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Duyarlılık analizi – döviz kuru riski (devamı)

A fim de que se possa efetivamente implementar o Estado Democrático de Direito na República Federativa do Brasil, necessário se faz com que todo o Poder tenha origem popular, efetivando os postulados do Princípio da Soberania Popular, o que não se verifica na estrutura administrativa do Poder Judiciário pátrio.

Relevante transcrever as palavras de Canotilho, explicando-nos as dimensões do Princípio da Soberania Popular:

O princípio da soberania popular transporta sempre várias dimensões historicamente sedimentadas: O povo é, ele mesmo, o titular da soberania ou do poder, o que significa: (i) de forma negativa, o poder do povo distingui-se de outras formas de domínio <<não populares>> (monarca, classe, casta); (ii) de forma positiva, a necessidade de uma legitimação democrática efectiva para o exercício do poder (o poder e exercício do poder deriva concretamente do povo): o povo é o titular e o ponto de referência dessa mesma legitimação; ela vem do povo e a este se deve reconduzir. 4 (grifo nosso).

Logo, na tentativa de adequar tais dimensões à magistratura nacional, alguns juristas defendem que o Poder Judiciário consagra o Princípio da Soberania Popular uma vez que os Ministros do Supremo Tribunal Federal (S.T.F.) e do Superior Tribunal de Justiça (S.T.J.), órgãos da cúpula do Judiciário e guardião da Constituição Republicana de 1988 e das leis infraconstitucionais respectivamente, são nomeados pelo Presidente da República, após aprovação da maioria absoluta do Senado Federal, consoante o disposto nos arts. 101 e 104 da Carta Magna, os quais, por sua vez, foram eleitos democraticamente pelo povo.5

Argumentam, ainda, que na promoção por merecimento para os Tribunais de Justiça e Tribunais Regionais Federais, a nomeação é feita, respectivamente, pelo Governador e Presidente da República, os quais, também foram escolhidos pelos cidadãos através do voto.6

Ademais, defendem que o ingresso no Judiciário ocorre pela via mais democrática de acesso ao poder, qual seja, o concurso público, consagrando o princípio da igualdade, ressaltando a impossibilidade da forma eletiva para a composição da magistratura, que deve possuir isenção político-partidária, posto que o juiz ficaria vinculado a quem o elegeu, ferindo a sua liberdade de julgar.7

Passemos a analisar tais argumentos.

5 OLIVEIRA, Alexandre Nery de. Reforma do Judiciário (II): Controle Externo:- Alternativas. Teresina,

n.12. mai 1997, disponível em:<http.//jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2152>. Acesso em: 10 jun. 2005.

6 Ibid.

7 OLIVEIRA, Alexandre Nery de. Reforma do Judiciário (II): Controle Externo:- Alternativas. Teresina,

n.12. mai 1997, disponível em:<http.//jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2152>. Acesso em: 10 jun. 2005.

A ingerência do Poder Executivo e do Legislativo nos órgãos de cúpula e de 2º grau do Poder Judiciário não garante a consagração do Princípio Democrático na sua estrutura, pois, no Brasil, tal intromissão deturpa, posto que realizada de maneira exagerada e desarmônica, o sistema de freios e contrapesos criado pelo constitucionalismo americano, transformando os Tribunais Superiores em cortes eminentemente políticas.

Desta feita, como ressaltamos no tópico anterior, os setores hegemônicos, representados pela elite econômica, apenas podem efetivamente deter o poder político, na medida em que controlam o Poder Judiciário, órgão responsável por aplicar o direito ao caso concreto.

Essa ingerência dos poderes Executivo e Legislativo no Judiciário que deveria ser, conforme o modelo americano, apenas um contrapeso, a fim dos poderes coexistirem harmonicamente, acaba se deturpando, maculando a aplicação do Princípio Democrático ao Poder Judiciário e conduzindo os seus órgãos de cúpula e de 2º grau a conferirem interpretações eminentemente políticas em detrimento das jurídicas, representando uma atitude inconstitucional, por ferir a independência do Judiciário assentada no art. 2º da Carta Fundamental.

