Cabe ressaltar que o referencial epistemológico que norteou o estudo foi dado pelo método dialético-crítico e caracterizou-se como um estudo de caso, compreendendo a pesquisa do tipo qualitativa.
Optou-se por esse referencial porque busca a essência dos fenômenos, preocupa-se em desvendar como se manifestam, indo até a raiz, estabelecendo interconexões, desvendando contradições e buscando superação. Os fenômenos são percebidos como parte integrante de um contexto mais amplo, articulado, compondo a totalidade.
O método dialético-crítico contempla uma visão de homem sujeito histórico, que influencia e é influenciado pela realidade social concreta, pois não existe ―[...] realidade sem o homem, assim como não é (somente) realidade do homem‖. Nesse sentido, ―[...] é a realidade do homem que na natureza e como parte da natureza cria a realidade humano-social, que ultrapassa a natureza e na história define o próprio lugar no universo‖ (KOSIK, 2002, p. 228).
A realidade não é apreendida como algo imediato, dado, pronto, acabado, não se apresenta aos homens de forma clara; ao contrário, se ―esconde e aparece‖
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é preciso desvendar o aparente, revelar a essência do fenômeno, pois ―compreender o fenômeno é atingir a essência‖ (KOSIK, 2002). A dialética é compreendida como o
[...] pensamento que destrói a pseuconcreticidade para atingir a concreticidade é ao mesmo tempo um processo no curso do qual sob o mundo da aparência se desvenda o mundo real; por trás da aparência externa do fenômeno se desvenda a lei do fenômeno; por trás do fenômeno a essência (KOSIK, 2002, p 16).
Propõe-se a compreender a ―coisa em si‖ e sistematicamente se pergunta ―como é possível chegar à compreensão da realidade,‖ sendo necessária a ―decomposição do todo34‖ (KOSIK, 2002, p.16). A dialética procura desocultar o mundo real, indo além das aparências, levando em conta a relação do sujeito com o objeto e o seu caráter histórico. A leitura da realidade dá-se pela compreensão de que a realidade é produto do homem: ―[...] é um mundo em que as coisas, as relações e os significados são considerados como produtos do homem social, e o próprio homem se revela como sujeito real do mundo social‖ (KOSIK, 2002, p.18).
Para melhor compreensão do método é necessário considerar as suas grandes leis: lei da interação universal-onde tudo está relacionado, nada é isolado, considerando ―cada fenômeno em relação com os demais‖; lei do movimento universal-todas as coisas em ―movimento interno e externo e inseparáveis‖, busca o ―movimento profundo ocultado pelo superficial‖; lei da unidade dos contraditórios- busca captar o movimento que ―engendra o contraditório‖, a ligação, unidade, oposição, o ―choque que faz com que quebra ou os supera‖; lei da quantidade em qualidade (lei dos saltos)-é a ―grande lei da ação‖, ―implica a continuidade (o movimento profundo que continua) e a descontinuidade (o aparecimento do novo e o fim do antigo)‖; lei do desenvolvimento em espiral (superação)- ―compreende e aprofunda em si próprio‖, ―o retorno acima do superado para dominá-lo e aprofundá- lo, para elevá-lo de nível libertando-o de seus limites (de sua unilateralidade)‖(LEFEBVRE, 1991).
O método dialético-crítico tem como categorias fundamentais a totalidade, a historicidade e a contradição, que permeiam todo o estudo e estão interligadas. A categoria da totalidade é entendida não como a reunião de todos os fatos, de todas
34 Para compreensão da coisa, é necessário conhecer-lhe a estrutura, decompor o todo. Na
concepção dialética é necessário decompor o todo para poder reproduzir espiritualmente a estrutura da coisa e, portanto, compreendê-la. (KOSIK, 2002, p.14)
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as partes, mas como uma unidade dialética, em movimento, um todo articulado e interconectado, tanto que a relação entre as partes altera o sentido de cada parte desse todo. Significa a ―[...] realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjuntos de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido‖ (KOSIK, 2002, p.35).
Assim, os fenômenos são entendidos como parte integrante de um contexto mais amplo, sendo necessário ir do singular ao genérico, problematizando a realidade, estabelecendo relações das partes com esse todo, que mutuamente se influenciam.
É um processo de concretização que procede do todo para as partes e das partes para o todo, dos fenômenos, da totalidade para as contradições e das contradições para a totalidade; e justamente neste processo de correlações em espiral no qual todos os conceitos entram em movimento recíproco e se elucidam mutuamente, atinge a concreticidade (KOSIK, 2002, p. 42).
A categoria da contradição dialética ―[...] é uma inclusão (plena, concreta) dos contraditórios um no outro e, ao mesmo tempo, uma exclusão ativa‖ (LEFEBVRE, 1991, p. 238); ―[...] não é apenas entendida como categoria interpretativa do real, mas também como sendo ela própria existente no movimento do real, como motor interno do movimento, já que se refere ao curso do desenvolvimento da realidade‖ (CURY, 1986, p. 30).
O método ―[...] valoriza a contradição dinâmica do fato observado e a atividade criadora do sujeito que observa as posições contrárias entre o todo e a parte e os vínculos do saber e do agir com a vida social dos homens‖ (CHIZZOTTI, 1991, p. 80).
O movimento dialético contraditório manifesta-se na realidade, numa relação de conflito no devir do real, onde cada coisa exige o seu contrário, como negação e determinação do outro. Nesse movimento surge o novo, mesmo que oposto, pois os contrários não se excluem mutuamente, mas se complementam e se superam. (CURY, 1986). Na superação ―[...] o superado é revelado e imerge mais profundamente que ele no imediato, embora o superado tenha sido o primeiro imediato.‖ E isso implica ―[...] um retorno ao passado: um aprofundamento do passado.‖ E mais, ―[...] O passado é reencontrado - mas superado e, por isso mesmo
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aprofundado, liberado de suas limitações, mais real que no início‖. (LEFEBVRE, 1991, p 231- 232).
A categoria historicidade entende que a história é construída pelo homem, porque é um sujeito histórico que intervém na natureza para produzir os meios de satisfação de suas necessidades: ―[...] a produção da própria vida material, e de fato esse é um ato histórico‖, tanto na satisfação de suas necessidades, como nos próprios instrumentos que utiliza para satisfazê-las. Daí decorrem novas necessidades, novos fatos, dando continuidade ao processo de criação. (MARX; ENGELS, 2005). Utiliza-se a história para explicar o curso de constituição dos fenômenos, buscando fatos significativos, fazendo um retorno ao passado para explicar o presente.
Sendo a história produto do homem, explica o próprio sentido da humanidade, mas isso só é possível pela continuidade da história, compreendida
[...] quando o homem não começa sempre de novo e do princípio, mas se liga ao trabalho e aos resultados obtidos pelas gerações precedentes. Se a humanidade começasse sempre do princípio e se toda ação fosse destituída de pressupostos, a humanidade não avançaria um passo e a sua existência se escoaria no círculo da periódica repetição de um início absoluto e de um fim absoluto. (KOSIK, 2002, p.218).
Portanto, é um eterno devir. Na história o homem produz e reproduz sua própria existência; o passado constitui-se no presente e no futuro, num eterno processo de continuidade/descontinuidade,superação e criação. Assim, por meio da história se explica a constituição dos fenômenos e suas relações num contexto mais amplo, valorizando todos os processos antecedentes e as transformações deles decorrentes.