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3. Gereç ve Yöntem

3.3. Araştırmada Test Edilen Parametreler ve Ölçüm Yöntemleri

3.3.10. T-Drill (Çeviklik)

Ainda no século dezoito, período de modernidade marcado também pela implantação do capitalismo, é notável o letramento de uma maior parte da população. O processo de aprendizado da linguagem escrita era bastante solitário, caracterizado pela relação entre o indivíduo e o livro. Este ‘diálogo consigo mesmo’ no qual o indivíduo moderno se encontrava expandia-se no momento em que o leitor tornava-se também um escritor – ao menos de diários e de cartas, formas de expressão escritas ligadas à esfera individual. (SIBILIA, 2014).

A prática de se escrever tornava os leitores tão íntimos do ferramental necessário – caneta, tinta, papel, livros – quanto os sujeitos contemporâneos são de seus smartphones e dispositivos móveis. Esta intimidade ocorria com o exercício diário da introspecção, certo grau de solidão e silêncio, culminando nas condições de formação da própria subjetividade da época.

‘Estar só’ diante de um livro era um novo modelo de ‘estar só’, e este novo modelo só pode emergir por conta das condições culturais e tecnológicas da época, assim como a atual ‘exposição da intimidade’, ou ‘a intimidade como espetáculo’, conforme Paula Sibilia (2008) sugere no título de seu livro, é fruto de um outro ferramental e de uma outra cultura.

Um ponto relevante levantado por Sibilia (2014) refere-se ao fato de que este típico ‘sujeito moderno’ não incluía as mulheres. A escritora Virginia Woolf, em seu ensaio

63 No período de 2002 a 2006, Phil Gyford, blogueiro londrino, alimentou o blog http://www.pepysdiary.com/ com os textos escritos por Samuel Pepsy séculos antes, criando um espaço no qual diversos outros usuários de internet conversam sobre os textos de Pepsy até os dias de hoje, numa curiosa atualização do que é conhecido como o primeiro diário do qual se teve notícia.

Um Teto Todo Seu (São Paulo: Círculo do Livro, 1929), discorre sobre a razão de não haver

um grande número de boas mulheres romancistas, afirmando que elas não tinham direito a um quarto ou a obtenção de renda. Apenas as famílias muito ricas podiam dispôr de quartos individuais em suas casas, e não era permitido às mulheres que elas exercessem trabalho remunerado.

Estes fatores impossibilitavam que elas desenvolvessem sua subjetividade, sua vida interior, da mesma forma como os homens desenvolviam. Como consequência, a característica de leitoras-escritoras era inviável à maior parte da população feminina.

Woolf, colocando-se ficcionalmente no lugar de leitora de um primeiro romance escrito por uma jovem que habitava um quarto-e-sala, clama que “Dêem-lhe mais uns cem anos. (…) Dêem-lhe um quarto próprio e quinhentas libras por ano, deixem-na falar livremente e ponham de lado metade do que ela agora afirma, e um dia desses ela escreverá um livro melhor.” (WOOLF, 1929, p. 116).

A separação entre o quarto e a sala guarda profunda relação com a separação entre as esferas pública e privada – era notável a progressiva especialização dos “cômodos das camadas privilegiadas, ditando nova orientação para as atitudes privadas das famílias, ao contrário do que ocorria nos ambientes superlotados e multifuncionais das casas populares” (BRITO, 2003, p. 280).

Assim como a subjetividade moderna necessitava de um espaço privado para se desenvolver, observou-se que grande parte da produção de conteúdo para esta nova grande mídia iniciou-se também dentro dos quartos, cenário recorrente desde os blogs, porém de maior visibilidade nas produções em vídeo.

Desde as camgirls64, passando pelos vloggers e, atualmente, YouTubers, é possível

listar uma série de exemplos de produtores de conteúdo que iniciam seus canais num quarto, mesmo que diante de paradigmas e subjetividades já bastante diferentes do que se apresentava séculos atrás, já que atualmente, ainda que a produção aconteça com pessoas fisicamente isoladas em seus quartos, estas se encontram mais conectadas que nunca a todos os outros sujeitos contemporâneos.

64 Camgirls é o nome dado à geração de garotas que conversavam com suas redes de interessados sobre seus cotidianos e transmitiam-no através de suas webcams. Esta prática, comum do final da década de 90 até o começo dos anos 2000, foi estudada e documentada no livro Camgirls (2008), de Theresa Senft, que previu uma série de comportamentos comuns aos produtores de conteúdo audiovisual para internet contemporâneos.

Essa “subjetividade contemporânea”, segundo Sibilia (2008), não é mais controlada através das “paredes” que, embora gerassem privacidade e intimidade, eram também enclausuradoras e limitantes, mas sim pelas “redes”, e estas, mesmo tendo possibilitado certa liberdade dos limites físicos, estão impondo outros limites, exercendo outras formas de poder.

Sibilia (2014) sugere ainda a possibilidade de uma crise conflitiva entre as “paredes” que, no sentido literal, estão muito mais sólidas, blindadas e protegidas do que nunca estiveram, e as “redes”, que são capazes de se infiltrar neste confinamento blindado. O silêncio e solidão, tão importantes na constituição do indivíduo moderno, já não são tão relevantes na configuração dos modos de ser e de se lidar com o mundo atual.

Já não se trata mais do confinamento e do quarto próprio para se aprender a ler e escrever e, como consequência, desenvolver uma subjetividade – a escola tomou para si a alfabetização, inclusive. É cada vez mais necessário tornar-se visível e conectado para que um indivíduo exista na contemporaneidade, e essa noção se amplifica quando se trata dos novos comunicadores.

A visibilidade é algo naturalizado, e tornou-se necessário aprender a lidar com aparatos digitais, tanto para a realização de atividades cotidianas quanto para a manutenção do contato social. Essas habilidades são necessárias também para a criação do “eu visível” (SIBILIA, 2014), produto de si mesmo capaz de despertar curtidas e compartilhamentos e, consequentemente, que possibilita a conexão com os outros. Essa construção de si envolve, entre outras questões, a necessidade de estar sempre disponível, online, em contato permanente com a própria rede individual.

Benzer Belgeler