Nos estudos de prosódia, é amplamente aceito que a entoação possui um papel importante na sinalização da estrutura do discurso. Um exemplo claro é representado pela “continuação ascendente” (continuation rise), que „fornece uma relação de subordinação dentro de um segmento do discurso‟ (HIRSCHBERG e PIERREHUMBERT, 1986 apud SAVINO 2004).
No italiano, estudos tradicionais da variedade padrão parecem confirmar esta tendência de não-finalização (AGARD e DI PIETRO, 1965; CANEPARI, 1979; 1980; 1985; CHAPALLAZ, 1979; D´EUGENIO, 1982 apud SAVINO, 2004), apesar de não irem além dessa descrição geral. A ausência de investigações mais minuciosas desse aspecto da prosódia italiana pode ser parcialmente explicada pelo status particular do italiano em relação a outras línguas como inglês ou alemão. Por razões históricas, o processo de padronização da língua italiana foi alcançado com sucesso na forma escrita, mas não na forma falada, que atualmente é caracterizada por acentos regionais marcantes.
De acordo com Savino (2004), esse estudo baseou-se no italiano de Bari, uma variedade falada na Apulia, na região Sudeste da Itália, cuja estrutura de entoação foi extensamente estudada, principalmente em relação às funções comunicativas. O objetivo desse trabalho foi o de explorar o aspecto menos investigado das estratégias pré-finais e não-finais da entoação no italiano, através de uma avaliação preliminar das estratégias de entoação, utilizadas por falantes do italiano de Bari, na sinalização de relacionamentos de subordinação/coordenação nos segmentos do discurso, e na pré-sinalização de limites do discurso.
Uma série de diálogos espontâneos, em italiano Bari, foram obtidos, utilizando-se uma versão adaptada da técnica “tarefa de mapa” (map-task) (ANDERSON et al. 1991 apud SAVINO, 2004), uma tarefa não-linguística que envolve cooperação verbal entre pares de participantes, cada um com um mapa, e apenas um dos mapas contendo um caminho destacado. A tarefa consiste em transferir, o mais precisamente possível, o curso de um mapa para outro, utilizando-se apenas do canal verbal/auditivo (i.e. sem contato visual). Nos dois mapas, há,
propositadamente, uma quantidade de discrepâncias em termos de distribuição e posicionamento de pontos de referências presentes, cuja finalidade é gerar possíveis desentendimentos ou dificuldades na troca de informações entre os participantes, tal como pode acontecer em qualquer comunicação real entre seres humanos. Mais importante que a análise da produção de fala, o foco é o contorno entoacional e, por isso, é dada uma atenção especial à seleção de nomes de pontos de referência citados nos mapas, os quais devem ser escolhidos de acordo com critérios de presença de sonoridade dos segmentos, posição do acento nas palavras (última, penúltima, antepenúltima, respectivamente).
Oito universitários, com idades entre 22 e 35 anos, participaram da tarefa, todos nascidos em Bari, cujos pais eram provenientes da mesma área linguística e moradores de Bari. Os dois participantes de cada sessão já se conheciam. O corpus consistia em quatro diálogos, os quais foram transcritos ortograficamente e organizados em esquemas de identificação previamente estabelecidos.
O sistema de entoação do italiano de Bari possui um rico inventário de contornos para sinalizar não-finalização e pré-finalização, tanto em fala espontânea quanto na leitura. Algumas
dessas escolhas de entoação refletem a tendência generalizada descrita na literatura de que a não-finalização é transmitida por tons de fronteira não-baixos, enquanto a finalização é realizada
com tons de fronteira baixos. Em contorno não-final, ocorre um movimento gradual de subida que se inicia na sílaba nuclear (a qual é caracterizada por uma F0 situada em um nível baixo) até o final da frase. A subida é mais evidente, quando um maior número de sílabas pós-nuclear está presente; neste caso, a F0 permanece baixa até aproximadamente o final da frase, quando inicia um movimento ascendente no nível da penúltima sílaba. Já no contorno pré-final, a subida da F0 começa antes da sílaba nuclear e continua subindo até o final da frase.
Observou-se, ainda, que o uso de contornos de entoação pré-finais não é sistemático e bem definido em listas lidas, mesmo se a natureza intrínseca da tarefa de leitura possa indicar a hipótese contrária. Os resultados parecem indicar que, nos estudos de estratégias pré-finais de entoação, a simples leitura de listas não é um método totalmente confiável para se obter material de fala para análise de entoação.
Os dois estudos apresentados anteriormente se limitaram a uma descrição do comportamento da entoação no inglês e no alemão. Já o estudo referente ao italiano, além da
descrição do contorno melódico, abordou também o papel das marcas entoacionais na organização do discurso, tomando por base diálogos extraídos de jogos interativos.
Muitos são os caminhos para se estudar a entoação dialetal, diversas são as estratégias de coleta de dados, desde leitura de lista de frases até registros de fala espontânea, mas seja qual for a forma de construir o corpus, há sempre, nos estudos, uma preocupação com a produção de fala, quando o foco é a entoação. Assim, nas estratégias de evocação dos dados, toma-se cuidado com a seleção das palavras, com os segmentos que compõem os vocábulos, com a posição que as palavras ocupam na estrutura do discurso, para que os dados coletados sejam representativos da comunidade de fala que está sendo investigada, tal como foi realizado no estudo sobre o italiano, com a utilização da técnica de “tarefa de mapa” (map task), já que a situação criada provocou uma fala não necessariamente direcionada, pois a escolha do que dizer estava no domínio do falante, criando-se, assim, um contexto dirigido de fala espontânea, o que, com certeza, muito contribuiu para a melhor análise das marcas entoacionais na organização do discurso.