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3.2. Örgütlenme Sorunu, Olasılıkçı Determinizm Teorisi ve Varoluşun yeniden

3.2.1.  Diyalektik: Olasılıktan Determinizme Doğru

A forma rap implica a redução da forma musical a dois elementos mínimos e essenciais: ritmo e poesia (daí a origem do nome rap), ou seja, a concentração do canto na prosódia da fala, alternando ênfases e acentos conforme o apelo do pulso e da rima. Por conta dessa tônica no dizer cotidiano, trata-se de uma das formas musicais mais aptas a traduzir esteticamente dialetos, gírias e a caracterizar, “figurativizando-os”22, certos tipos sociais através da dialética do canto e da fala, isto é, da configuração do grão da voz dessa cultura de rua23.

A musicalidade de canções muito longas tende a afastá-las das fórmulas comerciais de assimilação fácil, marcadas por estruturas estróficas que delimitam com clareza refrão, primeira e segunda partes, técnicas que facilitam a memorização. Ao contrário do que no mais das vezes entendemos por canção, o rap é uma música que se apresenta colada à dinâmica e instabilidade fônicas do discurso falado, distanciando-se, assim, das formas musicais de fixação de significantes (desenvolvimento melódico, colorido de timbres e instrumentos musicais, cadências harmônicas, variação na intensidade, altura e tessitura dos sons, exploração do alongamento de vogais, ênfase na estrutura de reiteração em refrão etc.).

21 CALDEIRA, T. P. R. “‘I Came to Sabotage your Reasoning!’ Violence and Resignifications of Justice in Brazil”. In: COMAROFF, Jean and COMAROFF, John L. (Eds.). Law and Disorder in the Postcolony. Chicago: University of Chicago Press, 2006, p. 117.

22 Referência ao conceito cunhado pela semiótica de Luiz Tatit, resenhada no capitulo I.

23 O conceito de “grão da voz” é de BARTHES, “O Grão da Voz”, op. cit. É justamente nesse sentido que Walter Garcia aproxima a fala cantada do Racionais MC's da bossa nova de João Gilberto. Por motivos diferentes, ambos apresentam uma fala colada ao corpo que, para ser escutada, necessita de atenção minuciosa, quebrando, assim, com a assimilação rápida do mero entretenimento – ainda que tanto o rap quanto a bossa nova sejam freqüentemente consumidos como fundo musical em ambientes de lazer das diferentes classes sociais associadas a esses dois gêneros. Cf. GARCIA, “Ouvindo Racionais MC’s”, op. cit.

Essa característica tem a ver com a "função" ou com o "projeto" narrativo decantado na forma rap: uma vontade de organizar e de comunicar uma carga de informação e de sentido muito grande. Para poder fazê-lo e chamar a atenção para o discurso, os elementos musicais tornam- se minimizados: a melodia praticamente é expulsa da música, os saltos passionais e as estruturas reiterativas da canção temática ficam em segundo plano, tornando-se recessivos, e a figurativização assume a dianteira. De dentro da voz que canta, a voz que fala pode tomar a cena.

Assim, se na canção melódica o que é dito (o sentido) muitas vezes é menos importante do que o como se diz (a significação e as informações musicais, a expressividade harmônico-melódica), no rap dá-se o contrário: a expressividade e os recursos de fixação da significação colocam-se a serviço da construção do sentido (em geral, discursivo). Daí o vínculo etimológico entre rap e poesia (de que utiliza as ferramentas da rima e, às vezes, da métrica) e contenção extrema das fontes de musicalidade – ênfase no pulso (ritmo), ausência de melodia e grande simplificação harmônica. O uso de samplers (ainda que de trechos "harmônicos") reforça ainda mais essa característica uma vez que, por serem recortes de outras músicas tocados repetidamente, criam sempre efeito rítmico (de reiteração e reforço de sentido) e não harmônico (de desenvolvimento e multiplicidade polifônica).

