A ocupação do território mineiro se processou entre os fins do século XVII e o início do século XVIII e, nesse ínterim foi descoberto ouro, desencadeando uma verdadeira corrida
69CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora
em busca desse metal, no centro geográfico das futuras Comarcas do Ouro Preto, do Rio das Velhas, do Rio das Mortes e do Serro Frio, e da Demarcação Diamantina: “ (...) no coração mesmo do atual Estado de Minas Gerais (...).”70O primeiro descobridor das minas de ouro, de acordo com ANTONIL (1982, p.164), foi um mulato que acompanhava alguns paulistas na busca de índios e, chegando ao Tripuí, desceu até o ribeiro (depois chamado do Ouro Preto) para tirar água, e viu granitos da cor de aço, os quais, depois de levados ao Rio de Janeiro e ali examinados, constatou-se que se tratavam de ouro finíssimo. Ainda segundo este autor, logo depois, os paulistas descobriram outras minas, entre as quais: uma, localizada nas proximidades do supracitado ribeiro e outra no ribeirão de Nossa Senhora do Carmo. Contudo, tendo por referência a maioria dos autores antigos e modernos, HOLANDA (2003, p.289) aponta Antônio Rodrigues Arzão, bandeirante paulista, como o primeiro descobridor do ouro, no território da futura Capitania de Minas. Por volta de 1693, tendo chegado naqueles sertões, em busca de índios, o referido sertanista encontrou ouro em alguns ribeiros.
Não cabe a este trabalho levantar uma discussão acerca do verdadeiro descobridor do referido metal nas Minas, mas vale ressaltar que a versão de Antonil71 não é datada, apenas afirma que tal descoberta ocorreu na época em que Artur de Sá e Meneses governava o Rio de Janeiro, e o qual, de acordo com HOLANDA (2003, p.291), assumiu seu cargo em 1697. Entretanto, anos antes já se registraram duas bandeiras que descobriram ouro nas Minas: a do mencionado Arzão (1693) e a de Bartolomeu Bueno de Siqueira (1694). Todavia, qualquer que tenha sido o primeiro a revelar o ouro das Minas, o fato é que tal descobrimento logo foi divulgado, provocando enorme afluência de pessoas de várias etnias e condições sociais: europeus (portugueses), pardos, negros, índios, pobres, ricos, nobres, religiosos regulares e
70CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1968, p. 1.
71Tal versão aparece em sua obra Cultura e opulência do Brasil, impressa, pela primeira vez, em 1711.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.) História
geral da civilização brasileira. A época colonial. Administração, economia e sociedade. Rio de Janeiro:
seculares, todas estimuladas pela sede do ouro.
Foram, então, surgindo arraiais, termos e vilas, mas nesses aglomerados não havia lei ou autoridade civil e militar: “(...) não há ministros nem justiças (sic) que tratem ou possam tratar do castigo dos crimes, que não são poucos, principalmente dos homicídios e furtos (...).”72 As capelas, recém-construídas, não tinham vigários; e os primeiros aventureiros, diante da esterilidade da terra e da falta de mantimentos, sofriam e alguns morriam de fome: “(...) achando-se não poucos mortos com uma espiga de milho na mão, sem terem outro sustento (...).”73 Porém, não tardaria ali, o abastecimento de gêneros alimentícios e de vestuário, por comerciantes, e o desenvolvimento das atividades agrícolas.
Também não tardou a imposição do Estado português sobre aquela região, por intermédio da montagem, no início do século XVIII, de um aparelho administrativo-fiscalista: “(...) que assegure os privilégios da Coroa na exploração de veeiros ricos, coíba transações ilegais ou nefastas (...) e adote (...) medidas práticas para o incremento e polícia das lavras (...).”74 No cenário das descobertas de jazidas auríferas na região que faria parte da futura Capitania de Minas, cuja atividade, a mineração, passaria a dominar a vida econômica do Brasil, o Estado português elabora um sistema sobre o qual se desenvolveria a atividade mineradora em sua Colônia na América: o Regimento de 19 de abril de 1702, pelo qual é criada uma administração especial para controlar a atividade mineradora, fiscalizá-la e cobrar o tributo (o quinto). Tal administração, a Intendência de Minas, estava sob a direção de um superintendente, o qual “(...) é (...) capaz, em teoria, de bem (...) executar a lei, procurando atalhar discórdias, punindo os culpados (...) e escolhendo elementos de competente zelo (...)
72ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1982, p. 168.
73ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1982, p. 169.
74HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.)
