5. TEDAVİ PLANLAMASI
5.2. Doz Yoğunluk Ayarlı Radyoterapi (Intensity-Modulated Radiotherapy-IMRT)
Ao acordar olhei pela janela e percebi que o dia estava chuvoso. As nuvens cobriam o céu, o mesmo céu que quase sempre estava azul e com nuvens brancas, hoje estava acinzentado. Em Natal, o frio não é algo comum, não é à toa que a cidade é conhecida como a “cidade do sol”. Mas, não sei por que sentia um frio na barriga, talvez por imaginar os desafios que me aguardavam. Chegaria ao hospital, não mais como professora da Classe Hospitalar do COHI, que ajudei a fundar, mas sim como pesquisadora. Isso ao mesmo tempo em que me alegrava também me assustava. Afinal, não sabia como seria recebida e percebida pelas crianças. Será que eu saberia ser pesquisadora e assumiria bem esse papel? Esse questionamento surgiu ao pensar em toda a história da Classe Hospitalar e de minha participação na sua constituição. Estava a caminho de um espaço que conhecia bem, como professora, suas rotinas, dinâmica, os profissionais e muitas crianças que faziam tratamento, mas teria eu desenvoltura naquele espaço enquanto pesquisadora? (DIÁRIO DE CAMPO, 09 ago. 2010).
Este excerto retirado dos registros que fizemos no diário de campo, ao decorrer dos seis meses em que estivemos em inserção no Hospital Infantil Varela Santiago, no COHI, durante a coleta dos dados, demonstra os sentimentos, incertezas e desafios que, enquanto investigadores, nos deparamos quando iniciamos a pesquisa empírica.
Corsaro (2005) argumenta que a entrada no campo é um momento crucial na etnografia, visto que um de seus objetivos principais, como método interpretativo, é estabelecer o status de membro e uma perspectiva ou olhar de dentro. Nesse sentido, a aceitação no mundo social das crianças apresenta-se como sendo algo, particularmente, desafiante decorrente das diferenças óbvias entre adultos e crianças em termos de maturidade comunicativa e cognitiva, poder (tanto real como percebido) e tamanho físico.
Lüdke e André (1995, p. 19) afirmam que “a principal preocupação da etnografia é com o significado que têm as ações e os eventos para as pessoas ou os grupos estudados” na tentativa de descrever sua cultura e depreender seus significados. Para tanto, o saber cotidiano coloca-se como fundamental, pois é nele que as ações se concretizam e os conflitos acontecem, tornando-se uma fonte importante de significados e interpretações.
A investigação etnográfica leva a fazer uma apreensão dos significados de um grupo, no caso desse estudo, mais especificamente um grupo de crianças hospitalizadas portadoras de doenças crônicas, e para tanto é preciso considerar uma ciência irregular, plural e subjetiva como explica Geertz (2001, p. 10), “qualquer proposta de uma teoria geral a respeito de
qualquer coisa social soa cada vez mais vazia”.
Assim, é preciso conviver com as incertezas nos estudos com crianças, aqui compreendidas como sujeitos ativos, capazes de modificar algumas regras e normas dos adultos, capazes de criar entre si sistemas culturais de compreensão dos significados e sentidos da realidade, que precisamos estudar para melhor depreendermos como mencionam Delgado e Müller (2008).
Em se tratando de etnografia com crianças deve-se ter clareza de um aspecto muito importante: somos adultos e reconhecidos pelas crianças como um outro e, muitas vezes, nossa aproximação com elas não é tão simples, como nos adverte Graue e Walsh (2003, p. 56): “jamais vemos o mundo através dos olhos das crianças, veremos sempre o mundo através de uma multiplicidade de camadas de experiências das crianças e nossas, de uma multiplicidade de camadas de teorias”.
Admitir as crianças como sujeitos implica na adoção de uma perspectiva de pesquisa na qual elas são vistas como atores sociais implicados nas mudanças e sendo mudadas pelos mundos sociais e culturais que as envolvem. Considerar as vozes das crianças perpassa, ainda, pelos sentidos que atribuímos as suas falas e ações, não iludindo as diferenças existentes entre elas e os adultos, como também os poderes atribuídos a cada um. Ao investigador etnográfico vale considerar essas diferenças, como também reconhecê-las, assumindo as preocupações éticas entre ele e os participantes da pesquisa como produtores de culturas.
