O primeiro aspecto a ser mencionado ao falarmos do substrato metodológico e teórico da obra de Iúri Lótman é a dificuldade de sua definição, conforme é relatado por vários autores que se dedicaram a essa tarefa. Assim, Igor Tchernov, professor e colega de Lótman no Departamento de Literatura Russa da Universidade de Tártu, afirma:
Descrever o sistema histórico e conceitual de Iu. M. Lótman é uma tarefa bastante complexa. Não apenas pelo fato de que os próprios conceitos se encontram em constante evolução: ele os descarta com facilidade e os substitui por outros sem se preocupar com o destino das suas ideias recentes, como também porque eles dificilmente podem ser imaginados como um sistema. Sem dúvida, esse sistema existe, porém a sua revelação é prejudicada tanto pelo volume extremo do material no qual e para qual ele foi criado, quanto pelo receio de perder algo essencial e característico para Iu. M. Lótman como pensador. 154
Mikhail Lótman, o único dos três filhos de Iúri Lótman que seguiu o caminho paterno e atualmente leciona semiótica na Universidade de Tallinn, compartilha dessa opinião:
Todas as suas publicações semióticas são dedicadas ou ao desenvolvimento posterior da teoria semiótica da cultura ou à análise
154
THCERNOV, Igor. "Ensaio introdutório ao sistema de Iu. M. Lótman" ("Опыт введения в систему Ю.М.Лотмана"). // Lótman, Iu. M. Sobre a literatura russa (О русской литературе). São Petersburgo, 1997. P. 10.
105 semiótica de um material culturológico concreto. Iúri Lótman detinha se nos problemas teóricos concernentes aos fundamentos da semiótica ou à metodologia da análise semiótica apenas na medida em que era necessário para uma pesquisa concreta em que as suas opiniões divergissem das teses dos seus precursores.155
Entre os trabalhos dedicados à análise da metodologia de Lótman, destaca se o ensaio de Igor Tchernov (citado no início desse capítulo) que salienta o historicismo como uma das características principais da metodologia de Lótman:
Pela natureza, pelo modo de pensar, pela aproximação ao material e até mesmo pela memória histórica quase fenomenal, Iu. M. Lótman é um historiador. Foi por isso que os seus primeiros trabalhos pareciam mais estudos históricos de que literários, tanto pelo material quanto pelo caráter de sua interpretação. 156
A essência do seu método histórico, de acordo com teórico da literatura Mikhail Gaspárov, consiste na reconstrução de valores de cada um dos períodos estudados:
Para cada cultura, ele reconstrói o seu próprio sistema de valores e aquilo que, olhando de fora, parecia um mosaico eclético, de dentro resulta ser ordenado e não contraditório, mesmo naqueles casos extremos como a negação da imortalidade da alma feita por Radíschev no início da obra157 e sua afirmação no final.158
155
LÓTMAN, M. Iu. "A semiótica da cultura na Escola semiótica de Tártu Moscou" ("Семиотика культуры в Тартуско Москвовской семиотической школе"). //
http://www.ruthenia.ru/lotman/txt/mlotman02.html 156
TCHERNOV, Igor. "Ensaio introdutório ao sistema de Iu. M. Lótman" ("Опыт введения в систему Ю.М.Лотмана"). // Lótman, Iu.M. Sobre a literatura russa (О русской литературе). São Petersburgo, 1997. P. 6.
157
Trata se do tratado filosófico de Radíschev, escrito entre 1792 1796 sob o título Sobre o homem, sua
mortalidade e a imortalidade (О человеке, его смертности и бессмертии). Lótman escreveu sobre
esse tratado em seu ensaio “Reflexão da ética e da tática da luta revolucionária na literatura russa do século XVIII” ("Отражение этики и тактики революционной борьбы в русской литературе конца XVIII века"). // LÓTMAN, Iu.M. Sobre a literatura russa. Artigos e estudos: história da prosa russa,
106 Lótman analisava um personagem ou um processo histórico não apenas do ponto de vista atual, como também a partir do contexto histórico cultural da época em questão. Ele dizia que “a percepção de um texto artístico sempre é uma luta entre o ouvinte e o autor” 159: existe uma diferença, às vezes considerável, entre as intenções do autor como criador do texto e a sua compreensão pelo leitor. Nessa luta, Lótman tentava “defender” o autor, recriando o contexto no qual sua obra havia sido criada:
Isso significa: sendo historiador, ele pensa nem tanto no como essas épocas são percebidas por nós, quanto na visão que elas têm sobre si mesmas.160
A compreensão que o processo histórico acontece aos “trancos” levou Lótman ao interesse por possibilidades que nunca se tornaram realidade. Foi por isso que ele dedicou tantos estudos aos personagens pouco conhecidos ou até mesmo esquecidos do mundo literário e cultural russo:
Lótman insistia que a história segue as suas leis, porém, ela não é fatal. Nela sempre existem as possibilidades não utilizadas, no passado há muito mais de não realizado de que de realizado. Justamente as possibilidades perdidas da cultura chamavam a atenção de Lótman [..].161
teoria da literatura. (О русской литературе. Статьи и исследования: история русской прозы, теория литературы) . São Petersburgo, Iskusstvo, 1997 . P. 211 238.
