Tendo em vista o objeto de pesquisa relacionado à divisão sexual do trabalho e suas expressões no trabalho docente em Serviço Social, compreendeu-se como pertinente iniciá-la com as definições realizadas por Hirata17 e Zarifian18 (2009,
p. 251), que explicam que "a noção moderna de trabalho, como foi formalizada pela economia política clássica, nos remete a uma dupla definição".
Hirata e Zarifian esclarecem que uma das definições está ligada à antropologia, que concebe o trabalho constituído de característica geral e também genérica da ação humana. A autora e o autor explicam que, em Marx, o trabalho é, na sua essência, um ato que se passa exclusivamente entre “o homem (ser humano) e a natureza" (“HIRATA; ZARIFIAN, 2009, p. 251). Ele põe em movimento sua inteligência e suas forças a fim de transformar matérias e lhes dar forma útil à sua vida”. Esse movimento, que atinge a natureza, modifica-a, enquanto o homem também modifica sua própria natureza e vai desenvolvendo suas faculdades adormecidas.
A outra definição reinterpreta a anterior, por considerar que as trocas entre homem e natureza sempre se produzirão em condições determinadas. É possível pensar, por exemplo, se esse trabalho se dá em condições do artesanato, de escravidão ou ainda de assalariamento? É executado sob a chibata de um feitor ou
17 Helena Hirata é especializada em comparações internacionais do trabalho e das relações de
gênero, é pesquisadora do Genre et Rapports Sociaux (GERS) do Centre National de la Recherche Scientifique, na França. Formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo.
18 Professor de sociologia da Universidade de Marne-la-Vallée, pesquisador no Laboratório técnicas,
58 sob o olho "clínico" do capitalista? Assim, compreende-se que é a partir dessa segunda interpretação que o conceito de trabalho assalariado vai se desenvolvendo. Em síntese: O assalariado trabalha sob o controle do capitalista ao qual o produto do seu trabalho pertence.
Hirata e Zarifian refletem que essa dupla definição pode ter o mérito de situar a atividade do trabalho no ponto específico de dois tipos de relação que se processam: homem-natureza e homem-homem, mas ainda é insuficiente como explicação, tendo em vista que parte-se de um modelo assexuado de trabalho. Nessa definição, o sujeito — o homem — é apresentado como universal, ou seja, é o masculino (e somente ele) que é elevado ao universal. E, ainda, é possível considerar essa dupla definição como problemática de outro ponto de vista, na medida em que as relações suscitadas não podem ser apreendidas de maneira idêntica. Se levada em conta, na íntegra, essa dupla definição naturaliza as relações homem-natureza e tende a fixá-las como se fossem uma base imutável da produção da vida humana, desconsiderando as relações sociais — as condições sociais de trabalho — que devem ser historicizadas (HIRATA; ZARIFIAN, 2009).
Como pesquisadora das categorias trabalho e divisão sexual do trabalho, ao refletir cuidadosamente sobre a teoria social crítica de Marx, é possível discordar de Hirata e Zarifian, pois o movimento dialético proposto pela teoria de Marx possibilita, sob nossa ótica, análises das diversas formações sociais, inclusive as sexuadas.
Numa concepção própria, embora Marx tenha centrado sua tese nas questões econômicas, é possível considerar que deixou caminhos que levam a perceber a dinâmica da sociedade capitalista e seu movimento histórico, dando possibilidades, inclusive, para pensar a divisão sexual do trabalho.
Essa compreensão própria tem base na crítica de Engels às concepções que ele denomina “fechadas” sobre a teoria de Marx: "Mas a nossa [de Marx e dele] concepção de história é, sobretudo, um guia para o estudo [...] É necessário voltar a estudar toda a história. Deve-se examinar em todos os detalhes as condições de existência das diversas formações sociais antes de procurar deduzir delas as idéias políticas, jurídicas, estéticas, filosóficas, religiosas que lhes correspondem" (MARX- ENGELS, 2010, p.107).
