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EĞİTİM TESİSLERİ ile REHABİLİTASYON MERKEZLERİNİN İŞLETİLMESİNDEN ELDE EDİLEN KAZANÇLARA İLİŞKİN İSTİSNA

“Farol, designação inadequada para abrigar quem vive sem uma luz a indicar-lhe o futuro”.

(Blanchar Girão)

A tendência das elites urbanas de Fortaleza de escolherem determinadas áreas para se resguardar das massas urbanas criou cidades diferenciadas dentro da mesma cidade. Esse não era um processo novo. Desde os anos quarenta, novos bairros foram sendo criados com a finalidade de abrigar as classes mais abastadas. No processo de divisão espacial da cidade, foi significativo que a população de baixa renda também construiu seus abrigos em vários pontos. A zona de meretrício do Farol foi um deles.

Diferente do Serviluz, o cenário do Mucuripe, apesar de abrigar um complexo portuário e industrial, foi um franco alvo da especulação imobiliária, que cresceu vertiginosamente à época. A praia não comportava mais somente as funções de carga e descarga e o fluxo marítimo. A natureza foi apropriada pela sociedade de consumo sob a forma de moradia de luxo. Naquela paisagem bucólica, a luz da Avenida Beira Mar indicava que por ali havia passado o progresso. Mais que isso, as luzes vinham dar visibilidade a novos tipos de sociabilidade que floresciam com a energia elétrica. As cenas arcaicas que o cineasta norte-americano Orson Welles captara na enseada do Mucuripe não tinham mais sentido. Nesse meio século de história, as jangadas e os homens do mar praticamente desapareceram da praia e os coqueirais foram substituídos por imensos arranha-céus.

O cenário não comportava, sobretudo, a prostituição que, desde o início das obras portuárias, havia se alojado nos arredores. A transferência da zona de meretrício para os confins da esquina leste da cidade, escondida atrás do porto, indicava que nessa área estigmatizada, devia-se isolar a pobreza e a prostituição. A prostituição exercida em bordéis, nesse caso, configura-se como um tipo especifico de trabalho, diferente, por exemplo, do meretrício praticado na rua.

São poucos os estudos que sistematizam a problemática do surgimento da prostituição em Fortaleza. As cores da noite quase sempre são cobertas pelas imagens sombrias da “podridão”, do mundo profano e da degradação moral dos “corpos sem lei”. A igreja, por exemplo, condena essa prática porque fere a tradição familiar cristã. O sexo, assim, é concebido exclusivamente como meio de reprodução humana, entre a esposa e o marido, e não como um modo de trabalho90.

Espaços localizados, os bordéis foram, ao longo do tempo, alvos de campanhas públicas por parte da vizinhança que exigia, desde a época do Mucuripe, o distanciamento

90 No p

ensamento moralizador ocidental, temas como a não virgindade, condição da prostituta, são condenados, fato que se reflete, inevitavelmente, no trabalho. “Nas leituras da Igreja Católica sobre a prostituição, o que se observa é a ênfase em um paradigma de prostituta como ‘tipo ideal’ para desenvolver o raciocínio baseado no pecado, na impureza, na devassidão, na podridão”. No entanto, “historicamente na nossa sociedade, o cabaré tinha como uma de suas principais funções a iniciação sexual do homem, preservando as ‘moças de família’, que deviam permanecer virgens até o casamento”. Cf.: SOUSA, Francisca Ilnar de. O Cliente: o outro lado da prostituição. São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto, 1998. p.114 e 41.

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ANJOS JÚNIOR, Carlos Silveira Versiani dos. A Serpente domada: um estudo sobre a prostituição de

baixo meretrício. Fortaleza: Ed. UFC, 1983, p. 24. Trata-se de um dos poucos trabalhos acadêmicos que

enfocam o bairro. A pesquisa, no entanto, não é específica sobre a zona do Farol em Fortaleza, mas um estudo comparativo das características dessa com as zonas de baixo meretrício do “Posto Fiscal” em Brasília. O autor realizou a pesquisa de campo entre março e julho de 1980, privilegiando os dias de sexta a domingo devido à maior concentração de mulheres. Utilizou ainda a estratégia de entrevistar as prostitutas em outros dias da semana, sobretudo à tarde, nos quais, devido ao descontraimento das mulheres, era possível investigar melhor o cotidiano dos cabarés.

entre as casas de prostituição e as “famílias de bem”. As preocupações com a regulação da conduta sexual e a discriminação social aumentam quando o trabalho prostituinte é desempenhado numa zona especifica, onde o estigma pode ser geograficamente exercido.