158
GASPÁROV, M. "Iu. M. Lótman: a ciência e a ideologia" ("Ю. М. Лотман: наука и идеология"). // LÓTMAN, Iu. Sobre os poetas e a poesia (О поэтах и поэзии). São Petersburbo, Iskusstvo SPB, 1996. P. 13 14.
159
LÓTMAN, Iu. "Tipologia dos textos e tipologia das ligações intertextuais". ("Типология текстов и типология внетекстовых связей"). // Estrutura do texto artístico (Структура художественного
текста). http://www.gumer.info/bibliotek_Buks/Literat/Lotman/_03.php
160
GASPÁROV, M. "Iu. M. Lótman: a ciência e a ideologia" ("Ю. М. Лотман: наука и идеология"). // LÓTMAN, Iu. Sobre os poetas e a poesia (О поэтах и поэзии). São Petersburbo, Iskusstvo SPB, 1996. P. 14.
161 Idem.
107 Porém, mesmo quando Lótman escrevia sobre os escritores e os poetas famosos, ele evitava utilizar uma imagem estereotipada, um modelo petrificado e procurava analisar, de forma praticamente psicológica, os traços humanos com todas as suas contradições, ou seja, "para Lótman, a personalidade humana não é uma substância e sim uma relação, um ponto de cruzamento dos códigos sociais".162
Portanto, a individualidade do homem torna se, para Lótman, uma chave para compreender e descrever uma época ou uma tendência literária correspondente:
Dessa forma, Lótman transfere a ciência para aquele ponto, onde antes reinava a arte: para o mundo dos caracteres e dos destinos humanos, o mundo dos nomes próprios. Ele contempla a imprevisibilidade da concretude histórica.163
Tendo uma figura humana como ponto de partida, Lótman ampliava a sua análise para incluir nela as épocas e as tendências literárias e culturais. Porém, mais uma vez, ele evitava os moldes prontos e os caminhos fáceis. O seu olhar “paradoxal” procurava aquilo que tinha passado despercebido aos críticos anteriores ou havia sido menosprezado.
É o caso do Iluminismo que marcou a cultura russa do final de século XVIII. Enquanto a maioria dos pesquisadores lançava se diretamente para o assim chamado Século de Ouro da literatura russa, Lótman considerava que fora o Iluminismo a predestinar o início do auge da literatura russa ao longo do século XIX, o surgimento das obras de Púchkin, Lérmontov, Gógol, Dostoiévski, Tolstói e muitos outros. Por
162
GASPÁROV, M. "Iu. M. Lótman: a ciência e a ideologia" ("Ю. М. Лотман: наука и идеология"). // LÓTMAN, Iu. Sobre os poetas e a poesia (О поэтах и поэзии). São Petersburbo, Iskusstvo SPB, 1996. P. 15.
163 Idem.
108
tanto, as raízes de vários escritores e poetas russos podem ser encontradas nesse período.
Lina Steiner, professora na área dos estudos eslavos da Universidade de Chicago, destaca a importância do Iluminismo no sistema teórico de Lótman e até na formação de sua personalidade como teórico da cultura e literatura. Segundo ela, existe uma relação de continuidade entre os estudos sobre a literatura e cultura russa (principalmente sobre o Iluminismo) e a outra direção de sua pesquisa, a semiótica. Nesse caso, mais uma vez, podemos observar um entrelaçamento estreito entre a vida e a obra de Lótman:
The link between Lotman's thought and the Enlightenment can hardly surprise those familiar with his biography. He was trained and first became well known as a scholar of late eighteenth century literature and culture. In fact, the relationship between his studies in the Russian, French, and German culture of the eighteenth century and his semiotics and cultural theory ought to be seen as a continuity rather than as a break. Certain concepts and ideological positions that Lotman came across in his studies of the Enlightenment thinkers informed and defined his own cultural horizon and, in subtle ways, came to influence his ideas about semiosis as such...164
De acordo com Steiner, a teoria da semiótica criada e desenvolvida por Lótman, de certo modo, é fruto dos seus estudos de Iluminismo:
Lotman's semiotic theory rests on such crucial premises of the Enlightenment as the belief in the autonomous and interested
164
STEINER, Lina. "Toward an Ideal Universal Community: Lotman's Revisiting of the Enlightenment and Romanticism". // Comparative Literature Studies Volume 40, Number 1, 2003. P. 37.
