Sendo um complexo educativo e possuindo obrigatoriedade de freqüentar a Escola Secundária para a realização da formação de professores, a Escola de Professores do Instituto de Educação deveria se organizar em “cursos nitidamente profissionaes para o
preparo do mestre” (Distrito Federal. Exposição de Motivos, 1932). Desta forma, os alunos da Escola de Professores do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, desde sua entrada na Escola Secundária do mesmo Instituto, se preparavam para ter o “espírito
sadio”, pois deveriam carregar consigo as sementes das novas idéias educacionais. Segundo Lourenço Filho, os novos tempos passavam a exigir dos professores muito mais que “cultivo geral, mais ou menos extenso”. Para que o professor primário “possa cumprir
a missão social que realmente lhe cabe, é forçoso exigir dele, sobre base de cultura geral suficiente, uma sólida preparação tecno-profissional”. É importante enfatizar, no entanto, que a questão da técnica, apesar de supervalorizada, encontra validade no Instituto de Educação apenas quando um outro ingrediente está presente: o conhecimento sobre o aluno. Lourenço Filho chama este fato de “relação conveniente”, isto é, o método só tem validade quando estiver referido ao “educando e [à] finalidade a atingir nele, por
processos compatíveis com o seu estudo de desenvolvimento” (Lourenço Filho. Discurso de criação, 1932).
Aqueles que pretendiam ingressar na Escola de Professores do Instituto de Educação do Rio de Janeiro deveriam submeter-se ao rigoroso sistema de admissão à Escola Secundária, pois, se ao mestre cabe uma missão social com sólida formação técnica e profissional, ao aspirante não basta a vontade: suas aptidões devem ser testadas. Segundo Mario de Brito, diretor da Escola Secundária do Instituto de Educação, com o “movimento
renovador que se vem operando há alguns anos, na educação”, a formação do professorado passou por mudanças necessárias nos institutos de formação, ocasionando duas transformações principais: “para novos métodos, seria imprescindível novo pessoal
de execução”; e “êsses cuidados, quando à administração foi possível, extenderam-se,
recuando, de modo a atingir os próprios candidatos à admissão à Escola Secundária do Instituto de Educação” (Brito, 1934, p. 25).
Desta forma, a Escola Secundária funcionava como uma espécie de filtro para aqueles que futuramente desejassem freqüentar a Escola de Professores. Estas duas escolas
se constituíam a partir de um sistema fechado, isto é, só era permitida a admissão de novos alunos no primeiro ano da Escola Secundária. Criava-se, pois, uma obrigação mínima de oito anos de estudos para os futuros mestres formados pelo Instituto de Educação, além de um “cuidadoso estudo individual do aluno, oferecendo base de seleção para a Escola de
Professores, pela consideração das condições de saúde, temperamento e inteligência” (O Instituto de Educação, 1934).
O rigoroso sistema de admissão à Escola Secundária visava conferir as condições de saúde e de inteligência dos candidatos. Segundo Mario de Brito, ao exame de admissão não bastava a avaliação das condições mínimas dos candidatos:
“Fazendo-o, não só seriam escolhidos os que apresentassem maiores probabilidades de sucesso no magistério, como não seriam mal encaminhados os que a tal profissão não se adaptando reunissem, entretanto, os requisitos bastantes para êxito em outras atividades. Não seriam sancionados, assim, sem mais detido exame, pelo poder público, que deve encarar tais assuntos por outro prisma, o simples desejo dos pais, de que seus filhos abraçassem uma determinada carreira, na ignorância, às vezes completa, das suas tendências pessoais e aptidões relacionadas com o gênero de atividade escolhido. Ao lado de um benefício de natureza coletiva, cifrado em melhorar os corpos docentes, prestava o govêrno municipal, neste sector das suas atribuições, inestimáveis serviços de caracter individual, para muitos candidatos ao magistério, com indiscutível reflexo de benefício público” (Brito, 1934, p. 27-28 – grifo no original).
A seleção se organizava em várias etapas: na primeira, os candidatos passavam por um exame de saúde realizado por várias comissões médicas, das quais fazia parte também o Serviço Radiológico e de Pesquisas Clínicas da Diretoria Geral de Assistência Municipal (Ofício do Diretor, 26/03/34), com fins de exames complementares. Alguns itens indispensáveis constavam na verificação das condições de saúde: o candidato não podia ter peso inferior a dez quilos, nem superior a quinze quilos, do peso considerado normal à idade e ao sexo; seria verificada a presença de lesões no esqueleto e nas articulações, ficando reprovado o candidato que as apresentasse; aqueles que não possuíssem “os
órgãos de mastigação – dentes – em estado de boa conservação e higiene” estariam igualmente excluídos; etc (Brito, 1934). Os objetivos desta primeira fase da admissão à Escola Secundária iam muito além do simples controle dos futuros alunos do Instituto de Educação, como nos descreve de forma muito clara Mário de Brito:
“Os benefícios de tal exame, como simples advertência ou como providência indispensável e inadiável em certos casos, não ficaria adstrito, por esta forma, ao número relativamente reduzido dos alunos aceitos após as provas de inteligência e preparo, constituindo-se, ao contrário, em centro irradiador de educação higiênica e sanitária para alguns milhares de indivíduos, dado que a propaganda que os mesmos representam para a consecução dêsse objetivo atua também nos pais e demais pessoas das famílias dos candidatos” (Brito, 1934, p. 28).
