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No Segundo Reinado, o país alcançou algum prestígio entre as nações americanas e obteve melhores resultados econômicos, graças às exportações de produtos como a borracha, o algodão e o café. Tendo à frente um monarca considerado herdeiro do pensamento iluminista, esse período de menor turbulência política, em oposição ao período pós- Independência e o regencial, foi propício ao desenvolvimento cultural, embora permanecessem níveis extremos de desigualdade social e a escravidão.

Essa conjunção de fatores favoreceu que esforços fossem envidados para modernizar o Brasil, num cenário em que a evolução da ciência e da técnica encontrava-se imbricada ao desenvolvimento. Nesse momento, surgem diversas associações profissionais que desempenhariam papel fundamental nesse processo, entre as quais vale destacar a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, fundada em 1831; o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838; a Sociedade Brasileira de Geografia, fundada em 1883 e a Academia Brasileira de Letras, que surgiu um pouco mais tarde, em 1896.

O ensino da Engenharia no Brasil teve início com as Aulas de Fortificação, no período colonial, e evoluiu para a teoria e prática científica no Império. A disseminação do Positivismo Comteano, capitaneada por Benjamin Constant, impeliu os Engenheiros a uma participação marcante no movimento republicano. Com a Proclamação da República, muitos desses profissionais seguiram a carreira política e ocupam cargos na administração pública.

Durante a Primeira República o ensino incorporou outros conhecimentos técnicos, como a mecânica dos solos, a hidrologia, a meteorologia e as técnicas de irrigação e de construção de estradas de ferro – símbolos do progresso, fetiches da modernidade, construções nas quais os engenheiros se destacaram. Dessa forma, os engenheiros foram tomados de grande responsabilidade, alçados à condição de idealizadores, gestores e executores da modernidade e, como tal, participaram das grandes questões nacionais, ao prover soluções para os problemas que afetavam a economia e perturbavam a vida cotidiana das cidades. A prática e os saberes assim obtidos formaram a cultura técnica responsável pelo prestígio e influência alcançados por esses profissionais, no final do século XIX. Os engenheiros engajaram-se cada vez mais nos debates dos temas fundamentais para o desenvolvimento nacional, se tornando os grandes e incontestáveis pensadores do território brasileiro.

Antes das secas se tornarem uma “Questão Nacional”, os estudos da Comissão Científica de Exploração, enviada ao Ceará entre 1859 e 1861, “foram os primeiros sistemáticos e de caráter científico com proposições para solucionar o problema” (FERREIRA

et al, 2008, p.47). Na verdade, o objetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) ao criar essa Comissão de Engenheiros e Naturalistas, não era encontrar soluções para as secas, mas explorar as regiões menos conhecidas do Império. Outra motivação importante foi o descontentamento com algumas Expedições de Naturalistas estrangeiros, seja porque a maior (e melhor) parte do material coletado era levado para os seus países de origem, o qual contrariava o acordo de abastecer os arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro; seja com os resultados divulgados, nem sempre favoráveis aos interesses do Brasil. De acordo com Lorelai Cury (2007, p.87-88):

Diversos brasileiros já haviam percorrido o país com propósitos científicos; a Comissão Científica de Exploração, no entanto, caracterizou-se por sua dimensão inusitada e por abarcar diversas áreas do conhecimento. Gonçalves Dias e Raja Gabaglia compraram, na Europa, o que tinha de mais moderno e confiável em termos de instrumentos científicos. Compraram também uma biblioteca científica, encomendada ao livreiro Brockhaus, de Leipizig, contendo uns 2.000 volumes de livros e periódicos, em grande parte ilustrados, escolhidos a dedo. Tamanha despesa só pôde ser feita por causa do interesse do imperador pela expedição e por ter o patrocínio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, uma das mais respeitadas instituições da Corte [...] Com a proliferação de viajantes a partir de 1808, com efeito, muitos relatos traçam panoramas fantasiosos das cidades visitadas ou, então, descrevem aspectos da sociedade que muitos preferiam relativizar, tais como a escravidão e os costumes populares. Num contexto de afirmação das elites imperiais, as instituições locais reivindicam para si o status de produtores de conhecimento sobre a natureza e a sociedade.

