“adotei naturalmente o processo de acumular material e afiar as ferramentas, à espera de momentos propícios e decisivos quando a oportunidade passa perto e a gente tem de segurá-la com mão firme, doidamente”
(Carta a Vicente Guimarães, 3 jun. 1939)
Essa declaração de Guimarães Rosa funciona como pista para incentivar a leitura do livro e considerar o que se processava nos momentos anteriores à sua publicação. Isto é, tentar perceber, nos manuscritos e nas versões publicadas anteriormente dos contos, se havia algum procedimento que determinava o tipo de texto apresentado em Tutaméia. Para isso, preciso lançar mão da Crítica Genética para a reflexão sobre o processo de elaboração textual.
Essa corrente crítica supõe os manuscritos como portadores de uma dinâmica interessante para a interpretação literária – e entenda-se manuscritos não como documento escrito à mão (manuscrito autógrafo), mas como qualquer documento que dê mostras do processo de produção (correspondências, datiloscritos, entre outros). Todavia, geralmente os estudos a ela filiados restringem-se à reconstituição cronológica de etapas da elaboração textual e, por vezes, não chegam à etapa seguinte que seria a de interpretação.
Neste estudo, nossa motivação não é a de buscar e descrever índices nos manuscritos (rasuras, substituições, acréscimos e deslocamentos) para a determinação temporal do que já está no manuscrito e o que ainda não foi desenvolvido; é, antes, procurar discutir o que se deixa entrever nos manuscritos para a compreensão do funcionamento da máquina ficcional.
Dentre as diferentes linhas que se desenvolveram a partir dessa teoria, nosso estudo ajusta-se mais às reflexões feitas por grupos de pesquisadores brasileiros, porque estes não pensam o manuscrito simplesmente como base para a determinação temporal de fases literárias, como o fazemos pesquisadores que inauguraram a disciplina na França.
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No livro Escrever sobre escrever, Claudia Pino e Roberto Zular compreendem a prática da escrita enquanto atividade que envolve “hesitações, tensões por vezes insolúveis que não tendem a lugar nenhum, não têm um ponto de partida fixo, mas muitos que se definem sempre pelo passo seguinte, e não por uma tendência anterior, preexistente”44.
Os autores propõem, a partir da teoria de Foucault sobre a arqueologia do saber, não mais a apreensão de um processo, mas a observação de “séries breves, justapostas, portadoras de uma nova história”45 que seriam organizadas a partir de descontinuidades, indicando que “os movimentos identificados em um conjunto de manuscritos não poderiam ser pensados a partir de tendências (identidades entre enunciados), mas das diferenças entre eles”46.
Essas diferenças não são dadas apenas pela materialidade dos manuscritos, mas pelo olhar do pesquisador que é, por sua vez, afetado por aqueles objetos de leitura que também provocam efeitos em quem os consulta, solicitando sua atuação nesse campo de descontinuidades. Por isso é importante o recorte analítico feito pelo pesquisador na medida em que é ele quem vai direcionar seu olhar para o montante de manuscritos, definindo quais tipos de descontinuidades devem ser observados ou não.
1.2.1 Estudos genéticos do texto rosiano
Os primeiros estudos em crítica genética sobre as narrativas de Guimarães Rosa desenvolveram-se sob a orientação de Cecília de Lara, responsável também pelos trabalhos de
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Essa reflexão citada parte da análise da releitura do mito da escrita de Robinson Crusoé feita por Paul Valéry em “Histoires brisées”. Vale ressaltar ainda a avaliação dos autores para o percurso da crítica genética enquanto disciplina: “talvez o primeiro momento da crítica genética, na qual se encarava a escrita como uma continuidade, fosse uma forma de reverenciar o processo de criação (e o processo de produção capitalista) como se fosse um grande deus. Sem dúvida, essa escolha teve seus frutos: a crítica genética entrou dentro dos espaços do poder, criou laboratórios, grupos de especialistas, conseguiu recursos, teve a atenção da imprensa e das casas de edição ao revelar manuscritos inéditos e novas interpretações de textos canônicos a partir desses novos dados. Essa escolha também teve seus custos: não há geneticista que não tenha sido ligado, de frente ou pelas costas, a uma certa cultura da alienação”. Pino, C. A.; Zular, R. Escrever sobre escrever – uma introdução crítica à crítica genética, São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007, p. 40.