Os candidatos aprovados no exame de saúde passariam por um teste de inteligência, do qual sairiam aqueles considerados “mais capazes”. O teste utilizado seguia os moldes do que fora utilizado para seleção no exército americano na ocasião da Primeira Guerra Mundial, “introduzidas cuidadosamente as modificações necessárias e feita a adaptação
indispensável”, pelas quais se responsabilizou José Paranhos Fontenelle – chefe da Seção de Medidas e Eficiência Escolares no Instituto de Pesquisas Educacionais, Professor-chefe da Seção de Biologia Educacional e Higiene da Escola de Professores e Professor de Estatística aplicada à Educação na Escola Secundária do Instituto de Educação do Rio de Janeiro. O aumento do número de candidatos a cada ano contribuía para um estudo estatístico apropriado, “de modo a bem localizar a separação entre os que devem e os que
não devem ser aceitos” (Brito, 1934, p. 31). A última etapa do concurso de admissão era constituída por provas escritas eliminatórias, que seguiam uma ordem específica: a primeira prova seria de Aritmética; aqueles que fossem aprovados nesta, estariam aptos à prova de Português e, posteriormente, a uma de Desenho, que consistia em realizar uma
“cópia do natural”. Uma vez o candidato sendo admitido à Escola Secundária, deveria ainda, ao longo do curso, se submeter a “exames periódicos de robustez, para
classificação nos exercícios de Educação Física” (O Instituto de Educação, 1934). Em discurso de Lourenço Filho na ocasião da efetivação de professores para a Escola Secundária, o exame de saúde, inteligência e preparo inicial é apontado como um dos fatores essenciais para a “melhoria constante e progressiva da orientação do ensino” (Lourenço Filho. Discurso aos professores, 1933).
Superada a etapa do Exame de Admissão3, os alunos considerados mais capazes cursariam o ciclo fundamental e o complementar da Escola Secundária, para, depois de
3 Liète Accácio, em sua dissertação de mestrado (1993), descreve de forma bela, entrelaçando fontes escritas e orais, as difíceis situações pelas quais passavam os candidatos frente ao exame de admissão da Escola Secundária do Instituto.
novos processos seletivos, apenas os melhores ingressarem na Escola de Professores do Instituto de Educação. Estas duas Escolas estavam interligadas por diversos aspectos, dentre eles pela organização de suas matérias, que conferiam uma unidade de objetivos entre todas as escolas do Instituto de Educação. As grades curriculares das Escolas Secundária e de Professores apresentavam-se interligadas através do curso complementar. A Escola Secundária, em 1932, era organizada de modo a promover a “formação integral
da personalidade do adolescente”, apresentando-se dividida em dois ciclos: o fundamental, com duração de cinco anos, e o complementar, de um ou dois anos. Anísio Teixeira, então Diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, explica esta diferença na duração do curso complementar: “Enquanto a Escola de Professores não mantiver cursos
para a preparação de professôres secundários, o curso complementar será de um ano, limitação que se faz necessária para não tornar excessivo o tempo exigido à formação do mestre primário”. (Distrito Federal. Escola de Professores, 1932/1937).
O ciclo fundamental era comum a todos os alunos da Escola Secundária e mantinha o caráter educativo e geral conforme “a legislação federal em vigor, tendo em vista a
validade dos seus diplomas para as escolas superiores da República”. Para fins de currículo, a Escola Secundária apresentava-se em igualdade com o Colégio Pedro II (MES. Decreto nº 19.890, 18/04/1931), além de conservar da antiga Escola Normal os cursos de Higiene e Puericultura, Trabalhos Manuais, e acrescentar o de Noções de Direito Público e Privado4. Já o ciclo complementar era específico e obrigatório para aqueles que pretendiam ingressar na Escola de Professores do Instituto de Educação, sendo constituído de
“matérias básicas, necessárias ao futuro preparo do mestre” (Distrito Federal. Escola de Professores, 1932/1937). As matérias do ciclo complementar são apresentadas a seguir:
4 A grade curricular do ciclo fundamental da Escola Secundária e a grade do Colégio Pedro II podem ser observadas no anexo 1, juntamente com a relação de professores da Escola Secundária do Instituto de Educação.
