4.2. Ailenin Sosyo-Ekonomik ve Demografik Özellikleri
4.2.2. Eğitim
Depois de vistos os dois primeiros investimentos posicionais, constata-se que considerar que todo enunciado implica um gênero textual e uma cenografia não é suficiente, pois todos os textos, falados ou escritos, procedem de um enunciador encarnado, cuja voz dá sustentação ao enunciado. Ou seja, para se posicionar, é preciso mostrar ser legítimo; legitimidade essa que será construída pelo e no texto por meio de um gênero, de uma cenografia, bem como de um ethos, aspecto que corresponde ao terceiro tipo de investimento posicional.
Esse tipo de fenômeno, da forma como é abordada por Maingueneau (2001 [1993], p. 137), é um desdobramento do conceito de ethos proveniente da retórica tradicional. O conceito de ethos surge na Retórica Clássica (Na “Trilogia dos meios de prova” em Aristóteles) como a imagem, derivada de seu caráter, que um orador transmite de si mesmo, através de seu modo de falar, para exercer uma influência persuasiva sobre seu destinatário. A noção designa ao mesmo tempo as virtudes morais (prudência, virtude, benevolência) que dão credibilidade ao orador, como comporta uma dimensão social (o orador convence ao se exprimir de modo condizente com seu caráter e tipo social). Trata-se da imagem de si que o orador produz em seu discurso e não da referente à sua pessoa real. O filósofo grego afirmava que se persuade
pelo carácter quando o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé. Pois acreditamos mais e bem mais depressa em pessoas honestas, em todas as coisas em geral, mas sobretudo nas de que não há conhecimento exacto e que deixam margem para dúvida. É, porém, necessário que esta confiança seja resultado do discurso e não de uma opinião prévia sobre o carácter do orador. (ARISTÓTELES, 1998 [IV a.C.], p. 49)
Na esteira de Aristóteles, mas dentro da perspectiva da Pragmática, de acordo com Oswald Ducrot, no estudo do ethos é o locutor que importa, o personagem que fala e não o sujeito empírico que se situa fora da enunciação. Assim, no instante mesmo da enunciação, o locutor “se vê travestido de certos caracteres que tornam essa enunciação aceitável ou indesejável”. Portanto, é preciso destacar que, nesse caso, o ethos não teria relação com “as
afirmações elogiosas que o orador pode fazer sobre sua própria pessoa”, mas, ao contrário, com “a aparência que lhe conferem o ritmo, a entonação, calorosa ou severa, a escolha das palavras, dos argumentos” (DUCROT, 1984, p. 201).
Na tese, aplico especificamente a noção de ethos reformulada por Maingueneau, na Análise do Discurso de procedência francesa, que afirma que todo e qualquer discurso, seja oral ou escrito, pressupõe um ethos. A partir desse postulado, Maingueneau investiga o ethos de forma a ultrapassar outras perspectivas enfocadas no oral, como na retórica antiga, estudando também sua incidência em textos escritos. Assim, segundo defende o teórico, todo texto, seja qual for seu modo de inscrição material, é sustentado por uma voz, um tom que dá autoridade ao que é dito, e é por meio desse tom que o coenunciador construirá uma representação do corpo e da personalidade do enunciador, o qual representa o papel de
fiador do que é dito, que a exemplo da Retórica grega e da Pragmática, não pode ser
confundido com o corpo e com a personalidade do autor efetivo. Maingueneau esclarece que o termo “tom” traz algumas vantagens, pois abrange tanto a modalidade escrita quanto a modalidade oral. No campo específico do discurso verbomusical ou de uma vocalidade geral, o “tom” não deve ser confundido, na acepção de Maingueneau, evidentemente, com as diferentes tonalidades, graves ou agudas, das vozes, faladas ou cantadas. Entretanto, a noção de “tom” na Análise do Discurso abrangeria todas essas diversas tonalidades especificamente vocais.
Segundo Maingueneau, a um enunciador encarnado, que assume a responsabilidade pelo discurso, são atribuídos um caráter, que corresponde a uma gama de traços psicológicos (jovial, severo, simpático), e uma corporalidade, que corresponde a um conjunto de traços físicos e indumentários, a uma compleição corporal, a uma maneira de se comportar no espaço social. O caráter e a corporalidade do enunciador são originários de variados
estereótipos culturais, ou seja, provêm de um conjunto de representações sociais valorizadas
ou desvalorizadas na sociedade que circulam em setores como a Literatura, a Música, o Jornalismo, a Moda etc. Esses modelos cristalizados de agir são apreendidos pelo destinatário de um texto/discurso tanto por meio de indícios textuais ou do enunciado, como pelas modalidades da enunciação, bem como pelas posturas, pelo estilo verbal etc. Mas de forma geral, a apreensão do ethos é feita em maior ou menor grau de acordo com o universo cultural do leitor, ouvinte etc.
Uma diferença fundamental entre a perspectiva da Análise do Discurso orientada por Maingueneau – explicitada pelo próprio autor – e a Retórica tradicional é a de que, na primeira, o ethos não pode ser visto somente como “meio de persuasão”, como na Retórica de
Aristóteles (no sentido restrito do termo utilizado pelo teórico francês, mas não na perspectiva adotada neste trabalho que considera que todo discurso é persuasivo, usando o termo “persuasão” em uma concepção ampla). Assim, Maingueneau enfatiza que o fenômeno do
ethos faz parte da dimensão constitutiva de todo discurso, pois o locutor nunca poderá se
comunicar com seus interlocutores sem estar baseado em estereótipos, isto é, em representações coletivas cristalizadas, em imagens pré-concebidas e partilhadas entre os membros de uma sociedade. No que se refere propriamente à minha análise das canções de Belchior, assim como foi empreendido no trabalho de dissertação, atentarei de forma especial a esses modelos pré-estabelecidos a que recorre Belchior, investigando os estereótipos comuns e polêmicos com a produção de outros cancionistas.
Assumindo que o “ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro” (MAINGUENEAU, 2006b, p. 60), Maingueneau aborda também a importância da incorporação na constituição do ethos, a qual designa a ação do ethos desenvolvida sobre o coenunciador. Para o pesquisador, a incorporação opera em três registros indissociáveis, que são eles:
a) A enunciação leva o coenunciador a conferir um ethos ao seu fiador, ela lhe dá
corpo;
b) O coenunciador incorpora, assimila, desse modo um conjunto de esquemas que definem para um dado sujeito, pela maneira de controlar seu corpo, de habitá-lo, uma forma específica de se inscrever no mundo;
c) Essas duas primeiras incorporações permitem a constituição de um corpo, o da comunidade imaginária dos que comungam na adesão a um mesmo discurso (MAINGUENEAU, 2002, p. 99 e 100; 2005a, p. 72 e 73).
O que Maingueneau classifica sob a designação incorporação engloba, na verdade, o movimento mais geral de como os sujeitos aderem a certo posicionamento e é esse o foco dado a esse conceito nesta pesquisa, na medida em que minha preocupação é investigar como os ouvintes entram em adesão com os os cancionistas da música brasileira, a partir das relações polêmicas instituídas por eles.
Indo no mesmo caminho de Maingueneau, ao refletir sobre o lugar da argumentação na análise do discurso e mais especificamente sobre o “impacto de um dado discurso”, Ruth Amossy afirma que o principal não é analisar por quais processos de linguagem o discurso age sobre o auditório. Por outro lado,
o que mais importa é saber qual é a situação do orador e a legitimidade institucional conferida à sua fala. Nessa perspectiva, é o ethos que se vê uma vez mais privilegiado à custa do logos. A imagem produzida pelo discurso deve estar em conformidade com aquela que decorre da posição do locutor, e é a posição prévia da qual ele tira a sua legitimidade, e não a força do raciocínio, que confere à linguagem o seu poder. (AMOSSY, 2007, p. 127)
Ao abordar a “imagem” do sujeito que fala, no sentido retórico, Amossy a associa diretamente à posição do sujeito, o que quer dizer que o locutor, desde o primeiro momento de sua enunciação, irá necessariamente produzir índices que serão constituintes e constitutivos de sua identidade ou de seu posicionamento, relação que pode ser resumida na fórmula “Eu sou aquilo que eu falo”, pois a partir do primeiro momento em que se fala, começa-se a se passar imagens ao auditório, que serão incorporadas das mais variadas formas. A reflexão de Amossy acerca da importância da posição do locutor é inteiramente condizente com a de Maingueneau para quem o tom é que torna possível a vocalidade de um discurso, constituindo uma dimensão que compõe a identidade de um posicionamento discursivo (MAINGUENEAU, 2005a, p. 73).
Maingueneau considera também uma distinção entre ethos dito e ethos mostrado (op.
cit., p. 80-83). O primeiro deles é totalmente explicitado no texto, dizendo respeito às
referências diretas ao enunciador, à sua própria identidade (à sua pessoa, à sua maneira de enunciar etc.); mas também podendo “incidir sobre o conjunto de uma cena de fala [validada], apresentada como um modelo ou um antimodelo” (op. cit., p. 80 e 81). Por outro lado, o ethos mostrado, por não ser explícito, só pode ser apreendido pelo leitor através de marcas implícitas das mais diversas e cuja recuperação vai variar de acordo com a cultura do destinatário do texto. Mas sobre a relação entre ethos dito e ethos mostrado, Maingueneau destaca que ela se inscreve “nos extremos de uma linha contínua, já que é impossível definir uma fronteira clara entre o ‘dito’ sugerido e o ‘mostrado’ não explícito” (op. cit., p. 82).
Uma outra distinção dá-se entre ethos discursivo e ethos pré-discursivo. Maingueneau observa que enquanto a primeira noção corresponde à definição de Aristóteles para o ethos, a segunda noção equivale a uma representação estereotipada que já existe antes de a pessoa falar, implicando que “a representação da pessoa do locutor anterior a sua tomada de turno está frequentemente no fundamento da imagem que ele [o locutor] constrói em seu discurso” (MAINGUENEAU, in: MAINGUENEAU; CHARAUDEAU, 2004, p. 221). No campo discursivo verbomusical, como se pressupõe, pela forte influência do discurso metaverbomusical em sua produção, recepção e circulação, a atuação do ethos pré-discursivo é decisiva na constituição do posicionamento dos cancionistas. É exatamente esse ethos que
mobiliza os ouvintes a uma série de práticas, que abrangem o interesse geral do público pelos artistas da música. Certamente, a presença do álbum de um cantor nas listas dos mais vendidos do país e divulgada nos jornais de grande circulação terá consequências imediatas para a identidade do cancionista.
Vistas todas essas particularidades acerca do ethos, Maingueneau deixa claro que o “ethos efetivo, aquele que, pelo discurso, os coenunciadores, em sua diversidade, construirão [de fato], resulta assim da interação entre [essas] diversas instâncias, cujo peso varia segundo os discursos” (MAINGUENEAU, 2005a, p. 82)42, o que inclui ainda a interferência de ethé fluidos, ethé híbridos, compostos ou justapostos (onde há a fusão de ethé etc).
Maingueneau (2006b, p. 21) revela também que a noção de ethos trabalhada por ele respeita a divisão entre dois grupos de gêneros discursivos que se opõem: os gêneros
instituídos e os gêneros conversacionais. No primeiro deles, “os parceiros ocupam papéis preestabelecidos que permanecem estáveis durante o evento comunicativo, e seguem rotinas mais ou menos precisas no desenvolvimento da organização textual”. Por outro lado, no segundo tipo de gêneros, “os lugares dos parceiros são seguidamente negociados, e o desenvolvimento do texto não obedece a restrições macro-estruturais fortes”. Acatando essa distinção, o discurso verbomusical se situaria portanto no grupo de gêneros instituídos, onde o objetivo maior no que diz respeito ao ethos é identificar quais as imagens formadas dos dois lados principais de agentes desse discurso: os artistas e os ouvintes.
Como nos lembra Wisnik (2002, p. 117), “na teoria musical que nos chegou dos gregos, o ethos estaria ligado à melodia musical, embora nada nos impeça de pensar o ritmo como um parâmetro decisivo na definição do caráter de uma música”. Ampliando ainda mais a reflexão de Wisnik, como a canção popular é um gênero sincrético, composto por dimensões fundamentais (a letra e a melodia), mas na interseção com diversas outras instâncias (a visual, por exemplo), pode-se dizer que o ethos pode ser instaurado igualmente nas múltiplas semioses que compõem o gênero: a verbal, a musical, a visual etc. Assim, minha análise do discurso verbomusical brasileiro pretende se voltar para a interação entre esses componentes. Para ilustrar com apenas um exemplo, pode-se pensar nos aspectos da fonologia, prosódia e entonação, outros níveis que envolvem as diferentes evoluções da música e da fala (frase musical e frase verbal). Nesse sentido, é importante analisar como o intérprete interfere nessa variação marcando uma interpretação específica, um posicionamento
42“O ethos de um discurso resulta de uma interação de diversos fatores: ethos pré-discursivo, ethos discursivo (ethos mostrado), mas também os fragmentos do texto nos quais o enunciador evoca sua própria enunciação (ethos dito) – diretamente (...), ou indiretamente, por meio de metáforas ou alusões a outras cenas de fala, por exemplo” (MAINGUENEAU, 2008, p. 18, com destaques do autor).
individual. No caso de Belchior é interessante perceber uma grande interferência do componente linguístico no componente melódico, característica muito marcante no cancioneiro do artista, o que se opõe ao investimento vocal de outros cancionistas; relação
diferente que se configura algumas vezes em relações polêmicas. Dito isso, comprova-se que
a análise do elemento ético de uma canção abrange necessariamente as diversas maneiras de interpretação dos intérpretes.
Ao analisar o posicionamento do cancionista, é preciso enfatizar que, com Foucault (2002 [1969]; 2003 [1971]), considero o sujeito do discurso autor como o princípio de
agrupamento do discurso. No entanto, como veremos no subcapítulo 3.1, o sujeito histórico é
importante, pois ele também é um indicador de uma função enunciativa e é nele que se baseia em última instância a gênese dos discursos, o que não invalida de nenhum modo o entendimento de que o ethos é uma noção discursiva, de que ele se constitui por meio do discurso e não corresponde a uma imagem do locutor exterior à fala (MAINGUENEAU, 2006b, p. 60).
Em síntese, na análise da construção ética do enunciador das canções do corpus analisado na tese, enfoco os seguintes elementos, apoiada em Maingueneau, ao declarar que “o ethos não deve ser isolado de outros parâmetros do discurso, pois contribui de maneira decisiva para sua legitimação” (2000, p. 60):
a) A parte verbal da canção; b) Elementos musicais da canção;
c) Os modos de atuação do intérprete no palco: a interpretação das canções, o vestuário durante os shows etc.;
d) As atitudes dos cancionistas em contextos gerais ligados à prática discursiva verbomusical: em entrevistas e nas apresentações públicas;
e) Os encartes (capa, contracapa e disposição das letras) dos álbuns.