3. MİMARİ MEKAN VE MEKANSAL ALGI
3.1. Mekanın Algısı
3.1.3. Yapı ve kimlik
No início da década de 1970, surgiram diversas entidades não- governamentais em defesa da causa indígena, além da reconfiguração da postura da Igreja Católica em defesa dos direitos humanos e das minorias, principalmente na defesa dos povos indígenas com a criação de organizações como: Operação Anchieta (OPAN) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que a partir de 1972, teve como uma de suas atribuições, prestar serviços na área da educação.
Além disso, foram criadas diversas instituições não-governamentais (ONGs) que contribuíram para o desenvolvimento do movimento indígena como Comissão Pro-Índio de São Paulo (CPI/SP), Associação Nacional de Apoio ao Índio (ANAÍ), Centro de Trabalho Indígena (CTI), dentre outras, além da assessoria de várias universidades que contribuíram para fortalecer o movimento indígena e sua expansão. Essas instituições realizaram vários eventos e assembleias indígenas, o que contribuiu para o surgimento de grandes lideranças indígenas, tanto no cenário nacional como internacional. Essa mobilização fez surgir a União das Nações Indígenas, uma organização de caráter nacional. Pois,
A atuação de organizações não-governamentais pró-índio e a respectiva articulação com o movimento indígena fizeram com que se delineasse uma política e uma prática indigenista paralela a oficial, visando a defesa dos territórios indígenas, a assistência à saúde e a educação escolar (FERREIRA, 2001, p.87).
A região amazônica esteve inserida neste contexto de luta. Diversos povos indígenas se articularam e passaram a discutir e promover encontros locais e regionais com o intuito de defender e garantir o direito dos povos indígenas na
região. Em consonância com o movimento nacional, foram sendo criadas outras instituições representativas dos vários povos indígenas da Amazônia Legal.
Em 1987, foi criada a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), com 44 associações. Atualmente, a Federação conta com 89 associações indígenas com cerca de 750 aldeias e mais de 35 mil índios pertencentes a 23 grupos étnicos (FOIRN, 2014). Em 1989, foi criada a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), que agrupa 75 organizações dos Estados da Amazônia Brasileira – Amazonas, Acre, Maranhão, Mato Grosso, Amapá, Tocantins, Rondônia e Roraima. São organizações locais, federações regionais, organização de mulheres, professores e estudantes indígenas. Essa organização desempenha papel importante na defesa dos povos indígenas. Dessa forma, foi fundada para ser
[...] o instrumento de luta e de representação dos povos indígenas da Amazônia legal Brasileira pelos seus direitos básicos (terra, saúde, educação, economia e interculturalidade). Representa cerca de 160 diferentes povos indígenas com características particulares, que ocupam aproximadamente 110 milhões de hectares no território amazônico (COIAB, 2014, s/p).
Os professores indígenas da região realizaram, em 1988, na cidade de Manaus, o I Encontro de Professores Indígenas do Amazonas e Roraima, que teve como objetivo discutir qual a educação que os povos indígenas desejavam para suas comunidades. Neste encontro, foi criado a COPIAR - Comissão de Professores Indígenas do Amazonas e Roraima, que nos anos seguintes, passou a incorporar o Estado do Acre. A partir de 2000, configura-se como Conselho de Professores Indígenas da Amazônia – COPIAM. Vale ressaltar que essa iniciativa se deu a partir de alguns professores da etnia Tikuna que decidiram reivindicar o reconhecimento como professores indígenas, pois eram identificados pela designação de professores rurais sem considerar suas identidades culturais e cosmovisões (CAVALCANTE, 2003).
Ao longo desses encontros, as lideranças indígenas perceberam que precisavam empreender novas atitudes e articulações capazes de pressionar as instituições governamentais na garantia do atendimento aos direitos conquistados na Constituição Federal de 1988. Percebemos que cada vez mais os povos indígenas compreendem que a questão indígena é, antes de tudo, uma questão política.
O resultado dessas articulações e mobilizações indígenas, que foi garantido na Constituição Federal de 1988 e na LDB de 1996, foi o direito a uma educação diferenciada. Mas, apesar disso, existe um longo caminho entre a “letra da lei” e sua efetivação prática, pois “[...] parece haver um jogo de interesses contraditórios entre as posições progressistas garantidas na lei e a efetiva consecução desses princípios (KAHN; FRANCHETTO, 1994, p.6)”. Como o Brasil nunca demonstrou grande interesse em reconhecer os direitos culturais, sociais, políticos e econômicos dos povos indígenas, ainda hoje, 27 anos após essa garantia, os povos indígenas ainda não dispõem de uma educação realmente diferenciada, bilíngue e intercultural. Reconhecemos muitos avanços no campo educacional, mas o poder público não consegue de fato atender a especificidade de cada região e de cada povo no território brasileiro.