Corsaro (2003), convencido de que as crianças têm sua própria cultura, entendeu ser necessário adentrar em seu cotidiano, para melhor compreender suas relações e construções subjetivas. Para o autor, a etnografia é o método que os antropólogos mais empregam para estudar as culturas exóticas, exige que os investigadores adentrem e sejam aceitos na vida daqueles que estudam e dela participem. Desse modo, optar pelos caminhos da etnografia envolve “tornar-se nativo”. O desafio estava posto: tornar-me nativo, para melhor interpretar e compreender o mundo das crianças hospitalizadas, seus sentimentos, medos, angústias e subjetivações.
O registro que fizemos no diário de campo sinaliza como aconteceu a nossa entrada no cenário da investigação:
Chegando ao hospital fui recebida com muita alegria pelos funcionários (desde a recepção), pais e crianças, que já me conheciam. Senti um acolhimento verdadeiro. Comecei a observar o movimento na enfermaria, as técnicas de enfermagem em suas rotinas na aplicação das medicações e os choros presentes na hora de puncionar as veias. A enfermaria pediátrica é um lugar de muitos sons, que se misturam às vezes sons alegres e às vezes
tristes. Em meio aos sons e ao movimento observei uma mãe com seu bebê de nove meses no colo, ela olhava para a criança com um olhar triste e distante. Sentei ao seu lado, conversamos um pouco e ela me contou que tinha acabado de descobrir o diagnóstico de sua filha, portava leucemia linfoide aguda, chorou muito ao contar. Eu a abracei forte, o momento do diagnóstico é muito desestruturante para os familiares, que precisam ser acolhidos. Em seguida, me dirigi para a sala de aula do COHI, quatro crianças estavam sentadas montando um quebra-cabeça, suas idades variavam entre 06 e 10 anos, interagiam com muita facilidade, conversavam sobre o jogo e faziam hipóteses da resolução do problema que a atividade sugeria. Sentei próximo a elas, que em pouco tempo me convidaram a ajudá- las, foi um momento de aproximação muito especial. (DIÁRIO DE CAMPO, 09 ago. 2010).
A relação com as crianças foi aos poucos ficando mais fortalecida, à medida que se sentiam mais à vontade para falar, compartilhar seus sentimentos e solicitar alguma ajuda. Nossa intenção era que elas nos percebessem pertencentes aos seus mundos e, de algum modo, parece-nos que com o tempo conseguimos alcançar uma maior aproximação, levando em conta que é pouco provável não se construir uma identidade no local da pesquisa, pois nas trocas estabelecidas entre as crianças e os adultos também se sedimentam os papéis do investigador (DELGADO; MÜLLER, 2008).
Ao focalizar as interações face a face das crianças ao desenvolverem ações comuns na classe hospitalar, almejávamos depreender e interpretar seus mundos conceituais, suas redes de significações e as conexões de sentidos no grupo para descortinar os sensos comuns que tornam as atitudes inteligíveis e relevantes para si e também para os seus usos sociais na construção da cultura (FERREIRA, 2008) e da organização de um grupo de crianças na situação de hospitalização, nas suas significações e re-significações.
Ferreira (2008) coloca no cerne da pesquisa com crianças a noção de reflexividade metodológica. Essa reflexividade ao questionar as práticas de investigação e os processos de produção de conhecimento como processos sociais não dispensa a vigilância e solicita à análise crítica dos obstáculos epistemológicos suscitados pela compreensão da categoria social infância.
A investigação etnográfica com crianças gera muitas inquietações que se apresentam tanto na fase inicial, como também durante todo o percurso investigativo. Requer um processo criativo, flexível e reflexivo, no qual possamos partilhar com os participantes as interpretações e sentidos atribuídos aos mundos sociais que buscamos apreender. Considerando a proposição de Graue e Walsh (2003, apud DELGADO; MÜLLER 2008, p. 289), “temos de construir continuamente maneiras novas e diferentes de ouvir e observar as crianças e de recolher traços físicos de suas vidas” e, acrescentamos, de suas histórias de vida.