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Conforme colocado por Chiapetta (2010), o Estado de São Paulo é considerado o “polo irradiador” da viticultura brasileira. Inglez de Sousa (1996), por sua vez, afirma que o primeiro surto viticultor do Estado foi iniciado na então capitania de São Vicente. Devido principalmente às condições climáticas pouco apropriadas para o cultivo da uva, a atividade migrou para as adjacências do município de São Paulo e está vinculada ao desenvolvimento da agricultura paulista, em período anterior ao ciclo da mineração. Verdi et al. (2009) afirmam que “o cartório do 1º Ofício do Município de Jundiaí registra venda de vinho em 1669” e Inglez de Sousa (1996), por sua vez, complementa afirmando que “em Jundiaí, povoado humilde aberto nas clareiras do Mato Grosso de então, já se vendia vinho de uva da terra no final de 1669”. Apesar disso, dois fatores parecem ter levado ao quase desaparecimento da viticultura no período que vai do século XVIII ao início do século XIX: a sucessão e o predomínio da lavoura canavieira, do algodão e do café enquanto principais culturas da população bandeirante (INGLEZ DE SOUSA, 1996) e o decreto protecionista promulgado por Portugal em 1789, que proibia o plantio de uvas, inibindo completamente a produção e comercialização de vinho no Brasil (IBRAVIN, 2015). Ainda segundo dados do IBRAVIN, a cultura da uva manteve-se com um caráter doméstico até o final do século XIX, tornando-se uma atividade comercial a partir do início do século XX por meio da iniciativa dos imigrantes italianos estabelecidos no sul do país a partir do ano de 1875.

O ressurgimento da Viticultura está ligado a dois fatores principais, a decadência do cultivo de café na região de São Paulo e a difusão de uma variedade de uva americana (Isabel) em meados do século XIX (INGLEZ DE SOUSA, 1996). Para esse autor, a viticultura em São Paulo só adquire relevância econômica pela concomitância de dois elementos fundamentais para a formação do “binômio homem-planta favorável: imigrante italiano e uva do tipo Isabel” (INGLEZ DE SOUSA, 1996). Nessa linha, o autor complementa afirmando que, nas adjacências da capital paulista — Mogi das Cruzes, São Roque e Jundiaí, principalmente —, o colono italiano passou da condição de cafeicultor para viticultor, fundando a viticultura moderna do estado de São Paulo. Na visão do autor, praticamente toda a grande viticultura paulista, até a década de 1960, estava contida em um polígono que tinha seus vértices marcados pelas cidades de Mogi das Cruzes, Ibiúna, São Roque, Cabreúva, Valinhos, Morungaba, Bragança Paulista, fechando novamente em Mogi das Cruzes. Inserido neste polígono, destacavam-se os municípios de Jundiaí, Louveira, Vinhedo, Itatiba, Jarinu, Atibaia, Itupeva, Campo Limpo Paulista, Indaiatuba, Itaquera e Poá como importantes centros

produtores de uva. O autor ainda registra que, a partir de meados de 1960, começam a surgir novas fronteiras produtoras na direção dos municípios de Piedade e São Miguel Arcanjo.

O estado de São Paulo continua sendo a maior região produtora de uva comum de mesa, niagara rosada, outra casta de uvas americanas que adaptou-se muito bem às condições da região, e que ainda é comercializada não só no estado, como também em todo o Brasil. As condições naturais da região, a cultura italiana e os resultados das pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) sobre a uva contribuíram para a fortalecimento da aglomeração vitivinícola de Jundiaí e região (VERDI et al., 2009).

Até o final dos anos 1980, o estado de São Paulo era um dos principais produtores brasileiros de uva, produção esta encabeçada pelo município de Jundiaí que, além de produzir uva, era também conhecido pela produção de vinho elaborado a partir da uva de mesa.

Atualmente, a produção de uva no estado está localizada em dois polos: um na Região Noroeste (Regional Agrícola de Jales)4, e outro na Região Leste (Regionais Agrícolas de Campinas, Itapetininga e Sorocaba). O polígono viticultor da Regional Agrícola de Campinas é composto pelos municípios de Atibaia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Valinhos e Vinhedo (Figura 3); essa região é conhecida como Circuito das Frutas e famosa por sua produção de uva, figo, goiaba, caqui, pêssego e morango (OTANI et al., 2012).

De acordo com Verdi et al. (2009), apesar da ideia ainda vigente da falta de vocação do estado paulista para a vitivinicultura, muitos produtores de uvas de mesa, basicamente niágara rosada, mantêm em suas propriedades pequenas unidades artesanais de produção de vinho, fundamentadas em variedades rústicas e mesmo na vinificação de excedentes e descarte de uvas de mesa.

4 Definição das regiões feita conforme a classificação da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo) quanto ao conjunto de municípios que formam as regionais agrícolas do Estado.

Figura 3 - Municípios da região do Circuito das Frutas

FONTE: Bragantia, Campinas, v. 69, n. 4, p. 1019-1026, 2010

Nesse contexto, é importante ressaltar que a comercialização da produção artesanal de vinho tem fomentado o desenvolvimento do turismo rural5 ou enoturismo em algumas regiões do estado de São Paulo. Na região de Jundiaí culminou na criação do projeto “Circuito das Frutas” (São Paulo, 2002) e na região de São Roque na organização do “Roteiro do Vinho, Gastronomia e Lazer”, em parceria com o Sindusvinho. Segundo Verdi et al. (2009), essas ações voltadas à estruturação do turismo ligado à produção de uva e vinho têm contribuído para o aumento do interesse pelos produtos do setor vitivinícola, oferecendo aos vitivinicultores, por meio da venda aos turistas de produtos is satura e produtos manufaturados artesanalmente nas propriedades, uma fonte adicional de renda que permite a sobrevivência e a manutenção destes na atividade rural, resistindo à pressão imobiliária de venda de suas propriedades para a construção de condomínios e chácaras de veraneio.

5 No Brasil, a prática do turismo rural é uma atividade bastante recente, tendo sido inspirada na experiência europeia e surgido em Santa Catarina no final dos anos 1980 (SILVA; VILARINHO; DALE, 1998; SCHNEIDER, 2010).

De acordo com Otoni, Arraes e Verdi (2007), ao se articular com as atividades do turismo rural e do enoturismo, a vitivinicultura paulista adquire novas perspectivas de desenvolvimento regional, constituindo a base para a atração de novos empregos e investimentos para a região em hotéis, pousadas e restaurantes, condizentes com a preservação ambiental e com o resgate dos costumes e das tradições regionais. Sato, Alves e Strehlau (2010) complementam afirmando que o turismo rural tem se tornado o principal canal de distribuição para vinhos, licores, frutas e doces, oferecendo às vinícolas uma diversificação de atividades como adegas, lojas e cantinas.

Por fim, é importante destacar que, embora o Estado de São Paulo seja o maior centro consumidor de vinho do país, tem participação pouco relevante na produção industrial de vinho. Destaca-se, no entanto, por concentrar o processo de envasamento do vinho, elaborado principalmente no sul do país (FAGUNDES et al., 2007) e pela importação de 40% do vinho produzido no país (VERDI et al., 2010).

À luz desse contexto, propõe-se a seguinte hipótese:

Hipótese 1 — A possibilidade do cultivo de outras frutas em complemento à cultura da uva para produção de vinho é um fator determinante da decisão do vitivinicultor de continuar na atividade.