História geral da civilização brasileira. A época colonial. Administração, economia e sociedade. Rio de
para (...) exploração dos metais (...).”75 E, para assistir o superintendente em suas atribuições, é nomeado o guarda-mor, ao qual cabia a demarcação das datas (terrenos auríferos) e a fiscalização destes. Daí qualquer descobrimento de jazidas, deveria ser comunicado à Intendência, cujos funcionários competentes, os guardas-mores, se dirigiam ao local, realizavam a demarcação da área, dividindo-a em datas: as datas inteiras, de trinta braças (sessenta e seis metros) em quadra, e as outras, de extensão proporcional ao número de escravos. Ao descobridor serão destinadas duas datas inteiras: a primeira como prêmio, em local escolhido pelo referido descobridor; e a segunda, sob a condição de que este explore sua repartição. O guarda-mor ainda reservará uma data inteira para a Fazenda Real, e que “(...) logo se vende a quem mais oferece (...)”76 Segundo PRADO JÚNIOR (1986, p.57), a Coroa portuguesa jamais exploraria suas minas, as quais eram vendidas em leilão, pouco tempo após serem adquiridas. As demais datas eram distribuídas por sorte, dando duas braças (um pouco mais de quatro metros) em quadra por escravo de que se servem nas catas. Desta forma, aquele que possuía quinze escravos, teria direito a uma data inteira. De acordo com PRADO JÚNIOR (1986, p.57) era estipulado um prazo de quarenta dias de exploração, sob pena de devolução. Além disso, não eram permitidas transações com datas.
Conforme ANTONIL (1982, p.169), para ser admitido às repartições por sorte, o candidato deve fazer ao superintendente dessas repartições, uma petição, cujo despacho custa uma oitava de ouro77 (ao referido superintendente e outra ao seu escrivão). Esse custo,
tratava-se, segundo HOLANDA (2003, p.302), de propina. Nessa fase inicial de mineração,
75HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.)
História geral da civilização brasileira. A época colonial. Administração, economia e sociedade. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2003, v.2, p. 301.
76ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1982, p. 169.
77Por essa época, não havia na região mineradora, moeda de maior valor do que o ouro em pó. Assim, se pedia e
se dava, por qualquer coisa, oitavas de ouro. Em 1703, gêneros alimentícios como: um boi, custava cem oitavas de ouro, uma galinha, três ou quatro oitavas; vestuário, como uma veste de seda, dezesseis oitavas; arma, como uma espingarda sem prata, também dezesseis oitavas; escravos, como um negro bem feito, trezentas oitavas, e uma negra cozinheira, trezentas e cinqüenta oitavas; cavalgadura, cem oitavas. Tais preços, altos, ocasionaram a elevação dos preços nos portos e vilas do Brasil. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1982, pp. 170-171.
realizada quase que exclusivamente no leito dos ribeirões, a sorte era um fator importante, pois alguns mineiros retiraram muito ouro em uma área de poucas braças; outros, ao contrário: “(...) Pelo que se tem por jogo de bem ou mal afortunado, o tirar ou não tirar ouro das datas (...).”78 Para a distribuição das datas, conforme HOLANDA (2003, p.302) não se
exigia do candidato a posse de bens materiais, de recursos, pois o que interessava tanto à Coroa, quanto à Fazenda Real é que tais candidatos fossem esforçados no negócio, e não se importassem de irem pessoalmente à busca de ouro, junto com seu escravo, se o tivesse. Tratavam-se geralmente de pessoas humildes, necessitadas e sem passado. Esse quadro, como aponta HOLANDA (2003, p.330), é distinto do contexto da formação da grande propriedade monocultora baseada na produção de açúcar. No início do processo de montagem, por parte da Coroa portuguesa, do sistema colonial baseado na grande propriedade monocultora, voltada ao cultivo de gêneros de grande valor no mercado europeu e, portanto altamente lucrativos, surge a necessidade de mão-de-obra. Nesse quadro, o produto escolhido foi a cana, pois o açúcar era valorizado na Europa; e o clima quente e úmido (característico da costa brasileira) favoreceu tal cultivo. Entretanto, essa empreitada, de acordo com PRADO JÚNIOR (1986, p.33) não constituía tarefa para pequenos proprietários isolados, pois para desbravar o terreno seria necessário o esforço de muitos trabalhadores. Feito isto, a plantação, a colheita e o transporte do produto até os engenhos, onde se preparava o açúcar, somente seria rendoso se realizado em grandes volumes. Assim, o pequeno produtor, desprovido de boas condições materiais, não subsistiria. Nesse contexto, aquele que pretendesse se fazer grande proprietário, teria que dispor de escravaria e recursos, pois a instalação e a manutenção do engenho79 eram onerosas. Nas Minas, principalmente nas primeiras décadas da mineração,
78ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1982, p. 169.
79Também entendido como propriedade canavieira, além dos aparelhos mecânicos necessários à produção de
açúcar, encontravam-se a casa-grande (residência do proprietário); as senzalas (onde viviam os escravos); pastagens; terras (para os canaviais e uma parte destinas às culturas alimentares); e matas fornecedoras de lenha e madeira. PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 33.
em que se processa a formação da sociedade mineira, qualquer “pé-rapado”tinha possibilidade: “(...) de repente (...) achar (...) a fortuna e, de sua mesquinha condição, poderá aspirar à grandeza da terra (...).”80
Desta forma, verifica-se que a incipiente atividade mineradora possibilitou que pessoas de poucos recursos ou nenhum, se aventurassem à sua exploração. E, a Coroa portuguesa, no início, não criou dificuldades ao afluxo dessas pessoas ao território mineiro, a exemplo do referido critério de distribuição das datas.