Não obtive resultados significativos sobre valores médios de P, ou seja, não há diferença nos teores de fósforo entre os usos do solo, tanto na camada superficial de 00-20 cm, quanto na camada subsuperficial de 20-40 cm, conforme apresentados na Tabela 4. Por outro lado, o teor de P é significativamente diferente entre as profundidades estudadas, utilizando o teste de Kruskal-Wallis (p-valor = 2.161e-06). As variações apresentadas podem ser visualizadas pela Figura 25.
Figura 25 - Teor de fósforo (mg/dm3) por uso do solo, considerando as profundidades de 00-20 e 20- 40 cm
Em consonância com o resultado deste estudo, Buschbacher, Uhl e Serrão (1988) encontraram que, na profundidade de 00-15 cm, o teor de fósforo da pastagem abandonada é semelhante ao teor da floresta. Em sua pesquisa, os teores de P variaram de 5,5 a 7,5 mg/dm3, em profundidade de 00-50 cm, e eles concluíram que pastagem abandonada com histórico de uso intenso possivelmente provoca empobrecimento significativo deste nutriente. Apesar de não haver diferença significativa entre os usos do solo, os teores médios encontrados neste presente estudo indicam a possibilidade de que, ao longo do tempo, estes podem estar proporcionando uma perda sutil de P no solo.
Quesada et al. (2009) estudaram a relação da estrutura e dinâmica florestal e as variações de fertilidade do solo, em gradiente Leste-Oeste da floresta amazônica.
Eles propuseram que o crescimento das árvores está relacionado principalmente com o fósforo disponível no solo. Tal relato é importante quando se pensa em recuperação de áreas degradadas com SAF-cacau, uma vez que, segundo Isaac e Kimaro (2011), o teor fósforo, nutriente mais limitante em SAF-cacau, sofre significativo declínio na medida em que a biomassa do cacau e das árvores de sombra aumenta.
Nesse sentido, a revisão bibliográfica de Hartemink (2005), sobre estoque e ciclagem de nutrientes em plantações de cacau, em profundidade de 00-30 cm, mostra que geralmente o acúmulo de P é relativamente baixo em agroecossistemas com cacau, e que no Brasil (Bahia) pode-se encontrar cerca de 6 mg/dm3 nessa camada. Segundo Chepote et al. (2012), o nível crítico de fósforo para a cultura do cacau seria de 5 mg/dm3 e o recomendável de 8 mg/dm3. Sabendo que o fósforo é um elemento fundamental para divisão celular e fotossíntese (CHEPOTE et al., 2012), o teor de P (extratível) encontra-se inadequado para a cacauicultura nos solos estudados em da região de São Félix do Xingu, e que a recuperação de área degradadas com SAF-cacau deve ser planejada para aumentar a disponibilidade deste nutriente.
Potássio (K)
Considerando a profundidade de 00-20 cm, os usos do solo possuem diferenças significativas de K entre si (p-valor = 0,039). No entanto, como os dados desta variável não apresentaram distribuição normal, ao aplicar o teste de Wilcoxon e Kolmogorov-Smirnov para os usos do solo dois a dois, nenhum dos resultados foi significativo. Dessa maneira, não foi possível encontrar evidências estatísticas que especificassem quais usos do solo seriam diferentes entre si. Para auxiliar a interpretação, apresento os gráficos de caixas na Figura 26, onde é possível observar a diferenciação de K mencionada, principalmente, entre o Pasto e o SAF- Cacau A.
Figura 26 - Variação do teor de potássio (K) na cadamada 00-20 cm de profundidade, para cada uso do solo
Igualmente analisei os dados de K à 20-40 cm de profundidade, para os quais o teste de Tukey indicou diferenças significativas entre os usos do solo: Pasto e SAF-Cacau A (p-valor = 0,028) e Pasto e SAF-Cacau SI (p-valor = 0,043). Ou seja, há evidências de que o Pasto tenha teor de K maior do SAF-Cacau SI e A. Ao realizar o teste de Kruskal-Wallis (p-valor = 0,473), constatei que não existem evidências de que o teor de K seja significativamente diferente entre as profundidades estudadas. As variações apresentadas podem ser visualizadas pela Figura 28.
Figura 27 - Teor de potássio (K, mmolc/dm3) por uso do solo, considerando as profundidades de 00- 20 e 20-40 cm
Magalhães et al. (2013), em Rondônia, averiguaram que o estoque de nutrientes possui diferença entre os usos do solo (agroflorestal, silvipastoril, silvicultural, pastagem) e deles com a floresta, sob profundidade de 00-30 cm, encontrando também que o nutriente K foi o menos estocado em todos usos do solo, com variação de 0,2 a 0,6 mmolc/dm3. Buschbacher, Uhl e Serrão (1988)
encontraram teores de K variando de 1,3 a 2,6 mmolc/dm3, em profundidade de 00-
50 cm, e concluiu que pastagem de uso moderado provoca empobrecimento significativo deste nutriente. Em contradição a essas conclusões, encontrei que o Pasto é o uso do solo com maior teor de K - talvez em função do recente desmatamento ou queimadas para reforma da pastagem (GUARIGUATA; OSTERTAG, 2001) - e que nenhum dos usos do solo diferenciam-se significativamente da Floresta. Tratando-se de RAD em áreas de pastagem, esta pode ser uma valiosa informação, até porque, em estudo na Amazônia central, Laurance et al. (1999) apontaram uma correlação positiva entre K, em profundidade de 00-20 cm, e a biomassa florestal a cima do solo.
