• Sonuç bulunamadı

Eğitim programının sistemsel ögeleri

ARAŞTIRMANIN KURAMSAL ÇERÇEVESİ

2.2. Eğitim programının sistemsel ögeleri

O carro-chefe da política para a educação de pessoas adultas no governo New- ton Lima Neto foi o “Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos de São Carlos” (MOVA - São Carlos), lançado pelo Prefeito durante a I Conferência Municipal de Educação, em dezembro de 2001. O programa tinha como objetivo combater o elevado índice de analfa- betismo no município, situação contraditória ostentada pela “Capital da Tecnologia”. Segundo o Mapa do Analfabetismo no Brasil (BRASIL, 2003b), publicado pelo INEP com dados relativos ao ano 2000, São Carlos possuía 22.933 analfabetos funcionais (pessoas com menos de quatro anos de estudo), o que correspondia a uma taxa de 15,6% da população. No Estado de São Paulo, a taxa de analfabetismo funcional chegava a 18,5%.

O projeto de lei que instituiu o MOVA - São Carlos foi votado em regime de urgência pela Câmara Municipal em março de 2002, após ter sua votação adiada uma vez sob a alegação de alguns vereadores de falta de tempo hábil para discussão do projeto. O fato é que algumas características do programa causaram polêmica, tais como o seu caráter de mo- vimento e a utilização de educadores voluntários. Na condição de professora ligada ao Sindi- cato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), a vereadora Juli- eta Lui (PT) argumentou que “O Mova desregulamenta a profissão dos professores” (MOVA servirá..., 2002, p. A7), uma vez que lança mão de educadores bolsistas. Por essa razão, ela apresentou uma emenda ao projeto propondo que os educadores tivessem diploma de magisté- rio ou equivalente, e que fossem contratados pelo município. Outro vereador, Idelso Marques de Souza Paraná (PDT), propôs ainda caráter continuado e permanente ao MOVA. Essas e- mendas foram rejeitadas sob a alegação de que descaracterizariam o programa.

De fato, o MOVA - São Carlos foi inicialmente pensado como um movimento de caráter temporário visando recuperar um atraso educacional, com características semelhan- tes ao que já foi realizado pelo PT em outras cidades. Para isso, o Poder Público busca o enga- jamento da sociedade civil, estabelecendo convênios com entidades e associações que indi- cam educadores voluntários e/ou cedem espaços e oferecem materiais básicos para a monta- gem de uma sala de alfabetização.

Durante a sessão da Câmara Municipal em que o projeto de lei foi aprovado, essas características do programa foram criticadas pelo vereador Paraná. Este afirmou que “o

Município pretende, com este projeto, terceirizar a educação com caráter de mobilização soci- al, sem de fato assumir o compromisso com a educação e com os educadores” (SÃO CARLOS, 2002a). A crítica do vereador faz sentido se considerada dentro do contexto de reforma do Estado que o país vivenciou ao longo da década de 1990, a qual impôs limitações reais ao investimento nas políticas sociais. Isso se manifestou de forma especialmente grave na educação de jovens e adultos, uma vez que, na lei que regulamentou o FUNDEF, o presi- dente Fernando Henrique Cardoso vetou o inciso que mandava considerar também as matrícu- las do ensino fundamental nos cursos de EJA para a distribuição dos recursos do Fundo (ARELARO; KRUPPA, 2007). Desse modo, sem desconsiderar os resultados positivos no combate ao analfabetismo que o MOVA tem obtido em diversos municípios do país, cabe a pergunta se, na prática, esse movimento, baseado em parcerias do Estado com a sociedade civil e no trabalho voluntário, não seria uma forma barateada de permitir o acesso à educação para populações historicamente marginalizadas.

Apesar da polêmica, a Lei n° 12.968, que instituiu o programa MOVA - São Carlos, foi aprovada pela Câmara Municipal, autorizando a SMEC a celebrar convênios com entidades, sociedades, associações e instituições regularmente constituídas, e prevendo a con- cessão de auxílios e subvenções por sala de alfabetização criada.