Outra organização que tem contribuído para o desenvolvimento da educação escolar indígena é o Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas, criado em 1989, sediado em Manaus, abrangendo as regiões do Javari, Alto e Médio Solimões, Alto Rio Negro, Madeira, Purus e Manaus. De acordo com seu estatuto8, o
movimento tinha como finalidade, dentre outras, defender os direitos dos estudantes indígenas, promover o intercâmbio entre os estudantes, estimular o vínculo com suas comunidades e o compromisso na defesa dos povos indígenas e promover a divulgação sobre a situação dos estudantes indígenas no Estado do Amazonas. Portanto,
Todas essas organizações propiciam encontros e troca de experiências e conhecimento, de como cada povo está fazendo para conseguir uma escola adequada às suas necessidades, assim como também, à reflexão a respeito dos problemas educacionais comuns entre os grupos indígenas e as propostas alternativas para solucioná-los. Nesse contexto os povos indígenas têm apresentado aos órgãos competentes do Estado do Amazonas e a própria União, suas propostas e alternativas para a implantação de uma educação escolar indígena diferenciada e de qualidade (ESTÁCIO, 2009, p.10).
Atualmente, um marco importante foi a I Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena (I CONEEI), em novembro de 2009, na cidade de Luziânia – GO, com participação intensa das lideranças políticas e espirituais indígenas, comunidades indígenas, órgãos públicos e sociedade civil organizada. Nessa conferência, ficou estabelecida, dentre outras, a criação de um sistema próprio de
educação escolar indígena, em âmbito nacional, com garantia de protagonismo dos povos indígenas em todo o processo; implantação da gestão dos territórios étnico- educacionais com anuência dos povos indígenas, respeitando aqueles povos que não concordarem em adotar ou ainda não definiram o modelo de gestão garantido o acesso aos recursos da educação escolar indígena e o estabelecimento de diretrizes para a escola indígena que reconheça as línguas maternas e respeite a organização, os conhecimentos tradicionais, social e cultural dos diversos povos indígena. Além disso, ficou determinado que a modalidade de ensino terá: educação infantil (com anuência da comunidade), educação especial, ensino fundamental, ensino médio regular e integrado, educação de jovens e adultos e ensino superior9.
Como podemos constatar, o movimento de educação indígena continua buscando mecanismos que possam garantir o acesso e a permanência dos alunos indígenas dentro de um projeto educacional pensado e dirigido pelos próprios indígenas, garantindo a construção de uma educação intercultural, bilíngue e diferenciada, respeitando os valores, a organização político-social e a cultura de cada povo indígena.
Outra conquista que foi ratificada na I-CONEEI foi a criação dos territórios étnico-educacionais, pelo Decreto n° 6891/2009, no qual estabelece uma nova base sobre o planejamento e a gestão das políticas e ações da educação escolar indígena no Brasil, conforme estabelece o artigo 231 da Constituição Federal de 1988.
Atualmente, o Estado do Amazonas é formado por seis territórios étnico- educacionais que abrangem 49 municípios. De acordo com a SEDUC-AM, “os povos do estado definiram uma pauta de prioridades, comum a todos: construção de escolas nas aldeias, formação de professores, produção de material didático específico, garantia de merenda escolar e transporte escolar (MEC, 2013, s/p)”. Esses territórios estão divididos conforme tabela abaixo:
9 Ler na íntegra o documento final da I Conferência de Educação Escolar Indígena - Luziânia/GO, 16
Quadro 3 - Territórios indígenas Fonte: Seduc/AM, 2014.
Entretanto, alguns municípios ainda não aderiram a essa nova estratégia de planejamento e gestão administrativa da educação escolar indígena, mas têm assegurados seus direitos, pois
O governo federal somente implantará os Territórios Etnoeducacionais com a anuência dos povos indígenas a partir de consulta pública ampla com a realização de seminários locais, regionais e/ou estaduais para esclarecimentos sobre a proposta de implantação e implementação dos Territórios Etnoeducacionais, avaliando a sua viabilidade, sua área de abrangência em relação aos povos e Estados, considerando os novos marcos legais a serem construídos e os planos de trabalho dos Territórios Etnoeducacionais. O Governo Federal garantirá aos povos indígenas que não concordarem em adotar ou ainda não definiram o modelo de gestão baseado nos Territórios Etnoeducacionais o envio de recursos de igual qualidade para a educação escolar indígena (I CONEEI, 2009, p.5)
Dessa forma, entendemos que a luta do movimento de educação indígena permanece atuante, buscando manter o norte do movimento mesmo quando muitas lideranças se encontram ligadas aos governos, seja federal, estadual ou municipal. Afinal, o compromisso maior deve estar sempre voltado para a defesa dos povos indígenas.