A prostituição, contudo, nem sempre se opõe aos aspectos familiares vigentes; ao contrário, pode inclusive reforçar a estrutura familiar tipo nuclear. Trata-se de uma atividade que agrega, tanto quanto não dispersa, seus agentes. No bairro, as prostitutas eram mulheres que cumpriam muitas vezes um duplo papel, materno e paterno, indo ao cabaré para preservar (leia-se sustentar) boa parte da sua família. Nesse universo, acordos silenciosos podem ser estabelecidos; “há prostitutas e prostitutas”.

Em pesquisa sobre a então nova zona de prostituição do Farol do Mucuripe, Versiani91 colheu 12 (doze) entrevistas, das aproximadamente 400 (quatrocentas) existentes à época, com mulheres do Farol. Segundo o autor, uma das dificuldades da pesquisa de campo era a predisposição negativa das mulheres em narrar suas histórias de vida, pois as prostitutas estavam geralmente saturadas de enquetes do Serviço Social e de entidades filantrópicas. Nesse sentido, além da cautela do pesquisador, o respeito para com as informantes mostrou-se essencial no processo de aproximação das depoentes. O conhecimento do mundo da prostituta, no entanto, dependia não apenas das informações extraídas diretamente das prostitutas, mas envolvia uma gama de informações pertinentes a outros “atores coadjuvantes no drama” que, apesar de pertencentes ao mundo “de fora”, partilhavam o espaço físico do Farol. Isso se deu porque a população do Farol constituiu um “caleidoscópio” de marginalidade urbana, mostrando profunda mistura entre casas de família e casas de prostituição.

De acordo com Anjos Júnior, cerca de 90% das mulheres do Farol eram oriundas do interior do estado ou de estados nordestinos vizinhos. Pelo tipo de profissão que exerciam, muitas mulheres preferiam “ganhar a vida” fora do local de origem. Grande parte ingressava nessa atividade após a experiência da perda da virgindade, antes do casamento, em lugares onde essa prática é mais severamente condenada.

A atração de jovens migrantes e a freqüente renovação do contigente de prostitutas ampliavam-se de acordo com o movimento na zona portuária. A permanência de “estrangeiros” no cais aumentava significativamente o volume de dinheiro na zona e o ganho das prostitutas. Comparando-se a outros serviços braçais, nos quais a remuneração é sempre

irrisória, os ganhos no Farol eram incomparavelmente maiores, sobretudo quando ocorria a ancorada de navios no porto de Fortaleza.

Na instalação dos cabarés do Farol, foi grande a importância das madames (proprietárias ou gerentes dos estabelecimentos) que negociaram diretamente com o prefeito a transferência dos prostíbulos, tornando-se, durante o histórico de fixação, proprietárias das casas. Mantendo importantes vínculos com a prostituta, em geral é a madame que viaja pelo interior recrutando as mulheres para os bordéis; preferem jovens interioranas, consideradas comportadas e fáceis de manipular pela pouca experiência. Além da mão-de-obra feminina, as madames tinham o hábito de empregar homens no bar onde serviam, eventualmente, como seguranças do estabelecimento92. À medida que a área foi ficando violenta, esses homens passaram cada vez a ser contratados na própria localidade.

Em termos de equipamentos urbanos, o Farol era composto de cerca de 70 (setenta) cabarés, que geralmente abrigavam entre quatro e seis mulheres cada. Ali eram oferecidos serviços de bar, espaço dançante e aluguel de quartos93. Além das casas noturnas, nas adjacências, era possível encontrar botecos que vendiam produtos para o consumo interno. No entanto, era ainda mais comum a venda de produtos de casa em casa, onde eram oferecidos alimentos, perfumes, cosméticos e roupas. Como os marítimos pagavam os serviços em dólar, comerciantes e cambistas do local compravam o dinheiro estrangeiro e, aos poucos, o comércio local começou a florescer.

O isolamento do Farol pretendido tanto pelas administrações municipais quanto pelos ricos locais, entretanto, contrastava com a efervecência e a quantidade de visitantes que freqüentavam regularmente o lugar.

