Como se viu, a sede da escola no centro da cidade, numa das suas principais avenidas, foi marco decisivo para demarcação do poder e das cadeias ritualísticas de interação, não diferente de outras escolas confessionais particulares que se instalaram na cidade, nem tampouco de escolas que formam elites em outras cidades e estados. No entanto, para ali instalar-se, foram conectados alguns laços de interdependência, sobretudo com o patronato têxtil.
“Símbolo que representa a cultura” (Viñao Frago e Escolano, 2001, p. 33), não foi gratuitamente que ao longo das gerações as escolas formadoras de elite ocuparam lugares de destaque nas regiões centrais das cidades em expansão. A chegada do Kolleg em Blumenau fez parte de um conjunto de estratégias políticas para deflagrar o processo de urbanização e
modernização da configuração social. Fez parte de um repertório cultural de valores e crenças de outra sociedade, neste caso, a sociedade do século XX, que se aproximava, quando três anos depois do colégio dos padres franciscanos, o Kolleg chegou à cidade em 1895.
Tradição sempre foi o lema do Kolleg, desde sua chegada. Tradição era indicador de competência para as mães. Tradição era marco referencial para as professoras e ao mesmo tempo fator de preocupação na atuação com as crianças pequenas do Kolleg. Segundo as professoras, a escola tinha mantido a tradição. Nos modos de operar, nas festividades, na qualidade da educação ofertada. Mas a cidade nem tanto. Para as professoras, a cidade tinha perdido sua tradição. E indicavam responsáveis por isso aqueles “que vêm de fora”. Na perspectiva dessas profissionais a cidade tinha se modificado. E não viam isso favoravelmente. Segundo elas, a cidade havia sido contaminada, sua potência vocacionada para ser destaque havia sido minimizada. Esse cenário ocupado pelos “estranhos”, pelos “de fora”, parecia inclusive gerar dificuldades para a implantação da proposta pedagógica no dia a dia escolar.
Lá na escola a gente identifica rapidamente quem tem, como diria minha cunhada “pedigree”. Eu trabalho há 22 anos na escola. Eu sinto uma diferença enorme. Claro que nós tentamos permanecer fiéis ao que a escola preconiza. Somos uma instituição de referência, de tradição. Nossa proposta, nossa estrutura, é de muita qualidade. Afinal, os pais cobram. As irmãs cobram. Mas olha, se eu voltasse no tempo, do dia em que comecei a trabalhar, eu sei, você quer só desse período (1980-1999), mas eu poderia te falar que de modo geral, depois das enchentes, parece que tudo começou a piorar. Gente que foi embora, gente que chegou. Não era mais o mesmo
povo. Veio muita gente de fora. Eu não tinha mais os mesmos alunos.
(Professora D., 2007)
Já afirmei na introdução o quanto as professoras manifestaram sentimento de pertença para com a cidade e com a escola diferente daquele manifesto pelas mães. As professoras pareciam manter um forte vínculo de fidelidade para com a escola.
De onde se originou esta fidelidade? Talvez da profissionalização docente das professoras da (pré)-escola do Kolleg planejada desde o seu tempo de alunas, em nome da manutenção da tradição.
O curso normal inaugurado na escola na década de 1962 foi desde o começo, enaltecido como formação de excelência das moças blumenauenses pela imprensa local. Isto não foi diferente em outros estados brasileiros, em se tratando dos cursos de formação de professores. Mas o Kolleg tinha uma finalidade específica no que tange à formação das moças. Ele pretendia ter como corpo docente moças “bem formadas” para atuarem como professoras na instituição. A gestão da escola tinha expectativa e crença que desta forma
criaria coesão interna e continuidade na “aplicação” da filosofia, metas e objetivos da escola no dia a dia institucional. Acreditava que desta forma o “bem servir” à comunidade blumenauense seria mais eficiente, pois as moças ali tinham melhor preparação. Elas teriam melhores condições de “educar na fé” a infância blumenauense. Na (pré)-escola do Kolleg muito raramente eram contratadas professoras “vindas de fora”. Vale ressaltar que na época em Blumenau tínhamos outros educandários que ofertavam o curso normal nos períodos matutino e vespertino.
Figura 6: Normalistas do Kolleg
Fonte: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, 1973.
Ter sido aluna do Kolleg no curso normal e ser “convidada” para nele trabalhar como professora ou como auxiliar, foi algo de grande importância tanto da escolha para ingressar na carreira da escola quanto para nela permanecer, segundo depoimentos das professoras entrevistadas.
Na verdade foi assim, eu trabalhei na escola, quando eu fiz estágio no Kolleg, eu fui aluna lá e sempre fui aluna assim, como eu sempre era da religião católica, eu era catequista, então eu tinha dentro da concepção das irmãs de lá, uma vida né, que dava o perfil de uma profissional daquela escola. Então quando eu concluí meu estágio elas me convidaram para trabalhar com elas. Você sabe que trabalhar numa escola particular, elas me diziam assim: “vocês estão investindo no banco do céu”. Entende? (risos). Então se a gente estava investindo no banco do céu, o financeiro estava dentro do céu. Eu pensava, gente, será que esse é o local para eu instalar a minha vida? (perguntei a ela o que significava essa expressão
“banco do céu”). Ah, significava que a gente não podia assim exigir melhor
salário, é uma profissão em que tem que se doar. Era um perfil exigido, aceitar o que lhe era dado. (Professora S., 2007)
As professoras do Kolleg pareciam formar um grupo próprio. Entendo que a seleção das professoras foi estratégia para resolver a equação de ter no Kolleg indivíduos com predisposições desejadas para efetivar por gerações o projeto educacional da escola. O Kolleg investiu sobre as professoras, ainda normalistas, dispositivos de disciplinamento, controle e regulação, não só do processo de formação inicial, como também da inserção profissional das professoras na carreira do magistério. Os sentidos que permeavam esse contexto eram: bem servir, formar na fé, na disciplina, irradiar. Irradiar... Esta era missão inconteste das professoras, pois era pela irradiação da luz, tanto da divina providência, quanto do saber, que o Kolleg estenderia seus braços sobre a comunidade blumenauense.