Além disso, Netto (2011), ao introduzir o estudo do método de Marx, denuncia o diversificado e heterogêneo campo dos adversários de Marx, informando que a crítica se concentra especialmente sobre eixos que são infundados. Um deles
59 estaria relacionado a uma suposta irrelevância das dimensões simbólicas e culturais no universo teórico de Marx, sendo que isso traria consequências derivadas para a perspectiva metodológica. Netto argumenta que se trata de uma crítica despropositada e refutável, se for utilizado corretamente o recurso à textualidade marxiana.
É importante deixar claro que não se considera que Hirata e Zarifian (especialmente Hirata) se constituem em adversários de Marx, mas pensa-se que é necessário pontuar essa compreensão própria sobre a dialética e suas possibilidades para além da análise econômica e de classe, com possibilidades de incluir outras dimensões, como gênero, raça, etnia, sexualidade e outras.
A partir do esclarecimento realizado a respeito da compreensão própria sobre a dialética de Marx e para afirmar a compreensão sobre o trabalho na sua gênese, é necessário buscar elementos da definição clássica. Sendo assim, entende-se que o trabalho constitui-se na relação entre o homem (seres humanos - homens e mulheres)19 e a natureza.
É importante reforçar a idéia de que a referência à dialética tem como ponto de partida o fato de que a compreensão da dinâmica social necessita de formulações que sejam atualizadas, mas sem perder os princípios filosóficos presentes na teoria social crítica.
Para essa discussão, considera-se importante reafirmar as contribuições de Harvey (2012), mencionadas ao final do primeiro tópico, em que ele se posiciona a partir do entendimento que a interrogação das formulações marxianas "ortodoxas" realizadas por escritores da tradição de Fanon ou Simone de Beauvoir, e também pelos desconstrucionistas, foi tanto necessária como positiva em suas implicações. Como argumenta Harvey, foi necessária uma concepção propriamente dinâmica, em vez de estática, da teoria e do materialismo histórico para apreender a significação dessas mudanças.
Nesse sentido, o tratamento dado à diferença e à "alteridade" não é como uma coisa a ser acrescentada às categorias marxistas mais fundamentais (como classes e forças produtivas). Deve ser compreendida como algo que deveria estar
19 A partir da compreensão própria sobre a dialética e suas possibilidades e tendo em primeiro plano
as definições de Hirata e Zarifian, é possível utilizar o conceito (homens e mulheres), pois se considera que as relações sociais são sexuadas e se objetivam em sujeitos homens e sujeitas mulheres (seres humanos).
60 onipresente desde o início em toda tentativa de apreensão da dialética da mudança social. Para Harvey (2012):
A importância da recuperação de aspectos da organização social como raça, gênero, religião, no quadro geral de investigação materialista histórica (com sua ênfase no poder do dinheiro e na circulação do capital) e da política de classe (com sua ênfase na unidade da luta emancipatória) não pode ser superestimada (HARVEY, 2012, pp. 320-321)20.
A compreensão, a partir da dialética, demonstra que esse processo ocorre através de uma projeção teleológica21, quando o produto desejado é construído
ideologicamente, transformando-se posteriormente no produto real.
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele se defronta com a matéria natural. A fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços e pernas, mãos e cabeça. Agindo sobre a natureza externa e
20 Embora a pesquisa e a construção da tese tenha como prioridade a questão da classe e das
relações sociais entre os sexos, consubstanciadas na divisão sexual do trabalho, a questão da raça (palavra utilizada entre aspas por Danièle Kergoat partindo da compreensão que “raça” é uma construção social) deve ser mencionada, principalmente no Brasil, como um dos mecanismos que reforçam a desigualdade e a exclusão social. Essa questão foi reforçada na banca de qualificação realizada em outubro de 2013, quando uma das professoras mencionou que a própria Daniele Kergoat argumenta que falar em si de relações sociais de sexo supõe um risco de solipsismo, risco de erigir um edifício isolado. Assim, é preciso vislumbrar outras formas de relações sociais. A professora Maria José Rosado Nunes ponderou que [...] as Francesas podem (entre aspas) se limitar às relações de classe e sexo, nós não podemos, em um país como o nosso, com a história de escravidão, desconhecer, tratar essas relações sem racificá-las é deixar para trás um elemento ideal. Ser uma docente branca não é a mesma coisa ser uma docente negra. Não se trata de acrescentar, mas mostrar os mecanismos sociais de exclusão e sua complexidade não se restringe a classes. Isso faz diferença como as relações de sexo se produzem e se reproduzem (NUNES, 2013). A professora Maria José lembrou que, em uma sociedade com a história e composição étnica como o Brasil, é impossível não associar as relações sociais de sexo às relações sociais construídas entre as raças. Portanto, relações de sexo e relações sociais de raça articulam-se e reforçam-se mutuamente. Desconhecer, ignorar e não mencionar isso nos leva a uma visão enviesada, e a uma análise que não abarca a realidade social em sua complexidade.
