A ciência é a expressão da necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver (ALVES, 2000). Leopardi (2002) complementa afirmando que a ciência é o conjunto de informações descritivas, explicativas e preditivas da realidade, adquiridas por intermédio de um método próprio, denominado método científico. Em suma, pode-se entender a ciência como conhecimento de uma realidade, que se caracteriza em um instrumento para o homem e produto dele, sendo importante frisar que a ciência é herança da humanidade e que deve ser distribuído e consumido por todos (LEOPARDI, 2002).
Esse processo de aquisição de conhecimento se dá por meio da realização da pesquisa científica, que segundo Minayo (2004), se apresenta, como uma atividade básica das Ciências na sua indagação e descoberta da realidade, se concretizando como uma atitude e uma prática teórica de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente. A pesquisa surge da mobilização dos pesquisadores em explicar e compreender os fatos e em buscar soluções aos problemas deles advindos. No entanto, essa motivação não é suficiente para se realizar uma pesquisa, pois para ela ser socialmente necessária é preciso dar respostas a problemas mais amplos, adquirindo relevância social (LEOPARDI, 2002). Ou seja, a produção de conhecimento, de ciência não tem sentido em si mesmo.
Diante do exposto, questiona-se a importância da pesquisa para a área de saúde e consequentemente, para a enfermagem, sobre o qual Polit, Beck e Hungler (2004) referem que o desenvolvimento e a utilização do conhecimento são essenciais para a melhoria constante no atendimento ao paciente, através de decisões e ações fundamentadas nos resultados de pesquisa.
Para a enfermagem, a pesquisa tem como meta representar a natureza da enfermagem para entendê-la, explicá-la e usá-la para o benefício da humanidade (MCEWEN; WILLS, 2009). Outra razão para o uso das evidencias encontradas nas pesquisas se configura no fortalecimento da identidade da enfermagem como profissão, decorrente da eficácia de sua prática. Nesse caso, a pesquisa permite que os enfermeiros tenham um maior aprofundamento e ampliação de sua prática, através do conhecimento, previsões, controle e planejamento de suas ações. (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004).
Historicamente, a pesquisa em enfermagem tem sua origem com Florence Nightingale e vem crescendo, principalmente, a partir da década de 1970, devido a várias formas de incentivos, como periódicos, eventos e instituições de financiamentos. (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004).
Salienta-se que a investigação cientifica na área da saúde, em geral, tem sido conduzida por dois amplos paradigmas, que de acordo com Kuhn (1970), significa aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade cientifica consiste em homens que partilham um paradigma. Em outras palavras, paradigma se configura como um conjunto de suposições teóricas gerais e de leis e técnicas para a sua aplicação adotadas por uma comunidade cientifica específica (CHARMERS, 1993).
O paradigma positivista defende a teoria da causalidade, na qual todo evento possuem causas antecedentes; busca ser tão objetivo quanto possível na busca pelo conhecimento; o pesquisador não influencia nos achados; e utiliza procedimentos ordenados e disciplinados. O paradigma naturalista ou fenomenológico apresenta a realidade como uma construção dos indivíduos, é múltipla e subjetiva; o pesquisador interage com os que são pesquisados e os achados da pesquisa são os resultados dessa interação (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004).
McEwen (2009), ao explicar essas duas correntes de pensamento, revela o conceito de visão recebida, entendida como conhecimento que os indivíduos aprendem por meio de algo dito a eles, adquirido por meio da observação, da redução, da verificação, do controle e da ciência livre da parcialidade. O positivismo estaria representado por essa visão. Em contrapartida, o paradigma naturalista é representado pela visão percebida, que afirma que não existe uma única verdade, pois a busca do conhecimento é, por natureza, histórica, contextual e carregada de valor.
Diante dessas duas perspectivas, os métodos, mais comuns, utilizados nas pesquisas são o método quantitativo (mais próximo da visão positivista) e o método qualitativo (associados à visão naturalista). O primeiro, definido como uma abordagem que utiliza instrumento de medida utilizável e válido, buscando assegurar a objetividade e a credibilidade dos achados e mostra-se preocupada com a quantificação e a análises estatísticas. O segundo método deseja compreender um problema na perspectiva dos sujeitos que o vivenciam, partindo de sua vida diária, sua satisfação, desapontamentos e sentimentos. Atenta-se ao contexto social e valoriza os dados subjetivos (LEOPARDI, 2002).
O paradigma naturalista ou fenomenológico e o método qualitativo de pesquisa são condutivos à descoberta e ao desenvolvimento do conhecimento inerente à enfermagem,
pois se apresentam abertos, variáveis, relativistas e baseados na experiência humana e nas interpretações pessoais (MCEWEN; WILLS, 2009).
No entanto, se distanciando da dicotomia entre as posturas positivistas e as posturas naturalistas, deve ficar claro que a seleção do método mais apropriado para a realização da pesquisa depende, em certo grau, da inclinação pessoal e da filosofia do pesquisador, todavia principalmente da natureza da questão de pesquisa (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004).
Nesse contexto, o presente estudo, por objetivar apreender as representações sociais da hanseníase que interferem modificando as relações interpessoais do portador no que diz respeito ao estigma e preconceito, apresenta uma abordagem qualitativa, a qual permitirá, segundo Debzin e Lincoln (2006), uma ênfase sobre as qualidades das entidades e sobre os processos e os significados que não são examinados ou medidos experimentalmente em termos quantitativos. Ou seja, são enfatizados os significados, motivações, crenças, valores e atitudes do individuo frente ao fenômeno estudado.
Leopardi (2002) apresenta quatro caracterizações da pesquisa, além da caracterização da abordagem, são elas: caracterização quanto à utilização de resultados (pesquisa pura ou pesquisa aplicada); caracterização segundo os objetivos (pesquisas exploratórias, descritivas, explicativas, estudos prospectivos, estudos retrospectivos); caracterização segundo os procedimentos de coleta (pesquisas experimentais, quase- experimentais, não experimentais, causal comparativa, estudo de caso, pesquisa ou observação participante, pesquisa-ação, documental, histórica, metodológica) e caracterização segundo as fontes de informação (pesquisa de campo, pesquisa de laboratório, pesquisa bibliográfica).
A partir dessa caracterização, esse estudo se especifica como uma pesquisa aplicada, porque ambiciona contribuir com os problemas práticos, buscando, dessa forma, soluções para problemas concretos (LEOPARDI, 2002); como uma pesquisa exploratória, pois objetiva-se a desvendar as várias maneiras pelas quais o fenômeno em estudo se manifesta, assim como os seus processos subjacentes (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004).
Ainda, caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, por pretender descrever uma dada realidade, identificando suas características, suas mudanças ou sua regularidade, o que exige do pesquisador uma precisa delimitação de técnicas, métodos, modelos e teorias que orientarão a coleta e interpretação dos dados (LEOPARDI, 2002).
Trata-se também de um estudo não experimental, pois não visa manipular ou controlar variáveis (LEOPARDI, 2002) e de uma pesquisa de campo, a qual é definida por
Minayo (2004) como uma pesquisa realizada em um recorte espacial que corresponde à abrangência do recorte teórico correspondente ao objeto de investigação, desse modo, a construção de conhecimento se configura como um processo amplo, no qual há predominância da intersubjetividade e onde ocorre a relação social com o pesquisador.