Neste sentido, o movimento dos professores indígenas do Estado do Amazonas, durante as comemorações dos 25 anos de luta e mobilização dos professores indígenas deste Estado, lançou o I - Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (I-FOREEIA), no dia 30 de abril de 2014. Assim, esse Fórum tem a missão de
[...] fomentar o debate e reunir periodicamente professores indígenas das diferentes regiões do Estado. Além disso, O Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas é um grande pacto de professores e lideranças, formando assim uma grande rede ou teia que se movimenta, que se
Território Étnico-educacional Município
Juruá/Purus Boca do Acre, Envira, Eirunepé, Ipixuna, Carauari, Canutama,
Itamarati, Juruá, Pauini e Tapauá
Alto Solimões Amaturá, Benjamin Constant, Santo Antônio do Içá, São Paulo de
Olivença, Tabatinga e Tonantins,
Baixo Amazonas Autazes, Anamã, Beruri, Barreirinha, Borba, Careiro Castanho,
Careiro da Várzea, Coari, Humaitá, Iranduba, Itacoatiara, Lábrea, Manacapuru, Manicoré, Maués, Nhamundá, Parintins, Manaquiri, Manaus, Rio Preto da Eva,
Médio Solimões Alvarães, Coari, Fonte Boa, Juruá, Japurá, Jutaí, Maraã, Tefé e
Uarini,
Rio Negro Barcelos, São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro.
articula, que se mobiliza e desenvolve ações estratégicas, a partir de ideias, princípios, prioridades temática e metas, pretende ainda trocar experiências, sugerir estratégias e assegurar articulação das reflexões sobre a educação escolar aos grandes desafios com os quais se defrontam os povos indígenas do Amazonas na atualidade, bem como, discutir e elaborar propostas de políticas públicas que visem garantir os direitos dos povos indígenas à uma educação diferenciada, específica e de qualidade (FOREEIA, 2014, s/d).
Esse Fórum vem numa tentativa de aglutinar, novamente, seus professores no sentido de adensar a luta pela causa indígena, que como os demais movimentos sociais foram, ao longo dos anos, sendo cooptados pelos governos. Muitos indígenas podem ter incorporado o discurso oficial, uma vez que vários atuam em cargos comissionados e, por isso, sentir-se constrangidos entre a defesa da causa indígena e as ações governamentais destinadas aos indígenas. Neste sentido, a proposta deste fórum é se tornar autossustentável, uma boa maneira de eximir os indígenas de inferência direta ou indireta dos governos no movimento indígena. Dessa forma, o FOREEIA elegeu quatro grandes eixos prioritários que nortearão suas atividades nos próximos dois anos. São eles:
1. O eixo estratégico (carro-chefe) será o combate a toda e qualquer forma de preconceito, discriminação e racismo contra os povos indígenas no Amazonas, mobilizando para isso toda a rede de 3.100 professores indígenas dos 62 municípios do Estado, as lideranças de organizações indígenas locais e regionais e os advogados indígenas;
2. Fortalecimento do Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas como embrião de um futuro Fórum Nacional de Educação Escolar;
3. Enfrentamento das precariedades das estruturas físicas e de transporte nas escolas indígenas do estado, onde 1/3 das 950 escolas indígenas não possuem prédio;
4. Luta pela criação de cursos específicos para formação de indígenas em saúde, direito, etnodesenvolvimento, gestão, engenharias e outros, bem como avançar na autonomia pedagógica com qualidade de ensino e de materiais específicos. (FOREEIA, 2014, s/p).