109 self, the valorization of novelty, and the view of history as progress.165
Segundo Igor Tchernov, o processo de formação da semiótica da cultura de Lótman pode ser dividido em dois períodos. O primeiro é caracterizado pela formação dos principais conceitos e pela delimitação dessa nova ciência:
A ideia central dessa etapa foi a justificativa da autonomia da “língua” artística, ou seja, a língua era entendida em um amplo sentido semiótico e não como um objeto do estudo linguístico.166
Durante a primeira etapa, as fronteiras da semiótica encontravam se em uma constante expansão e abrangiam um material extremamente amplo: “Em essência, todos os produtos da manifestação cultural espiritual e material eram analisados como formações sígnicas”, afirma Tchernov.167 Nesse caso, o risco era de perder a qualidade e seriedade dos trabalhos no meio a essa vastidão de assuntos e disciplinas, porém a solidez e a extensão dos conhecimentos histórico culturais e teóricos contribuíram para que os estudos de Lótman mantivessem seu nível profissional elevado.
Já o segundo período destaca se pela aplicação do termo “texto” às mais variadas manifestações da cultura humana:
Um pouco mais tarde, já no final dos anos 1960 1970, tornou se crucial o conceito de “texto” empregado como um termo semiótico a não como um objeto do estudo especificamente filológico.
165 Idem. 166
TCHERNOV, Igor. "Ensaio introdutório ao sistema de Iu. M. Lótman" ("Опыт введения в систему Ю.М.Лотмана"). // Lótman, Iu.M. Sobre a literatura russa (О русской литературе). São Petersburgo, 1997. P. 7.
167
110 Mantém se a característica principal do período anterior, a amplitude dos estudos, e o conceito de texto passa a ser visto como o elemento organizador da cultura e também seu resultado e seu produto. O estudo do texto visto desse modo permitiu fazer uma descoberta fundamental para a nova ciência: “cultura não é um todo estático que existe de modo sincrônico,”168 mas constitui se através da contraposição, colisão e influência de várias camadas históricas:
A descoberta desse fato exigiu o estudo mais minucioso do fenômeno do texto, a revelação das suas funções em diferentes culturas literárias, a descrição da dinâmica de troca das funções do texto no processo da evolução histórica da literatura.169
Através do estudo interdisciplinar dos textos culturais cria se o modelo semiótico da cultura. Nele foram destacados tanto os textos dominantes quando os textos periféricos e secundários e foi analisada a sua correlação e os processos que fazem com que alguns textos sejam “aprovados” pela sociedade e outros, rejeitados. O método “paradoxal” de Lótman conduziu à conclusão de que às vezes o estudo dos textos periféricos “nos oferece resultados muito mais interessantes de que o estudo dos textos básicos, ‘clássicos’” .170
168 Idem. 169 Idem. 170 Idem. P. 8.
111 2. A semiótica da cultura no contexto teórico
No capitulo anterior descrevemos as origens históricas e metodológicas dos estudos semióticos na União Soviética como baseadas em três cidades, Leningrado, Tártu e Moscou. Elas também constituíram o cerne teórico da obra de Iúri Lótman enquanto semioticista da cultura.
Essas origens ainda podem ser divididas em duas partes principais: ocidentais e propriamente russas ou soviéticas. Os precursores russos e soviéticos são os já mencionados Aleksandr Vesselóvki e Aleksandr Potebniá, os simbolistas, os futuristas, os formalistas russos, bem como Mikhail Bakhtin e os pesquisadores que formavam o seu círculo de estudos, Valentin Volóchinov e Pável Medviédev. O papel da herança formalista na formação de Lótman na Universidade de Leningrado foi salientado por Tchernov:
Para entender esse ambiente, é preciso lembrar que praticamente todos os professores estudiosos da literatura de uma ou de outra forma passaram pela “escola formal”, ou seja, sabiam analisar as obras literárias, trabalhar com o material mais variado, possuíam uma preparação verdadeiramente acadêmica. Iu. M. Lótman era o aluno favorito dos seus professores e herdou os melhores traços dessa tradição científica. Talvez tenha sido justamente essa escola que lhe ensinasse a ser aberto em relação aos novos problemas da ciência, formulá los e sugerir soluções originais.171
171
THCERNOV, Igor. "Ensaio introdutório ao sistema de Iu. M. Lótman" ("Опыт введения в систему Ю.М.Лотмана"). // Lótman, Iu.M. Sobre a literatura russa (О русской литературе). São Petersburgo, 1997. P. 6.
