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Mapear e descrever os saberes sobre as práticas artísticas vivenciadas pelos sujeitos antes de chegarem à universidade foi um elemento estruturante para a análise do processo de elaboração das representações sociais. Retomar a vivência anterior, no tempo presente, diz respeito a um dizer de algo do passado com os olhares de hoje. A narrativa é, portanto, um ato de comparação que o sujeito faz de sua experiência. Nesse sentido, é uma lembrança, pois no tempo das entrevistas os educandos já tinham concluído o estágio. Recuperar trajetórias de formas de pensar, sentir e agir é, por isso, o desafio dessa parte da pesquisa.

A sistematização das entrevistas permitiu a identificação de três grupos. Denominamos de Prévio 1, Prévio 2 e Prévio 3. No Prévio 1 organizamos as falas dos entrevistados que diziam que na chegada ao LeCampo a arte não fazia parte de suas preocupações. No grupo Prévio 2 reunimos os entrevistados que disseram que, quando chegaram ao curso compreendiam que arte se referia a uma perspectiva erudita. Os entrevistados organizados no Prévio 3 anunciaram que em suas experiências anteriores tinham conhecimento e desenvolviam atividades artísticas, na perspectiva de valorização da arte popular.

O grupo Prévio 1 é composto por sete entrevistadas: Ana, Camila, Giovana, Júlia,

Amanda, Letícia e Luana. Estas entrevistadas relatam que ao chegar ao curso não tinham

pudessem ser consideradas como artes. Ana relata que convivia com bordados, costuras e artesanatos no ambiente de sua família e informa “Só que a gente não tinha conhecimento de que isso era arte”. Camila conta que só no curso deu-se conta de que não tinha acesso à arte: “É hoje que eu entendo, eu sei que faltou, porque eu nunca tive arte” Júlia declara que convivia com estas práticas artísticas no ambiente familiar, mas desconhecia o aspecto artístico delas.

Eu ficava vendo e dizia: -isso é uma forma de mãe passar o tempo. -Ah! mãe para que ficar acumulando aquelas coisas. Antes de eu ter esse conhecimento e esse contato com arte aqui na universidade isso para mim era simplesmente um passatempo.

Letícia também revela tal posicionamento “eu era uma pessoa assim muito distante da

arte, eu não dava a mínima para a arte não.” Para Amanda, sua relação com a arte era uma característica da sua região de moradia. “Pelo fato de eu morar no interior, em uma cidade de 5 mil habitantes, não tem muito contato com arte mesmo. Essa coisa de arte assim não tinha”.

Luana diz que as artes eram algo distante dela, pois o que conhecia não podia ser compreendido

como tal;

Eu não imaginava nada disso como arte, não imaginava como que eu podia usar no meu dia. Eu sempre via a arte longe de mim como uma coisa que não era para mim. Eu nunca soube que folia de reis era arte, eu achava que era folclore uma tradição folclórica. Congado uma tradição folclórica, colcha de retalhos para mim era uma tradição folclórica e assim um saber mas não desmerecendo, eu não sabia que era arte.

O grupo Prévio 2 foi organizado com nove sujeitos: Sofia, Alice, Enzo, Isabela, Juliana,

Larissa, Guilherme, Mariana e Manuela. Este grupo é caracterizado por sujeitos que

adentraram ao curso com experiências e valores que atribuíam às práticas artísticas as características eruditas. Isabela descreve esse posicionamento: “Para mim arte era só o pessoal que fazia pintura, pronto arte era pintura e mais nada”. Larissa também evidencia que, ao chegar na graduação, associava as artes plásticas a uma perspectiva erudita, destacando que foram as informações que obteve em seu Ensino Médio;

Antes de entrar na faculdade e com os conhecimentos que eu tive durante o ensino médio quando eu estudei, era entrar na sala e tem a teoria sobre reta, linha e cores primárias, secundárias, terciárias e fazer algum desenho e pintura.

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Juliana também se expressa “era artes plásticas mesmo esse negócio de pintar e no

ensino médio a gente estudou a história da arte”. Essas duas referências ao Ensino Médio remetem-nos a Carvalho (2011, p.70) que destaca que essa associação do ensino de arte às artes plásticas tem herança histórica devido à grande ênfase dada à prática do desenho e da pintura antes da LDB 9394/96 reconhecer a arte enquanto componente obrigatório, considerando, nesse contexto, as linguagens dança, música, teatro e artes plásticas.

Para Sofia, arte era só erudita: “Eu nunca soube desenhar e nunca soube pintar e nunca

soube nada disso e, para mim, arte era isso né, desenho, pintura”.

Alice destaca que, em sua experiência, seu contato era com a arte erudita:

Eu sempre convivi com minha irmã e via seus trabalhos artísticos os entalhes na madeira, coisas de cerâmica, eu via ela pintando. Aí eu fiz o vestibular para educação artística. Então eu fiz passei na escola de música e aí eu fiz a licenciatura curta.

Guilherme, no segundo grau, teve experiência com práticas de cinema. Sua ênfase na

técnica leva-nos a colocá-lo no agrupamento que vincula artes à perspectiva erudita: “eu fiz a releitura do filme Macunaíma aí eu fui por trás da câmera, fui para a frente da câmera. Eu criei uma intimidade com a câmera, passei a gostar tanto no sentido de atrás da câmera como à frente de atuar.”