Com variações ao longo de seu desenvolvimento, o rap do Racionais destaca-se frente a outros grupos pela conjunção de simplicidade e contundência, pela economia no uso de recursos e efeitos eletrônicos e na ênfase performática dos personagens que narram e figuram as históricas contadas pelas longas letras. Porém, ao contrário do que muitas vezes se diz a respeito do Racionais, o duplo efeito agressivo e crítico de suas músicas não decorre meramente do conteúdo de denúncia da situação bárbara em que a população das periferias vive, sobretudo jovens, homens e negros. A mera denúncia poderia ser objeto para uma reportagem jornalística ou para um livro-documentário e, assim, converter-se exatamente no motivo para dispensar a composição ou a escuta da música. Os achados e a qualidade maior do rap do Racionais é a correspondência estrutural entre forma musical e matéria cantada, isto é, a qualidade estética do grito ético que sentencia e, portanto, a eficácia técnica que sua música assume para narrar vivências-limite. Não é, portanto, por acaso que os elementos musicais encontram-se (para falar como Adorno) “regredidos” a um grão mínimo: ritmo e poesia. É mediante essa forma mínima que o rap fala em densidade máxima. Daí sua agressividade e contundência. Nesse sentido, tem razão Walter Garcia quando afirma que...

distanciada, impassível, pois acredito que elas não dizem respeito somente às camadas de baixo, e sim a toda sociedade. O valor da elaboração artística, por sua vez, creio que não se dê por si só, por seu apuro, mas decorre do fato de que a técnica de feitura das obras está completamente adequada à profundidade das experiências representadas. E ainda que o ouvinte acredite se identificar com o grupo apenas pelo conteúdo das letras, ou prefira somente dançar, é o acerto da técnica que parece estar na base do sucesso e da

importância da obra24.

Sem o acerto técnico não pode haver experiência estética no sentido forte do termo. A força do rap do Racionais advém de sua capacidade singular de narrar uma experiência, isto é, de dar forma a vivências violentas, isoladas e silenciadas, de modo a organizar e comunicar, no plano da estética musical, um coletivo, um mundo comum de discursos, valores e atitudes. Ao elaborar esteticamente suas vivências particulares como um ponto de vista sobre as condições de vida nas periferias paulistas, o Racionais elabora uma experiência social que envolve uma percepção de toda a cidade. Assim, ainda que seu ponto de vista particular seja, muitas vezes, revanchista e estereotipado, consegue tornar-se crítico e revelador na medida em que sua formalização estética universaliza um sentido para a experiência urbana contemporânea.

Trata-se de um pêndulo complexo e que diz respeito à percepção da lógica da construção social do espaço urbano a partir de seus elementos aparentes na paisagem da periferia. Isto é, uma vez que os fatos e objetos estão todos aí, objetivos, “naturalmente” dispostos, independentemente de nós e resumidos à sua aparência, trata-se do empenho crítico de construir relações, fisionomias, explicações e interpretações que os organizem em um sentido histórico e social25. Ou seja, crítica que opera a passagem dos objetos visíveis da paisagem à lógica oculta do espaço social, um trabalho de apropriação cognitiva que permite ao sujeito apoderar-se da cidade, percebê-la em sua dinâmica de transformações e, portanto, distanciar-se da posição de espectador passivo, de sub-cidadão, de indivíduo atomizado, explorado e impotente.

24 GARCIA, “Ouvindo Racionais...”, op. cit., p. 171. Garcia reflete nos seguintes termos benjaminianos: “Antes, pois, de perguntar como uma obra literária se situa no tocante às relações de produção da época, gostaria de perguntar: como ela se situa dentro dessas relações? Essa pergunta visa imediatamente à função exercida pela obra no interior das relações literárias de produção de uma época. Em outras palavras, ela visa de modo imediato à técnica literária das obras. (...) Seu trabalho não visa nunca à fabricação exclusiva de produtos, mas sempre, ao mesmo tempo, à dos meios de produção. Em outras palavras: seus produtos, lado a lado com seu caráter de obras, devem ter antes de mais nada uma função organizadora”. BENJAMIN, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, op. cit., p. 122, 131.

É esse movimento que indica, por exemplo, a relação de escuta entre estes dois trechos de rap: “periferia é periferia em qualquer lugar/gente pobre/Milhares de casas amontoadas/Periferia é periferia/Mães chorando, Irmãos se matando. Até quando?” (a paisagem, a descrição factual, o "óbvio”, a “impotência”); e “eu sou apenas um rapaz latino- americano/apoiado por mais de 50 mil manos/efeito colateral que o seu sistema fez/Racionais capítulo 4, versículo 3” (a produção do espaço, a narração, “o oculto”, os “espaços de liberdade” para uma intervenção na cidade) 26.

Benzer Belgeler