21 Como o objeto de estudo se relaciona com as categorias trabalho e divisão sexual do trabalho, é
pertinente utilizar, logo de início, as definições de Saffiotti (2004, p. 134), que esclarece que teleológicas são as ações dos agentes sociais, isto é, têm uma finalidade, dirigem-se a um alvo. Embora as ações sejam teleológicas, a história não é. O erro de muitos, na interpretação da obra de Marx, consiste em considerar teleológica a história, quando Marx situou as ações humanas como tal. Assim, espera-se que Teleologia não seja confundida com antologia, isto é, uma coletânea de textos. Esclarece ainda que "Luckas distingue dois tipos de posições teleológicas: as posições que incidem sobre a natureza, visando às satisfações das necessidades, por exemplo, econômicas; e as posições cujo alvo é a consciência dos outros, na tentativa de modelar-lhes a conduta. Está aqui, sem dúvida, a 'consciência dominada" das mulheres', e , ao mesmo tempo, sua possibilidade de escapar de seu destino de gênero, via transgressão, que permite a criação de novas matrizes de gênero, cada uma lutando por destronar a matriz dominante de sua posição hegemônica.
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modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza (MARX, 2013, p. 255).
A capacidade racional garante aos seres humanos (é o único animal capaz de transformar a natureza) a projeção prévia dos resultados que pretende conseguir através da sua ação. "No final do processo de trabalho, chega-se a um resultado do que já estava presente na representação do trabalhador no início do processo, portanto um resultado que já existia idealmente (MARX, 2013, P. 256).
De acordo com Marx (2013), o processo de trabalho se configura em momentos simples, sendo que: em primeiro lugar, considera-se a atividade orientada para um fim, que é o trabalho propriamente dito; em segundo lugar, seu objeto; em terceiro lugar, os meios de trabalho.
É pertinente e fundamental lembrar, de acordo com Marx, que a terra constitui-se em fonte originária de provisões, de meios de subsistência prontos e já preexistentes, independente da interferência humana. Nesse sentido, todas as coisas que o trabalho humano apenas separa de sua conexão imediata com a terra, são, por natureza, objeto de trabalho (já preexistente). No entanto, quando esse mesmo objeto de trabalho é retirado da natureza para passar por outros processos, constitui-se em matéria prima. Compreende-se, então, que "toda matéria-prima é objeto de trabalho, mas nem todo objeto de trabalho é matéria-prima”. O objeto de trabalho só é matéria-prima quando já sofreu uma ação mediada pelo trabalho (MARX, 2013, p. 256).
Considera-se, então, com base no próprio Marx, que a transformação da natureza se realiza através de processos de trabalho que possuem componentes fundamentais: a força de trabalho que possui um fim, um objeto ou matéria-prima e os meios ou instrumentos.
A atividade humana adequada a um fim, ou o próprio trabalho, utiliza-se do objeto de trabalho que é fornecido e extraído da natureza e dos meios, que são elementos que contribuem para a atividade de transformação da natureza e se coloca entre o objeto e o próprio homem. Dessa forma, no processo de trabalho, a atividade do ser humano, através da utilização dos meios de trabalho, opera uma transformação do objeto de trabalho, de acordo com uma finalidade concebida desde o início. Assim, o processo se extingue no produto (MARX, 2013, p. 258).
