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Vinculados ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (MTIC), os IAPs foram criados para atender às diferentes categorias pro- fissionais a partir de 1933, no âmbito de um conjunto de reformas do apa- relho administrativo, promovidas pelo Governo Vargas. Com a principal finalidade de aperfeiçoar o sistema previdenciário no país, esses órgãos tiveram sua estrutura organizacional concebida com base em entidades anteriores, sobretudo, as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPs), mui- tas das quais continuaram atuando paralelamente aos institutos. As con- tribuições dos trabalhadores – cuja associação tornou-se compulsória –, dos empregadores e do Estado, seguindo o modelo tripartite, conformaram

amplos fundos. Esses passaram a ser investidos, principalmente a partir de 19373, no financiamento e produção direta de moradias, com a dupla

finalidade de capitalização dos recursos – perspectiva atuarial – e atendi- mento à demanda habitacional dos trabalhadores no contexto de agrava- mento da crise habitacional urbana, perspectiva social (BONDUKI, 1998).

Segundo Almeida (2012), as categorias de operações imobiliárias variaram significativamente por instituto, ou mesmo entre seus escritó- rios estaduais. Ainda que não tenha sido plenamente adotada, pode-se apreender a dimensão da diversidade dessas ações no mercado por meio da regulamentação instituída por decreto, em 1953, que estabelecia planos com metas distintas nos seguintes moldes: Plano A (preponderantemente social e de renda4) – previa a locação de moradias aos associados, inclu-

sive de propriedade do IAP; Plano B (social e de renda) – financiamentos aos segurados para aquisição, construção, conservação, reforma e amplia- ção de imóveis para residência, ou encampação de dívida hipotecária contraída para esses fins; Plano C (administrativa, patrimonial, social e de renda) – compreendia todas as inversões realizadas em imóveis para uso ou venda dos IAPs, incluindo aquelas utilizadas nos planos A e B; Plano D (essencialmente econômica e financeira) – empréstimos hipotecários a qualquer pessoa física ou jurídica com fins de remuneração das reservas; Plano E (social e de interesse coletivo) – empréstimos para construção e aquisição de escolas, creches, ambulatórios, sanatórios, refeitórios, sedes de associações sindicais e de moradores, entre outros (ALMEIDA, 2012).

Assim como em outros estados nordestinos, no Rio Grande do Norte, essa estrutura foi parcialmente aplicada e as modalidades de finan- ciamento definidas por cada caixa ou instituto. A título de exemplo, o IPASE (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado) previa, no Plano A, a compra de unidades em conjuntos residenciais do instituto; no Plano B, a compra de terreno para construção de casa; e no “Plano C”, a construção de casa mediante garantia hipotecária ou compra de casa onde o associado residisse por aluguel ou que estivesse em risco

3 Embora desde a criação do primeiro IAP, em 1933, estivesse prevista sua atuação no setor habitacional, a instituição das Carteiras Prediais desses órgãos, em 1937, ampliou e inten- sificou consideravelmente esse tipo de ação (ALMEIDA, 2012).

4 Este termo refere-se aos empréstimos com finalidade lucrativa, tendo em vista a rentabili- dade dos fundos previdenciários e a manutenção do equilíbrio financeiro das instituições, em oposição àquelas operações consideradas de cunho social.

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de despejo. Já os institutos dos estivadores (IAPE) e dos transportadores de cargas (IAPTC), dividiam suas ações em compra de unidades (Plano A) e de terrenos (Plano B).

Na capital potiguar, dispõe-se de dados acerca de 600 unida- des habitacionais construídas, adquiridas ou reformadas e ampliadas mediante aplicação de recursos dos IAPs até 1964, momento a partir do qual essas instituições passaram a se extinguir gradualmente. No entanto, tem-se a informação, ainda não confirmada, de que o número de finan- ciamentos atingiu cerca de 2.000 operações imobiliárias, cujos proces- sos, por diversas razões, não constam no arquivo do INSS/RN – principal fonte de dados desta pesquisa. Esse número não parece representar um impacto significativo no parque habitacional, ao se tomar como referência o momento final da atuação dos institutos5. Constitui-se, todavia, numa

intervenção relevante do Estado na moradia natalense, quando se con- sidera as pontuais e escassas experiências anteriores, evidenciadas em pesquisas do HCUrb.

Essa produção se deu de forma diferenciada ao longo do perí- odo estudado, em que o repertório modernista foi traduzido de distintas maneiras e intensidades, estando condicionada pelas conjunturas nacio- nal e local. Nesse sentido, identificaram-se dois momentos de atuação mais significativa desses órgãos: o imediato pós-guerra (1946-1950) e as décadas de 1950 e 1960.

No primeiro momento, marcado por expressivo aumento popu- lacional e agravamento da crise de habitação em meio a um mercado imobiliário-fundiário em crescimento – que viabilizou uma rápida expan- são urbana – foram abertos 233 processos de financiamentos, 40,8% do universo pesquisado. Desses, 164 (70%) destinaram-se à aquisição e à construção de imóveis individuais, em sua maioria, por categorias pro- fissionais de menores salários. Os demais financiamentos serviram para a aquisição de casas em vilas operárias, em geral, de baixa qualidade cons- trutiva e de caráter tradicional (figura 1), e para a construção do primeiro

5 Utilizando-se o número de ligações individuais de água como parâmetro para aproxi- mação ao número de residências existentes na cidade em 1963, pode-se estimar que a atuação dos IAPs (considerando as 2.000 unidades) teria incidido sobre 12,7% das 15.719 casas com água canalizada naquele período (IBGE, 1963).

conjunto, de padrão médio, localizado no bairro destinado à expansão residencial, o Tirol6.

