos que querem ser reconhecidos por sua diferença. Em conseqüência disso, surge também uma redefinição da noção de direitos, como já dito, em que importa tanto ter direitos garantidos, como ter direito a ter direitos. Visto desse ângulo, não basta garantir acesso àquilo que a lei garante, mas o esforço de agendar novas demandas que surgem de lutas específicas.
Além disso, a nova cidadania requer sujeitos ativos que definem o que consideram ser um direito e que lutam por sua realização, gerando um aprendizado social, alterando as relações sociais e politizando o cotidiano. Os sujeitos não apenas passam a lutar por novos direitos como também querem participar das próprias reformulações do sistema e da elaboração de mecanismos que alteram as estruturas de poder, tais como os conselhos, orçamentos participativos, dentre outros. Essa seria a terceira redefinição apontada por Dagnino (2000), que diz respeito ao surgimento de uma nova institucionalidade. Os movimentos sociais não buscam tomar o lugar do Estado ou recusá-lo, mas estar presentes na elaboração de novas formas de participação.
Essas redefinições, segundo Alvarez, Dagnino e Escobar (2000), expressam não somente uma estratégia política dos movimentos, mas também uma política cultural.25 Em outras palavras, entende-se que a cultura – concebida como concepção de mundo, como conjunto de significados que integram práticas sociais – é parte constitutiva da política, uma vez que a incessante produção de significados que molda a experiência social e configura as relações sociais interfere diretamente no terreno do político. Essa política cultural é um
25 Alvarez, Dagnino e Escobar (2000), ao mesmo tempo que reconhecem uma dívida da política cultural com os Estudos Culturais, tecem uma severa crítica à concepção de política defendida por esses estudos. Os autores acreditam que o mérito de incorporar as questões culturais às questões políticas é, em grande parte, dos Estudos Culturais. Por outro lado, apontam que os estudos culturais ainda dão pouca importância aos movimentos sociais e se limitam a examinar as lutas em torno de significados e representações, extraídas, em geral, de análises textuais. Mesmo que se preocupem com as relações de poder e com a transformação social, ainda não deixam claro o vínculo direto entre as representações sociais e o poder.
processo diretamente relacionado às práticas cotidianas, onde grupos minoritários, marginalizados ou opositores lutam por reconhecimento. Os movimentos sociais, dessa forma, reúnem sujeitos ativos politicamente, empenhados não só em apontar soluções para problemas de exclusão política e social, como também em denunciar a existência do próprio problema. Possuem a função de “traduzir as experiências do particular para o geral, do institucional para o civil e vice-versa” (ALEXANDER, 1998, p. 25).
Não há dúvidas de que o Movimento Surdo promova essa tradução e faça parte dessas redefinições. A organização do movimento social dos surdos não apenas assinala a existência do problema, como também aponta resposta para a questão do preconceito e das injustiças simbólicas. O movimento torna evidentes questões que dizem respeito não apenas ao grupo daqueles que nasceram surdos, mas a toda a sociedade: aos casais que têm ou que podem vir a ter filhos surdos, aos professores que lidam com essas crianças, ao balconista da loja ou caixa de supermercado que vende para esse público, ao médico que os atende e a um sem-número de outras pessoas que transitam todos os dias pelos mesmos espaços que os surdos. É uma luta tanto pelo reconhecimento simbólico em sociedade, quanto pelo reconhecimento institucional. Conforme veremos no Capítulo dois, na discussão sobre a luta por reconhecimento, ambos os tipos de reconhecimento caminham juntos e se influenciam mutuamente.
Ademais, mesmo que de modo insuficiente, a própria noção de surdez e de deficiência vem sendo modificada ao longo do tempo. Antes, os surdos não eram sequer considerados cidadãos. Em alguns países eram dispensados de votar. Hoje já encontram representatividade, participam de questões públicas e interferem nelas, possuem suas demandas organizadas e buscam ampliar os seus direitos. Sem tais transformações simbólicas, dificilmente conquistas seriam alcançadas. Assim, ao mesmo tempo que luta por transformações simbólicas, o Movimento Surdo também se apropria de algumas das redefinições já alcançadas na esfera política, tais como a idéia de cidadania e de direitos. Apenas a partir dessas redefinições é que foi possível dar “voz” às suas demandas.
Importante dizer também que todas as ações do movimento se guiam por uma idéia de conexão entre política e cultura. Suas ações políticas estão constantemente permeadas pela cotidianidade, refletida na cultura surda. Lutam por um reconhecimento que ultrapasse as fronteiras do direito e que quebre paradigmas arraigados de normalidade.
Por outro lado, assim como outras coletividades, o movimento social dos surdos é extremamente complexo e heterogêneo. Como dito, uma variedade de atores sociais faz parte dele. Em geral, os movimentos sociais, dada a sua complexidade, funcionam na forma de redes heterogêneas submersas de grupos, pontos de encontro e circuitos de solidariedade que
diferem da imagem do ator político organizado (SHERER-WARREN, 1993; MELUCCI, 1996; ALVAREZ et al., 2000). Os laços que ligam seus participantes são das mais diferentes naturezas: profissionais, identitários, assistencialistas, simpatizantes, dentre outros. “Estas relações se tornam explícitas somente em ocasião de mobilizações coletivas e de saídas em torno das quais a rede latente ascende à superfície, para então mergulhar novamente no tecido cotidiano. A agregação tem caráter cultural e se situa no terreno da produção simbólica na vida cotidiana” (MELUCCI, 1996, tradução nossa). Esse momento de latência, segundo Melucci (1996), é o período em que os movimentos agem no cotidiano e de maneira pouco organizada, mas é aí que surgem experiências com novos modelos culturais, criando novos códigos. Em oposição aos momentos de latência, destacam-se os períodos de visibilidade – que são, por sua vez, alimentados por aquele primeiro período. Nesse segundo momento, a visibilidade deflagra uma imagem mais concreta de um movimento social e reforça as redes submersas, fornecendo-lhes energia para atrair novos militantes.
Em forma de rede, as ações dos movimentos sociais se espalham no tecido social de maneira capilar e de difícil mensuração. Não sem motivo, alguns autores apontam o conceito de movimentos sociais como pouco concreto e de difícil apreensão empírica. Para os propósitos de nossa pesquisa, a partir desse ponto trataremos mais especificamente das associações dos surdos do que propriamente do movimento. Sem desconsiderar a relevância das ações dessa ampla rede, entendemos que o cerne desse movimento está nas associações. Diferentemente dos outros grupos que compõe esse movimento, as associações geralmente possuem duas finalidades bem definidas: lutar pelos direitos dos surdos enquanto portadores de cultura e de uma identidade coletiva permeada pela língua de sinais e oferecer um espaço para a vivência dessa cultura. Já outros grupos, embora se empenhem em lutar por algumas dessas questões, possuem outras finalidades relacionadas à educação, religião, dentre outras questões. Outros dois fatores nos fazem acreditar nessa centralidade associativa: o valor histórico – conforme já descrito – e a observação rotineira que fazemos dessas associações e do percurso contemporâneo de suas demandas. Além disso, o nosso material de análise envolve textos produzidos e veiculados pela Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos). Logo, entendemos que é preciso discutir especificamente o significado dessas associações na luta por reconhecimento.