Para entender os sentidos de “Contracultura” e a sua relação com o Pasquim é necessária antes uma reflexão sobre o próprio conceito de cultura, ou Cultura, com “C” maiúsculo, como escrevem alguns autores. Esse é um conceito-chave que, como percebeu
Edgar Morin na obra Cultura de Massas no Século XX. O Espírito do Tempo (MORIN: 2001, pp. 75-76), é capaz de ter inúmeros empregos e perspectivas de análise que, dentre outras definições, vão desde a antropologia da cultura, passam pela sociologia da cultura, por um sentido etnográfico, pelos empregos que o termo tem no estruturalismo, pelas humanidades clássicas e pelo gosto artístico literário, pelas acepções contemporâneas dos Estudos Culturais e, no caso que nos interessa, por uma concepção estrutural (não confundir com estruturalista) da Cultura, descrita pelo sociólogo inglês John B. Thompson, entre outros.
Em Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de
comunicação de massa (1995), Thompson reconstitui alguns destes empregos do termo
Cultura, reavalia-os e desenvolve um uso capaz de situá-lo na contemporaneidade, onde há a presença esmagadora nos campos (no sentido de Pierre Bourdieu) sociais e políticos das “formas simbólicas” disseminadas pelos meios de comunicação de massa, e onde este conceito surge como central. Desta forma, para Thompson, a partir de uma concepção estrutural de Clifford Geertz, os fenômenos culturais devem ser vistos como “formas simbólicas em contextos estruturados”, importando, portanto, a contextualização destas que “são fenômenos rotineiramente interpretados pelos atores no curso de suas vidas diárias que requerem a interpretação pelos analistas que buscam compreender as características significativas da vida social”. (THOMPSON: 1995, p. 181).
As características das formas simbólicas, segundo Thompson, resumem-se em cinco:
intencional - são expressões de um sujeito e para um sujeito (sujeitos); convencional – a
produção, construção ou emprego das formas simbólicas, bem como a interpretação das mesmas pelos sujeitos que as recebem, são processos que, caracteristicamente, envolvem a aplicação de regras, códigos ou convenções de vários tipos; estrutural – são construções que exibem uma estrutura articulada; referencial – são construções que tipicamente representam algo, referem-se a algo, dizem algo sobre alguma coisa; e contextual – as formas simbólicas estão sempre inseridas em processos e contextos sócio-históricos específicos dentro dos quais elas são produzidas, transmitidas e recebidas. (THOMPSON: 1995, pp. 181-192).
A partir dessa concepção de Cultura como formas simbólicas estruturadas em contextos específicos, podemos partir do pressuposto de que são elas que dão sentido à vida social. Ou seja, elas são estruturadas de uma forma que se disseminem e permeiem os contextos nos campos das artes, da política, da educação, dos produtos da mídia, da sociedade, da economia, das religiões e, em especial para o caso do Pasquim, das produções jornalísticas e de imagens gráficas, dentre outros. Outro ponto importante a ser destacado que
recorre ao conceito estrutural de Cultura de Thompson é a valorização dessas formas simbólicas em complexos processos de avaliação e conflito, onde os meios de comunicação são, muitas vezes, os difusores dessa mediação discursiva. Essa valorização é o que possibilita, segundo John. B. Thompson, a assimilação ou repulsa das formas simbólicas pelos sujeitos que estão no estágio de decodificação destes sistemas de significação. Thompson descreve que:
“[as formas simbólicas] são constantemente valorizadas e avaliadas, aplaudidas e contestadas pelos indivíduos que as produzem e recebem. São objetos daquilo que denominarei processos de valorização [grifo do autor], isto é, processos pelos e através dos quais lhes são atribuídos determinados tipos de “valor”.” (THOMPSON: 1995, p. 193).