Ademais, o fato de haver concurso público para a escolha dos membros do Judiciário, não caracteriza, por si só, esse poder como democrático, pois, no Brasil, infelizmente, tal forma de seleção apenas leva em consideração o princípio da igualdade formal, que, como ressaltamos no item 2.1, foi uma criação do liberalismo para que a burguesia em ascensão eliminasse as discriminações legais e pudesse, assim, aumentar seus domínios político-econômicos.

Percebemos que a igualdade material não é observada, pois os participantes do certame não concorrem no mesmo nível cultural. Os candidatos detentores de melhores condições financeiras em relação aos demais, possuem uma série de vantagens, tendo em vista que podem comprar livros jurídicos atualizados, estudar em boas faculdades e pagar bons cursos jurídicos preparatórios.

Isso ocorre porque o Governo Brasileiro, devido ao fato de não investir na educação pública de ensino médio e fundamental, faz com que os candidatos oriundos das classes sociais desfavorecidas não ingressem em boas faculdades de Direito, uma vez que não possuem sólidos conhecimentos do ensino básico.

Nesse sentido, o constitucionalista Pinto Ferreira afirma que:

[...] não havendo poder aquisitivo do povo em seu conjunto, é impossível que ele venha a desfrutar os benefícios da civilização, porque a educação ainda é para o povo brasileiro o privilégio de uma minoria e não a herança da própria comunidade.8

Esse descompromisso do Governo com o aspecto social transforma os concursos para a magistratura nacional em certames eminentemente elitistas, a começar pela sua taxa de inscrição que gira em torno de R$ 150,00 (cento e cinqüenta reais), chegando ao absurdo de alguns editais não acatarem quaisquer pedidos de isenção.

Cumpre registrar que o Edital nº 57, elaborado pela E.S.A.F. (Escola Superior de administração Fazendária), que regula o concurso para o cargo de Juiz Substituto da magistratura trabalhista cearense, publicado no Diário Oficial da União em 05 de setembro

de dois mil e cinco, cobrou a taxa de inscrição no valor de R$ 263,00 (duzentos e sessenta e três reais).9

Diante disso, o resultado final no certame acaba tornando-se previsível, no sentido de que somente obtém a aprovação aqueles candidatos que advieram de classes sociais abastadas, estudaram em boas faculdades de Direito, na maioria das vezes as públicas, tiveram condições de comprar livros jurídicos atualizados e de se prepararem em bons cursos preparatórios, mediante aulas ministradas por conceituados professores.

Por essas razões, não podemos afirmar que o concurso público, de per si, atende aos ditames do princípio da Soberania Popular, adequando-se ao Estado Democrático de Direito, proclamado pela Carta Republicana de 1988, pois, no Brasil, privilegia tão- somente a igualdade formal em detrimento da igualdade material, que reflete a realidade de fato e busca a justiça social.

Porém, é preciso esclarecer que, apesar de, no Brasil, se tratar de uma igualdade formal e das críticas que tecemos, somos a favor da via de acesso por concurso público para a magistratura nacional. Os juízes, em nenhum momento, poderiam ser escolhidos mediante o voto, como ocorre nos poderes Executivo e Legislativo, pois macularia os princípios da independência e imparcialidade do julgador, que ficaria vinculado a quem o elegeu.

Temos a consciência de que a implantação da igualdade material nos concursos públicos da magistratura, com a conseqüente democratização do acesso ao Poder Judiciário, apenas ocorrerá quando nossos representantes políticos efetivamente privilegiarem a

9 Edital disponível em: <http://www.trt7.gov.br/webtrt2/concursos/concurso_juiz/>. Acesso em: 12 jun.

educação, qualificando e estruturando as escolas públicas de ensino médio e fundamental, a fim de que as pessoas oriundas das classes menos abastadas possam ingressar em Faculdades Públicas de Direito e passem a concorrer, nos concursos públicos, no mesmo nível cultural que os candidatos oriundos da elite econômica.