62 O processo de trabalho propicia mudanças que devem ser compreendidas. Por exemplo, "um produto que existe numa forma pronta para o consumo pode se tornar matéria-prima de outro produto, tal como a uva se torna matéria-prima do vinho" (MARX, 2013, p. 260). Assim, ao ingressarem como meios de produção em novos processos de trabalho, é possível entender que os produtos perdem seu caráter de produto. Deve-se, então, levar em conta que no produto bem elaborado "apaga-se o fato de que suas propriedades úteis nos chegam mediadas por trabalhos anteriores" (MARX, 2013, p. 260).
Essa dinâmica, esse movimento, impõe algumas exigências aos seres humanos que atuam na transformação da natureza, através de processos de trabalho. "O trabalho vivo tem de apoderar-se dessas coisas e despertá-las do mundo dos mortos, convertê-las de valores de uso apenas possíveis em valores de uso reais e efetivos" (MARX, 2013, p. 160).
É necessário compreender também que os produtos que existem não são apenas resultados, mas se constituem em condições de existência do processo de trabalho, mas que, por outro lado, sua entrada nesse processo e o contato com o trabalho vivo são os únicos meios de manter e realizar-se como valores de uso desses produtos originados de um trabalho anterior. Marx esclarece o processo:
O trabalho consome seus elementos materiais, seu objeto e seu meio; ele os devora e é, assim, processo de consumo. Esse consumo produtivo se diferencia do consumo individual pelo fato de que este último consome os produtos como meios de subsistência do indivíduo vivo, ao passo que o primeiro os consome como meio de subsistência do trabalho, da força ativa de trabalho do indivíduo. O produto do consumo individual é, por isso, o próprio consumidor, mas o resultado do consumo produtivo é um produto distinto do consumidor (MARX, 2013, p. 261).
Com o objetivo de problematizar a discussão sobre o trabalho e a exploração da força de trabalho no contexto do capitalismo, optou-se pela utilização de um texto mencionado durante o processo de elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, no ano de 1996. Senso assim, citando o próprio texto, destaca- se que o processo de exploração capitalista envolve uma dinâmica própria e específica ao capital que explora a força de trabalho de forma contundente e voraz. Marx (1985) destaca:
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Quando o capitalista converte parte de seu capital em força de trabalho, mata dois coelhos com uma só cajadada. Ele lucra não
apenas daquilo que recebe do trabalhador, mas também daquilo que lhe dá. O capital alienado no intercâmbio por força de trabalho é
transformado em meio de subsistência, cujo consumo serve para produzir músculos, nervos, ossos, cérebro dos trabalhadores existentes e para produzir novos trabalhadores. Dentro dos limites do absolutamente necessário o consumo individual, o consumo da classe trabalhadora é, portanto, retransformação dos meios de subsistência, alienados pelo capital por força de trabalho, em força de trabalho de novo explorável pelo capital. Esse consumo é produção e reprodução do meio de produção mais imprescindível ao capitalista, o próprio trabalhador [...] Em nada altera a coisa se o trabalhador realiza consumo individual por amor a si mesmo e não ao capitalista. Assim, o consumo do animal de carga, não deixa de ser um momento necessário do processo de produção, porque o animal se satisfaz com o que come. Na constante manutenção e reprodução da classe trabalhadora permanece a condição constante para a reprodução do capital (MARX, 1985, p. 157, apud MARQUES, 1996, p. 24).
É necessário analisar que no modo de produção especificamente capitalista, que Marx formula, destaca-se a subsunção (subordinação) do trabalho ao capital. Marx denomina subsunção formal do trabalho ao capital “a forma geral de qualquer processo capitalista de produção” (MARX, 1985, p. 87, Apud Marques, 1996, p. 25), em que o trabalho é submetido às forças do capital.