Quanto à oferta de educação indígena no Amazonas, podemos verificar um significativo aumento ao longo dos anos na rede estadual de ensino, conforme quadro a seguir:
ANO EDUCAÇÃO MATRÍCULA DE ALUNOS PROFESSORES Nº DE ESCOLAS Nº DE MUNICÍPIOS Nº DE
INFANTIL FUNDAMENTAL ENSINO ENSINO MÉDIO
2003 60 121 - 6 15 4 2004 25 3.652 469 153 11 4 2005 58 4.945 1.694 254 12 4 2006 - 5.122 3.032 331 14 5 2007 - 7.416 3.465 443 19 9 2008 - 8.871 3.868 396 21 10 2009 - 4.337 3.204 379 24 14 2010 46 3.615 3.579 427 26 17 2011 - 3.745 3.105 406 25 16 2012 - 3.933 2.822 342 25 15 2013 - 3.574 2.623 416 24 15 2014 - 3.805 2.874 416 26 16
Quadro 4 - Matrícula da Rede Estadual do Amazonas – Indígenas
Fonte: MEC/INEP/SEDUC/DPGF/GEPES, 2015.
Como podemos observar, existe uma necessidade de atendimento à educação escolar indígena por parte da SEDUC, principalmente em relação ao atendimento do segundo segmento do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio. Isso por apenas 2.874 alunos estarem regularmente matriculados no Ensino Médio, um número bastate insignificante, se comparado com a população jovem que vive em aldeias e/ou comunidades indígenas. Além disso, verfica-se que apenas 16 municípios são atendimentos com a oferta dessa modalidade de ensino, e que os demais municípios, ou seja 46 municípios, não oferecem essa oportunidade aos alunos indígenas.
Quanto à oferta da educação infantil e do ensino fundamental, ela fica sob a responsabilidade da Rede Municipal dos diversos municípios, conforme quadro a seguir:
N° MATRÍCULA DE ALUNOS Nº DE PROFESSORES Nº DE ESCOLAS Nº DE MUNICÍPIOS EDUCAÇÃO INFANTIL ENSINO FUNDAMENTAL ENSINO MÉDIO 2003 4.400 24.988 - 1.255 618 37 2004 2.793 29.362 - 1.437 669 38 2005 5.253 32.359 - 1.750 678 42 2006 5.456 31.949 - 1.850 778 42 2007 6.439 38.312 - 2.054 775 44 2008 6.634 38.621 84 1.586 862 44 2009 5.373 36.256 - 2.142 791 40 2010 5.758 37.089 - 2.299 984 45 2011 6.357 37.799 - 2.581 898 46 2012 6.379 37.798 - 2.379 888 46 2013 6.935 38.742 - 3.082 979 49 2014 7.739 39.856 - 3.082 983 50
Quadro 5 - Matrícula das Redes Municipais do Amazonas – Indígenas
Fonte: MEC/INEP/SEDUC/DPGF/GEPES, 2015.
Nas redes municipais de ensino, o atendimento à Educação Infantil apresenta um crescimento significativo ao longo de uma década, passando de 4.400 alunos em 2003, para 7.739 alunos em 2014, o que revela um aumento de 76% no número de matrículas. Quanto ao Ensino Fundamental, podemos verificar que o aumento foi bastante significativo, entretanto, devemos registrar que a maioria das escolas oferece a primeira etapa do Ensino Fundamental, ficando, grande parte dos alunos, sem atendimento na segunda etapa do Ensino Fundamental, tendo que se deslocar para outras comunidades e, até mesmo, para outras escolas não-indígenas a fim de darem continuidade aos seus estudos.
Com relação aos professores, constata-se aumento bastante significativo de contratação de professores. A Rede Estadual passou de 6 professores em 2003, para 416 em 2014. Tal fato representa aumento de 6.833%. Na Rede Municipal, esse aumento passou de 1255, para 3.082, configurando um aumento de 146%. Isso se deve ao movimento indígena que lutou para garantir o atendimento da educação escolar preferencialmente por professores indígenas.
Atualmente, existem 9.909 escolas indígenas no estado do Amazonas, contudo é necessário refletir sobre as condições de grande parte dessas escolas, sendo que algumas encontram-se em condições precárias, sem condições de uso. Outras possuem prédios, mas não são utilizadas, pois falta luz eletrica, água etc., além de algumas construções com cobertura de telhas de amianto aumentarem muito a temperatura das salas de aulas, fazendo que alguns professores prefiram
ministrar suas aulas em outras casas ou centro comunitários, que na maioria das vezes são abertos.
No entanto, apenas a oferta da matrícula de alunos e a criação das escolas não garantem, automaticamente, que estejam de acordo com os projetos educacionais de cada povo. É necessário que se compreenda que não se pode tentar unificar o perfil de escola indígena. Cada povo deve exercitar o direito de decidir o projeto de educação que atenda às suas necessidades e expectativas de acordo com seus valores culturais, econômicos, políticos e sociais. Além disso, muitas escolas indígenas ainda têm dificuldades de receber recursos financeiros, merenda escolar, transporte escolar, infraestrutura adequada, formação de professores, seja pela dificuldade de acesso ou pela vontade política de nossos governantes.