Mariana revela envolvimento com práticas eruditas desde a infância.

Com 14 anos eu comecei teclado e piano[...] Aí eu comecei a cantar e comecei a fazer aula de canto e o meu professor de canto começou a me chamar para cantar nos eventos e em casamento que surgia, aniversário e essa coisas e também na igreja. [...]Aí eu também comecei a fazer pintura, pintura em casa mesmo e eu comecei a desenhar algumas coisas [...]

Manuela também tem um histórico com práticas eruditas.

Eu gosto muito de arte agora eu nunca aprofundei muito em uma só, sabe eu fico vagando e transitando sobre todas elas. Por exemplo, fotografia eu gosto e eu já fiz alguns cursinhos. [...] Com relação à musica eu gosto de violão eu arranho, tenho um violão em casa e já fiz curso. [...] Pintura eu já andei pintando. Então a arte é algo para mim que faz parte da minha vida.

Enzo, em sua trajetória com as práticas artísticas, cita o desenho como característica

Eu desenho desde que eu me lembro, desde que eu me entendo por gente eu desenho[...]a arte contemporânea ela engole completamente a arte popular né, essa arte hereditária que passa de pai pra filho. A cidade nunca deu muito suporte, era bem aquela coisa mais tradicional aquele negócio de caboclinho e aquele resgate cultural mesmo.

Isabela associava as artes às práticas eruditas das artes visuais. “Para mim arte era só o

pessoal que fazia pintura, era pintura e mais nada”.

O grupo Prévio 3 organiza-se com seis pessoas: Beatriz, Bruna, Fernanda, Lucas,

Laura e Yasmin. A principal característica desse grupo é a presença da experiência e/ou da

valorização da arte popular. Para Laura “no meu discurso fica muito marcada essa questão da valorização da cultura porque eu fui artesã”.

Lucas também expõe a sua proximidade com o artesanato antes de chegar ao curso

“antes eu tinha uma concepção de arte com artesanato, quer dizer muito ligada ao artesanato né”. Segundo Fernanda, “por ser do campo, nasci e cresci na zona rural tenho uma ligação muito grande com a música caipira. Né nem a sertaneja não, é caipira mesmo, moda de viola.”

Bruna ao falar sobre a sua relação com a arte, marcada pelo interesse de criação pessoal e pelo

trabalho enquanto professora, destaca sua motivação para cursar o LeCampo.

A arte na verdade ela não chegou só com meu trabalho só como professora. Desde pequena eu sempre fui dada assim a escrever textos, desenhos e inventava de criar algumas coisinhas. Então eu me interessava assim na proposta do curso que ia trabalhar língua portuguesa e arte voltada para o campo e muitas manifestações assim através dos causos, as músicas, as histórias, o artesanato.

Segundo Beatriz, “o contato que eu tive de arte que eu gostava na escola era quando tinha essas manifestações essas festas e apresentar alguma coisa de teatro nessas festas e hino nacional, folclore, festa junina essas festividades”. Para Yasmin, a sua relação com a arte popular na identidade faz-se mais evidente a partir das práticas desenvolvidas nos movimentos sociais.

Quando eu conheci o Movimento Social veio a questão das místicas, das jornadas socialistas e dessa coisa toda que é arte. Na jornada socialista é como se fosse uma mística bem mais longa, faz a caminhada, faz a memória de alguns lutadores do povo e os intelectuais do socialismo e tal e tem toda essa coisa do trabalho com sementes de artesanato com sementes que também é arte. A noite toda sexta à noite tinha mais um encontro que era mais para jovens e adultos, aí tinha cantigas de roda, batuque, pilão e umas outras que

120 eu não sei, ... é cantiga de roda mesmo, moda de viola e essas coisas que isso tudo é arte né.

A fala de Yasmin mostra que as suas práticas artísticas foram marcadas pelo elemento coletivo e popular dos movimentos sociais. A partir da fala da entrevistada buscamos em Bogo (2012) uma forma de refletir sobre o papel da arte nas místicas. “É na mística que se revela a sensibilidade artística de milhares de pessoas.” (BOGO, 2002, p.142). Para o autor, a mística é vista enquanto a construção simbólica da consciência de luta utilizando-se uma forma estética, a partir de diferentes linguagens artísticas.

Observa-se que os saberes prévios dos educandos, antes do ingresso no LeCampo são marcados por compreensões diversas. Não ter a arte como foco em suas reflexões (P1), ou ter uma experiência marcada pelo contato com uma discussão marcada pela valorização dos aspectos eruditos (P2), bem como se aproximar das práticas populares (P3), sinalizam para formas variadas de ingresso.

Como esses sujeitos vivenciaram a experiência formativa no contato com professores, textos e práticas artísticas? Podemos pensar que o contato com a formação acadêmica tenha repercussões diferenciadas para esses agrupamentos.

Ressaltando que nesse primeiro momento de análise já detínhamos informações que mostravam que a hipótese inicial, os estudantes chegavam ao curso com saberes vinculados as práticas artísticas populares, não se sustentava. Um total de nove alunos expressava compreensão e apresentava experiência com a arte erudita.

Benzer Belgeler