ESCOLA SECUNDÁRIA
Ciclo Fundamental (5 anos) Ciclo Complementar (1 ou 2 anos)**
Currículo equiparado ao do Colégio Pedro
II*
mais as matérias de: Higiene e Puericultura; Trabalhos Manuais;
Noções de Direito Público e Privado.
* em anexo
Literatura;
Inglês ou Alemão; Fisiologia Humana; Psicologia Geral;
Estatística Aplicada à Educação; História da Filosofia;
Sociologia Geral; Desenho;
Educação Física.
** De acordo com o ingresso para formação
de professores primários (1 ano) ou secun- dários (2 anos) na Escola de Professores.
Quadro 2.1. Matérias do Ciclo Complementar da Escola Secundária. Fonte: Distrito Federal. Escola de Professores do Instituto de Educação do Rio de Janeiro.
Após a realização do ciclo complementar, o aspirante a professor poderia ingressar na Escola de Professores. Esta Escola corresponderia, segundo Lourenço Filho (1934a), “à
função de ensino pedagógico da antiga Escola Normal” (p. 21). Para compreendermos a dimensão da mudança empreendida na formação de professores com a criação do Instituto de Educação, vale verificarmos a grade curricular da Escola Normal implementada durante a reforma de Fernando de Azevedo, que se realizava após o curso primário e o complementar5. As matérias pedagógicas estão marcadas em negrito:
5 De acordo com Lopes (2003), a adaptação das alunas em relação à mudança dos cursos da Escola Normal para os cursos do Instituto de Educação não ocorreram de maneira amena,
“sobretudo porque antes da reforma de Azevedo o curso normal era integralizado em quatro anos depois do primário, sendo a partir de 1928 acrescido de um ano e, com a reforma de 1932, passou-se a exigir oito anos de estudos, após o primário” (p. 107). Algumas alunas, insatisfeitas
com o prolongamento dos estudos entram na justiça para garantir os direitos adquiridos, fato que acabou por engendrar o Decreto nº 156 de 30 de dezembro de 1936, que possibilitou que as professorandas se diplomassem como professoras primárias, mesmo sem terem freqüentado os cursos da Escola de Professores, conforme explico em minha dissertação de mestrado: “Em finais
do ano de 1936, o poder legislativo decreta ‘aos alunos da antiga Escola Normal do Distrito Federal, matriculados sob o regimen do Decreto nº 3.281, de 23 de janeiro de 1928, o direito de concluirem o pespectivo curso de acordo com o programa de ensino e o período escolar de cinco anos, estabelecidos pelo respectivo regulamento’. Três leis se articularam no sentido de conceder o diploma aos alunos que estavam de acordo com o antigo regulamento, prejudicando o andamento das aulas da Escola Secundária (Ciclo Fundamental e Complementar) e da Escola de Professores: lei nº 109, de 21 de outubro de 1936; lei nº 129, de 12 de dezembro de 1936; e lei nº 156, de 30 de dezembro de 1936. A freqüência dos alunos do Ciclo Complementar, antes do primeiro decreto, era de 90%, e depois passou para 62,96% e 20,37% nos dois últimos meses de aula, respectivamente. Lourenço Filho comenta sobre o acontecido no relatório referente ao ano de 1937: ‘Com efeito, a referida lei [nº 156] determinou fossem expedidos diplomas de professor
Escola Normal
1º ano 2º ano 3º ano
Curso propedêutico Português Francês Inglês Geografia Aritmética e álgebra Trabalhos manuais Desenho Música e canto Educação física Português Francês Inglês Corografia do Brasil Geometria e trigonome- tria retilínea História da civilização Trabalhos manuais Desenho Música e canto Educação física Inglês Literatura vernácula Química História natural Anatomia e fisiologia humanas Psicologia História do Brasil Noções de direito Trabalhos manuais Desenho Educação física 4º ano 5º ano Curso profissional Física Química História natural Psicologia experimental Pedagogia Didática Desenho Educação física Sociologia História da educação Higiene e puericultura Pedagogia Didática Desenho Educação física
Quadro 2.2. Grade curricular da Escola Normal implementada na Reforma de Fernando de Azevedo no Distrito Federal. Fonte: Vidal, 2001.
primário aos alunos que, matriculados na antiga Escola normal, até o ano de 1932 inclusive, já tivessem cinco anos de estudo com aproveitamento. Isso significava que os matriculados na série única do Curso Complementar, e 1º e 2º anos da Escola de Educação fossem considerados como tendo o curso completo’” (Pinto, 2001, p. 116).