É preciso salientar que a aplicação da igualdade material e da justiça social, além de ser uma meta do Governo, teve ser, também, um dos objetivos do Poder Judiciário, na medida em que está inserido no Estado Democrático de Direito. A esse respeito, relevante transcrever os ensinamentos de Kildare Gonçalves Carvalho:

Considerando a realidade do Estado Democrático de Direito positivado no artigo 1º da Constituição brasileira de 1988, tem-se como imperioso que a jurisdição abandone sua postura tímida e promova a justiça social, já que o Estado Democrático de Direito é um Estado de Justiça Social, assim entendido na dicção do artigo 3º da Constituição.” (grifo nosso). 10

Oportuno, no momento, registrar que o Princípio da Soberania Popular, delineado no parágrafo primeiro da Constituição Federal de 1988 reveste-se, na precisa lição de José Afonso da Silva, de uma norma de eficácia plena, isto é, aquela que, ao entrar em vigor, produz, ou tem possibilidade de produzir, todos os efeitos essenciais, relativamente aos interesses, comportamentos e situações que o legislador constituinte, direta e normativamente, quis regular.11

Desta feita, refuta-se, deste logo, inconsistentes argumentos de que o preceito em apreço é uma norma programática, que estabelece tão-somente um programa a ser

10 CARVALHO, Kildare Gonçalves. Direito Constitucional.Belo Horizonte: Del Rey, 2005, p. 719.

11 DA SILVA, José Afonso. Aplicabilidade das normas constitucionais. 3º ed. 3º tiragem. Ed. Malheiros:

observado pelo legislador infraconstitucional, destituído de imperatividade, tratando-se de uma norma apenas formalmente constitucional, sem forma vinculatória.

O próprio Afonso da Silva, em sua brilhante monografia, refuta tais afirmações, defendendo, em claras palavras, a premissa de que não há norma constitucional alguma destituída de eficácia, pois o simples fato de terem aderido ao texto constitucional já lhes atribui força imperativa e vinculatória, em virtude da supremacia e rigidez constitucional.

As normas constitucionais, na visão do publicista, se diferenciam tão-só quanto ao grau de seus efeitos jurídicos, que variam a depender da sua classificação em normas de eficácia plena (que tem aplicabilidade imediata, direta e integral), contida (ou contível ou restringível que tem aplicabilidade imediata, direta, mas não integral) e limitada (que tem aplicabilidade indireta, mediata e reduzida).

Assim, mesmo tratando-se de normas programáticas (que se inclui na categoria de normas de eficácia limitada), José Afonso da Silva afirma:

Em suma, cada vez mais a doutrina em geral afirma o caráter vinculativo das normas programáticas, o que vale dizer que perdem elas, também cada vez mais, sua característica de programas, a ponto, mesmo, de se procurar nova nomenclatura para defini-las. 12 (grifo nosso).

Assim, apenas a título de argumentação, mesmo que se tente caracterizar o Princípio da Soberania Popular como norma programática, o que não condiz com a realidade, pois o mesmo representa uma norma de eficácia plena, como visto anteriormente na doutrina de

José Afonso da Silva, o preceito em análise possui força imperativa e vinculatória, devendo ser observado não só pelo legislador, que não pode emanar leis contra tal princípio, mas também pelo Poder Judiciário, pois constitui o sentido teleológico para a interpretação, aplicação e integração das leis (previsto no art. 5º da Lei de Introdução ao Código Civil13) e pelo Poder Executivo, que deve adotar as medidas necessárias à sua concretização.

Finda tais considerações, passemos a analisar a estrutura administrativa do Poder Judiciário Brasileiro, verificando as formas e requisitos de ingresso na magistratura, promoção na carreira e composição dos Tribunais.

13 Art 5º - Na aplicação da lei,o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem