• Sonuç bulunamadı

Dentre os comentários dos leitores de mensagens compartilhadas, verificamos serem significativos aqueles relativos à valoração da atribuição de autoria e à cobrança de veracidade nessa atribuição. Outros leitores expressam, em seus comentários, uma espécie de mimese do que foi enunciado na mensagem, seja em relação ao conteúdo, seja em relação à forma de expressão. Essa mimese demonstra, em certa medida, uma relação simbólica com o texto e seu autor, que remonta, em certa medida, à concepção que se fez da autoria em outros momentos de nossa história – e cujo respeito pela “auctorictas” era demonstrado por seus leitores com o exercício de reprodução do modelo, que transmitia aos que copiavam a aura da autoria. Assim, retomando as considerações de Larrosa (1999), pautadas por Foucault em sua aula inaugural do Collège de France (cf. FOUCAULT, 2012), o funcionamento paradoxal no comentário reside em repetir o que foi dito no texto primeiro e, ao mesmo tempo, apresentar algo novo.

Dessa forma, o dispositivo do comentário pressupõe

um princípio de seleção dos textos e, ao mesmo tempo, um conjunto

de regras que estabelecem as formas legítimas de relação com esses textos, isto é, de leitura, se entendemos por leitura a produção regulada de textos (orais ou escritos) a partir e em entorno de um texto principal (LARROSA, 1999, p.117, grifo nosso).

Partindo desse princípio de seleção dos textos, não é qualquer texto que pode ser comentado pois, para o funcionamento dessa função, é necessário que o texto apresente a suspeita de esconder algo mais, seja um segredo ou uma riqueza, como os textos religiosos, jurídicos, literários e científicos, que contém mais do que refletem em sua superfície. Assim, como no caso de nosso objeto, advindo de textos literários, a necessidade dos comentários se faz por dizer algo que não está simplesmente exposto, mas escondido nas camadas do texto, naquilo que cabe ao leitor descobrir e expor.

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Figura 15 Comentário de “comentarista” digital em mensagem compartilhada publicada pela página O Mundo De Caio

Fernando Abreu e Clarice Lispector, atribuída a Clarice Lispector. Fonte: disponível em <https://goo.gl/mFQL5I>. Acesso em: 12 abr. 2014.

(Mensagem 04) Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e ás vezes receber amor em troca.

(Comentário 03) Eu concordo em parte com isso, e ouso dizer que até gosto dessa ótima autora. Amar a nosso semelhante agrada sim a Deus mas a verdadeira salvação é aquela que te leva ao único caminho que conduz à vida eterna: Reconhecer que só Jesus é o único e suficiente Salvador, e só se entende isso por uma atuação maravilhosa do Espirito Santo.

No enunciado destacado (Mensagem 04), apesar de sua temática não se voltar explicitamente a questões religiosas, ela se faz presente no comentário do leitor (Comentário 03), que lê a partir de sua chave de leitura religiosa, acionada em função do uso da expressão “única salvação”. O emprego recorrente dessa expressão no contexto religioso produz um comentário sobre a autoria que é relativamente distinto dos demais. Normalmente, há de antemão uma recepção exclusivamente eufórica e valorativa do que o autor enuncia. Neste comentário, o leitor relativiza esse valor ao modalizar que “concorda em parte” e que “ousa dizer que até gosta dessa ótima autora”. Essa ressalva se faz não em função do que foi dito ou de quem seja a autora, mas em função do que não foi dito: a afirmação de que a “única salvação” é Deus. A figura de um bebê ao lado de sua mãe, atado a aparelhos médicos que o mantêm vivo,

92 | P á g i n a expressando seu carinho ao elevar a mão e tocar o rosto de sua mãe, juntamente com o enunciado escolhido para compor a mensagem, também orienta a apropriação realizada pelo leitor.

A veiculação desse enunciado destacado em suporte diferente daquele em que originalmente figurou afeta a sua apropriação. A Figura 15 é um exemplo característico disso. Os elementos acrescentados à mensagem (no caso, a imagem) e o procedimento de seleção do enunciado destacado conduzem a uma forma de apropriação proveniente do campo religioso, uma vez que

a descontextualização das aforizações está associada a uma opacificação de seus sentidos. Sua interpretação exige do destinatário uma ‘atitude hermenêutica’ que o leva a mobilizar um certo número de estratégias interpretativas [...] partindo do princípio de que a aforização resulta de uma operação que destacaria o que é pertinente, o destinatário deve construir interpretações que permitem justificar essa pertinência (MAINGUENEAU, 2014b, p.30).

Dessa forma, cabe ao leitor e também ao produtor das mensagens, que também se coloca como um leitor ao realizar a seleção do trecho do livro e a escolha de imagens para a composição dessas mensagens destacar o que é pertinente. Essas formas de apropriação, isto é, de inscrição do leitor no texto e de construção de um “diálogo” entre autor e leitor, nos permite, classificar os leitores que comentam esses enunciados que figuram em sites de redes sociais como escrileitores (cf. MOMESSO, 2011), uma vez que eles não apenas leem as “frases”, mas sinalizam sua aprovação ou recusa, seja por meio de comentários ou pela opção de curtir ou compartilhar essas mensagens.

Além das formas de apropriação apresentadas nos exemplos anteriores, os leitores comentam como podem e devem, a partir do repertório cultural no qual estão inseridos ou familiarizados, de modo a fugir do que se espera dos comentários relativos a textos literários.

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Figura 16 Exemplo de dessacralização em mensagem compartilhada publicada pela página Caio, Tati e Clarice o que me diz, atribuída a Caio Fernando Abreu.

Fonte: disponível em <https://goo.gl/IxO8Bp>. Acesso em: 16 jun. 2014.

(Mensagem 05) Vontade de pedir silêncio. porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo: quero ficar com você.

(Comentário 04) Caio, sempre sambando na minha face. ♥ *-*

A mensagem anterior (Mensagem 05) é atribuída a Caio Fernando Abreu, sendo voltada à temática de aconselhamentos sobre relacionamentos. A imagem escolhida para compô-la é a de um casal trocando carícias na água – sendo esta uma imagem recorrentemente utilizada para cenas de filmes e livros de conteúdo romântico, criando uma espécie de memória de imagens.65

Ambos, tanto enunciado verbal ou imagético são aparentemente atemporais, podem ser lidos em diferentes épocas e remetem à ideia central de amor e relacionamento. No entanto, o comentário da leitora, utiliza-se de uma expressão atual, “sambando na cara”, que remete à ordem da realização de algo incrível, de apresentar algo admirável, maravilhoso. O sintagma em questão demanda o preenchimento do complemento nominal “sambar na cara de alguém/alguma coisa”.

A atualidade da expressão e a dessacralização manifesta no tipo de comentário não se

65 Courtine (2011) afirma que uma imagem nunca é “nova”, inédita e nunca vista; há uma relação de memória, um “sempre já”. Dessa forma, o autor propõe o conceito de intericonidade, que é a relação de memória entre as imagens, compreendidas a partir de um tratamento discursivo.

94 | P á g i n a inscrevem apenas na utilização dessa expressão, que é realizada em concordância com os padrões estabelecidos dentre a comunidade de leitores que comentam e compartilham mensagens, mas também pelo vocativo utilizado para se referir ao autor. No comentário, ele é mencionado apenas pelo primeiro nome: Caio. Esse emprego implica numa relação de proximidade entre leitor e autor, e tal proximidade permite o emprego de formas que não são esperadas daqueles que comentam de modo a expressar sua opinião acerca de um texto literário. Outro elemento que sinaliza essa dessacralização e um certo domínio das formas de expressão próprias da internet encontra-se na utilização de emoticons66 que sintetizam suas emoções – no

caso, de amor (representado pelo coração) e admiração (olhos brilhando, grafados por um hífen entre dois asteriscos).

É recorrente, nos comentários das mensagens compartilhadas, a utilização de formas que revelam uma proximidade entre autor e leitor, que se difere, em certa medida, daquela estabelecida entre os críticos literários, leitores reconhecidos e autorizados das obras impressas desses autores. Dentre as formas utilizadas, há aquelas que remetem a uma proximidade emocional: “querido Caio”, “o Cainho”, “Caião”, e outras que impõem alguma forma de respeito e/ou reconhecimento. Embora não recorram ao emprego usual, formal, relativo aos modos de referência ao nome de autor literário, deles se aproximam ao utilizarem apenas as iniciais, ou parte das iniciais, como “C.F.A”, “Caio F. Abreu” ou “Caio”, para Caio Fernando Abreu, e “C.L.” e “C. Lispector” para Clarice Lispector.

É notório que a utilização de formas de interpelação que revelam proximidade é mais recorrente em comentários feitos para textos de Caio Fernando Abreu do que em relação a textos de Clarice Lispector. Uma possível justificativa para esse emprego, no caso de Caio Fernando Abreu, é ser menos conhecido e respeitado, isto é, menos “academicizado” nas instituições que definem, por exemplo, o currículo das escolas, de modo que o nome “Clarice Lispector” é mais constante e mais imponente em sua totalidade. Além disso, a extensão do nome completo de Caio também contribui para o uso de abreviaturas ou outras formas de grafia.

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Figura 17 Comentários de "comentaristas" digitais em mensagem compartilhada publicada pela página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, atribuída a Caio Fernando de Abreu.

Fonte: disponível em <https://goo.gl/0j56O9>. Acesso em: 14 abr. 2014.

(Mensagem 06) Anota aí para seu futuro: Desapegar das pessoas, se importar menos, não se abalar por nada nem ninguém. Correr atrás daquilo que faça seu coração vibrar, ficar perto de quem te quer bem. Correr atrás dos seus sonhos, se amar mais. Esquecer tudo aquilo que te faça mal.

(Comentário 05) Margaridas amo, quando eu passar desta vida p/outra quero margaridas tá, rsrsrsr, lembro sempre do meu vô walter...

(Comentário 06) Não concordo com a primeira parte do texto. Se desapegar das pessoas, se importar menos, se se abala [sic] por nada e nem ninguém??? Se fizer isso deixaria de ser Humana!! As pessoas já fazem isso, é por isso que estamos com o mundo assim, porque cada um pensa em si mesmo.

Assim como o Comentário 03, estes comentários não reafirmam positivamente o que foi expresso na mensagem, cujo texto é atribuído a Caio Fernando Abreu. Tanto pelo primeiro comentário (Comentário 05) – que se restringe a falar da fotografia das margaridas – quanto pelo segundo (Comentário 06) – que sequer faz menção à qualidade do que foi enunciado e de sua relação com um autor, observamos uma relativa indiferença quanto à origem literária ou não, consagrada pela cultura letrada ou não, no que diz respeito à valorização do que é enunciado. Essa hipotética hierarquia não parece frequentar o imaginário do leitor que comenta para discordar, que comenta para reprovar o que foi enunciado.

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Figura 18 Comentário de "poeta" digital em mensagem compartilhada publicada pela página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, atribuída a Clarice Lispector.

Fonte: disponível em <https://goo.gl/Ctulzq>. Acesso em: 12 abr. 2014.

(Mensagem 07) Detesto coisas mais ou menos, não sei amar mais ou menos, não me entrego de forma mais ou menos.

Na mensagem compartilhada em questão (Mensagem 07), o trecho escolhido é atribuído a Clarice Lispector67 e se encaixa na temática relativa ao autoconhecimento, refletindo as

emoções daquele que escreve e que compartilha. Neste exemplo (Figura 18), vemos dois comentários: um, contido na imagem que compõe a mensagem, e outro, propriamente dito, no espaço reservado aos comentários (Comentário 08). O primeiro visa sintetizar aquilo que é expresso pelo enunciado verbal atribuído a Clarice, que se encontra ao lado. O enunciado verbal “Tem que ser pra sempre!!” parece, assim, complementar o que fora expresso pelo enunciado verbal da mensagem e imagem escolhida, a saber, um casal de idosos que se beijam, o que traduziria e reafirmaria a eternidade que convive no “pra sempre”.

(Comentário 07) Amor tem que ser sincero, paciente, compassivo, responsável, confiável, para ser eterno, tem que ser doce, humilde, fraterno; não tem como amar a alma e desprezar o corpo, o amor é feito de desejos, carinhos, dedicação a todo momento devemos umedecer o nosso coração com a água do perdão, da

67 Na imagem que compõe a mensagem, grafa-se nome de Clarice Lispector como “Clarisse Lispector”, sendo recorrente essa grafia em algumas postagens e comentários dos leitores da página.

97 | P á g i n a fidelidade, para que a felicidade produza muitos frutos. Assim é o verdadeiro

amor.

No comentário anterior, verifica-se um acréscimo da significação de “amar”, que está imbricada no trecho da mensagem “não sei amar mais ou menos”. O leitor expõe a receita do que é amar e quais as qualidades necessárias para se amar. Ao dizer “não tem como amar a alma e desprezar o corpo”, busca traduzir ou explicar, em outras palavras, o mesmo que a autora afirma em “amar mais ou menos”. Dessa forma, o funcionamento do comentário se dá na exposição do que foi dito nas entrelinhas, afirmando o mesmo enunciado, no entanto, dizendo- o de outra forma.

Figura 19 Comentário de "poeta" digital em mensagem compartilhada publicada pela página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, atribuída a Clarice Lispector.

Fonte: disponível em <https://goo.gl/jLgbDu>. Acesso em: 14 abr. 2014.

(Mensagem 08) Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida, mas é vivida.

(Comentário 08) Deixa-se algo, ganha-se algo. Tenho sido impelida a lhe dar [sic] com isso, é a lei das decisões. Faço com calma, sem atropelar os que vivem comigo...

Nos comentários das mensagens compartilhadas também verificamos formas de apropriação que buscam mimetizar, sob a forma de comentários “poéticos”, o que é apresentado

98 | P á g i n a no enunciado destacado. Na Mensagem 08, publicada pela página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, a leitora reafirma (Comentário 08) o que fora dito por Clarice Lispector utilizando-se de recursos estilísticos e escolhas lexicais específicas, como “impelida”, “lhe” etc., que se aproximam do imaginário que compõe o que seja “escrever textos literários”. Contudo, não são apenas os comentários de leitores “poetas” que circulam nessas páginas. Observamos também a manifestação frequente de questionamentos em relação à veracidade da atribuição de autoria. Em seus questionamentos, esses leitores se apoiam em argumentos comumente apresentados por leitores profissionais, eruditos, por críticos literários, realizando observações linguísticas, contextuais, biográficas. Isso demonstra a profunda permeabilidade existente entre essas fronteiras que separam cultura letrada de cultura popular. Além disso, não raras vezes, o comentário se caracteriza pela reivindicação de autoria, por parte do comentador, de enunciados empregados nessas mensagens e que são atribuídos erroneamente a outros autores.

Na mensagem postada em 26 de setembro de 2012 pela página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector (Figura 20), observamos um comentário de um dos leitores, que questiona a atribuição de autoria da mensagem a Clarice Lispector:

Figura 20 Exemplo de reivindicação de autoria em mensagem compartilhada publicada pela página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, atribuída a Clarice Lispector.

Fonte: disponível em <http://migre.me/rxbpR>. Acesso em: 14 abr. 2014.

99 | P á g i n a (Comentário 09): Vou relatar um erro de citação aqui nesta página:

Que bom que você gostou (da frase final) do meu poema Mude: "Só o que está morto não munda".

Que, aliás, não é de Clarice Lispector. Esse poema começa assim:

Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.

Se puder, veja o poema todo, assim como o vídeo e o livro Mude, publicado pela Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra, e à venda nas maiores livrarias.

Além disso, tal poema também já foi publicado por Pedro Bial na faixa 4 do CD Filtro Solar. Detalhes em http://Mude.blogspot.com

/// Para o poeta, o importante é encantar o coração do leitor. Mesmo que este suponha ter sido encantado por Clarice Lispector. E o vídeo Mude pode ser visto aqui:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded...

/// Flores e estrelas...

Onde foi que você viu que é de Clarice? Pois quero passar a informação correta também a essa pessoa, para evitar que tal erro de autoria seja ainda mais disseminado. Solicito que se faça uma correção, em respeito aos seus leitores, e aos leitores de Clarice.

O comentário desse leitor (Comentário 09), que se identifica como Edson Marques, relata um erro na atribuição de autoria e mostra, através de diversas fontes, tais como blog, site e menção a livrarias, que o poema em questão é de sua própria autoria, publicado por uma editora reconhecida, contando com o prefácio de Antônio Abujamra (1932-2015)68 e se

encontra à venda nas “maiores livrarias”. Além disso, o poema também foi gravado por Pedro Bial. Para o exercício da condição de autor há, além de um funcionamento institucional de seleção de textos a que se pode atribuir autoria e também uma série de procedimentos de validação dos textos e de seus escritores do conjunto, dos quais alguns vão ser reconhecidos como “autores”. Antes e depois da produção de certos textos, sabe-se o que é preciso fazer para escrever textos “autorais” e, posteriormente, para defendê-los como tal, elencando as instituições que outorgam esse título e que se ocupam de valorizá-lo, sustentando o funcionamento discursivo dessa função.

A apresentação de “provas” (livro), a menção a instituições (livrarias e editoras) e a nomes reconhecidos no meio artístico (Abujamra e Bial) representam algumas das formas de validação da condição de autor, não se limitando, portanto, nem à autoqualificação (“Para o poeta, o importante é encantar o coração do leitor”), nem ao reconhecimento por parte dos

100 | P á g i n a leitores.

Essas “provas” de autoria elencadas no comentário do leitor indicam os critérios que constituem a ordem contemporânea para se outorgar a um sujeito e a seu nome próprio a “função autor” que, em relação a alguns sujeitos já reconhecidos nessa condição, demonstra sua força e a regularidade de seu funcionamento, tal como manifesto na referência feita a Lispector: “Mesmo que este suponha ter sido encantado por Clarice Lispector”.

Nesse mesmo comentário, interessou-nos a solicitação que o internauta faz ao administrador da página para que este o informe da “fonte” a partir da qual ele retirou o enunciado que fora atribuído a Lispector. Essa demanda sinaliza o conhecimento, compartilhado entre internautas, da existência de repositórios de frases, uma vez que o erro de indicação de autoria é fruto, muitas vezes, do uso desses repositórios para a busca das frases, e não da própria obra dos autores.

O equívoco na indicação de autoria de um texto, que se tornou comum no ambiente virtual, pode ser explicado de diferentes formas. Ora pela ausência de rigor na referência, tendo em vista que o que mais importa é a mensagem, e não o nome do autor; ora pelo reconhecimento nacional de que certos nomes de autores gozam, e que por si só contribuiriam para a expansão da circulação desses textos e da visibilidade dos blogs e sites que os publicam; ora pelo simples desconhecimento da autoria “original”. Muitos dos fragmentos de textos que estão na página O Mundo De Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector e nas outras páginas que compõem nosso corpus de análise são provenientes de outros sites repositórios, como o Pensador Uol,69 para o

qual qualquer usuário da internet pode enviar trechos de textos e colocá-los sob a autoria que julgue ser a adequada:

Quem faz essas coisas? E por quê? Difícil dizer; difícil sequer tentar a explicação lógica que se pode aplicar ao caso clássico do proto-apócrifo, que tem uma grande mensagem, mas calhou de ser escrito por uma pessoa pouco conhecida [...] A segunda motivação[...] é uma completa falta de interesse pelo autor do texto: o que vale é a mensagem, não importando quem a tenha escrito [...]. Em sua vasta maioria, os textos são cômicos ou motivacionais, ‘lições de vida’ – o que, sem grandes psicologismos, basta para revelar o que está por trás da falsa atribuição ou do ‘esquecimento’ do nome do autor: a vontade irrefreável de espalhar conselhos e risadas entre o maior número possível de pessoas, aliada à ignorância e a um senso peculiar do que é direito autoral

69 Pensador Uol (<www.pensador.uol.com.br>) é um site de repositório de frases, citações e textos de autores famosos. Em nossa busca na rede pela origem dos enunciados destacados das obras de Caio Fernando Abreu e