dos principais eventos do calendário comunitário de Diogo Lopes. Este trabalho de acompanhamento da presença das Velhas Mulheres se deu no período de junho de 2005 a maio de 2006, para documentar suas presenças nos ritos socioculturais do lugar.
Durante o ano, a comunidade realiza eventos que são referências de encontros coletivos; são festas populares, religiosas, celebrações e datas tradicionalmente comemoradas na sociedade brasileira. Nesse período, estivemos profundamente interessadas nos acontecimentos que circundavam a problemática central de nossa pesquisa.
Para dar dimensão metodológica a este interesse, realizamos o que DE FRANCE (2000) considera uma etnografia fílmica, ou seja, um registro audiovisual dos fatos, direto da convivência com as fontes, com a finalidade de montar um referencial de dados válidos e analisá-los posteriormente em exercício reflexivo. Nestes anos, concentramos nossa atenção nos eventos em que as Velhas Mulheres de Diogo Lopes tinham papel decisivo no planejamento, na organização, na realização, ou mesmo na fruição comunitária. São eles 4:
Janeiro
Férias (sem data precisa).
Importância para a comunidade: Lazer e trânsito de relações sociais.
Participação das Velhas Mulheres: Dona Lelé organiza piqueniques em viagens para outras localidades da região, e até mesmo para outros estados, em que muitas das senhoras participam; ou elas passam os dias no rancho, nas praias.
Fevereiro
Carnaval (com data variável).
Importância para a comunidade: No passado, o carnaval já foi muito festejado, hoje tudo acontece em Macau/RN. Em 2006, a Sra. Simone tentou realizar uma
4 As imagens apresentadas na descrição deste calendário são da etnografia fílmica da pesquisa, captadas por
reviver o carnaval do passado, como dizem elas, “de antigamente”, e montou o bloco de rua, chamado “Resgate dos Índios”, que contou com a participação de adultos e crianças. Para acompanhar o bloco, havia música tocada por triangulo e sanfona.
Participação das Velhas Mulheres: Organizavam os blocos e participavam dos festejos, das nove mulheres entrevistadas, duas ainda continuam participando das atividades.
Março – Sem festividades. Abril
Semana Santa (sem data precisa).
Importância para a comunidade: É quando celebram a Paixão de Cristo e vivenciam a Campanha da Fraternidade, acompanham o calendário religioso da Igreja Católica e tem a necessidade de mostrar à comunidade a Paixão de Cristo, quando os fiéis da Igreja são divididos em grupos, cada um com uma dirigente (sempre mulheres), organizados para cada rua da comunidade, a fim de estudarem o tema da Campanha Nacional da Fraternidade.
Participação das Velhas Mulheres: São responsáveis pela coordenação de grupos, são também responsáveis pelo encaminhamento de festejos e de infra-estrutura da Paixão de Cristo. No ultimo encontro, antes da Semana Santa, os grupos de ruas se reúnem para fazer uma celebração.
Figura 18 – Coroação de Nossa Senhora. (Imagem: Elisa Paiva).
Maio
Festa das Flores com a Coroação de Nossa Senhora.
Importância para a comunidade: Durante todo o mês de maio acontecem eventos sobre as “flores de maio”, esses eventos culminam com a coroação da imagem católica de Nossa Senhora, exatamente no dia 31. É a festa mais importante da comunidade, atrai pessoas de fora, os familiares que moram em outros municipios e aproveitam para visitar a família. Esta festa conta com muitas atividades que possibilitam o envolvimento de grande parte da população. Durante a coroação que acontece no final da missa, são reafirmados os preceitos de fé. As festividades de maio têm como objetivo material angariar fundos para os serviços da Igreja. No mês de maio, dentro dos festejos das flores, há ainda uma Festa Social que acontece no Clube, com apresentação de bandas de música. Esta festa é de responsabilidade dos diretores do Clube.
Participação das Velhas Mulheres: Responsáveis por toda a logística religiosa e pelo leilão que ocorre no evento. Neste evento, fica definitivamente marcada a
presença comunitária destas senhoras. Junho
Festa Junina (acompanha o calendário cível brasileiro).
Importância para a comunidade: Um momento de grande lazer comunitário, com festejos particulares e públicos, inclusive, com a apresentação de quadrilhas (Escolas – com as crianças; Reciclagem – com os jovens; Rancho – com os jovens; Frinfa Afoguiado – só com homens; Cabaço furado – só com mulheres; Arraiá da Fundação – FASOP – com membros da terceira idade) As festas de junho servem para a arrecadação de fundos em prol das entidades comunitárias.
Participação das Velhas Mulheres: Responsáveis pela festa como um todo. Embora cada quadrilha tenha um responsável, estes, são os próprios puxadores (condutores dos passos da dança, animadores). Dona Lelé é a responsável pela quadrilha Cabaço furado e pelo Arraiá da Fundação.
Figura 19 – V Encontro Ecológico da RDSE – Ponta do Tubarão. (Imagem: Diogo Moreno).
Julho
Encontros Ecológicos da RDSE – Ponta do Tubarão (sem data pré-estabelecida).