Figura 1 – Plantas-tipo (1947) e perspectiva atual da Vila Gomes, Alecrim-Natal/RN. Fonte: Acervo

HCURB.

As residências individuais edificadas ou adquiridas nesse período caracterizam-se pela predominância das linhas do estilo neocolonial e do

art decó ou, ainda, a mistura entre os dois – incorporando, por vezes, ele-

mentos art nouveau – além das casinhas de feições coloniais localizadas, principalmente, num bairro de características interioranas, o Alecrim. Nas residências de padrão mais elevado, os aspectos que evidenciam mudan- ças são a gradativa inserção do banheiro entre os quartos, a presença de “salas únicas” e a maior integração entre a copa e a cozinha, separadas por balcões, o que constitui a chamada “copa-cozinha” (Figura 2).

6 Há poucas informações registradas sobre esse conjunto nos processos pesquisados. Essa limitação dos dados é recorrente no tocante à produção própria dos institutos, posto que os “laudos de avaliação” – documento com maior riqueza de detalhes sobre os imóveis – são, nesses casos, mais simplificados.

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Figura 2 – Projeto de casa cuja construção foi financiada pelo IAPB em 1950. Fonte: Acervo HCUrb.

Essas transformações apontam para a tendência de simplificação do programa de necessidades domésticas, valorização da privacidade e elevação das condições sanitárias, indicando, ainda, os caminhos para a setorização, característica da casa moderna no Brasil (AMORIM, 2011). Quanto aos materiais, predominou o uso da alvenaria de tijolos conven- cionais, embora seja importante registrar a concessão de financiamentos para aquisição de casas construídas total ou parcialmente com taipa, o que, por um lado, denota tolerância com as técnicas locais no âmbito dessa política pública, e, por outro, a escassez de alternativas de melhor qualidade a custo acessível no mercado.

Desse conjunto de exemplares, financiados entre 1946 e 1950, três se destacam por trazerem novidades na solução formal, no espaço interno e, em menor escala, nos materiais e técnicas empregados (Figura 3), o que delimita uma incorporação, ainda tímida, de pressupostos modernis- tas que se encontram mais vinculados ao que Segawa (1999) denomina “modernidade pragmática”. Conforme o autor, dentre as diversas tendên- cias racionalizantes no campo da arquitetura em assimilação no período, essa predominou na década de 1940, mas foi paulatinamente abandonada nas décadas seguintes, quando admite a afirmação de uma hegemonia na arquitetura brasileira modernista – identificada com a “escola carioca”. Corrobora-se aqui essa leitura, pois, a partir de 1951, propostas mais cla- ramente influenciadas por esta vertente “hegemônica” se fizeram presen- tes nas ações dos IAPs em Natal, dando início ao que se delimitou como um segundo momento da atuação desses órgãos na cidade.

Esse período, compreendido entre as décadas de 1950 e 1960, coin- cide com a chegada de profissionais mais envolvidos por esses debates – engenheiros, arquitetos e desenhistas – e com a proliferação de cons- truções que traduziam essa nova linguagem (Figura 4), inicialmente, em obras públicas e privadas de uso coletivo e, em seguida, nas residências particulares (MELO, 2004).

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Nesse contexto, destaca-se um amplo repertório de elementos que renovaram a arquitetura, não só em Natal, mas em todo no país, tais como os pilares em V e W; sistemas de vedação e proteção solar inovadores – brises e cobogós –; coberturas chamadas “borboleta”; usos diferencia- dos de revestimentos cerâmicos, amplamente difundidos, inclusive, na arquitetura “não erudita” – conforme evidencia Fernando Lara (2001). Paralelamente, a disseminação do concreto armado subsidiou a concep- ção e concretização de novas estruturas, entre as quais se podem dis- tinguir diferentes formas de interpretação dos “cinco pontos da Nova Arquitetura”, postulados por Le Corbusier, processo que foi acompanhado pela continuidade no uso de técnicas construtivas tradicionais.

Apesar da atuação dos institutos em Natal entre 1951 e 1964 ser menos intensa em quantidade de financiamentos registrados do que no momento imediato ao pós-guerra – totalizando 206 processos (média de 14 ao ano), dos quais 158 (76,7%) destinaram-se a prédios isolados –, é nessa época que se manifestam mais claramente, portanto, as ressonân- cias do debate acerca da arquitetura e do urbanismo modernos em suas ações. Destaca-se também no período a venda de imóveis em conjuntos habitacionais, em detrimento da tipologia das vilas operárias tradicionais, características da etapa anterior. Concebido pelo engenheiro funcionário do instituto, Moacyr Maia, o Conjunto Nova Tirol revela a apropriação e tradução de pressupostos modernistas, consubstanciados nos blocos de apartamentos laminares, de uso misto, e casas unifamiliares, ambos com reduzida área interna, integradas a um complexo de equipamentos, servi- ços coletivos e áreas verdes.

Entre as unidades individuais financiadas igualmente se encon- tram mais claras referências às proposições modernistas, tanto nos aspec- tos técnicos, quanto formais e espaciais. Justifica-se, assim, o estudo mais detalhado dessa produção, foco deste trabalho no tópico seguinte.

Benzer Belgeler