No que se refere à política de formação de professores indígena, o Estado do Amazonas, através da SEDUC, vem desenvolvendo o projeto Piraywara na formação de professores para o magistério indígena desde 1998. Segundo dados da SEDUC-AM (2014), foram formados 546 professores e, 1613 professores, encontram-se em formação em 40 municípios do estado do Amazonas.
Como foi constatado, houve um período longo de paralisação do projeto por falta de recursos. Atualmente, esse projeto se encontra em funcionamento e existe compromisso da coordenadoria em atingir o maior número de professores indígena. Quanto à formação de professores em nível superior, estão sendo ofertados cursos de licenciaturas específicos para professores indígenas na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e no Instituto Federal do Amazonas (IFAM), além da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), mas ainda em número bastante reduzido.
No entanto, é preciso reconhecer um esforço de ofertar cursos com uma estrutura curricular capaz de atender a diversidade e especificidade dos diferentes povos indígenas. Uma experiência inovadora foi o curso de Licenciatura para o povo Mura, no município de Autazes - AM, em 2008, pela UFAM. De acordo com o projeto do curso de “Formação de Professores Indígenas”, seu objetivo geral é “Formar, em nível superior, numa perspectiva intercultural e interdisciplinar, professores indígenas para atuar na 2ª etapa do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, nas escolas indígenas, com habilitação plena nas áreas de Ciências Humanas e Sociais; Ciências Exatas e Biológicas; Letras e Artes (UFAM, 2012, p.13).
Essa experiência pode melhorar muito a qualidade da educação indígena ofertada no Estado do Amazonas, uma vez que vem suprir a necessidade de professores qualificados em diversas áreas do conhecimento, além de construir uma proposta protagonizada pelos próprios indígenas Mura. Essa experiência foi ampliada para atender, também, aos alunos do povo Munduruku, no município de Borba e do povo Sateré-Mawé, no município de Maués.
O campus São Gabriel da Cachoeira do IFAM, oferece curso de Licenciatura Intercultural com habilitação em Física, que tem como objetivo
[...] formar e habilitar professores indígenas em Licenciatura Plena, com enfoque intercultural, para lecionar nas escolas indígenas localizadas em aldeias e reservas indígenas em consonância com a realidade social e cultural específica de cada povo e segundo legislação nacional que trata da educação escolar indígena (IFAM, 2011, s/p).
Além disso, é necessário ressaltar a política afirmativa da UEA com relação aos povos indígenas do Estado do Amazonas. A Lei Estadual nº 2894, de 31 de maio de 2004 estabelece, dentre outras, a reserva de vagas para estudantes indígenas na UEA, conforme podemos observar:
Art. 5º - sem prejuízo do disposto no inciso III do art. 4º, a Universidade Estadual do Amazonas reservará a partir do vestibular de 2.005, um percentual de vagas, por curso, no mínimo igual ao percentual da população indígena na composição da população amazonense, para serem preenchidas exclusivamente por candidatos pertencentes às etnias indígenas localizadas no Estado do Amazonas.
§ 1º. – Pelo prazo de 10 (dez) anos, o percentual do referido caput deste
artigo será igual, no mínimo, ao dobro do percentual de índios na composição da população amazonense, para o oferecimento de vagas nos cursos de Medicina, Odontologia, Enfermagem, Direito, Administração Pública, Turismo, Engenharia Florestal e Licenciatura Plena em Informática (Lei Estadual nº2894, 2004).
No entanto, algumas lideranças indígenas afirmam que reconhecem a contribuição das cotas para os estudantes indígenas, mas não concordam com a forma de acesso, via vestibular.
Em entrevista, o Senhor Bonifácio Baniwa, Secretário da Secretária Estadual para os Povos Indígenas do Amazonas - SEIND, afirmou que o prazo de 10 anos estabelecido nesta normativa jurídica foi pensado como mais ou menos o tempo que os indígenas teriam para formar seus quadros profissionais e, assim, não dependerem mais dos não-indígenas no desempenho de várias funções.
Atualmente, por força de lei, a UFAM e o IFAM oferecem vagas específicas para atender estudantes indígenas dentro dessas instituições. Entretanto,
reconhecemos que isso não será o suficiente para garantir o acesso e a permanência dos alunos indígenas dentro das mais diversas instituições de ensino. Isso fica claro quando presenciamos as dificuldades que esses alunos enfrentam