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O que é valioso quer ser consumido e só o melhor abafa inteiramente a fome. Porém, para se chegar a esse melhor, o exterior auxilia e coopera, proporcionando-lhe a imagem, tanto a fluída quanto a concreta.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006b, p. 420)

Há exigência, pois, de camadas de transição da filosofia para que o alvo do sonho acordado se alargue e que a fênix deixe de ser o renascimento do mesmo. A descoberta dos atributos mais elevados do homem, que Bloch associa à psicanálise, é assim, parte de um quebra-cabeça muito maior. Em Bloch (2006b) é preciso, que além da teoria marxista da mudança, exista a ação de um princípio interno que permita a distinção entre o que é falso e o que é verdadeiro.

Nas palavras de Kierkegaard, Bloch (2006b, p. 421) encontra uma forma de explicar esse conceito: é algo compreendido pela metade, a maneira ―da semi-transparência da névoa noturna‖, mas que precisa ser algo em que o supérfluo se esvai e que se encaminha para o encontro consigo mesmo, o ―entender-a-si-mesmo-em existência‖. Não mais como o mundo

interior, mas como também o mundo exterior, sem hostilidade, sem que seja inóspito e não passível de mediação.

Assim como em Kierkegaard, Bloch (2006b, p. 423) lembra que o retorno à ―Ítaca real‖ designa ―o ponto fixo‖, o alvo, em meio ao flutuante, a incompletude da vida, e não se perde de vista o ideal de plenitude. Outro conceito do encontro do mundo interior e exterior são as descrições contidas em Goethe, Schelling e Hegel da maneira como a filosofia da natureza se espalha pelo homem e é impelida para uma galeria de valores ocultos (BLOCH, 2006b, p. 427-8). Esses pensadores simbolizam a lucidez e o entusiasmo, assim como a unidade do sonho para diante, sonho que para Bloch (2006b, p. 451) pode representar o despertar da ―consciência revolucionária‖, o ―embarcar no carro da história, sem que o lado bom do sonhar necessite ser deixado para trás‖.

Para que a filosofia acompanhe o carro da história, se faz necessário, segundo Bloch (2005; 2006b), não renunciar à contemporaneidade e realizar as transições necessárias. A primeira transição é a rejeição da ilusão de classes, da ideologia de classes, da má consciência burguesa e de uma cultura em que o homem é relegado à posição decorativa. A manifestação, nesse rumo, é o sair de si do homem das relações de dominação para estar-presente na eternidade das boas relações sociais.

A segunda transição encontra-se na ruptura da noção de provisoriedade do momento. É o arrancar a utopia do ―leito pútrido‖ da simples contemplação para galgar os cumes ―ideologicamente desimpedidos do conteúdo da esperança humana‖ (BLOCH, 2005, p. 157). A partir daí, o ideal passaria a ser o futuro não realizado, a grandeza humana voltada para a categoria da finalidade, com um tipo de subjetividade nova, seria incentivada pelas necessidades e pelo trabalho humano.

O tema fundamental da filosofia, de uma filosofia que permanece e é enquanto vem a ser, ainda não alcançado, é a pátria que ainda não veio a ser, ainda não alcançada, assim como ela está se formando, construindo-se na luta dialética-materialista do novo com o velho (BLOCH, 2005, p. 20). E há ainda uma terceira transição. Ao voltar sua filosofia para o futuro, Bloch não está fugindo do presente. É justamente o inverso: os obstáculos do presente devem ser vistos como alavancas para a consciência dos dramas que o mundo impõe ao homem. Os fatores objetivos, como lembra Bloch (2005, p. 147), não são suficientes para isso: são parte da tomada de consciência, mas tendem a elevar a subjetividade, exigindo, assim, o sonho ativo a influenciar

a utopia. Assim, o socialismo não mais faria como a fênix e absorveria o novo, examinando a possibilidade da mudança de tudo.

Acrescente-se o espírito romântico revolucionário do otimismo: a dialética é um método imanente à realidade, parte da teoria do conhecimento, não um recurso que elimine o princípio do entusiasmo e da idealização da razão. Assim, o desejo de mudança precisa ser sempre o desejo de mudança e voltar-se para o romantismo pode significar melhor compreensão do conceito de cultura – religião, política e história, morte, sonho e amor – a sua associação à produção. Bloch (2005) procura repensar a unidade da vida e da história a procura de uma nova síntese da filosofia com a psicanálise. Um amalgama que não pode prescindir do ser humano ―livre, inquisidor, incondicional‖ caracterizado pelo prostestantismo de Lutero e pelo burguesia antiutópica, que encontra em Fausto o momento inaugural de outro ponto de vista (BLOCH, 2006b, p. 95). Como em Pandora, Goethe move-se para a poesia do ainda-não-existente, mas que pode existir.