112 Como raízes ocidentais podem ser apontadas, é claro, a semiótica de Charles Peirce baseada no conceito de signo e a semiologia de Ferdinand de Saussure que prioriza a língua, ou seja, o sistema de signos. Posteriormente, as ideias de Peirce e Saussure transformaram se em duas correntes nos estudos semióticos. Os herdeiros de Saussure são estruturalistas e pós estruturalistas, representados por Claude Lévi Strauss, Roland Barthes, Roman Jakobson, Tzvetan Todorov e Julia Kristeva. Já as ideias de Peirce foram desenvolvidas ao longo do século XX por semioticistas estadunidenses Charles W. Morris e Thomas Sebeok, bem como por Umberto Eco, entre muitos outros.
Já havíamos mencionado antes o caráter anti poliítico explícito da Escola semiótica de Tártu Moscou e essa, na opinião de Emmanuel Landoldt172, é uma das diferenças cruciais entre os semióticos soviéticos e franceses (pós estruturalistas), defensores ativos das ideias marxistas. Dessa forma, se os semioticistas franceses eram radicalmente politizados, os soviéticos, pelo contrário, eram despolitizados por preferirem manter se longe da política por razões da própria segurança.
No ensaio "A semiótica da cultura na Escola semiótica de Tártu Moscou" 173 Mikhail Lótman analisa ambas as correntes da semiótica ocidental e as compara com os conceitos elaborados por semioticistas soviéticos. Apesar do fato que no ensaio de Mikhail Lótman se trata da Escola de Tártu Moscou em geral, tudo o que foi dito acima pode ser perfeitamente aplicado ao universo teórico de Iúri Lótman enquanto seu fundador e líder.
Em sua opinião, os seguidores de Peirce compreendem a semiótica da cultura da seguinte forma: para eles, a "semiótica" é um método de estudo, enquanto a "cultura" é
172
LANDOLDT, Emmanuel. "Um diálogo impossível sobre a semiótica: Júlia Kristeva – Iúri Lótman". ("Один невозможный диалог вокруг семиотики: Юлия Кристева – Юрий Лотман"). // NLO, 2011, No 109. http://magazines.russ.ru:8080/nlo/2011/109/la12.html
173
LÓTMAN, M. Iu. "A semiótica da cultura na Escola semiótica de Tártu Moscou" ("Семиотика
культуры в Тартуско Москвовской семиотической школе"). //
113 um objeto de estudo. Sendo assim, as relações entre a semiótica e a cultura são independentes, ou seja, a cultura pode ser analisada por meio da metodologia semiótica, mas isso também pode ser feito com ajuda de outros métodos. Já para os participantes da Escola de Tártu Moscou, a cultura e a semiótica são ligadas inseparavelmente entre si: a semiótica é, antes de tudo, semiótica da cultura, isto é: a metodologia essencial para o estudo da cultura. Por sua vez, a cultura é a semiótica, pois ela consiste em textos semióticos.
Já em relação aos semioticistas soviéticos e aos estruturalistas e pós estruturalistas franceses, Mikhail Lótman chega às seguintes conclusões:
Os herdeiros "diretos" de Saussure – estruturalistas e pós estruturalistas franceses – apesar de uma série de estudos brilhantes, não elaboraram a semiótica da cultura integral como o fizeram os pesquisadores integrantes da Escola de Tártu Moscou.174
Ao falar da "semiótica da cultura integral", o autor subentende principalmente as "Teses" elaboradas por participantes da última escola de verão em 1974. Apesar das diferenças, segundo M. Lótman, a Escola Semiótica Soviética era mais próxima às ideias de Saussure de que de Peirce. Porém, mesmo assim, é impossível ignorar as divergências.
Como se sabe, na obra de Saussure175, a atenção principal fora concentrada no problema de separação entre a língua e a fala, langue e parole. Os estruturalistas continuaram essa tradição ao colocarem no centro dos seus estudos a língua, o signo, as oposições binárias, etc. Na semiótica da cultura de Lótman esses conceitos também
174 Idem. 175
114 eram importantes, porém o grande diferencial da sua metodologia é a posição central do texto.
