Existe distância considerável entre os campos do conhecimento técnico-científico e do conhecimento sócio-cultural-político. Isso pode explicar o enorme avanço alcançado nas últimas décadas no campo da engenharia hidráulica sem o avanço equivalente de uma gestão da água urbana eficiente e eficaz. Castro (2007) analisa essa discrepância relacionando-a com a falta de um enfoque multidimensional da crise da governança da água. Um exemplo da parcialidade do ataque ao problema da água urbana é a necessidade de tecnologia cada vez mais sofisticada e de maiores investimentos na purificação de água20 devido à ausência de uma política integrada de uso e ocupação do solo.
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Na RMSP, entre 1998 e 2003, a quantidade de produtos usados para tratar 1 milhão de litros de água chegou a aumentar 51% no sistema Guarapiranga, que atende cerca de 4 milhões de pessoas nas zonas sul e oeste da capital paulista. No mesmo intervalo, o Alto Tietê consumiu 9% a mais de produtos (veja números detalhados no quadro) para deixar a água potável para cerca de 3 milhões de pessoas na zona leste de São Paulo e nas cidades de Arujá, Itaquaquecetuba, Poá, Ferraz de Vasconcelos e Suzano. Só no Sistema Cantareira a quantidade de produtos químicos praticamente se manteve porque o sistema ainda é o mais bem preservado da RMSP quanto à ocupação humana. Os dados oficiais da Sabesp explicitam a insuficiência da ação do poder público no controle de ocupações irregulares e do despejo de esgoto in natura nos mananciais. Fonte: Mariana Viveiros, ‘Esgoto duplica custo de tratamento da água’, reportagem Domingo, 25/07/2004; Autor: MARIANA VIVEIROS, Origem do texto: DA REPORTAGEM LOCAL, Editoria: COTIDIANO Página: C1 Edição: São Paulo Jul 25, 2004 encontrado em www.bayer.com.br/byee/jornalistas.nsf/04bbd938b0f97149c1256ac500564711
O grande descompasso entre os enormes avanços tecnológicos e a boa gestão da água está refletido na persistente degradação ambiental ocasionada pelo lançamento de esgotos de maneira inadequada; pela perda e o desperdício de água e a falta de tratamento do esgoto nos centros urbanos, entre outros problemas.
Ainda que o morador não seja o único responsável por essa situação – longe disso – seu papel na gestão compartilhada é fundamental para ajudar a solucionar tais problemas. Cidadãos engajados no processo de decisão compartilhada contribuem para melhorias no abastecimento de água, como o caso citado na seção anterior. Os cidadãos conhecem a sua situação quanto ao abastecimento de água, ao esgotamento sanitário, à deposição de resíduos sólidos e aos riscos de enchentes e suas causas, e podem planejar e implementar ações para melhorar a situação em seu domicílio e arredores. No entanto, não podem ser deixados sozinhos nessa empreitada (BERNER e PHILLIPS, 2003). A proximidade da relação autoridade local-técnico-morador é fundamental nesse processo.
Para que essa interação se realize, técnicos, engenheiros ou outros especialistas, capacitados21 e experientes em disciplinas relevantes para o setor da água urbana, devem cumprir as suas funções, baseados também em princípios éticos, ao oferecer a melhor análise possível do problema e da potencialidade ou vulnerabilidade da situação em questão. Divulgação de informação confiável e conclusões coerentes são essenciais para que, do outro lado, os cidadãos possam tomar decisões informadas (PRISCOLI et al, 2004).
A ‘confiança’ e a reciprocidade passam a ser fundamentais para a manutenção das relações sociais e da relação entre técnicos das agências provedoras de serviços e os moradores. Segundo Giddens (1992), o aumento do conhecimento técnico e da especialização faz surgir ‘sistemas peritos’ que chegam a distanciar-se do contexto, criando considerável separação entre especialistas e clientes, respectivamente, agências provedoras de serviços e moradores. Aqui, a confiança passa a ser o cerne do relacionamento entre o morador e esse ‘sistema perito’, conectando sistemas sociais
21 Diversos órgãos públicos, inclusive em Secretarias Estaduais e Municipais contam com técnicos e
profissionais especializados e atuantes em atividades relativas à água urbana e setores afins. Em São Paulo, a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, por exemplo, tem profissionais atuando em temas relativos ao ar, água, solo, bio-diversidade
com vantagens para ambas partes: melhor atendimento e melhorias nas condições locais da água urbana.
Um exemplo de relação entre técnico e consumidor que resultou em melhorias nos serviços, e maior satisfação dos moradores, é ilustrado por Satyanand e Malick (2007) através do relato de dez estudos de caso em cidades da Índia. Nesses locais, a agência se engajou diretamente com os usuários do serviço de abastecimento já na fase do desenho dos serviços e do estabelecimento de metas. Fundamental para a melhoria dos serviços de água e esgoto foram as reformas sistemáticas para garantir a formulação de políticas claras. Um obstáculo comum foi a falta de capacitação dos técnicos das agências para o tratamento com os usuários dos serviços.
Também a falta de informação sobre o desempenho das agências e sobre os resultados de seu serviço dificulta que cidadãos e os formadores de política pressionem por melhorias e novos investimentos. A divulgação das metas de desempenho e seu alcance pelas agências e relatórios abertos ao público ajudam o exercício de pressões e demandas para que as agências prestadoras de serviço possam tornar-se mais responsáveis e comprometidas com os usuários. A descentralização do controle e dos serviços a níveis mais próximos dos consumidores poderia aumentar sua habilidade para influenciar e melhorar os padrões de atendimento, pressionando agências a alcançar resultados prometidos e a satisfação dos consumidores. Na Índia, essas ações se basearam em reformas realizadas na prestação de serviços de água e esgoto que estabeleceram que os usuários determinassem o tipo de serviço que achavam importante, conveniente e que podiam pagar. O intuito era viabilizar bons serviços para todos em vez de seguir com a política de serviço preferencial para alguns.
Mais uma vez é aqui mencionada a experiência de Bangalore sobre os boletins de avaliação pelos cidadãos, através dos quais moradores monitoram a qualidade dos serviços prestados pela agência de saneamento e outras agências, relatada com detalhe por Ravindra (2004). A premissa que sustenta esse programa é que os cidadãos comuns, como usuários dos serviços das agências, podem oferecer informação importante sobre a qualidade e a adequação dos serviços prestados. O estudo relatado por Ravindra procurou avaliar se houve melhoria na prestação do serviço, acréscimo na participação dos cidadãos frente às agências, aumento da consciência pública sobre a qualidade dos
serviços e o poder dos cidadãos de exigir serviços melhores. Relata também se houve maior atenção aos usuários por parte das agências e se foi possível replicar a atividade dos boletins de avaliação em outras cidades. Os resultados do estudo revelaram que no início da implantação dos boletins, nenhuma das agências recebeu uma nota alta quanto à satisfação dos usuários. Destes, somente 35% estavam satisfeitos com o pessoal técnico das agências e 14% pagavam para as agências apressarem a prestação de serviços. A maioria das agências não tinha consideração pelo usuário e eram altos os custos pagos pelos cidadãos pela ineficiência das agências. Novo estudo realizado cinco anos após a implantação desse sistema revelou que o nível de satisfação dos usuários dos serviços passara de 9% para 34%, ainda que o pagamento de propina entre os mais ricos tivesse passado de 14% para 22% e declinado em 22% entre os mais pobres, como relatado anteriormente. Mesmo que os níveis de corrupção continuassem altos, os níveis de melhoria aumentaram, assim como os índices de satisfação. Os técnicos entrevistados demonstraram estarem mais conscientes do papel dos boletins de avaliação e da sua responsabilidade com os cidadãos. Demonstraram também mais empenho em melhorar a qualidade do serviço prestado. Essa experiência iniciada em Bangalore tem um significado especial por se tratar da Índia, país onde ‘participação’ não é um conceito praticado pelo poder público. Uma hierarquia rígida está firmemente enraizada na tradição indiana de gestão administrativa, nos padrões de liderança e na estrutura hierárquica da sociedade em castas. Lá um engenheiro de casta alta não tende a ouvir residentes de casta baixa, quanto mais consultá-lo sobre a tecnologia e o nível de serviço demandado. Conforme relatado por Baken (2008), uma companhia de água em favelas de Andhra Pradesh pode chegar a demolir um domicílio, sem mesmo avisar com antecedência seus moradores.
Uma outra experiência de interação entre moradores e técnicos para melhorias no esgotamento sanitário ocorreu quando da implantação do sistema condominial de esgoto, idealizado pelo Engenheiro José Carlos de Melo e implantado em Brasília pela Companhia de Água e Esgoto, CAESB, sob a coordenação do Engenheiro Cesar Rissoli. Na cidade satélite de Planaltina, moradores foram motivados a adotarem a nova tecnologia simplificada. Isso permitiria a universalização da coleta e do tratamento do esgoto nessa periferia densamente povoada. Para o trabalho, a CAESB formou um time de engenheiros e técnicos cuja qualificação deveria ser, antes da capacitação técnica, a aptidão e o desejo de trabalhar com moradores. O sistema condominial exigiu a
participação de todos no planejamento do nível de serviço que se adaptasse às condições locais (rede sob a calçada ou sob a área da residência), na coleta entre os moradores dos recursos financeiros que viabilizasse o projeto, na compra do material e construção dos canais condominiais. Uma vez implantado o sistema, moradores participam da limpeza das caixas de visita em seu domicílio (BORBA, 1996). Atualmente, em Brasília o atendimento atinge 93% da população com sistema de coleta, e 100% com tratamento do esgoto coletado.