“Nessa época os cabarés eram freqüentados só por estrangeiros, americanos, franceses. Tinha boate que só freqüentava americano, brasileiro não tinha vez (...) o Farol era um local que as mulheres tinham status, as mulheres viviam bem, vestidas, bonitas (...) quer dizer, ganhavam dinheiro, muitas aproveitaram, algumas fizeram pé-de-meia, casaram, umas foram morar na Alemanha, algumas ficaram aqui, sabe. Mas o Serviluz os cabarés eram freqüentados exclusivamente por gringos”94.

As cenas descritas pelos moradores escapam aos desígnios almejados pela segregação espacial. Uma variedade de sons, cores e luzes nutria ali múltiplas relações. Tudo indica que as visitações ao Farol não se davam apenas pelo movimento dos cabarés e toda sua boemia, a

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Anjos Júnior afirma que os “gigolôs” no Farol, podiam ser contados cerca de 50 (cinqüenta) na década de 80, serviam como “leões de chácara” ou como protetores e/ou exploradores das meretrizes.

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Ainda segundo Anjos Júnior, os cabarés principais recebiam denominações como Moulin Rouge, Estrela do Mar, Morning Light, A Deusa do Mar, Rastro, Corujão, Sumaré, Brisa Mar, Mocambo da Fafá, Discotec, Boite da Eunice etc. Op. cit. p.26.

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praia pouco habitada apresentava ainda uma paisagem bastante convidativa. “A sociedade de Fortaleza se divertia aqui”, enfatizou um entrevistado. Recebiam-se muitos turistas, praticantes de esportes náuticos e pescadores de fim de semana, a praia foi um excelente espaço de lazer.

No Serviluz, as lembranças do mundo da prostituição não se limita ao universo da pobreza e da promiscuidade; ao contrário, apresenta sinuosas relações sociais que agregam valores e criam territórios. A partir do Farol, no então reduzido povoado do Serviluz, deram- se intensas negociações e disputas entre os de “dentro” e os de “fora” desse circuito.

A zona de prostituição levava o nome do farol desativado que foi transformado em museu, e, mesmo sendo alvo de preconceito devido à sua localização, o Farol do Mucuripe foi durante certo tempo um importante ponto de visitação turística da cidade. Nos depoimentos, percebe-se que várias personalidades de Fortaleza e estrangeiros endinheirados se misturavam alegremente às mulheres e aos pescadores que residiam nos arredores. O “acolhimento” tornou-se uma prática econômica e cultural importante para a comunidade.

Altos funcionários das multinacionais em estadia na cidade, muitos dos quais também estrangeiros, tinham nessa localidade a possibilidade de diversão e entretenimento ao lado da empresa em que trabalhavam. Com toda essa movimentação, não apenas as casas noturnas lucravam, o pequeno comércio local cresceu consideravelmente, “minha mãe comprava dólares”95, e as pequenas mercearias foram se transformando para atender um público exigente e diversificado.

De modo curioso, são igualmente comuns as lembranças dos episódios em que os pescadores disputavam, em pé de igualdade, o direito de usufruir o comércio no Farol com pessoas de elevado poder aquisitivo.

“Por incrível que pareça no passado o pescador tinha moral, porque ganhavam bem. A lagosta dava dinheiro. O pescador chegava no cabaré, a zona como nós falávamos na época, ele disputava pau a pau com os gringos, com o pessoal que vinha de fora que gastava em dólares, porque o dinheiro era fácil (...) o pescador, o pescador artesanal, também tinha muita aceitação porque naquela época o pescador ganhava muito dinheiro, a lagosta né? Tinha abundância”96.

Nesses depoimentos, ainda que essa tenha sido uma situação relativamente efêmera, a condição do pescador figura bem diferenciada daquela tradicional imagem de pobreza, quase indigência, a que já se referiu. A imagem do pescador podia, inclusive, emergir como a de um

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Ibidem.

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Entrevista concedida por José Carlos da Silva ao autor em 08/03/2005.

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“príncipe encantado”. Muitos homens do mar podiam proporcionar uma vida mais segura às mulheres da zona e essa era, via de regra, a condição mais palusível para a fuga do meretrício.

“Se o cara é bom pra mim e me dá conforto e eu gosto dele, eu largo mão disto e vou ficá com ele. Mas eu prefiro se for pra casar, casá mesmo, de papel e juiz, porque aí a responsabilidade da coisa é bem maior. Aí eu posso cuidá dele, dos filhos, tudo que a mulher faz ... quando o homem gosta mesmo, ele casa” 97.

Nesse contexto, os pescadores ainda em boa situação financeira podiam usufruir os serviços sexuais prestados na zona. Os “lagosteiros”, por exemplo, eram capazes de pagar o alto preço das bebidas, das mulheres mais bonitas e dos quartos mais luxuosos, um conjunto inacessível para a maior parte dos moradores do bairro. Apesar disso, notavelmente as mulheres do Farol preferiam os marinheiros, considerados menos grosseiros e mais generosos no pagamento dos serviços oferecidos.

Mas se o universo do bairro era, em certas circunstâncias, permeável ao cotidiano do meretrício, também era forte o desejo de se resguardar do convívio de sua agitação.

“Daquela área pra lá depois das nove horas em diante não tinha mais possibilidade de pessoas de menor ir pra lá, entendeu? Não tinha. Oito horas, nove horas já não ia mais (...) e as mulheres casadas iam, mas o pessoal comentava muito. Eu nunca tive isso não, eu sempre ia porque onde meu marido tava, eu nunca tive medo de ir (...), mas era um negócio muito quente, muito quente, quente mesmo. Homens despidos, mulheres também, era uma... como é que se diz, uma... um lugar mesmo reservado, muito quente tá entendendo? (...) praticamente isolado (...), mas pra cá também eles num passavam, nem elas nem eles, eles num passavam né, era como assim um muro de Berlim (...)”98.

Há, de certo modo, nas entrevistas colhidas entre os moradores, uma tendência geral ao apagamento da memória da prostituição no bairro. Isso implica reconhecer o Farol como um espaço reiteradamente rejeitado e compreendido por alguns como uma espécie de mancha negra na história do lugar. Em termos práticos diários, durante o dia era até comum que os moradores andassem entre os cabarés, afinal foi em função do meretrício que energia elétrica, telefone, farmácia, chafariz e outros serviços foram prontamente instalados no local. À noite, no entanto, o espaço ganhava sons e agito, sendo quase sempre malvisto no seio da comunidade.

Escolas, associações e outros núcleos comunitários que foram se formando no bairro aconselhavam os pais a não permitirem que os filhos freqüentassem a zona de prostituição. Os mais velhos lembram quando a Kombi do Juizado de Menores começou a vigiar de modo mais acintoso a entrada de crianças na zona de prostituição. A violência desencadeada no

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Farol e a marginalidade crescente no seu entorno provocaram uma preocupação exacerbada dos pais no que se refere à criação dos filhos. Quando o bairro foi crescendo em termos populacionais, adolescentes começaram a quebrar a tradicional rotina familiar e a criar novas formas e espaços de sociabilidade; o poder da juventude aumenta ao mesmo tempo em que sobre ela recaem com mais força os discursos da Igreja e a ideologia do trabalho. A prostituição, nesse contexto, constituía um péssimo exemplo.

O isolamento na zona de prostituição tornou-se também uma espécie de elemento de identidade. Instaurou-se no bairro a possibilidade de ser “confundido” com o outro, com o diferente, com o comportamento considerado imoral e por isso anormal.

“Naquela época existia um tabu. Por exemplo, uma moça, uma senhora casada não podia andar naquela área, porque se andasse naquela área era confundida (grifo nosso) com prostituta. Existia essa divisão. Aí foi justamente por causa disso que dividiram o Farol do Serviluz. Mas só que o Farol está contido no Serviluz e o Serviluz contém o Farol (...) pensavam que todas mulheres eram iguais. As mulheres casadas, as moças num podiam andar naquela área, principalmente à noite”99.

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O forte isolamento mantido por alguns moradores locais e registrado na cidade como um todo em relação a esse espaço não consegue silenciar as permutas e os intercâmbios existentes. Havia um reconhecimento tácito de que, apesar das opções de vida das meretrizes, estas tinham procedências semelhantes à maioria da população local e o ganho com a prostituição, supostamente fácil, era uma condição necessária à sobrevivência.

