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2021-2022 EĞİTİM-ÖĞRETİM YILI

Como se pode observar, as travestis buscam construir itinerários corporais e sociais que as direcionem ao encaixe dos referenciais pautados nas normas de beleza vigente e pela normatividade social instituída em nossa sociedade, embora muitas delas ainda tropecem em obstáculos financeiros, contextuais e até genéticos (biotipo físico fortemente másculo) no decorrer deste processo.

É bem possível que, em virtude das inúmeras mudanças ocorridas na esfera da sexualidade diretamente associadas às novas tecnologias corporais, as novas gerações de travestis, mais precisamente as travestis adolescentes, estejam hoje em dia pautando seus itinerários corporais na discrição, nas medidas corporais mais harmônicas e nos poucos volumes ou até mesmo nenhum tipo de interferência corporal definitiva, o que possivelmente as distanciam ao máximo do exagero que foi durante muitas décadas uma das marcas mais distintas entre as travestis do Brasil.

É afirmativo falar que muitas mudanças têm sido incorporadas e novas técnicas estão surgindo a favor dos corpos e dos gêneros. São reflexos das novas tecnologias utilizadas para a construção, nos termos de Benedetti (2005), do “feminino travesti”.

Além disso, a noção de “feminino travesti”, com peitos imensos de silicone líquido

injetado, vem sendo questionada internamente neste grupo, como mostrou Pelúcio (2007) em seus estudos. Muitos incrementos que se somam às transformações corporais e à construção de novos sujeitos estão sendo pautados em novos referenciais (médicos e estéticos). Dessa forma, um exemplo seriam as agulhas, a cola tree bond e os esmaltes para aplicação de silicone industrial que estão sendo substituídos pela cirurgia plástica. Mas nem sempre as condições financeiras das travestis e as possibilidades oferecidas com o exercício da rua/pista permitem a substituição dessas técnicas mais comprometedoras por tecnologias mais avançadas. Portanto, o acesso às práticas continua sendo, em grande maioria, por vias clandestinas.

Hoje, mais do que nunca, as possibilidades em torno da construção de vários femininos têm tornado os corpos mais plásticos na construção e desconstrução (DUQUE, 2012), o que nada tem um comum com os itinerários corporais das travestis que participaram desta pesquisa, pois, certamente, as minhas interlocutoras, em sua maioria, pautaram seus ideais corporais por volta dos anos 70 e anos 80, compostos pelo desejo dos muitos litros de silicone industrial e no exagero que afrontava e continua afrontando toda uma moralidade e uma normatividade imposta socialmente.

Durante a pesquisa de campo, tive contato com travestis que hoje possuem silicone líquido praticamente por todo o corpo. Somando as várias sessões de

“bombação”, contabilizam-se mais ou menos uns 15 litros espalhados por todo o corpo

(testa, maçãs do rosto, nariz, boca, seios, nádegas, quadris, pernas, joelhos e coxas), e durante décadas continuam fazendo retoques onde julgam necessário. Algumas destas travestis chegam a apresentar deformidades em várias partes do corpo, prioritariamente nas extremidades, como pés, mãos e testículos, por conta do deslocamento do silicone líquido em decorrência de quedas, brigas na rua com outras travestis e clientes ou por espancamento de policiais. É o que enfatiza Jéssica Pompeu, uma travesti de 50 anos que conheci em um bar no centro de Fortaleza:

Se você olhar pra mim você vai observar que tenho silicone por todo o corpo até na testa. Até hoje vivo fazendo uns retoques. Na minha época quase todas as bichas faziam aplicação de silicone e por conta disso, hoje estão com diversos problemas de saúde. Algumas têm até sorte, e só depois de muitos

anos é que o silicone vai dar problemas. Já outras, nem demora muito em poucos anos, um ou dois já começa a dar problema. Essa parte aqui da minha perna foi o silicone da minha bunda que desceu depois de uma briga com outra trava em Recife. Eu caí e a pancada foi muito forte que fiquei doente durante um bom tempo e com uma febre durante um mês, não passava nunca.