Contracultura, portanto, não deixa de ser também um tipo específico de “formas simbólicas socialmente estruturadas”. Nesse sentido, Contracultura é também Cultura. Entretanto, ela é vista também como expressões dos sujeitos em contraponto, em antagonismo, em oposição a outros atores, a outras formas de cultura, a outras formas de contextualização dos processos sociais. São valorizadas, portanto, em contraponto aos sentidos das formas simbólicas hegemônicas.
Carlos Alberto Messeder Pereira - um dos estudiosos do fenômeno sócio-histórico caracterizado como Contracultura – considera o jornalista Luiz Carlos Maciel - colaborador do Pasquim nos anos 1970 - como um dos principais autores a discutir a questão no país. É importante destacar que na coluna UNderground (assim mesmo, com U e N maiúsculos), de Maciel, surgiram na época, pela primeira vez aos leitores brasileiros, nomes da literatura, da poesia ou da música consideradas marginais, ou seja, “contraculturais”. O próprio Pasquim, numa espécie de “ironia com um fundo de verdade”, dava a si a alcunha de “um jornal marginal” 7.
7 Como na entrevista do jornal com uma figura folclórica e tradicional do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro,
Madame Satã, onde a criação mais conhecida de Jaguar, o rato Sig, mascote símbolo e espécie de avatar do jornal, (que merece adiante uma descrição particular) apresenta: “O encontro histórico de dois marginais: Madame Satã e Monsieur Pasquim”.
A obra A Contracultura de Theodor Roszak - publicada pela Editora Vozes, em 1972 - faz uma reconstituição daquele período. Muito difundida no Brasil entre as décadas e 1970 e 1980, ela aborda o assunto por uma perspectiva que abrange a incitação civil da juventude contra a sociedade de seus pais, as novas experiências “psicodélicas” com drogas como forma de buscar ampliação dos espectros sensorial e estético, a jornada pelas civilizações e religiões orientais como negação à cultura ocidental e a busca da subjetividade em contraponto à objetividade lógica cartesiana do conhecimento também ocidental. Entretanto, apesar de sua enorme atualidade sob alguns pontos de vista (como quando trata da explosão das culturas juvenis), por outro lado muitos de seus conceitos (como tecnocracia, por exemplo) parecem estar localizados especificamente naquele contexto histórico.
Entretanto, alguns autores empregam o conceito de Contracultura de forma que possam explicar tanto fenômenos contemporâneos quanto daquela época e abranger, por exemplo, as experiências da imprensa alternativa. O sentido da contracultura no Pasquim pode ser entendido em dois sentidos. O primeiro é o sentido mais difundido, da Contracultura norte-americana, de uma postura de rebelião, contestação às culturas oficiais vigentes e mudança de comportamentos na juventude. O outro é um sentido mais específico e mais abstrato, capaz de abrigar a sua posição no contexto da experiência jornalística alternativa das décadas de 1960 e 1970 e diferenciá-lo dos jornais que mantinham em seu discurso de contestação uma postura ideológica de direita ou mesmo proveniente unicamente da esquerda política tradicional.
A professora Heloisa Buarque de Hollanda trata no livro Impressões de viagem: CPC,
vanguarda e desbunde: 1960/1970 - síntese de sua tese de doutorado sobre as culturas
daquela época - de algumas características, referências e origens da contracultura ao abordar a ascensão e o êxito do tropicalismo no Brasil do final dos anos 1960. Nesta época, destaca a autora, a desconfiança perante à esquerda ortodoxa e à direita são aprofundadas. Em meio a essas tendências, abre-se um espaço para uma radicalização da crítica comportamental e de novas formas de atuação, que dão lugar a perspectivas de tons anarquistas e de intervenção múltipla:
“É por essa época que começa a chegar ao país a informação da contracultura, colocando em debate as preocupações com o uso de drogas, a psicanálise, o corpo, o rock, os circuitos alternativos, jornais underground, discos piratas etc. A informação que ainda há pouco era Pound, Mallarmmé, Joyce etc. – o paideuma concretista – passa a integrar os poetas beats norte-americanos dos anos 60 (principalmente Allan
Guinsberg e Lawrence Ferlingheth) e autores como McLuhan, Marcuse, Watts, Norman Mailer etc” (HOLLANDA: 1992, p. 63).
