• Sonuç bulunamadı

Conheci Dona Mocinha por indicação de amigo que mora em Icoaraci, que se diz cliente permanente dela. Dona Mocinha com 75 anos, natural de Mocajatuba no município de Colares, possui aparência frágil, pela estatura (1,40m) e pela magreza, mas, sua voz é segura informando ter bastante fé, resistindo às dores e às dificuldades que passou na vida. Narra que veio para Belém aos sete anos de idade para trabalhar como doméstica e ajudar a mãe construir a casa própria. Conta que a mãe jamais soube escolher homens para casar, arranjava homens infiéis e desonestos, inclusive o próprio pai. Dessa forma, a infância foi o período de intensas dificuldades, do qual não gosta de lembrar, relatando que a marcou muito, acha que tal fato influenciou para deixar a família de origem e mudar-se para Belém, pois o terceiro marido de sua mãe a deixou na miséria, roubando tudo que tinha, a esta altura a mãe adoeceu e resolveu mandá-la morar com outra família em Belém que estava precisando de menina para ajudar nos afazeres da casa. Diz que até três anos de idade adoecia com freqüência e, segundo a mãe, todos pensavam que ela não iria resistir, esse é o primeiro fato que ela atribui ao dom que possui, acredita que sua missão de vida é curar as pessoas e por isso Deus a deixou viver apesar das adversidades.

Desde menina fala que sabia rezar “nas pessoas”, todavia, sentia muita vergonha, tinha medo que as pessoas pensassem que ela fosse macumbeira, desde sua primeira cura que aconteceu quando ela tinha aproximadamente onze anos, neste período ela estava visitando a mãe no interior, quando curou uma criança que padecia de febre alta devido a quebrante, ficou conhecida na localidade e todas as vezes que viajava para lá era procurada pelas rezas. Garante que não aprendeu com ninguém, lembra apenas de um tio distante, mas não teve tanta convivência com ele. Acha que como sempre foi católica, as rezas vinham em sua cabeça e afirma que não tem relação nenhuma com a umbanda, conta que certa amiga a levou em terreiro algumas vezes, no entanto garante: "eu não preciso de ter santo no meu corpo, eu falo tudo para pessoa eu mesma, eu não pego santo (os caboclos), mas sou capaz de derrubar uma pessoa” (Dona Mocinha. Entrevista concedida em 07/10/2006). A negação de Dona Mocinha a umbanda é contraditória, horas afirma que o “dom” não mantém relação com a umbanda e

71

em outras falas admite ter freqüentado reuniões em terreiros sem que estas tenham interferido em suas sensações, suspeito que a estratégia usada pela interlocutora objetive resguardar a capacidade do “dom” inato e divino, pois as crenças religiosas afro-ameríndias representam um auxílio para aqueles que o “dom” é revelado, espaço aberto para todos que desejam “estagiar” e adquirir o aprendizado para controlar as habilidades peculiares extraordinárias (PACHECO, 2004 & QUINTAS, 2007).

Aos quatorze anos, com as economias guardadas pôde construir casa coberta de telha para a mãe no interior. Nessa época também resolveu estudar e conseguiu concluir o ginasial. Aos dezoito anos passou a trabalhar na fábrica de castanha e passou a residir em Icoaraci. Casou-se aos 21 anos com Pedro Silva, este era açougueiro e possuía talho de carne na feira, Dona Mocinha conta que o marido não gostava que ela tratasse as pessoas e não permitia que trabalhasse fora, lembra que ele falava que ela tinha muito serviço em casa e o dinheiro dele dava para sustentar a família, ela discordava, mas para não brigar benzia às escondidas e procurava viver como podia.

Relata que sempre teve vontade de ter a vida com conforto e durante o período que estava casada se incomodava com o estado da casa, diz que o marido era desligado e que parecia não ter vontade de ter nada na vida. Recorda que, nesse tempo, a casa era de madeira e havia muitas goteiras e no tempo das chuvas era verdadeiro sacrifício. O terreno aonde mora foi herança do sogro e somente depois que ficou viúva, aos 52 anos, com a ajuda dos filhos iniciou a construção da casa de alvenaria, hoje neste terreno há três casas, a dela e a de dois filhos que casaram. Dona Mocinha afirma ter orgulho de suas conquistas, dos 15 filhos que teve, seis morreram ao nascer por problemas na gravidez, os nove estudaram e todos possuem profissão.

Depois que o marido morreu, ela vendeu o talho do açougue e passou a revender fogos de artifício e lavar roupa para fora, os filhos mais velhos foram arranjando trabalho, com isso a renda familiar foi aumentando, pôde equipar a casa com eletrodomésticos como geladeira, televisão e máquina de lavar roupa. Atualmente, permanece com ela o filho caçula, Almir, com a esposa, Rosa e duas netas, Camila e Caroline, de oito e onze anos respectivamente.

Narra que como benzedeira, iniciou a praticar as puxações aos 25 anos de idade, quando veio morar com ela a senhora chamada Dona Iolanda, esta sabia puxar rasgaduras e

dismintiduras e fazer de remédios de ervas. Certo dia Dona Iolanda caiu e torceu o pé, como ninguém conseguiu ajudá-la, Dona Mocinha começou a rezar e massagear o pé doente de Dona Iolanda sob a orientação desta, até que ouviu um estalo e a dor foi passando, no outro dia Dona Iolanda estava curada. A partir daí ficou também conhecida pelas puxações, em seguida passou a se interessar pelo aprendizado de remédios caseiros que fazia por meio de experimentações seguindo a intuição e aconselhamentos da amiga.