Pretendia-se desenvolver o olhar técnico dos brasileiros sobre o Brasil e adequar os conhecimentos produzidos em outros países à realidade de um país tropical, uma vez que o assenhoramento das terras brasileiras, do clima e da natureza serviria para construir a identidade dos homens de letras e de ciências nacionais. Assim, a Comissão seria, ao mesmo tempo, uma resposta científico-nacionalista (análise, exame, investigação, averiguação, inspeção, pesquisa, indagação) e uma resposta à urgência de conhecer o Brasil e descobrir o mundo natural – era preciso conhecer o Norte: terra ignota!

Nesse período, se verifica um interesse pelo Norte, tanto que o próprio Imperador viajou para conhecer o interior do país, e “[...] iniciou uma série de viagens pelo território nacional, a primeira em 1859, quando visitou a Bahia, Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Sergipe, indo até a cachoeira de Paulo Afonso” (VILLA, 2001, p.25-26). Outra medida, com

escopos semelhantes ocorreu no final de 1874, quando se criou a Comissão Geológica do Império do Brasil30 (1875-1877), com o objetivo de construir o primeiro mapa geológico completo do Brasil, o qual só seria concluído em 1908. Nesse caso, a missão foi confiada a estrangeiros, entre os quais se destaca a participação de John Casper Branner e Orville Derby, considerados por Marco Antonio Villa (2001, p.87) os precursores dos estudos voltados às secas do Nordeste.

Havia sérios motivos para o interesse do governo imperial em perscrutar o norte brasileiro. Consta que a Comissão escolheu o Ceará influenciada por um manuscrito de Padre Francisco Telles Correia de Menezes, que fazia crer na existência de riquezas minerais (ouro), vegetais, animais e culturais neste local (ALVES, 2007, p.30). Segundo Claudio José Alves (ibid), Pompeu Sobrinho escreveu sobre esse Padre de origem indiana que, no fim do século XVIII, visitou numerosos locais onde existiam inscrições rupestres. Desse trabalho, resultou o manuscrito denominado Lamentação Brasílica, em que registrou as suas observações sobre inscrições lapidares ou letreiros em pedra existentes no Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

O desenvolvimento dos trabalhos da Comissão Científica de Exploração se deu no período de 1859 a 1861. Após a finalização dos estudos, a situação climática no Ceará e nos estados vizinhos se modificara, encerrando um único e inacreditável período se trinta anos sem secas. Nesse período, de invernos regulares, houve a expansão indiscriminada da cultura do algodão que, aliada à criação de gado, implicou na ocupação das terras ‘sempre verdes’ e no desflorestamento; como pode ser constatado na descrição de Tomás Pompeu de Sousa Brasil – o célebre Senador Pompeu:

As pessoas que conheceram algumas de nossas serras, ainda no principio deste século, recordam que nelas havia muito mais umidade, mananciais, correntes d’água etc. do que presentemente. A serra da Uruburetama há 50, ou 60 anos atrás, antes da cultura do algodão, tinha vários mananciais, cujas águas, correndo do coração da serra, desciam até o sertão adjacente por algumas léguas. Hoje apenas a corrente do Mundaú desce até embaixo; mas já não corre pela seca até o mar. A cultura do algodão, que começou ali desde o principio deste século, em maior escala, fez desguarnecer as faldas

30 A Comissão Geológica do Império do Brasil, 1875-1877, foi organizada por Charles Frederich Hartt, teve

como assistentes Richard Rathburn, John Casper Branner, Orville A. Derby e dois engenheiros brasileiros: Francisco José de Freitas e Elias Pacheco Jordão – primeiro brasileiro a estudar engenharia civil na universidade de Cornell, onde se doutorou em 1874 (no mesmo ano que Derby). Essa Comissão tinha o objetivo de construir um mapa geológico do Brasil, o que só ocorreu em 1908. A Comissão esclareceu os traços gerais e a estrutura geológica brasileira, mas foi dissolvida num momento de boom de investigação geológica no mundo em busca de matéria-prima para a indústria. Para maiores detalhes, ver o site do Ministério de Minas e Energia: <http://www.cprm.gov.br>.