Deve-se levar em conta também que as diferentes fases do processo de produção capitalista, em sua insipiência, davam-se de forma específica. As mudanças ocorreram em um processo em que o trabalho, outrora independente (quando a produção visava somente ao consumo), passa a funcionar como fator do processo produtivo, em que o capitalista é o dirigente do processo, e o trabalhador é o vendedor da força de trabalho. “O capitalista como ‘capital’, o produtor direto como ‘trabalho’, estando a sua relação determinada como simples fator do capital que se autovaloriza” (MARX, 1985, p. 88, apud Marques, 1996, p. 25). Nessa relação, o trabalho tem a finalidade de conservar o capital. Contudo, o trabalho vivo, ou a mão de obra humana, ainda pode ser observado no resultado do processo, no trabalho objetivado.
Sendo assim, essa relação ainda preserva as formas de trabalho preexistentes e anteriores ao modo de produção especificamente capitalista. O modo de trabalho ainda ocorre como se desenvolvera antes de ter surgido a relação capitalista. Todavia, apesar desse processo basear-se num modo de trabalho
64 preexistente, legitima-se a possibilidade da produção da mais-valia que é obtida através do prolongamento do tempo de trabalho, sob a forma de mais-valia absoluta. “A esta modalidade, como forma única de produzir mais-valia, corresponde, pois, a subsunção formal do trabalho ao capital” (Marx, 1985, p. 90), sendo que a distinção do processo anterior — processo tradicional — está na escala em que se efetua, em que aumentam significativamente os meios de produção e a quantidade de operários dirigidos pelo patrão.
Essa ampliação de escala constitui também a base real sobre que se ergue o modo de produção, especificamente capitalista em condições históricas, quanto ao resto favoráveis como, por exemplo, as do século XVI (MARX, 1985, p. 91).
Marques (1996) formula que, nesse processo, embora o capital já desempenhe certas funções subordinadas, ele ainda não atinge a forma dominante, que alcançará posteriormente, quando sua função será a de comprador direto do trabalho, que se apropria diretamente do processo de produção.
Nesse estágio, o capitalista transforma seu dinheiro em capital quando “arranca” do produtor direto trabalho não pago, ou seja, sobretrabalho. Porém, essa ainda não é a forma genuína do modo de produção capitalista, configurando-se como forma secundária de transição (MARQUES, 1996).
Com base em Marx (1985), Marques (1996) ressalta que é na subsunção real do trabalho ao capital que se encontra o modo de produção especificamente capitalista. As forças produtivas se apresentam de um modo geral como forças produtivas do capital. Assim, a mais-valia relativa determinará a subsunção real do trabalho ao capital.
A subsunção formal, ou seja, subordinação direta do processo de trabalho ao capital é a base sobre a qual emerge o modo de produção específico de exploração capitalista. Mas na subsunção real do trabalho ao capital, efetiva-se o modo de produção específico, tanto na produtividade do trabalho como na relação entre capitalistas e operários. Entram em cena a tecnologia e a automação (força de trabalho morto) e, com isso, a destruição das forças produtivas humanas (força viva de trabalho).
Esse movimento aumenta o número de trabalhadores e trabalhadoras excedentes e, consequentemente, o barateamento da mão de obra humana. Nesse
65 processo, os salários são desvalorizados devido ao grande número de pessoas que concorrem no mercado, tentando vender a sua força de trabalho — única mercadoria disponível para sobreviver (MARX, 1995, apud Marques, 1996).
Considera-se, então, que a exploração não é obtida apenas pelo tempo de trabalho excedente extraído através da mais-valia absoluta (caso da subsunção formal), mas também pela desvalorização drástica da mão de obra humana. Nesse caso, o próprio trabalhador passa a ser uma mercadoria à disposição do capital. De produtor real, constitui-se em simples meio de produção, sendo que o trabalho passa a ter um valor insignificante, abaixo do valor socialmente determinado. Então, uma vez que o capital realmente subordinou todo o trabalho, este só pode existir na órbita do capital.
Continuando a discussão e retomando textos diretamente de Marx, é possível referir-se a aspectos que são relevantes para aprofundar a compreensão sobre o processo de trabalho no contexto da exploração capitalista.