Na mesma época passou a assistir alguns partos, quase todos por necessidade das pessoas que a chamavam. Acha que a função de parteira é difícil e cansativa, e admite que fazia parto apenas por caridade, hoje abandonou, pois acha que não tem mais saúde, e seus filhos não permitem que ela saia para tais afazeres, se reconhece como benzedeira, diz tratar diversas doenças como quebrante, mau-olhado, peito aberto, espinhela caída, erisipela, cobreiro entre outras, para cada, Dona Mocinha executa conduta diferenciada, costuma se disponibilizar a receber as pessoas em tempo integral em casa ou mesmo fazer trabalhos a domicílio.

As fases da vida de Dona Mocinha parecem bem marcadas, o dom revelado na infância foi consagrado na benzeção aos 11 anos, na idade adulta foi iniciada por outra profissional de saúde tradicional nas habilidades da puxação, parto e seguiu aprendendo manipular ervas em pró da saúde, ao pensar nas reflexões de Lévi-Strauss (2005) é possível que tal trajetória reflita a expressão do pensamento mítico em que o profissional constrói determinado repertório por meio das experiências, buscando a matéria-prima do meio social e compondo conjuntos diversificados que formam seus saberes e práticas.

Ao contrário dos demais profissionais entrevistados, Dona Mocinha acha que as pessoas devem pagar algum valor pelo atendimento, sua posição é que quando a pessoa paga ela valoriza o trabalho do profissional, apesar de não ter tabela com discriminação de valores pelo tratamento, é sincera e diz que a pessoa paga o quanto pode, diz que aquele que tem mais paga mais, o que tem menos paga menos e mesmo aquele que não tem dinheiro, pode pagar de outras formas. Nesse ponto Dona Mocinha se diferencia dos outros profissionais entrevistados, no discurso apresenta a modernização da prestação de serviços em que a conduta é administrada mediante a cobrança de determinado valor estipulado pelo próprio cliente.

73

Acredita que tudo que faz é porque tem a missão para cumprir, e o dom de fazer curas com rezas é presente de Deus. Diz-se católica, mas é simpatizante da filosofia religiosa da Seicho-No-Ie, em sua sala há quadros e imagens de santos, afirma que os santos de devoção são Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Nazaré e São Jorge e que ninguém a faz desprezá-los, conta que possui um filho que hoje é pastor e mora em São Paulo, quando ele vem visitá-la ela diz que o mesmo fica incomodado com as imagens e com a forma que ela faz as curas, porém ela disse a ele, que foi com a ajuda dos santos e das rezas que ela teve forças e recurso para dar a todos a oportunidade de estudarem e, principalmente, no caso dele, quando decidiu viajar ela lhe deu apoio até financeiro. Percebi que Dona mocinha apesar da aparência frágil, é a pessoa que assume o controle da família, por vários momentos verifiquei que a decisão final é dela, observei que os filhos que não moram próximos a ela vêm pedir sugestões e geralmente as acatam.

Ela diz respeitar todas as formas de crenças assim como procura não interferir caso a pessoa que a procure esteja, também, se tratando com outro tipo de profissional, às vezes acha que é necessário e, nesse caso, é a pessoa que deve escolher, porém critica alguns médicos de posto de saúde ou hospitais afirmando que não atendem a pessoa como deveriam, ela acha que tudo é feito rápido demais, não conseguem nem ver direito o que a pessoa tem, passam logo os remédios de farmácia que, segundo ela, são caros e nem sempre resolvem o problema. Tais afirmações assemelham-se aos achados de Boltanski (2004) sobre a percepção que as classes populares possuem dos médicos, há o sentimento de desconfiança e crítica a respeito da forma como eles exercem seu saber, Loyola92 igualmente afirma:

“A desconfiança que as classes populares têm da medicina oficial se exerce mais sobre o médico e suas manipulações do que sobre o saber médico propriamente dito, porque este não constitui objeto de reflexão erudita para aquelas camada.” (1978, p. 228).

Dona Mocinha, por meio do discurso, busca provar que é detentora de saber diferenciado tal como Dona Iniciada, diz ainda ter inúmeros casos de cura conquistados, afirma que em casos de câncer e paralisia teve êxito. Recorda que, algumas pessoas, de famílias famosas a procuraram, as quais lhe proporcionaram o custeio de viagens com tudo pago. No entanto, fala que não se orgulha do fato que muitas pessoas consideram verdadeiros milagres, por saber que tudo o que faz é vontade de Deus, tentando assim exercer a humildade, segundo ela, Deus ajuda aqueles que são humildes de coração.

92

Em seu depoimento, Dona Mocinha faz questão de valorizar o reconhecimento conquistado ao longo de sua trajetória enfatizando na narrativa todos os casos de cura importantes realizados, entretanto, justifica o fato ao se remeter à questão do “dom” como aspecto particular, dado por Deus, o que segundo ela a torna diferente. Diz sentir-se reconhecida pela coletividade o que provavelmente a faz atualizar o processo da eficácia simbólica das práticas como referido por Lévi-Strauss (2003), entendendo que o grupo mantém a crença do poder mítico proporcionado pelo “dom” inato, dádiva divina, Dona Mocinha acredita em suas habilidades diferenciadas, as pessoas que a procuram crêem nas mesmas e o grupo social a apóia, confirmando o processo.

Benzer Belgeler