de serra, descobriu as fontes dos mananciais, e a água foi desaparecendo por muitas partes e reduzindo aos poucos correntes que restam para mais tarde também desaparecerem de todo. O que aconteceu, na Uruburetama, sucedeu nas serras vizinhas desta capital, Maranguape, Aratanha, Jubaia, Acarape e Baturité, e até nos alagadiços de nossas praias (BRASIL, 1859, p.166-167). A situação de bonança, diante desse longo período de regularidade pluviométrica, modificou a relação e os modos tradicionais de viver no sertão; no sentido de conviver e resistir às secas. De acordo com Cunniff, “ironicamente, o período mais próspero da historia do sertão agravou os erros e consolidou as tendências dos anos anteriores; a relativa riqueza da década de 1860 foi em grande parte responsável pelos horrores da década de 1870” (CUNNIFF apud DAVIS, 2002, p.401). A expansão agrícola das fazendas de algodão havia interrompido os caminhos, privatizando e destruindo as antigas trilhas de escape; o refúgio no litoral e nas serras de clima ameno se tornaram, naquele momento, inacessíveis, com o agravante de que a vegetação das encostas havia diminuído: “O que o gado nas serras abarrotadas não comia depressa era logo extirpado como lenha ou forragem pelos posseiros” (DAVIS, 2002, p.400). Dessa forma, a raiz do flagelo da seca de 1877-1879 encontrava-se na conjunção de fatores climáticos benéficos, aceitação do algodão no mercado internacional – substituindo o produto americano durante a Guerra da Secessão –, expansão das pastagens para os rebanhos bovinos e incremento da população humana.

Essa situação pode justificar o torpor em que o sertão se encontrava e, do qual foi despertado, junto com toda a Nação – em decorrência da seca de 1877 “que chama atenção dos veículos de comunicação, especialmente dos jornais do Sul do país, para a existência do Norte e de seus problemas” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2006, p.68). Os acontecimentos que resultaram na grande obra de Combate às Secas do Nordeste do Brasil, que têm ocupado braços e as mentes desde o alvorecer do século XX, tiveram sua origem em anos de bonança, em um improvável período de imprevidentes trinta anos de invernos regulares, capazes de fazer esquecer a inexorável alteridade entre o verde e a magrém31. “O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida. Nasce do martírio secular da Terra...” (CUNHA, 1902, 2004, p.63).

Apesar de encerrados os trabalhos da Comissão Científica de Exploração, a contribuição dos engenheiros responsáveis pelas Sessões “Geológica e Mineralógica”, Guilherme Schurch de Capanema, e “Astronômica e Geográfica”, Giacomo Raja Gabaglia, se

31 Termo citado por Euclides da Cunha, pelo qual os sertanejos denominavam o período das secas (CUNHA, 1902, 2004, p.53).

tornaria o ponto de partida para a discussão subsequente. Outra grande contribuição para o debate proveio da Memória sobre a Conservação das Matas e Arboricultura como meio de

melhorar o clima da Província do Ceará, escrita em 1859 pelo Senador Tomás Pompeu de Sousa Brasil. O senador se preocupava com a devastação das matas, nas encostas das Serras do Ceará, devido à transformações na paisagem do sertão citadas anteriormente.

As ideias de Pompeu foram amplamente referenciadas pelos engenheiros nos anos seguintes – estava ausente das discussões de 1877 porque, naquele momento, já era falecido, bem como Gabaglia. A Memória em questão resultou de uma compilação de escritos veiculados pelo periódico Cearense: “parecendo-nos depois de alguma utilidade reunir esta série de artigos em um folheto para distribuir com os nossos agricultores e criadores, assim o fizemos” (BRASIL, 1859, p.148). Pompeu declarava que não pretendia escrever uma memória regular a respeito, mas o fez levado unicamente pelo sincero desejo de convencer aos seus patrícios “das verdades que aqui anunciamos, verdades incontestáveis bebidas em fatos autênticos e na autoridade de sábios respeitáveis”. Adiante, o próprio autor parece convencido da inutilidade do seu pleito:

Inútil Cassandra: Debalde havemos demonstrado com os princípios da ciência, como a autoridade dos sábios, com a experiência de outros países, e até com a nossa própria, que o pernicioso sistema de loteamento das matas, o incêndio dos campos no sertão, apressarão o termo de completa ruína de nossa terra, e deixarão a nossos vindouros solidões e ruínas, e uma maldição eterna à nossa memória. Semelhante aos Israelitas, no deserto, cuidamos somente do dia de hoje, amanhã cairá o maná do céu! (Ibid, p.149-150) Ao longo das discussões iniciadas no Instituto Politécnico, depois conduzida pela imprensa e incorporadas ao temário do Clube de Engenharia, não houve consenso em relação às propostas, nem mesmo com relação aos efeitos do desmatamento, anunciando um embate que se prolonga até os dias atuais. Os estudos dos engenheiros da Comissão resultaram em conclusões diferentes sobre o tema. Enquanto Gabaglia apontava que o plantio de arvoredo “pode ser a iniciativa para se acautelar a população contra qualquer seca que em determinado período voltará sem que se possa evitar nem mesmo minorar o seu rigor” (FERREIRA et al, 2008, p.47), Capanema acreditava que os efeitos das grandes secas não poderiam ser modificados e o plantio de arvoredo, embora importante e desejável, não seria capaz de evitar ou minorar o seu rigor, “pois hoje está provado que antigamente as imensas florestas virgens não as impediam” (CAPANEMA, 1878, 2006, p.157). Capanema foi inflexível, como pode ser constatado na Ata da Sessão Extraordinário do Instituto Politécnico de 18 de outubro de

1877, quando foi lida, pelo engenheiro André Rebouças, uma carta do Sr. Conselheiro Capanema, uma vez que não poderia comparecer:

Tenho, porém, desde já a declarar que a questão é ociosa, pois condições climatológicas, que subsistiam na época terciária, atravessando todos os períodos geológicos até hoje não é a débil mão do homem que agora as poderá alterar. A questão é outra, de execução relativamente fácil e de resultados seguros [...] é uma calamidade periódica, como é impossível fazer chover à vontade, previnam-se os meios para arrostá-la placidamente (REBOUÇAS, 1877, p.67).

O recrudescimento da grande seca do século XIX (1877 a 1879) resultou no envio de uma nova Comissão Científica ao Ceará, presidida por Henrique de Beaurepaire Rohan – Engenheiro Militar e Conselheiro de Estado – com participação do engenheiro André Rebouças (VILLA, 2001, p.80). Os estudos e as propostas desses profissionais propiciaram os avanços sobre o tema, também incorporadas como aporte pelos que vieram depois a engrossar as fileiras do combate.

André Rebouças escreveu Socorros Publicos a Sêcca nas Provincias do Norte, livro publicado em 1877 e que continha suas conclusões e propostas, dedicado “Aos Desditosos Parias do Norte do Império”, dos quais se declara irmão. Ao fim da apresentação inicial do livro, escrita em 7 de novembro de 1877, Rebouças resume: “Foi assim que este escrito principiou estudo e terminou grito de dor!”. Em busca de soluções, o autor havia elaborado um estudo comparativo “entre os meios de minorar as secas usados na Índia Inglesa e os que deviam ser empregados do Norte do Brasil” (REBOUÇAS, 1877, p.8). Enquanto isso a situação se agrava e o engenheiro propõe:

1 – que o Instituto Politécnico Brasileiro se reúna em a próxima quinta-feira, 18 de outubro, para discutir os processos mais econômicos de realizar o projeto do Dr. Gabaglia, destinado a melhorar as condições naturais da província do Ceará;

2 – que para essa sessão extraordinária sejam especialmente convidados os Exmos. Srs. Conselheiros Henrique de Beaurepaire Rohan e Guilherme Schurch Capanema, professor Charles [ilegível].

A Propaganda foi veiculada no Jornal do Commercio, no Instituto Polythecnico, na Associação Brazileira de Acclimação e na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (REBOUÇAS, 1877, p.63).

Pode-se concluir que André Rebouças desempenhou um papel importante ao articular as discussões no Instituto Politécnico e, certamente, não foi mais atuante no combate porque acompanhou o Imperador em seu exílio. Como foi visto, a discussão teve como foco a discussão das propostas que o engenheiro Giacomo Raja Gabaglia havia apontado para

combater as secas, descritas em Ensaios sobre alguns melhoramentos tendentes à

prosperidade da Província do Ceará, a saber:

1°. Estudar preliminarmente a distribuição geral e melhor das águas em relação às zonas preferíveis, no sentido das comarcas mais ameaçadas de secas, em referencia às populações estabelecidas nos terrenos, e finalmente pelo valor da produção de cada comarca.

