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Tatit (1987) defende a existência de um núcleo responsável pela identidade da canção, isto é, pela centralidade do sentido. De acordo com o autor, ao se pedir a alguém que cante uma canção para que esta possa ser identificada, ouve-se uma linha melódica com trechos da “letra” ou uma declamação de versos acompanhada da melodia”. Daí o registro autoral de uma composição girar em torno da letra e/ou melodia, enquanto a harmonia, o arranjo instrumental e a gravação sofrem alterações a cada nova versão, a identidade, ou seja, aquilo que possibilita a diferenciação entre uma dada canção e outra, estaria nas duas esferas evocadas: a melódica e a linguística7.

Apresentamos, na sequência, o que o autor nomeia de três modelos de

compatibilidade entre melodia e letra, apontando-os como definidores da canção popular

brasileira. Assim, todas as canções produzidas apresentariam de modo “dominante”, “recessivo” e “residual” traços figurativos, passionais e temáticos.8

a) Persuação figurativa

A melodia está para o canto assim como a entoação está para a fala. São as cordas vocais que estão a serviço dessas duas ações. Ao se deparar com a canção, dentre outras coisas, o ouvinte vê-se diante de um simulacro em que alguém (intérprete) diz (canta) algo (texto) de uma determinada maneira (melodia). Essa ação simulada possibilita à canção um estatuto popular, uma vez que qualquer ouvinte pode reconhecer ou se identificar com uma situação cotidiana de fala.

A ideia que se apresenta nesse tipo de canção é que toda e qualquer canção popular apresenta as inflexões entoativas e as características mais representativas da fala.

7 Não abordaremos a melodia em termos comparativos entre a versão original de uma canção e sua versão

retextualizada por não acreditarmos haver uma variação significativa de tal semiose.

Os traços figurativos estariam presentes em canções como, por exemplo, o samba-de- breque, definido por Tinhorão (1974) como uma variante do samba-choro que, por seu parafraseado extremamente sincopado, permite interromper a linha rítmico-melódica para encaixar frases faladas, sem quebra da unidade da composição (p. 163).

Nos dizeres de Saraiva (2010), a figuratização confere à canção o indispensável efeito enunciativo, criando no ouvinte uma sensação de que o cancionista não estaria proferindo falsas palavras, fazendo, portanto, o constante uso de elementos que ancorem seu dizer na situação enunciativa, ou seja, de elementos dêiticos.

Como as entoações possuem a função de enfatizar as informações mais

relevantes do texto, elas acabam por se acomodarem às acentuações das palavras do texto, abrindo mão de sua própria autonomia rítmica.

Figuratizar significa fazer parecer uma situação comunicativa do cotidiano. Este processo se apresenta de forma saliente especialmente em canções formuladoras de situação locutiva. Para isso, recursos que transmitem um tom natural e familiar à canção são empregados, como: o diálogo, acomodação da melodia ao texto, uso de dêiticos, (inclusive de imperativos, vocativos, exclamações, interjeições, expressões prontas e gírias.). A persuasão figurativa implica, portanto, não só fazer com que o destinatário ouvinte identifique na canção uma situação comunicativa do cotidiano (que pareça “realidade”), mas também que tenha a impressão de que esta esteja sendo vivenciada no momento em que a canção esteja sendo executada.

b) Persuasão passional

A persuasão passional implica um processo em que o destinador locutor

valorize de tal forma os sentimentos relatados que venha a emocionar o destinatário, ouvinte. As modalidades, que são dispositivos que possibilitam analisar as emoções emergentes no texto e sua conversão em figuras passionais, é que permitem que a compatibilidade entre letra e melodia seja estabelecida. A melodia reforça o que o texto expressa, e isso se dá também através de modalidades, traçando um contorno no mesmo sentido da letra. Na melodia, as tensões anteriormente citadas no domínio do texto são representadas pelos tonemas9 não asseverativos, isto é, aqueles que transmitem ideia de

continuidade, fazendo, portanto, com que a tensão se mantenha. Assim, elevações melódicas ou permanências no tom se compatibilizam com figuras passionais, uma vez que ambas expressam tensões analisáveis por modalidades (TATIT, 1987).

Segundo Tatit (1987), a ideia que se apresenta nesse tipo de canção é que toda e qualquer canção popular apresenta as inflexões entoativas e as características mais representativas da fala. Os traços figurativos estariam presentes em canções como, por exemplo, o samba-de-breque, definido por Tinhorão (1974) como “uma variante do samba- choro que, por seu parafraseado extremamente sincopado, permite interromper a linha rítmico-melódica para encaixar frases faladas, sem quebra da unidade dacomposição” (p. 163). Como as entoações possuem a função de enfatizar as informações mais relevantes do texto, elas acabam por se acomodarem às acentuações das palavras do texto, abrindo mão de sua própria autonomia rítmica. As melodias entoativas fazem morada nas vogais e vivem de sua duração. Já que o texto não apresenta ritmo, no que diz respeito a algumas regularidades métricas, a melodia entoativa que o acampanha também apresenta a mesma natureza irregular da perspectiva sonora. Como toda e qualquer canção apresenta esse tipo de persuasão, alterando apenas o nível de manifestação: em uma escala, em um polo, há canções que explicitam a simulação de linguagem cotidiana e, em outro polo, há canções que deixam ver as elevações e descendências de característicos do discurso oral nos finais de frases melódicas (nos chamados tonemas).

c) Persuasão decantatória

A persuasão decantatória apresenta-se em uma classe de canções que se caracteriza basicamente por um tema melódico e um actante construído, que garantem a compatibilidade entre texto e melodia. A construção da tematização no âmbito da esfera textual dá-se através da exaltação do actante. Este sujeito de um fazer,que atinge os demais actantes presentes na canção, atua na esfera da sedução, tentação, atração, entre outros. A compatibilidade entre letra e melodia em canções que se caracterizam pela persuasão decantatória dá-se da seguinte forma: o destinatário locutor apresenta, na canção comunicada, uma melodia marcada por um comportamento reiterativo, cíclico e regular, ao mesmo tempo em que enuncia um texto que exalta o movimento também cíclico do actante, seu instrumento essencial de persuasão. É o traço de periodicidade, presente tanto

na letra como na melodia, que representa o ponto de compatibilidade entre essas duas dimensões da canção (TATIT, 1987).

Benzer Belgeler