Tais convênios visariam a “ação conjunta para atender jovens e adultos que não completaram a 4ª (quarta) série do Ensino Fundamental, nas diferentes faixas etárias a partir dos 14 (quatorze) anos de idade, que residam ou trabalhem em São Carlos” (SÃO CARLOS, 2002c, Art. 2°). Observe-se que a idade mínima prevista para a entrada no programa corres- ponde à idade em que o jovem deveria estar concluindo o ensino fundamental, o que indica a possibilidade de ainda não estar sendo cumprida a escolaridade obrigatória de oito anos, insti- tuída desde 1971.

O Decreto n° 057, de maio de 2002, que regulamentou a lei, indicou os objeti- vos do MOVA - São Carlos:

I. Desenvolver ações concretas que visem a erradicação do analfabetismo no Muni- cípio de São Carlos, através de convênios com entidades, associações, sociedades e instituições que manifestem interesse e estejam regularmente constituídas;

II. Atender a população de jovens e adultos que residam ou trabalhem no Município de São Carlos, os quais não tenham completado o Ensino Fundamental (1ª a 4ª sé- rie), com idade mínima de 14 anos, e,

III. Elevar a escolaridade da população referida no inciso II, buscando o seu encami- nhamento para a continuidade dos estudos nas redes estadual ou municipal de ensi- no, assegurando o direito à Educação (SÃO CARLOS, 2002b, Art. 1°).

A lei já determinava que o programa se realizaria com pessoal voluntário, que poderia receber bolsa-auxílio. O decreto estipulou o valor dessa bolsa em “R$ 200,00 (duzen- tos reais) por mês, para fins de despesas com locomoção, alimentação e despesas eventuais de aquisição de material pedagógico e educacional necessário à sua formação” (SÃO CARLOS, 2002b, Art. 8°).

Os legisladores também se preocuparam em exigir dos voluntários uma capaci- tação mínima para o trabalho com alfabetização de adultos. Por isso, determinaram que os educadores atendessem a um dos seguintes requisitos:

I. Ter concluído ou estar cursando os dois últimos anos do curso de Magisté- rio/Normal;

II. Ter curso superior – Modalidade Licenciatura Plena;

III. Ter ou estar cursando Pedagogia ou Curso Normal Superior (SÃO CARLOS, 2002b, Art. 9°).

Além da capacitação inicial dos educadores voluntários promovida pela SMEC, ficou prevista uma formação permanente, realizada em reuniões pedagógicas sema- nais. Também foi estabelecido que as classes de alfabetização teriam entre dez e vinte alunos, funcionando de segunda à quinta-feira, por duas horas diárias, nos períodos da manhã, tarde e noite, dependendo da demanda e existência de educadores.

O decreto criou, ainda, o “Fórum dos Movimentos Populares de Alfabetização de Jovens e Adultos de São Carlos”, que deveria discutir e estabelecer as diretrizes do movi- mento.

Com o MOVA - São Carlos, a expectativa era atingir pessoas que, sozinhas, não procurariam as salas de EJA da rede regular de ensino. Na visão da Secretaria, “na medi- da em que o Mova incentiva estas pessoas a voltarem a estudar, a tendência é de um aumento na educação de jovens e adultos” (PROGRAMA aguarda..., 2002, p. A5). Além disso, acredi-

tava-se que o formato do programa (aulas com duas horas de duração, em quatro dias da se- mana) seria um grande facilitador.

A formação inicial dos educadores voluntários ocorreu em maio de 2002, e no mês seguinte cerca de 60 salas de alfabetização começaram a funcionar. No entanto, para Marina Palhares, naquele momento não bastava “apenas oferecer vagas às pessoas que encon- tram-se fora da escola, precisamos buscá-las em seus lares, incentivando-as para voltar a esco- la. Esse é o papel de todos os educadores que atuarão no Mova” (SECRETARIA de Educação lança..., 2002, p. A7).

A conquista do Governo Federal por Luis Inácio Lula da Silva (PT) nas elei- ções de 2002 trouxe, na área da educação de jovens e adultos, o programa “Brasil Alfabetiza- do”. Em sintonia com o governo de seu partido, o Prefeito Newton Lima Neto assinou, em junho de 2003, um convênio para o funcionamento daquele programa em São Carlos. A SMEC viu-se, então, diante do desafio de conciliar dois programas de alfabetização de jovens e adultos no município.

O “Brasil Alfabetizado” previa classes de, no mínimo, 15 e, no máximo, 20 a- lunos, sendo que os educadores, também voluntários, receberiam uma bolsa-auxílio mensal de R$ 15,00 (quinze reais) por aluno.