Importância para a comunidade: Evento de profunda importância para a região, especialmente no tocante à educação ambiental da população e para o desenvolvimento de políticas comunitárias de preservação e utilização do meio- ambiente, com atividades desenvolvidas nas três comunidades (Diogo Lopes, Sertãozinho e Barreiras). Este evento, criado como uma estratégia política para defender o “seu canto”, é o momento em que se abrem, para a comunidade, espaços de discussões oficiais acerca de sua realidade.
Participação das Velhas Mulheres: As Velhas Mulheres iniciaram o movimento preservacionista na região, aglutinando a comunidade em torno da defesa do meio ambiente e das tradições pesqueiras. Até hoje, elas são elementos decisivos na organização dos Encontros Ecológicos e na logística de sua realização, inclusive cozinhando e trabalhando na infra-estrutura.
Figura 20 – Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. (Imagem: Elisa Paiva).
Agosto (Dia 15)
Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes.
Importância para a comunidade: Realizada na Comunidade de Sertãozinho, conta com a participação das três comunidades (Barreiras, Diogo Lopes e Sertãozinho). Evento simbólico para a união religiosa dos padroeiros dessas comunidades, quando, cada um no seu andor segue a procissão nos barcos e encontram-se no mar, juntam- se e voltam para a Paróquia de Diogo Lopes. Em seguida a procissão vai a pé para a Paróquia de Sertãozinho, onde acontece a missa campal e a Festa Social, com diversões variadas, entre elas um leilão de comidas, para arrecadar fundos para a Igreja de Sertãozinho.
Participação das Velhas Mulheres: Estão sempre à frente de todas as atividades. São elas as mais instigadas e instigadoras da união dos santos, pois consideram este fato religioso importantíssimo para a união dos moradores de cada comunidade e para a coletivização das causas e das lutas por melhores condições de preservação ambiental e de respeito às tradições.
Figura 21 – Regata de Veleiros de Diogo Lopes. (Imagem: Diogo Moreno).
Setembro
Regata de Veleiros de Diogo Lopes (sem data definida).
Importância para a comunidade: Esta competição de barcos à vela, criada pelos homens que trabalham ao redor das práticas de mar, tem função de lazer e de união destes trabalhadores, inclusive, com uma premiação bem disputada. É um momento de lazer para os pescadores e suas famílias e é, também, uma espécie de “abertura” para a festa do padroeiro da comunidade. Na Regata de Veleiros são arrecadados fundos para as associações, nas diversas barracas de comidas que circundam a praia.
Participação das Velhas Mulheres: Responsáveis pelas barracas de venda de comidas e bebidas, para angariar fundos.
Figura 22 – Procissão de São Francisco – Padroeiro de Diogo Lopes. (Imagem: Diogo Moreno).
Outubro
Festa do Padroeiro de Diogo Lopes, São Francisco de Assis (sem data definida). Importância para a comunidade: Este festejo tem duração de nove dias, com atividades que disseminam a união e a partilha. É uma festa religiosa com desdobramentos de quermesse e de festejo brincante popular, com leilão, fogos de artifício, parque de diversão, música e barracas, durante os dias de acontecimento. Participação das Velhas Mulheres: Durante a novena, fazem caminhadas pelas ruas da comunidade, levando o Santo para passar a noite nas residências que o solicitam. Nos dois últimos dias, cada pessoa leva algo para o café da manhã da casa onde o santo dorme, e há uma grande partilha de alimentos entre todos os presentes. Quando o padre não pode comparecer a algum dos lugares de novena, elas “celebram” os ritos equivalentes à missa. São elas quem mais canta durante toda a procissão; preparam as crianças para a Primeira Eucaristia; passam o mês vestindo roupas de cor marrom em homenagem ao santo franciscano; organizam toda a festa religiosa e social.
No evento final da novena, elas apresentam o Pastoril da Terceira Idade, dançando e cantando.
Figura 23 – Pastoril das Velhas
Mulheres de Diogo Lopes. (Imagem: Diogo Moreno).
Novembro – Sem festividades.
Dezembro – No Natal, a comunidade passa a festa em família, depois dos ritos sagrados da Igreja.
Durante um ano, filmamos o calendário de eventos desta comunidade. Acompanhamos e observamos atentamente seus ritos e o seu cotidiano, em seu contexto sociocultural. Conversamos com pessoas e ouvíamos atentamente suas histórias de pesca e de viver. Percebemos em seus discursos uma ordem invisível que nos motivou a buscar respostas para os questionamentos da nossa investigação.
Do calendário de eventos da comunidade de Diogo Lopes, registramos os Encontros Ecológicos da RDSE – Ponta do Tubarão, a Regata de Veleiros, a Festa de São Francisco de Assis, a Festa Social, a Festa das Flores, enfim, os eventos importantes. Em todos esses eventos, encontramos a presença marcante das Velhas Mulheres, e vimos que há um comportamento recorrente de “dar de comer”. Tal comportamento, além da música e da dança, da fé e dos rituais tradicionais de congregação, de união, é pleno de significação do modo materno como essas senhoras educam a comunidade.
O papel de alimentar, que há nos seus gestos de solidariedade e de união comunitária, vai desde as divisões da tarefa de alimentar, nas celebrações da festa do padroeiro e das novenas do mês de maio, até o famoso leilão de comidas, para angariar fundos para as atividades da paróquia e para os eventos comunitários que ocorrem nas festas. Assim, a partilha é um traço de equilíbrio social forte no agir e no discurso dessas mulheres.