Determina-se a Liberdade através da negação ativa do que ela não é: o livre arbítrio. Assim também o ser humano se determina e se difere dos demais, por sua consciência
histórica, bem como pelas possibilidades que se abrem a sua ação livre a partir de tal consciência. Não há destino traçado ou pré-determinado.
O tema da filosofia da história é também a consciência da liberdade e sua efetivação:
[...] a liberdade é a única verdade o espírito. [...] E isso é a liberdade, pois quando sou dependente, então relaciono-me a um outro que não sou eu; eu não posso existir sem um exterior; eu sou livre quando estou em mim mesmo. 151
Quando Hegel afirma a liberdade como sendo a natureza do espírito e o fim absoluto da história,152 não há que se entender sua filosofia em seu sentido necessitário, justamente porque a Liberdade está colocada como princípio e como fim. Isto indica que a Liberdade, mesmo no caso de que no Estado ela esteja mediada pelas instituições, leis, costumes, pelo passado em si, ela, a Liberdade, jamais enfraquecerá como mera contingência em favor de algo que seja mais necessário que ela própria, pois ela é principio e fim. O processo dialético há de sempre conservar a liberdade na medida em que as sínteses sempre a conservam, cada vez mais mediada, mas, nem por isto, enfraquecida.
Não se pode assumir fielmente um neokantianismo e confiar numa imparcialidade impossível advinda da razão, mas o hegelianismo aqui proposto não trata, também, de confiar no tribunal da história, o qual passará a atuar como julgador dos valores que devem ser preservados na sociedade, na medida em que “o preço a ser pago” por esta escolha pode ser muito alto. Não se quer mais passar por uma nova guerra, não se quer mais morrer em vão. Não se quer mais morrer injustamente. E o que isso significa?
Libertar-se, para então se emancipar, ou então emancipar-se, para então se libertar? Os marxistas certamente apostariam na segunda opção, embasados em seu materialismo histórico e dialético. 153
A aplicação do método dialético de Marx e Engels ao estudo da natureza e da vida social permitiu-lhes criar uma doutrina filosófica na qual o
materialismo e a dialética estão inseparavelmente unidos, formando um todo
151 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da história. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995, p.
24.
152 Ibid., p. 28.
153 Marx e Engels, influenciados pela esquerda hegeliana, na qual Feuerbach atuou como principal expoente,
acreditavam que, para o alcance da liberdade seria necessário, primeiro, passar por uma espécie de emaciação de uma classe oprimida de cunho econômico, e por tal motivo a visão de Karl Marx, neste sentido, denomina-se materialismo histórico e dialético, pois, à medida que rompe com o idealismo hegeliano, enfatizando a matéria, se mantém em seu sistema dialético, mantendo a história como sendo a grande impulsionadora dos movimentos de classes. A liberdade, sob este aspecto, seria posterior a uma condição prévia de igualdade em condições de posição econômica.
integral. Assim foi criado o materialismo dialético, como nova interpretação
revolucionária do mundo, a única autêntica, a única que corresponde plenamente aos interesses e objetivos da luta de libertação das massas trabalhadoras. 154
Escreve Löwith que “Na perspectiva da sabedoria e da ignorância humanas, tudo podia ter-se passado de modo diferente nesta vasta reciprocidade de decisões, esforços, malogros e circunstancias históricos.” 155 O fato, porém, é que a história é em si um fato
irreversível, e este é, justamente, o ponto central de que Hegel parte para se posicionar acerca da Liberdade, a qual só existe diante de tal caráter de irreversibilidade que pode ser apropriado pela consciência humana, assim como pode a história ser negada para fins de construção de um futuro que não está pré-determinado, como ocorre com o passado histórico. A razão que governa a história para Hegel, é a própria Liberdade que se constrói e se projeta para um futuro incerto.
O futuro, como história a ser construída, depende da percepção de que só se constrói a história de dentro dela mesma, através da Liberdade que dela faz parte, a Liberdade que a nega e que a reformula, construindo-a. No universal, o particular deve, como bem escreve D’Hondt,156 afirmar sua própria condição. A Liberdade é o pensamento determinando-se a si mesmo enquanto razão.
Jean Hyppolite percebe com clareza o sentido mais profundo das grandes revoluções históricas no pensamento de Hegel:
As grandes revoluções, as que impressionam toda a gente, diz-nos Hegel, são certamente precedidas por revoluções silenciosas, <<de que nem todos se apercebem, que não são observáveis pelos contemporâneos e que são tão difíceis e definir como de compreender>>. É o desconhecimento de tais transformações internas, no corpo social, na vida e nos costumes, que depois torna surpreendentes as revoluções que eclodem aparentemente de forma brusca no palco do mundo. 157
O destino de um povo, bem como de um indivíduo é, para Hegel, a história deste povo ou deste indivíduo trazida à consciência. A partir daí se dá o destino, ou melhor, o futuro, que são as possibilidades que se abrem ao ser humano e à sua Liberdade. A razão e o próprio
154 V. PODOSETNIK, O. YAKHOT. Pequeno Manual do Materialismo Dialético. São Paulo: argumentos,
1967, p. 24.
155 LÖWITH, Karl. O Sentido da História. Rio de Janeiro: EDIÇÕES 70, s.d., p. 199.
156 HONDT, Jacques D’. Hegel, filósofo de La historia viviente. Buenos Aires: Amorrortu editores, [s.d], p. 202. 157 HYPPOLITE, Jean. Introdução à filosofia da história de Hegel. Rio de Janeiro: Elfos Ed.; Lisboa, Edições
indivíduo constroem-se a si mesmos após o momento em que tal indivíduo chega à consciência de quem se é.
Assim, o destino de alguém é este próprio alguém consciente de que é livre e histórico. Compreender o espírito de um povo, o seu destino, não consiste, com efeito, em justapor singularidades históricas, mas em penetrar em seu sentido; o destino não é uma força brutal, é interioridade que se manifesta na exterioridade, revelação da vocação do indivíduo. 158