Figura 7: Ilustração do convite da turma de normalistas na década de 1970
Fonte: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, 1974.
Nas entrevistas, as professoras consideraram que a disciplina era fator constitutivo do Kolleg desde sua instalação, além de indicar que limpeza e organização faziam parte do cotidiano como sendo qualidades enaltecidas no âmbito da cidade.
Assim como Blumenau foi fundada e colonizada por alemães, o Kolleg tem suas raízes na Alemanha também. As primeiras irmãs, quer dizer, as que fundaram a escola também vieram de lá, sendo que a sede principal, a casa mãe, como chamam, fica na Alemanha. O Kolleg em 1977, quando comecei a trabalhar lá, tinha muito a ver com o resto da cidade. Era sempre limpíssimo, organizadíssimo e com rigidez na disciplina. Não lembro de mudanças significativas entre os anos de 1980-1999. Nesta época ainda permaneciam as mesmas características, um pouco menos rigidez na disciplina. (Professora S, 2007.)
Para preparar os escolhidos, um dos lemas do Kolleg nas décadas de 1980-1999, era necessária disciplina, preservação dos valores, cadeias ritualísticas de interação com agentes específicos, com grupos específicos, pois estes ajudavam a manter o status de tradição. Era uma via de mão dupla. O Kolleg, em sua concepção, fazia um bom trabalho pedagógico, colaborava com a cidade na formação de quadros qualificados. Por sua vez, a cidade, via instituições estabelecidas, divulgava o trabalho do Kolleg e o considerava referência. Nesta cadeia, as famílias, de geração a geração, creditavam ao Kolleg as expectativas do bem servir, do bem formar, disciplinar e irradiar.
A escola preparava o aluno para ser blumenauense de destaque, da produção, não era preparado para contestar nada, os conteúdos já vinham prontos, não tinha muito o que pensar, tinha que executar. Não tinha liberdade para estar questionando, nem professor nem aluno. O conceito de tradição permaneceu. Eu vejo que quase nada mudou. A escola é
conservadora, quer preparar para ser liderança.Os corredores brilhavam,
tinha-se preocupação de que as pessoas que lá chegassem achassem tudo muito bonitinho. Blumenau era a cidade jardim, limpinha, bonita. Hoje Blumenau já é muito diferente. Eu acho sim que o Kolleg está um pouco diferente, mas praticamente os valores e as práticas permanecem as mesmas .(Professora Si, 2007)
Menções explícitas sobre limpeza e disciplina foram encontradas no conjunto das entrevistas e parecem indicar a manutenção do ideário simbólico veiculado na cidade do indivíduo ordeiro, limpo, organizado (Seyferth, 1981; Voigt, 2008). Inclusive demarcadas como expectativas das famílias.
Trabalhar muitos os valores. Os pais mais antigos confiam na escola, na proposta da escola. A família e a escola têm uma cumplicidade. Quem está lá realmente sabe o que o Kolleg quer.É uma escola tradicional, não tem nada novo. Os móveis são antigos, mas tudo muito bem limpo e organizado. Limpeza de parque, limpeza de escola, tudo. (Professora D, 2007)
Tais questões, se confrontadas ao que as professoras afirmavam sobre seu próprio modo de ser e viver na cidade remete à formação, tanto escolar, quanto na própria configuração, potente em inculcar mentalidades que reproduzem no cotidiano essas manifestações culturais tidas como padrão do povo blumenauense.
Sim, tem muitas semelhanças (ela falava sobre semelhanças ou diferenças entre seus modos de ser em relação à cidade). Aprendi com meus avós, pais e vizinhos a deixar o jardim sempre limpo e florido, colaborar na limpeza da rua, principalmente em época de enchente. Esses pequenos detalhes nos levam a fazer o mesmo na vida com os estudos, no trabalho, nas relações em geral. (Professora S, 2007)
Os cadernos de plano das professoras, os materiais didáticos que produziam, os ornamentos que criavam, eram impecáveis em termos de organização, estética e zelo. A professora S, por exemplo, guardava consigo todos os materiais produzidos, de atividades a cadernos de plano, de fotos a lembranças feitas pelas crianças. Todos meticulosamente organizados, limpos e dispostos ordenadamente em sua sala de trabalho, em sua residência. Quando questionada por que tinha tal procedimento respondeu: Meu pai é descendente de alemães, então eu trago isso dos valores da família. (Professora S, 2007).
No entanto, como apresentado no próximo capítulo, as atividades escolares produzidas pelas crianças no dia a dia educativo da (pré)-escola não pareciam indicar, pelo menos não de forma explícita no material empírico coletado, elementos que se assemelhem do que vimos da organicidade e esmero em limpeza, manifestos pelas professoras.
Antes, porém, de entrarmos na parte da tese que explora o cotidiano da (pré)-escola e as atividades infantis nele desenvolvidas, importa conhecer o cenário onde estas se desenvolviam.