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Ibidem, p. 41. 46
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levantamento e organização prévios da documentação47 quando de sua chegada no Instituto de Estudos Brasileiros. Essas pesquisas foram pioneiras, já que a crítica genética na França ainda estava definindo seu campo de estudo e ainda não havia bibliografia segura para a reflexão sobre seu modus operandi. Assim, no Brasil, ao se dedicarem à leitura dos manuscritos rosianos, os pesquisadores foram exaustivos quanto ao cotejo de notas e rascunhos para a elucidação cronológica de seu material, propondo-nos novos caminhos de interpretação48.
Todos esses trabalhos são essenciais enquanto divulgação de manuscritos a partir de suas transcrições e também porque reúnem depoimentos do escritor e de pessoas próximas a ele durante sua trajetória literária, além de divulgar correspondências que muitas vezes encontram-se dispersas.
Dialogaremos sobretudo com os estudos de Leonel e Romanelli. Por isso faremos agora uma breve contextualização deles.
As viagens feitas por Guimarães Rosa pelo interior de Minas Gerais resultaram num vasto material escrito em cadernos e cadernetas, tornando-se um dos motivos prediletos da crítica genética. É o que ocorre no estudo de Maria Célia Leonel, de 1984, sobre o processo de criação de Corpo de Baile, no qual tenta recuperar o aproveitamento das notas de viagem para a produção literária49. O trabalho minucioso de pesquisa e descrição dos manuscritos está, nesse caso, motivado em descobrir a “raiz realista do elemento descrito”50. Assim, Leonel conclui que “a realidade sertaneja é transfigurada pela imaginação apaixonada de Guimarães Rosa, mas nunca deturpada por ela”51. Esse apego ao dado real é superado em seu
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O levantamento e a organização prévia dos documentos foram sendo elaborados, a partir de 1979, quando da chegada dos manuscritos no IEB.
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Para a análise de textos publicados, engajaram-se os estudos de Maria Célia Leonel (1984); Maria Neuma Cavalcante (1991); Kátia Romanelli(1995); Ana Luiza Martins Costa (2002); e, na tarefa de rastrear os processos dos textos inacabados, há os estudos de Elizabeth Ziani (1996) e Cleuza M. de Carvalho (1996). 49 Leonel, Maria Célia. Guimarães Rosa alquimista: processos de criação do texto. Tese (Doutorado),
Universidade de São Paulo, São Paulo, 1985. 50
Ibidem, p. 91. 51
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livro Guimarães Rosa – Magma e gênese da obra, no qual a pesquisadora objetiva reler o texto rosiano como um manuscrito que quase sempre se remete a uma escrita anterior e, para isso, formula o conceito de auto-intertextualidade52.
Quase dez anos depois do primeiro estudo de Leonel, surge, em 1995, a tese de Kátia Romanelli sobre o processo de criação de seis contos de Tutaméia53. O dossiê é descrito de forma extenuante para a observação das “diretrizes lingüísticas e estilísticas” na construção textual de Guimarães Rosa a partir da dinâmica de alterações nos manuscritos. A pesquisa, muito cuidadosa e generosa para com os que se interessem pelo processo de criação, conclui que
no que se refere à invenção poética, percebe-se que o escritor explora mais intensiva e precisamente a técnica de enxugamento do discurso que acarreta alguns resultados: uma estruturação mais hermética, liberta de conexões gramaticais da ordem dos elementos que compõem o sintagma; uma maior ênfase ao efeito cumulativo que aponta na direção do sentido, segundo uma técnica imbricada, que decorre da extrema inversão de segmentos, dando a idéia de inarticulação do discurso narrativo, conferindo a cada vocábulo um papel de destaque e uma maior autonomia de criação no manuseio da linguagem, que permite chegar à plenitude de sentido54.
É por causa desses procedimentos identificados que Romanelli comenta em diversas partes de seu estudo a importância do leitor para fazer funcionar as engrenagens textuais de Guimarães Rosa. Daí a comparação entre o livro e a técnica cinematográfica: “o campo de percepção do leitor estabelece-se para a obra à semelhança da técnica do corte cinematográfico em que cada texto, sendo um núcleo narrativo, pode ser focalizado separadamente”55.
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Leonel, M. C. Guimarães Rosa. Magma e gênese da obra, São Paulo: Unesp, 2000.
53 Romanelli, K. A “álgebra mágica” na construção dos textos de Tutaméia de João Guimarães Rosa. Tese (Doutorado), Universidade de São Paulo, 1995.
54
Ibidem, p. 195. 55
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