“A maioria delas eram garotas que vinham do interior, chegava aqui não tinha trabalho e entrava nesse ramo de vida. É como diz o ditado a vida é fácil né? Na época tinha mulher que fazia quatro, cinco programas. Amanhecia o dia com muito dinheiro, muito dinheiro mesmo. E quando pegava um gringo ou marinheiro ganhava até em dólar ganhava”100.

O reconhecimento dessa atividade como um meio de sobrevivência cruel e doloroso aparece como motivação central para uma eventual união entre mulheres dos bordéis e pescadores nativos. Diferentes das mulheres que viajaram para lugares distantes, as mulheres resgatadas por homens locais, ao serem levadas para o lar, acabam engendrando transformações comportamentais importantes na própria comunidade. Passando a morar muitas vezes na própria vizinhança, essas pessoas assumem quase sempre o papel de dona de casa; criar filhos e cuidar do domicílio eram suas novas atribuições. Essa mistura

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Entrevista realizada concedida por Francisco Herton Lima Rodrigues ao autor em 30/02/2002.

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contingencial tende a transformar inclusive a vigente concepção de família, já que é a mulher que passa a administrar a estabilidade do lar.

Para os moradores, inevitavelmente, o encontro nesse universo estava diariamente colocado. Várias mulheres da noite, por exemplo, alugavam casas ou quartos no bairro para descansar durante o dia, acontecia que muitas farras saíam dos prostíbulos e terminavam nos botecos e até mesmo nas habitações locais. Esse intercâmbio possibilitou que turistas de várias nacionalidades se casassem ou simplesmente fizessem laços de amizade com os moradores. O desejo de conhecer o mundo claramente processou-se em função dessa interação. Nesse caso, as oportunidades criadas no meretrício, obviamente, não eram visadas somente pelas mulheres vistas na comunidade como mundanas.

Não sendo esse um estudo mais específico sobre as relações sociais estabelecidas no meretrício, coube enfatizar a importância da constituição inicial de fronteiras invisíveis, condições limites, a demarcar onde e que tipo de pessoas podiam circular, indicando assim os usos sociais de determinados espaços. Existiam tanto barreiras quanto interações. Os termos “de dentro” e “de fora”, por isso, são muitas vezes incapazes de comportar as mesclas ocorridas no improviso cotidiano local.

O esforço de definição do “de fora” tomou ainda mais impulso com o aumento demográfico e o surto de criminalidade no bairro. O tempo da caminhada tranqüila e do dinheiro correndo fácil expirou. Até princípios dos anos 1980, a violência não era deliberada e, apesar da generalizada discriminação, sobre esse lugar prevalecia ainda a fama da hospitalidade, do acolhimento, da diversão. Estrangeiros que desciam do porto aproximavam- se e misturavam-se às mulheres sob as luzes dos bordéis, a “Las Vegas” do Ceará. O bairro cresceu, em parte, devido à renda proveniente dos freqüentadores.

Mas aos poucos se esvaiu aquela atrativa imagem de paraíso. Além dos clientes e meretrizes, a entrada da polícia, antes somente acionada para solucionar pequenos conflitos e desentendimentos no local, passou a ser rotineira. A Secretaria de Segurança Pública do Estado expedia os alvarás de funcionamento dos prostíbulos, encarregando-se também da manutenção da ordem.

Na zona do Farol, o destacamento policial age sobre as prostitutas de maneira indiscriminada, procurando em seus mínimos deslizes um motivo para espancá-las e confiná-las às grades (...) Não é raro que uma prostituta tenha que prestar, sob coação, serviços sexuais gratuitos para um policial a fim de obter determinados favores em situações criticas101.

O bairro cresceu desordenadamente e aquele reduto de pescadores passou a ser visto como uma perigosa favela. As mudanças no perfil do bairro e o preconceito que este passou a inspirar na cidade envergonhavam sobremaneira os moradores.

“(...) E pra lá a gente nem sabia quando acontecia uma morte, uma coisa, porque também era difícil, agora é muito mais fácil (...), mas brincavam por lá a vontade principalmente quando chegava navio, marinha né?, esses navios eram muito chegados aqui e... às vezes acontecia fato de matarem marinheiro, marinheiro desaparecia, isso pra gente aqui, a população ainda era pouca, isso pra gente era como se fosse uma coisa muito grande (...) teve uma época que mataram dois marinheiros, amanheceram mortos

Benzer Belgeler