2°. Fazer convergir as águas das serras para os rios principais ou riachos de maior curso.

3°. Por meio de seguido plantio de árvores convenientes à alimentação do gado, tais como canafístulas, mamoeiros etc., guarnecer sucessivamente todos os cursos de água alterando (quando facilmente exeqüível) os terrenos de modo a formar uma pequena trincheira ou elevação com dois taludes ao longo das margens.

4°. Desobstruir anualmente a rede de rios represados.

5°. Estabelecer pessoas obrigadas a manter o nível que lhes fosse imposto nas represas, de modo a represar somente o volume d’água que se lhe marcasse.

6°. Organizar o sistema de sinais próprio a fazer manobrar as represas em tempo, quer para evitar inundações, quer para fazê-las quando se julgasse de proveito para a agricultura. Conforme disse, a manobra toda se reduz a aumentar ou diminuir o numero de barrotes e vigas. Mas, refiro-me com especialidade ao tempo ou instante oportuno.

7°. Fiscalizar e manter em bom estado as represas e evitar as caprichosas derivações que um ou outro exigente quisesse fazer nos cursos de água. 8°. Finalmente, reduzir tudo quanto dependesse do estado hidráulico da província a uma legislação especial e eficaz, quer para acudir aos inconvenientes, quer para punir os infratores dos regulamentos e prescrições. (CAPANEMA, 1878, 2006, p.139-140).

As Sessões do Instituto Politécnico do Rio de Janeiro para discutir o tema das secas, realizadas nos dias 18, 23 e 30 de outubro de 1877, se tornariam célebres e são citadas no não menos célebre Os Sertões. Ao sugerir a construção de uma rede de barragens, Euclides da Cunha elogia os colegas de profissão e, ao mesmo tempo, critica ironicamente as propostas apresentadas:

A ideia não é nova. Sugeriu-a há muito, em memoráveis sessões do Instituto Politécnico do Rio, em 1877, o belo espírito do conselheiro Beaurpaire Rohan, talvez sugestionado pelo mesmo símile, que acima apontamos. Das discussões então travadas, onde se enterreiraram os melhores cientistas do tempo – da sólida experiência de Capanema à mentalidade rara de André Rebouças – foi a única cousa prática, factível, verdadeiramente útil que ficou. Idearam-se, naquela ocasião, luxuosas cisternas de alvenaria; miríades de poços artesianos, perfurando as chapadas; depósitos colossais, ou armazéns desmedidos para as reservas acumuladas; açudes vastos, feitos cáspios artificiais; e por fim, como para caracterizar bem o desbarate completo da engenharia, ante a enormidade do problema, estupendos alambiques para a destilação das águas do Atlântico!... (CUNHA, 1902, 2004, p.61-62).

Como não poderia deixar de ser, diante de tamanho desafio, a oposição de ideias foi uma constante no debate sobre as secas, principalmente no que se refere à preservação das matas, apesar de ser uma tarefa difícil apontar quem claramente se opusesse à necessidade de reflorestamento e de arborização extensiva para a região. No entanto, essa opinião estava longe de ser um consenso; embora no âmbito técnico fosse complicado sustentar uma posição contrária, no âmbito político e econômico o desmatamento encontrava-se associado ao progresso – vale salientar que a lenha e o carvão eram a base da matriz energética da época.

As propostas apresentadas nas Sessões no Instituto Politécnico tiveram deliberação imediata. Uma delas consistiu na aprovação de uma Representação ao Governo Imperial que continha as propostas apresentadas por André Rebouças e Buarque de Macedo, além de um ofício encaminhado ao Ministro da Agricultura e assinado por Gaston de Orleans, o Conde d’Eu, sobre

a conveniência de se construírem, o quanto antes, no interior da província do Ceará e outras assoladas pela seca, represas nos rios e açudes nas localidades, que para esse fim, forem mais apropriadas ao abastecimento d’água no mesmo interior, e de fazer, por si ou por uma companhia, a estrada de ferro de Baturité, e bem assim mandar estudar as medidas indicadas pelo finado Dr. Gabaglia, ou quais quer outras, que forem complementares [...] Julgo dever acrescentar, que das medidas apresentadas pelo Dr. Gabaglia as principais são a meu ver: canalizar o curso dos rios, formando neles represas

Benzer Belgeler