O envio dos lotes de resíduos possui duas rotas que possibilitam a eliminação de todo o passivo ambiental, bem como o conceito de resíduo zero. Os lotes formados exclusivamente com resíduos de couro são encaminhados para hidrólise térmica, e os lotes com os demais tipos de resíduos são enviados para blendagem e, posteriormente, para coprocessamento nas cimenteiras. Devido ao fato de a hidrólise térmica ser feita única e exclusivamente com resíduos de couro, justifica-se todo o cuidado de separação dos resíduos desde sua origem, ou seja, nas indústrias. Já a blendagem aceita todos os tipos de resíduos do setor e, como será ainda misturada com resíduos de outros setores industriais, não necessita de uma separação criteriosa.
4.4.3.1 Rota 1: Hidrólise Térmica
Os lotes de resíduos de couro são enviados para uma empresa de origem italiana que transforma esses resíduos em adubos nitrogenados para uso na agricultura. Essa unidade produtiva também foi visitada e está localizada na cidade de Portão-RS, a 60 km de Igrejinha. A síntese do processo produtivo está demonstrada na Figura 55, porém a empresa não permitiu a captura de imagens.
Figura 55 – Processo de Hidrólise Térmica Fonte: elaborado pelo autor.
Os resíduos de couro, única matéria-prima utilizada no processo, são recebidos, pesados e enviados diretamente para o reator, não necessitando de moagem ou trituração. Nesse reator, os resíduos são fervidos numa espécie de fulão, semelhantes aos de curtumes, numa temperatura de 120º C por aproximadamente 1 hora e 40 minutos. Esse processo é denominado hidrólise térmica, que possibilita a quebra das moléculas de couro, e foi desenvolvido pela matriz italiana que atua no mercado de fertilizantes desde 1956. A unidade brasileira começou sua produção em 2009.
O composto resultante no reator é uma gelatina orgânica com alta concentração de nitrogênio, que, na sequência, é introduzida num secador com temperatura em torno de 500ºC, o que possibilita a secagem da água contida na gelatina. Após a passagem pelo secador, o produto final, o adubo em forma de pequenos grãos, está pronto para ser embalado, podendo ser triturado ou moído para facilitar a aplicação no solo. Atualmente, a empresa trabalha com três tamanhos de grãos: grão, microgrão e em pó.
A planta instalada possui capacidade de transformar 3.000 toneladas/mês de resíduos de couro em adubos e, atualmente, sua produção está em torno de 1.800 toneladas/mês, resultando aproximadamente 1.300 toneladas de adubos, que são exportados para a Europa e Mercosul. Porém, ainda há impeditivos que barram a comercialização do produto no Brasil, tais como a resolução 420/2009 do CONAMA (2009), que dispõe sobre critérios e valores orientadores de qualidade do solo quanto à presença de substâncias químicas, e a Instrução Normativa 27/2010 do Ministério da Agricultura e Meio Ambiente (2010).
4.4.3.2 Rota 2: Blendagem para coprocessamento
Os lotes dos demais resíduos classe I são enviados para uma unidade de blendagem localizada na cidade de Farroupinha-RS, situada a 130 km de Igrejinha.
A unidade faz a preparação do blend (uma mistura de resíduos com características e poder calorífico diferenciados), cujo produto final é um CDR (combustível derivado de resíduo) de alta qualidade para ser utilizado nas cimenteiras.
A Figura 56 ilustra o processo de blendagem. Os recebimentos dos resíduos são feitos mediante agendamento prévio; dessa forma, ao chegar à unidade, é feita, para cada caminhão, a identificação da origem e do agendamento e, na sequência, é feita a pesagem do veículo.
Figura 56 – Processo de Blendagem. Fonte: elaborado pelo autor.
A Figura 57 ilustra uma visão geral do galpão de recebimento e preparação de resíduos. À direita, observam-se os boxes de armazenagem temporária de resíduos e, à esquerda, os resíduos sendo conduzidos para o box de pré-blendagem.
Figura 57 – Vista geral do galpão de recebimento e preparação de resíduos. Fonte: acervo do autor.
Recebimento: Pesagem dos Resíduos Armazenagem temporária dos resíduos Box de Pré- Blendagem Blendagem 1.Pré-triturador 2.Peneira Rotativa 3.Granulador CDR
Combustível Derivado de Resíduos Análises
Laboratoriais
Envio para Coprocessamento nas Cimenteiras
Após a pesagem, o resíduo é encaminhado ao setor de armazenagem temporária de resíduos, conforme Figura 58, e o caminhão é pesado novamente e liberado.
Figura 58 – Boxes de armazenagem temporária de resíduos. Fonte: acervo do autor.
Uma amostra de cada tipo de resíduo a ser blendado é colhida e identificada (Figura 59) e encaminhada ao laboratório, no qual é feita sua trituração (Figura 60) para testes de poder calorífico e concentração de metais (Figura 61). Esse processo de análise demora de 1 a 2 dias.
Figura 59 – Amostras coletadas e enviadas para o laboratório. Fonte: acervo do autor.
Figura 60 – Triturador de resíduos. Fonte: acervo do autor.
Figura 61 – Equipamentos para testes de teor calorífico e concentração de metais. Fonte: acervo do autor.
Após as análises das amostras, se estiver tudo dentro dos padrões, os resíduos que estão nos boxes de pré-armazenagem são transferidos para os boxes de pré-blendagem (Figura 62) e já estão disponíveis para passar para o processo de blendagem propriamente dita, que se resume basicamente na trituração, moagem e mistura de resíduos de vários setores industriais.
O processo de blendagem é realizado numa sequência de trituração, moagem e mistura dos resíduos em três etapas: a pré-trituração (Figura 63), a peneira rotativa (Figura 64) e o granulador (Figura 65).
Figura 62 – Box de Pré-Blend. Fonte: acervo do autor.
Figura 63 – Pré-Triturador. Fonte: acervo do autor.
Figura 64 – Peneira rotativa. Fonte: acervo do autor.
Figura 65 – Granulador. Fonte: acervo do autor.
Após a passagem pelo granulador, o CDR está finalizado e é armazenado no box de
blend final, no qual é coletada uma amostra desse blend e encaminhada para análise laboratorial.
A Figura 66 ilustra o box de blend final e a coleta da amostra do blend produzido.
Figura 66 – Box de blend final e amostra do blend final. Fonte: acervo do autor.
Estando tudo dentro das especificações, o CDR é encaminhado para coprocessamento nas cimenteiras. O processo de coprocessamento já foi detalhado no estudo sobre térmico de resíduos.
No final de todo esse processo, o sindicato recebe dois certificados que atestam a destinação e o tratamento dos resíduos: a empresa responsável pela blendagem emite um certificado de blendagem, e a cimenteira emite um certificado de destruição térmica dos resíduos, os quais são enviados para as indústrias integrantes dos lotes de resíduos.