Fiquei “acabada”, inclusive achei que ia dá coisa pior. [...] ainda ganho a vida

na prostituição e gosto, sabe? (risos). Vez por outra faço umas aplicações pra dá uma levantada. Eu mesmo faço. (Entrevista realizada em 23/11/10).

Partindo deste cenário, onde a busca incessante pela beleza e por corpos canônicos é uma das maiores preocupações das travestis, e que ser travesti é um processo que nunca se encerra, como afirmou Pelúcio (2005), como as travestis reelaboram seus itinerários corporais quando passam a ser consideradas e reconhecidas como “mariconas”, “Irenes” ou “Tias” no universo trans e quando a prostituição e a rua, exclusivamente, já não lhes garantem a sobrevivência?

Não seria tão fácil fazer uma cartografia acerca das inúmeras possibilidades que abarcam a velhice na travestilidade. Não pela pluralidade e pelas dificuldades delas se inserirem no mercado de trabalho formal, entre outros fatores, mas sim pela invisibilidade, pela baixa expectativa de vida e, principalmente, pelos grandes índices de violência e assassinatos de travestis. Diante deste terreno espinhoso, optei por fazer o recorte da pesquisa englobando apenas as travestis velhas que de alguma forma estavam ligadas à prostituição, assim a localização das mesmas possivelmente se tornaria mais objetiva, o que de fato nem sempre ocorreu, mesmo sabendo que existe uma relação muito próxima entre viver a travestilidade e a prostituição (KULICK, 2008).

Quando as travestis sobrevivem às ruas (violência e doenças), possivelmente um dos maiores desafios que elas encontram é a discriminação acumulada87 que sofrem em

87 A discussão está presente no filme “JANAÍNA DUTRA – UMA DAMA DE FERRO”, de 2010,

realizado por Vagner de Almeida e Supervisão Geral do GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca, por tratar-se de uma questão mais séria que envolve, além da discriminação, a opção sexual, a discriminação maximizada por uma série de outros preconceitos relativos à raça, à classe social, à formação escolar, à cidade de origem, entre outras características. Este tipo de discriminação acaba por inviabilizar a cidadania do homossexual, em especial das travestis e dos transgêneros, conduzindo-os à prostituição como forma de sobrevivência. Uma pesquisa realizada em 2001 com 165 travestis no Estado do Ceará revelou que 90% das entrevistadas se prostituem, mesmo que eventualmente. 62% delas vivem da prostituição e 40% dessas são arrimos de família. Os dados mostram a necessidade de se buscar políticas afirmativas para que essas travestis tenham uma melhor qualidade de vida. Uma outra necessidade urgente é acabar com o estigma que leva a sociedade a acreditar na periculosidade das travestis. Um novo conceito que, talvez, possa ajudar a derrubar esse mito seja substituir o termo travestismo por

travestilidade, uma vez que o sufixo “ismo” significa doença e disfunção e a travestilidade é a qualidade

de ser travesti 24 horas por dia. Esse processo de travestilidade é fundamental para minimizar o processo de discriminação que a travesti sofre, desde a mais tenra idade, na escola e em casa, provocando em muitos casos o abandono/expulsão da escola e da família. Por conta dessa estigmatização, encontra-se uma população com baixa estima, pouca escolaridade e pouca qualificação profissional. Fonte: http://mostravagnerdealmeida.wordpress.com/janaina-dutra/. Acesso dia 30/04/2012.

virtude do estigma social e moral por estarem na condição de travestis e agora consideradas velhas. Embora em perspectivas diferentes, onde uma transita em torno da moralidade – a travestilidade – e a outra agrega características do campo biológico alinhado a elementos do campo sociocultural – a velhice –, fatores estes que fazem da experiência de envelhecer e da velhice na travestilidade completamente diferente das demais experiências em nossa sociedade. Ademais, junta-se a este fator a concorrência por vezes desleal entre travestis mais novas e bonitas no mercado do sexo. Observemos estes elementos na narrativa e na trajetória de Camila Jereissati:

Aos 43 anos, Camila, nome artístico de Manoel Vicente, chama atenção pelos seus 1,90 m de altura e curvas acentuadas, resultado de várias intervenções para aplicação de silicone industrial, começou a travestir-se aos 15 anos de

idade, segundo ela “para satisfazer os desejos de um namorado por quem foi muito apaixonada”. Afirma ter sofrido muito preconceito por conta de sua

orientação sexual, principalmente por parte de um tio que a espancou varias vezes dentro de sua própria casa. Resolveu então ir tentar a vida em São Paulo, onde morou na casa de uma cafetina juntamente com outras travestis de vários estados do país. Relata que em São Paulo passou por inúmeras dificuldades, passou fome, sofreu muito com o frio durante as noites e madrugadas nas ruas e foi atacada por um homem que desferiu quatro golpes de faca contra ela. Foi em São Paulo que aprendeu as técnicas clandestinas de aplicação de silicone, e de volta a Fortaleza passou a fazer trabalhos de aplicação de silicone em outras travestis uma vez que nas ruas a concorrência com as mais novas acabava por ser difícil. Partiu então para a Itália, onde também trabalhou na prostituição e como cabeleireira, mas foi presa e encarcerada por cerca trinta dias, sendo após deportada para o Brasil pela polícia italiana. De retorno ao Brasil foi diagnosticada com câncer nos rins, tendo que remover o rim direito, consequência da presença de silicone no sangue, e também a mais duas cirurgias para remoção desse líquido dos seios, que se deslocou para outras partes de seu corpo. Durante todos esses anos, tendo passado por várias crises de identidade, oscilando entre fases em que se travestia, e outras em que se apresentava com a indumentária típica do sexo masculino. Nas fases masculinas, frequentou igrejas evangélicas e se manteve afastada de tudo que fosse relacionado ao universo gay. Já nas fases de travesti, usa roupas femininas e gosta de sair à noite nas ruas para fazer programas.

Certamente, após muitos anos desenvolvendo uma atividade prostitutiva, alguns comprometimentos sociais e corporais vão surgindo, como foi possível observar na trajetória de Camila. Na experiência das travestis que participaram da pesquisa, o uso excessivo de silicone líquido praticamente operou como um fator determinante em suas trajetórias, o que de fato acabou por trazer algumas complicações no tocante à saúde, à

Outro exemplo é Solange de Castro, conhecida como Tiazinha. Hoje ela precisa desenvolver várias estratégias para conseguir dinheiro e garantir sua clientela nas ruas onde se prostitui e burlar as características físicas e sociais que a colocam na condição de “maricona” e “bicha velha” entre as demais. Parte do silicone líquido distribuído por todo seu corpo desceu para sua perna direita e para o pé, o que certamente gerou deformidades e fez com que Solange optasse por fazer uso exclusivamente de calças e saias longas com o intuito de esconder tais deformidades dos clientes e das demais travestis. Solange, além de permanecer por anos na mesma rua se prostituindo, ainda lança mão de outra fonte renda nos interstícios da prostituição, a de cafetina, uma prática bastante utilizada por travestis na rua ou em seus domicílios onde abrigam travestis e cobram taxas às vezes bem elevadas. Esta foi uma estratégia que elaborou para conseguir algum dinheiro. Neste sentido, passa a cobrar das travestis mais novas

uma espécie de “pedágio” para que elas possam exercer a atividade prostitutiva naquele

território e ainda consegue controlar o fluxo de travestis naquela região, uma vez que a presença de travestis novas, bonitas e dispostas pode vir a comprometer os possíveis programas a serem realizados por ela e pelas demais travestis que pagam “pedágio”. É claro que foram necessários muitos anos até Solange se tornar uma “cafetina legítima” naquela região, foram necessários muitos afrontamentos a outras travestis e aos poucos ela foi tecendo uma rede de confiança juntamente a traficantes, clientes, usuários, outras travestis e garotos de programa que por ali transitam, fatores estes que fazem com Solange seja respeitada e temida entre as demais, principalmente as pelas mais jovens. Outro fato interesse que envolve o nome e a reputação de Solange gira em torno de que ela também é uma espécie de bombadeira para as travestis mais jovens. Durante algumas entrevistas e conversas informais com outras interlocutoras, Solange aparece em seus discursos e histórias como bombadeira, embora sempre tenha ocultado para mim esta informação.

Parece que, mesmo Solange ocupando uma posição significativa no território de prostituição por muitos anos, nota-se que provavelmente ela está percorrendo uma trajetória descendente, ou seja, sua capacidade de conversão do seu capital físico nos capitais econômicos e sociais é inversamente dissonante ao seu envelhecimento. Os problemas estéticos que adquiriu por conta do uso de silicone industrial e dos papéis/espaços que foi construindo dentro da cena prostitutiva (cafetina e bombadeira) lhe colocam na condição de “Maricona”. A situação de perda de capital físico e social

não se deve tanto à vigilância intermitente do corpo, uma vez que algumas destas consequências são irreversíveis, mas também se agrega nesta situação o “peso da idade”, afinal, ter 42 anos no interior da travestilidade reforça em partes os “jogos geracionais”, colocando ou não as mais jovens em destaque na rua, ou ainda reforça que a experiência da velhice travesti em algumas situações pode sobrepor-se a estes corpos jovens em ebulição nos territórios prostitutivos.

Já Alcina Bardot, depois de muitos anos de batalha nas ruas de Fortaleza, hoje trabalha como cozinheira em um pequeno restaurante na periferia de Fortaleza, e algumas vezes na semana, ou nos finais de semana, frequenta um cinevídeo pornô no centro da cidade, local este que exigiu dela uma mudança em sua performance para atrair clientes dentro do cinema, uma vez que na rua já não os traia o suficiente para bancar suas despesas. Assim, precisou aprender a conviver com um público tão diverso que frequenta o cinevídeo, seja no tocante à orientação sexual como no capital econômico e cultural. A dinâmica estabelecida no interior de um cinevídeo acaba por ser um tanto diferenciada da dinâmica estabelecida nas ruas, esquinas e avenidas por onde costumeiramente travestis se prostituem. Fatores como a violência, os atritos com policiais, os assaltos constantes e a concorrência entre muitas travestis acabam por ser reduzidos.

Sem a intenção de generalizar as experiências e de impor certa linearidade no interior das trajetórias, muitas travestis, quando começam a enfrentar dificuldades em atrair clientes nas ruas e buscam fugir da violência constante, passam a construir novas estratégias e alternativas, o que de fato acontece a qualquer pessoa nas mais diversas situações que envolvem insucesso e insatisfação.

Neste contexto, os cinevídeos pornôs surgem como um espaço composto por paradoxos, ambiguidades, interseções, oposições, possibilidades e torna-se um espaço atrativo no que se refere à prostituição e à sociabilidade para elas, embora seu espaço físico, simbólico e cultural ainda seja marcado pelas “territorialidades marginais” (VALE DE ALMEIDA, 2000).

O cinevídeo pornô onde realizei parte da pesquisa de campo, mais especificamente o Cine América (nome fictício), na dinâmica de Fortaleza é bastante atrativo, não apenas para as travestis mais velhas, mais por um público bem diversificado, incluindo travestis novas, siliconadas ou não, gays, casais, trabalhadores, universitários, entre outros personagens na cena erótica. O cinevídeo possui demanda

para todos os tipos de ofertas sexuais. Além do mais, é um espaço relativamente seguro, seja para quem vai à busca de se prostituir, seja para os clientes ou mesmo para quem vai aleatoriamente à busca de diversão e entretenimento com ou sem sexo. O fato é que este espaço abarca um público que em partes se diferencia dos clientes que costumeiramente procurariam os serviços sexuais oferecidos pelas travestis na rua (os clientes e frequentadores podem entrar a pé, localiza-se no centro da cidade de Fortaleza, o que facilita o acesso, funciona nos períodos da manhã, tarde e noite, não adentrando a madrugada, exceto em festas pontuais, os picos de maior movimento são nos finais do período da tarde, principalmente aos sábados) e ainda agrega as mais diversas tecnologias que potencializam as cenas eróticas, tudo isso no mesmo espaço: vídeos pornôs, shows de stripper (masculino e feminino), shows de sexo explícito (geralmente heterossexual onde parte do público faz uma “fila indiana”88 na lateral do palco, despem-se, masturbam-se e são literalmente instruídos sobre como devem se comportar durante a cena erótica por uma voz que parte do fundo do palco), músicas, bebidas, corredores escuros e cabines. Todos os espaços do cinevídeo (não muito grandes) são ocupados e performatizados por homens, mulheres, casais, travestis em todas as variações, novas e velhas, como também aquelas que já foram “europeias”89

, michês90 e prostitutas. “Tem de tudo aqui neste parque de diversão sexual”, como

88

A hipótese mais aceita é que a expressão simplesmente descreve o modo de os índios andarem enfileirados pelas trilhas no meio da mata. Portanto, "indiana", no caso, não tem nada a ver com os moradores da Índia, mas sim com as populações nativas das Américas. Caminhar em fila indiana era uma excelente estratégia de guerra para as tribos da América do Norte. Relatos históricos registram que, quando os guerreiros se deslocavam pelo meio da floresta, cada um pisava na pegada da pessoa da frente, para que o último homem apagasse seus próprios passos e os de todo o grupo. Assim, ninguém deixava vestígios de sua passagem para o inimigo. Alguns especialistas apontam ainda que a expressão revela a discriminação sofrida pelas populações indígenas nos Estados Unidos. "Na verdade, trata-se de mais um rótulo criado pelos colonizadores para passar a impressão de que os índios são selvagens sempre prontos para a guerra", diz o linguista Wolfgang Mieder, especialista em folclore e provérbios da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos. Entretanto, a história mostra que as estratégias indígenas de guerra foram incorporadas pelo Exército americano durante a Guerra da Independência (1775-1783). Enquanto os soldados ingleses atacavam em blocos, os americanos levavam vantagem andando alinhados e se escondendo atrás de árvores e pedras, como faziam os nativos.

89 São travestis que já tiveram experiência com a prostituição internacional e que, via de regra,

amealharam algum dinheiro, construindo não só um patrimônio materializado em carros e/ou apartamentos, como também investindo largamente na construção de um corpo feminino (PELÚCIO, 2007). Ainda segundo Pelúcio (2007), as travestis que atingem uma transformação na construção do seu feminino bastante apurada são classificadas como as belíssimas, isto é, tops e/ou europeias. Mas, diferente das tops, as europeias são aquelas que, além da beleza do corpo tipo como feminino sem

exagero no uso do silicone líquido a ponto de “passar por mulher”, viveram uma temporada atuando

como prostituta fora do Brasil (DUQUE, 2012).

90 Os “michês” são pessoas do sexo masculino que se prostituem principalmente em relações

ressalta Luana (46 anos), uma travesti que trabalha na administração do cinevídeo há anos.

Há quem diga que parte da plateia “desviante” (clientes e travestis) que

frequenta hoje o Cine América foi frequentadora do antigo Cine Jangada, uma sala especializada em filmes pornográficos e prostituição travesti em Fortaleza que funcionou por mais de quatro décadas e fechou em julho de 1996, da qual originou uma pesquisa etnográfica do sociólogo Alexandre Fleming Câmara Vale, intitulada “No

escurinho do cinema: cenas de um público implícito” (2000). Segundo o autor, “o

processo de fechamento do Jangada sinalizava para uma nova reordenação da geografia social das salas de exibição para filmes pornográficos em Fortaleza” (p. 14).

Algumas travestis frequentam exclusivamente o Cine América e de lá tiram seu sustento. Já outras que lá frequentam não o têm exclusivamente como fonte de renda, ou seja, lançam mão de outros espaços de prostituição ou de trabalhos mais convencionais como outra fonte de renda principal, tais como: trabalhos de cozinheira, cabeleireira, vendas de cosméticos e até mesmo tornam-se proprietárias de estabelecimentos de entretenimento, como bares, prostíbulos etc., o que as permite também ser cafetinas de travestis mais novas e até mesmo de prostitutas. No cinevídeo, ainda encontram-se aquela travestis que não necessariamente se prostituem, mas frequentam o lugar como espaço de convivência e sociabilidade.

Nos dias de muito movimento no “cinemão”, algumas travestis, além de se

prostituírem, acabam também por agenciar clientes para os michês que lá frequentam ou indicam aos clientes/amigos gays qual é o melhor michê (ou seja, o que tem o maior

Benzer Belgeler