Pensando no uso do SAF-Cacau para recuperar essas pastagens, é importante lembrar que o potássio é o nutriente que mais se acumula nos tecidos do cacau maduro (HARTEMINK, 2005; CHEPOTE et al., 2012). Segundo Hartemink (2005), normalmente há deficiência deste nutriente em plantações de cacau e seus estoques no solo variam de 1,3 a 5,7 mmolc/dm3. Chepote et al., (2012) dizem que o
teor adequado de K varia de 1 a 4 mmolc/dm3. Sabendo que o potássio possui
participação em todos os processos metabólicos, colaborando para reduzir a perda de água na planta (CHEPOTE et al., 2012), considero que os solos estudados possuem, no geral, teor de K adequado para os SAF-cacau. Apenas destaco que as médias do SAF-Cacau SS e principalmente do Pasto estão acima do nível indicado.
Cálcio (Ca)
Os valores médios de Ca não foram significativos, ou seja, não há diferença nos teores de cálcio entre os usos do solo, tanto na camada de profundidade superficial de 00-20 cm, quanto na camada de profundidade subsuperficial de 20-40 cm, conforme apresentados na Tabela 4. Entre as duas camadas de profundidade estudadas, ao realizar o teste de hipóteses, teste de t (p-valor = 0,001), pude constatar evidências de que o teor de Ca apresentou-se significativamente diferente. As variações apresentadas podem ser visualizadas pela Figura 28.
Figura 28 - Teor de cálcio (mmolc/dm3) por uso do solo, considerando as profundidades de 00-20 e 20-40 cm
Magalhães et al. (2013), em Rondônia, averiguaram que o estoque de nutrientes possui diferença entre os usos do solo (agroflorestal, silvipastoril, silvicultural e pastagem) e deles com a floresta, sob profundidade de 00-30 cm, sendo que o nutriente Ca é o mais estocado em todos usos do solo, variando de 36,3 a 64,7 mmolc/dm3. Para Buschbacher, Uhl e Serrao (1988), os teores de Ca
variaram de 12,5 a 25 mmolc/dm3, em profundidade de 00-50 cm, e eles concluíram
que pastagem de uso intenso possivelmente provoca empobrecimento significativo deste nutriente.
Nesse sentido, não constatei esse efeito ao comparar Floresta e Pasto e, portanto, o teor de Ca manteve-se estocado nos diferentes usos do solo, comparativamente entre si e tendo a Floresta como referência. Ou seja, não houve perda significativa deste nutriente. Apesar dos teores cálcio não necessitarem de recuperação, em geral, em projetos de RAD com SAF-cacau é fundamental considerar que este nutriente é essencial para o crescimento radicular, e Chepote et al. (2012) indica teores de Ca maiores do que 30 mmolc/dm3 para o cultivo adequado
do cacau. Sendo assim, observo que os solos estudados apresentam teores de Ca adequados na camada superficial, mas deficiência na camada subsuperficial.
Magnésio (Mg)
Para os valores médios de Mg não obtive resultados significativos, ou seja, não há diferença nos teores de magnésio entre os usos do solo, tanto na camada de profundidade superficial de 00-20 cm, quanto na camada de profundidade subsuperficial de 20-40 cm, conforme apresentados na Tabela 4. Entre as duas camadas de profundidade estudadas, ao realizar o teste de hipóteses, teste de t (p- valor = 0,057), não houve evidências de que o teor de Mg seja significativamente diferente. As variações apresentadas podem ser visualizadas pela Figura 29.
Figura 29 - Teor de magnésio (mmolc/dm3) por uso do solo, considerando as profundidades de 00-20 e 20-40 cm
Em áreas de pastagem abandonada (3 a 8 anos), Buschbacher, Uhl e Serrão (1988) obtiveram teores similares de Mg variando de 5,5 a 7,2 mmolc/dm3, em
profundidade de 00-50 cm. Ao comparar com floresta madura, eles concluíram que o uso intenso de pastagens provoca o empobrecimento deste nutriente. Porém, tal empobrecimento não foi constatado nas áreas estudadas de São Félix do Xingu.
Em estudo na Amazônia central, Laurance et al. (1999) apontaram uma correlação positiva entre a base trocável de Mg, em profundidade de 00-20 cm, e a biomassa florestal a cima do solo. Sabendo que o Mg é indispensável no processo fotossintético e outras atividades metabólicas, Chepote et al. (2012) indica o teor igual ou maior do que 10 mmolc/dm3 para o desenvolvimento adequado do cacau.
Sendo assim, apesar do Mg não expressar necessidade significativa de reposição (quando comparado à floresta) para fins de RAD com SAF-cacau, considero que os solos estudados, no geral, possuem deficiência deste nutriente.
3.3.1.5 Micronutrientes