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KURAMSAL ÇERÇEVE

2.1 DUYUŞSAL ALAN

Para que possamos entender melhor o que está em jogo em relação às identidades e representações de sujeitos, Hall exemplifica por meio de uma situação concreta para que possamos compreender as diferentes representações de sujeitos na sociedade, segundo suas crenças, valores e etnias, havendo um deslocamento e contradições no que diz respeito às várias identidades que cada sujeito pode assumir:

“Em 1991, o então presidente americano, Bush (...) encaminhou a indicação de Clarence Thomas, um juiz negro de visões políticas conservadoras. No julgamento de Bush, os eleitores brancos (...) provavelmente apoiariam Thomas (...), e os eleitores negros (...) apoiariam Thomas porque ele era negro. Em síntese, o presidente estava "jogando o jogo das identidades" (HALL, 2005: pp.18 e 19).

Hall aponta para as contradições presentes tanto dentro da cabeça dos sujeitos quanto fora, na sociedade, atravessando grupos políticos estabelecidos. Desse modo, nenhuma identidade é singular, pois cada uma envolve diferentes aspectos, como: etnia, classe social, sexismo, interesses e valores políticos. No que diz respeito à classe social, por exemplo, o autor ressalta que as pessoas não identificam mais seus interesses sociais exclusivamente em termos de classe, pois esta pode servir de dispositivo ou de categoria mobilizadora, por meio da qual todos os variados interesses e todas as variadas identidades das pessoas possam ser reconciliadas e representadas.

Do mesmo modo, quando pensamos na Educação, no ensino e na sala de aula, sabemos que também há um jogo de identidades, no qual cada sujeito tem seus interesses, como, por exemplo, o governo, a escola, o professor, os alunos. Cada um desses sujeitos tem objetivos diferentes e interagem em conjunto em prol dos mesmos.

Dessa forma, temos como propósito averiguar, de forma introdutória, quais são as representações que os alunos têm da escola, da aprendizagem, bem como os diferentes aspectos (como: interesses, crenças, valores, classe social) que fazem com que se identifiquem ou não com a escola e com a produção de textos argumentativos. A partir desses pontos poderemos avaliar os possíveis motivos responsáveis pelo desinteresse e a desmotivação dos estudantes em relação à aprendizagem. Como veremos a seguir, o processo de globalização cultural tem forte influência sobre a constituição da identidade do sujeito pós-moderno. 25

As identidades nacionais têm sido afetadas pelo processo de globalização. O processo de constituição destas identidades se desenvolve a partir das culturas representadas para o indivíduo, ou seja, o sujeito não é apenas um mero cidadão de uma nação, mas também participa da idéia da nação tal como representada em sua cultura nacional. Assim, a formação de uma cultura nacional contribui para criar padrões de alfabetização universais, generaliza uma única língua como meio de comunicação, cria a representação de uma cultura homogênea e mantém instituições culturais nacionais, como, por exemplo, o sistema educacional, tornando-se uma característica-chave da industrialização e um dispositivo da modernidade.

Segundo Hall (2005, p.50), as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Portanto, uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos e, ao produzirem sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Todos esses sentidos estão presentes nas histórias contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que delas são construídas. A partir dessas construções de identidade, há conseqüências originadas do processo de globalização (HALL 2005, p. 69):

• As identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado do crescimento da homogeneização cultural e do “pós-moderno global”.

25 Pretendemos em estudos futuros nos aprofundar em relação ao tema das representações e tecemos, neste

• As identidades nacionais e outras identidades “locais” ou particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização.

• As identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades – lúbridas – estão tomando seu lugar.

De acordo com Hall o fator mais importante quanto ao impacto da globalização sobre a identidade envolve a consideração do tempo e do espaço como coordenadas básicas de todos os sistemas de representação, como a escrita, a pintura, o desenho, a fotografia, que devem simbolizar seu objeto em dimensões espaciais e temporais. Além disso, diferentes épocas culturais têm diferentes maneiras de combinar as coordenadas de espaço-tempo, o que se pode observar em diferentes obras e movimentos artístico-culturais do final do século XIX e início do século XX, como o movimento modernista, o qual representa fragmentação e desordem, a teoria da relatividade de Einstein, pinturas cubistas de Picasso, dentre outros. Tudo isso está relacionado à dimensão espaço-tempo que se mistura e se confunde à medida que se desenvolve também a tecnologia e, conseqüentemente, os meios de comunicação.

Esses processos globais têm, segundo Hall, sido apontados por muitos teóricos como efeito de enfraquecimento ou abalo das formas nacionais de identidade cultural, pois as identificações “globais” têm sofrido deslocamentos e, algumas vezes, começam a apagar as identidades nacionais. Desse modo, alguns teóricos apontam para a tendência a uma maior interdependência global, levando ao colapso as identidades culturais, produzindo uma fragmentação dos códigos culturais, a multiplicidade de estilos, a ênfase no efêmero, no flutuante, no impermanente, na diferença e no pluralismo cultural, que o autor denomina de pós-moderno global (HALL, 2005, p.74). Podemos entender esse processo no trecho abaixo:

“Os fluxos culturais, entre as nações, e o consumismo global criam possibilidades de ‘identidades partilhadas’ (...). À medida que as culturas nacionais tornam-se mais expostas a influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactadas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e infiltração cultural.(...) Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens (...), mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicas e parecem ‘flutuar livremente’ (HALL, 2005: p.74 e p.75).

A partir dessas reflexões, concluímos que a globalização tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, tornando-as mais posicionais, plurais e diversas; menos fixas e unificadas. Em

contrapartida, o autor alerta para seu efeito contraditório, pois há identidades que estão ligadas à História, política do passado, tentando recuperar a pureza anterior e recobrir unidades e certezas que estão sendo perdidas.

Ao relacionarmos o processo de globalização à educação, constatamos que a constituição da identidade dos alunos é marcada pelas contradições apontadas no parágrafo anterior, pois ao mesmo tempo em que cada um apresenta uma variedade de representações e identificações, todos tentam se unificar e se reconhecer por meio de uma identidade cultural global através, por exemplo, de músicas que ouvem, de roupas e estilos que utilizam, atividades que realizam, a linguagem que produzem, dentre outros. A partir desse conjunto de mudanças e de contradições, o ensino perante a pós-modernidade também passa por transformações, que se refletem na metodologia de ensino das escolas, a fim de buscar as novas necessidades do sujeito pós-moderno em sua aprendizagem como constituinte de sua identidade.