O conceito de Carlos Alberto Messeder Pereira, em sua obra sobre Contracultura, descreve o termo em um sentido mais específico para a compreensão do Pasquim na afronta à forma de cultura oficial vigente, defendida pelo governo militar e pela sociedade civil que apoiou o golpe:
“O mesmo termo pode também se referir a alguma coisa mais geral, mais abstrata, um certo espírito, um certo modo de contestação, de enfrentamento diante da ordem vigente, de caráter profundamente radical e bastante estranho às formas mais tradicionais de oposição a esta ordem dominante.” (MESSEDER PEREIRA: 1983, p. 20).
Isso não significa que o jornal rompesse completamente com a crítica política da esquerda tradicional ao assumir essas posturas. Ao contrário, pois ao se posicionar dentro dessa nova perspectiva, o jornal não apenas se mantinha nos marcos de uma cultura de esquerda e de crítica intransigente, como introduzia um novo discurso de oposição, através da apreensão de novos modos de consciência contestatória. Entretanto, o semanário fazia parte dos jornais mais voltados à crítica de costumes e à ruptura com as formas de culturas hegemônicas no país.
“O Pasquim, ao lado de suas raízes no nacional-popular, institui o culto da cultura underground norte-americana, e ainda detonou um movimento próprio de contra- cultura, transformando as linguagens do jornalismo e da publicidade, e até da linguagem coloquial. O Pasquim mudou hábitos e valores, empolgando os jovens e adolescentes dos anos 70 (...)”. (KUCINSKI: 1991, p.XV).
É do próprio Luiz Carlos Maciel - que além de colaborador dos primeiros anos do
Pasquim com a coluna UNderground, como foi dito, também foi fundador do jornal
alternativo “contracultural” Flor do Mal8 e considerado “o guru da Contracultura brasileira” -
em entrevista ao jornal cearense O Povo, uma reflexão sobre o conceito de Contracultura que possa ser aplicado na contemporaneidade:
“O que se chama de contracultura é um evento histórico determinado. É um passado, um legado. Mas sempre existirão manifestações que poderíamos chamar de “contraculturais” que são, por sinal, bastante diferentes entre si. Hoje em dia não se está gestando contracultura nenhuma. A contracultura, como passado, já está integrada ao corpo geral da cultura planetária. Uma nova contracultura autêntica não se chamará contracultura” (MACIEL, Luis Carlos in O POVO: 2007, p. 06).
Portanto, o conceito de Contracultura, com sua importância histórica e seu uso que tenta explicar algumas das posições do Pasquim, é capaz de se referir tanto a contextos localizados dentro de um universo espaço-temporal delimitado, situado historicamente, como à universalização de seu sentido. Ele pode ser comparado, dentro de uma perspectiva de disputas de poder, ao conceito de contra-hegemonia atribuído a Antonio Gramsci, esse mais aplicável a disputas no campo político. Assim como o conceito de cultura popular politizada, para além de uma cultura nacional-popular, ele ajuda a explicar também as posições do jornal contra o modelo de sociedade considerada tradicional e conservadora que apoiou o regime militar naqueles anos.
A Contracultura no Pasquim, portanto, representou uma alternativa a uma oposição limitada que a imprensa “oficial”, ou até mesmo a de oposição (não necessariamente a alternativa), exercia naquele período. As expressões imagéticas no Pasquim que dialogam diretamente com a Contracultura, seja nas caricaturas, nas charges, nos cartuns, nas tiras de humor, nas fotografias de humor, nas fotomontagens, nas capas e em demais manifestações gráficas, serão reconstituídas e descritas no último capítulo, destinado ao estudo de caso. Desta forma, será possível especificar com mais precisão, pontualmente, traçando um paralelo com o contexto e a situação sócio-histórica específica, as posições do Pasquim em relação a este tipo específico de “cultura”.