O primeiro dos ensaios de Lótman apresentados no nosso trabalho trata justamente de "O problema de texto" 176. Escrito em 1964, ou seja, no período em que os seus conceitos enquanto semioticista ainda estavam se formando, o ensaio apresenta vários aspectos que foram desenvolvidos na obra posterior de Lótman.
Em primeiro lugar, ele afirma a necessidade de separar o conceito de texto linguístico e literário:
O texto é um sinal de um determinado conteúdo, que em sua individualidade está ligado à individualidade desse texto. Neste sentido, há uma profunda diferença entre a compreensão linguística e literária do texto. O texto linguístico permite expressões diferentes do mesmo conteúdo. Ele é traduzível e, por princípio, indiferente às formas de gravação (por meio de som, caracteres, sinais telegráficos etc.) O texto de uma obra literária, por princípio, é individual. Ele é criado para o conteúdo específico e, considerando a referida relação de entre o conteúdo e sua expressão em um texto literário, não pode ser substituído por nenhum outro texto, adequado em termos de expressão, sem que o plano do conteúdo seja alterado.177
Dessa forma, o texto literário é um sistema construído com a base do texto compreendido no sentido linguístico em relação ao qual ele é um sistema de modelização secundário. A mesma ideia foi expressa por Mikhail Bakhtin, apontado (e
176
LÓTMAN, Iu. "O problema do texto" ("Проблема текста"). // Palestras sobre a poética estrutural
(Лекции по структуральной поэтике). Moscou, Gnozis, 1994.
177 Idem.
115 não sem razão) como um dos fundadores da semiótica soviética.178 Em seu ensaio, cujo título é quase o mesmo do artigo citado de Lótman (O problema do texto na linguística, filologia e outras ciências humanas), Bakhtin também parte da comparação entre a língua com o texto:
Por trás de todo texto, encontra se o sistema da língua; no texto, corresponde lhe tudo quanto é repetitivo e reproduzível, tudo quanto pode existir fora do texto [...] Se por trás do texto não há uma língua, já não se trata de um texto, mas de um fenômeno natural (não pertencente à esfera do signo); por exemplo, uma combinação de gritos e de gemidos, desprovida de reprodutibilidade linguística (própria do signo).179
A língua, em comparação com o texto literário, é uma estrutura semântica mais simples, já o texto literário é extremamente semantizado e, para seu estudo, é necessário considerar a multiplicidade dos significados que cada sua palavra pode representar tanto para o autor, quanto para o leitor. Sendo assim, para os estudos semióticos, o texto literário é um objeto mais rico em possíveis ligações semânticas, do que o texto linguístico. A riqueza semântica é a razão pela qual a análise das obras literárias tornou se um dos temas centrais dos estudos tanto dos semioticistas de Tártu Moscou em geral, quanto de Iúri Lótman em particular.
Uma vez separado do texto linguístico, nos anos a seguir, o significado do texto literário continua a ser constantemente ampliado:
178
GRZYBEK, P. "A semiótica de Baktín e a Escola de Tártu Moscou" ("Бахтинская семиотика и
московско тартуская школа"). // http://www.peter
grzybek.eu/science/publications/1995/grzybek_1995_lotman bachtin.html 179
BAKHTÍN, Mikhail. “O problema do texto nas áreas da linguística, da filologia e outras ciências humanas. Tentativa de uma análise filosófica” // Estética da criação verbal. S. Paulo, Martins Fontes, 1997. P. 331.
116 Podemos analisar como texto um poema de um ciclo poético. Nesse caso, a sua relação ao ciclo será extratextual. É uma relação do texto com as estruturas externas. Entretanto, a unidade de organização do ciclo permite, em certo nível, analisar o ciclo também como um texto. Da mesma forma, podemos imaginar o método no qual serão compreendidas como texto todas as obras de um autor escritas em um determinado período de tempo [...] Finalmente, podem existir textos como “A obra de Shakespeare”, “A herança artística da Grécia Antiga”, “A literatura inglesa” e, como generalização levada ao extremo, “A arte da humanidade”.180
O próximo passo da evolução da noção de texto na estrutura semiótica lotmaniana é a sua transferência da literatura para a cultura. O caráter abrangente dessa visão de texto na obra de Lótman foi observado por O. Leuta:
A mais importante estrutura sígnica é a língua natural, enquanto todas