O curso de capacitação para esses educadores – alunos da USP, da UFSCar, dos cursos de Magistério do CEFAM e do Instituto de Educação “Dr. Álvaro Guião”, e pro- fessores formados em licenciatura – teve início em julho de 2003, sob a coordenação de pro- fissionais da SMEC e de professores da UFSCar. Inicialmente foram abertas 35 salas do “Brasil Alfabetizado”, as quais, assim como as salas do MOVA, começaram a funcionar em centros comunitários, igrejas e escolas que ainda não possuíam salas de alfabetização.

Em novembro desse mesmo ano foi realizado o I Congresso Regional de Edu- cação de Pessoas Adultas, fruto de uma parceria entre a UFSCar e a SMEC. Essa parceria também deu origem ao projeto “Alfabetização de Jovens e Adultos e Inclusão Digital” que, ao longo de 2004, ofereceu acesso à informática a cerca de 600 educandos das salas de alfabeti- zação do município (SÃO CARLOS, 2004e, p. 29).

Segundo dados da Prefeitura Municipal (SÃO CARLOS, 2004e, p. 29), em 2004 havia em São Carlos 41 salas do MOVA e 20 salas do “Brasil Alfabetizado”. Os dois

programas de alfabetização de pessoas jovens a adultas continuam em funcionamento no mu- nicípio.

No entanto, também houve investimentos da Prefeitura nos cursos oficiais de EJA da rede municipal. Em 2001, a SMEC abriu mais 4 salas de suplência, visando a amplia- ção do atendimento. Essas salas funcionavam em diferentes regiões da cidade, tanto em E- MEBs e EMEIs quanto em igrejas, visando melhor atender a população.

Para fortalecer a política de educação de jovens e adultos no município, a SMEC ofereceu, ainda em 2001, um curso de capacitação exclusivamente para educadores dessa modalidade de ensino. O “Encontro de Formação de Educadores de Jovens e Adultos”, baseado no referencial teórico de Paulo Freire, tinha como objetivo propiciar aos docentes um espaço de reflexão sobre seu trabalho em sala de aula. Também foi aberto concurso específico para professores dessa modalidade de ensino.

Uma estratégia para ampliar o atendimento em EJA foi a parceria entre a Pre- feitura, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e o Sindicato das Empresas de Vigi- lância e Segurança do Estado de São Paulo (SEVESP), por meio da qual foi aberta, em feve- reiro de 2002, uma sala de suplência I na EMEB “Antônio Stella Moruzzi”. Na época, o pre- feito Newton Lima Neto declarou sua intenção de estimular parcerias do Poder Público com diversos segmentos da sociedade (empresas, escolas, instituições, ONGs, sindicatos etc.) a fim de ampliar os programas sociais. Para ele, o objetivo principal desse convênio era “ampli- ar a participação da sociedade na tarefa de corrigir uma enorme injustiça que foi cometida (...) contra milhões de brasileiros das camadas mais populares, mais pobres, que não tiveram a oportunidade de estar nos bancos escolares” (NEWTON Lima ministra..., 2002, p. A3). As- sim, o Prefeito petista parecia afinado com as teses neoliberais que pregam a transferência das responsabilidades do Estado na garantia dos direitos sociais para a sociedade civil.

Na Tabela 16 é possível observar a evolução das matrículas de EJA na rede municipal de ensino, ao longo da gestão de Newton Lima Neto. Os números se referem ape- nas aos cursos oficiais, não estando incluídos os alunos dos programas MOVA e “Brasil Al- fabetizado”.

TABELA 16. MATRÍCULA INICIAL NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NA REDE MUNICIPAL. MUNICÍPIO DE SÃO CARLOS, 2001, 2002, 2003, 2004.

2001 2002 2003 2004 1.478 1.192 1.253 1.405 FONTE: Censo Escolar MEC/INEP (BRASIL, 2007).

Entre os anos de 2001 e 2004, nota-se uma ligeira diminuição das matrículas nessa modalidade de ensino. Registra-se uma queda mais acentuada em 2002, com recupera- ção nos dois anos seguintes. Pelos números, pode-se deduzir que a expectativa da SMEC de ver a demanda por EJA ampliada em virtude dos programas de alfabetização acabou não se realizando de forma tão direta, pelo menos nesse momento inicial.

Benzer Belgeler