Tomadas em conjunto, essas percepções podem explicar por que ninguém é assassinado, preso ou torturado por ser hegeliano, platônico, aristotélico, existencialista ou filiado a qualquer outra escola filosófica, mas é perseguido e sofre todas as penalidades da sociedade burguesa, inclusive prisão, tortura e morte, se for marxista. Voltar-se para Marx é voltar-se para a recriação do mundo. Por não se tratar apenas de construir uma filosofia da história, mas de torná-la aberta e construí-la.

Como a explicação do mundo está no mundo, o olhar para a frente torna-se o veio dinâmico da consciência. Ele mantém os limites entre o passado e o futuro ao mencionar o velho e o novo, fundados na antecipação. Não se trata de impaciência, mas das relações entre o tempo e a alma rebelde do homem, a relação entre o tempo e o que se denomina de consciência. O fenômeno do que existe e do que pode vir a ser liberta o homem da ilusão subjetiva, torna realidade o amanhecer da utopia.

A explicação de Bloch é expressa em poucas palavras: a filosofia precisa estar na linha de frente e tornar consciente o que ainda-não-é-consciente. A expressão ainda-não-consciente é empregada no sentido de que o homem precisa olhar profundamente para si mesmo e que esse é um papel da filosofia, retomando o fio tecido por Leibniz e suas ―petites perceptions” e o encontro com si próprio desejado por Bloch (2005, p. 127) em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie). Seria, a continuidade do espírito presente na boa consciência utópica e a ruptura com os arquétipos da rememoração, a anamnesis ou regressão.

As águas do esquecimento correm no mundo inferior, mas a fonte Castália da produtividade brota no Parnaso, que é uma montanha. Assim, a produtividade, embora venha das profundezas, só começa a trabalhar à luz e estabelece constantemente a uma origem nova, ou seja, no ponto mais alto da consciência. Saber esse ponto elevado se entende o azul, a cor oposta à do orco98 escuro e ainda assim transparente que envolve toda a verdadeira explicação. Esse azul, como a cor que está distante, deságua de modo igualmente ilustrativo e simbólico no teor futuro, o ainda-não-sendo na realidade, ao qual se referem, em ultima instância, os enunciados significativos e antecipadores. Uma obscuridade para a frente, que vai se tornando clara enquanto se anuncia que também está associada àquela consciência mais esclarecida, na qual o dia não renunciou ao alvorecer, mas se constrói justamente a partir dele (BLOCH, 2005, p. 127).

Montanhas, segundo Bloch (BLOCH, 2006b, p. 378), refletem, como o sol, que Dante equipara às virtudes da sabedoria, os sonhos de elevação. Como em Pandora e no Fausto de Goethe, o desafio é transgredir os limites, vislumbrar as ―montanhas no futuro e todas as montanhas sempre combinam bem com a luz matinal, com o novo dia‖ (BLOCH, 2006a, p. 82-3). As ―montanhas do futuro‖ não mudam se o itinerário for descendente ou ascendente, mas encontrá-las, presenciá-las no clarear do dia, exige esforço, exige descobrir a força da vida.

Sua linhagem é lendária e, no paraíso de Dante, simbolicamente, a cognição encontra- se na parte mais alta, justamente porque se trata de uma prática mais complexa que a visão. Mas em Doutor Fausto a conexão terrena é mais vigorosa. Nas palavras de Bloch (2006a, p. 375), ―uma catedral de montanhas elevando-se de abismos extáticos até o éter, esta a visão de Goethe, e precisamente como cordilheira que se estende consecutivamente, com sempre novas esferas nas alturas‖. No simbolismo das imagens, se separam épocas: a feudal em Dante, a protestante-capitalista em Goethe. Nas montanhas de Fausto, uma atrás da outra, como se desejassem tocar o azul do céu, o mistério, para Bloch (2006b, p. 379) encontram-se ―a solução existente, já a solução é o mistério remanescente‖ – a vontade utópica?

As cordilheiras faustianas, contêm o ―azul mais profundo da consciência utópica‖, centrífuga, que dissolve a sociedade burguesa nas suas contradições (BLOCH, 2006a, p. 378). São o azul de um dia que ainda não chegou, mas não deixam de ser montanhas-cordilheiras de azul terreno, visíveis a olho nu, de efeito dominante. Fazem parte do reino inteligível.

A filosofia, para Bloch, com Marx e os desafios do desertar do ainda-não-consciente, necessita escalar o Parnaso e beber da fonte Castália de onde brotam os impulsos, suficientemente fortes, do novum para que se tornarem conscientes. A intenção é que a

98 Na mitologia romana, o Orco é o espírito da morte, o deus do submundo, aquele que punia quem não respeitava os juramentos.

filosofia desperte para o ser humano particular e o situe como universal. O alvo não é o tempo circular, mas as cordilheiras com montanhas atrás de montanhas, o humano-transcendente.

Benzer Belgeler