Considerando a definição de Lopes (2014), bem como o previsto na Lei Federal nº 12.305/10 e seu Decreto Regulamentador, de uma forma genérica, gestão de resíduos sólidos são todas as normas, leis, planos, programas e projetos relacionados a esta temática.
Nesse contexto, verificou-se que alguns municípios que compõe o universo da pesquisa já contam com um conjunto de normativas aplicáveis a resíduos, porém, ainda insuficientes. Fazem parte deste conjunto, as Leis Orgânicas, as Leis de uso e ocupação do solo, Projetos de Instalação de Aterros Sanitários, Planos Municipais de Gerenciamento de Resíduos Sólidos e Planos Municipais de Saneamento Básico – atualmente no topo da discussão, quando se pensa nos desafios da gestão e gerenciamento de resíduos nos municípios amapaenses de pequeno porte.
A pesquisa apontou que o sistema de gestão dos resíduos de todos os municípios é executado de forma compartilhada pelas Secretarias Municipais de Meio Ambiente e Secretarias de Obras ou de Infraestrutura, as quais também cabem às atribuições de planejar, fiscalizar e executar atividades de mesma natureza incluindo aí, a administração dos lixões, conservação e manutenção da limpeza pública.
A gestão dos RSU na maioria dos municípios não é planejada, não tendo sido encontrado em nenhum deles, Planos Locais de Gestão de seus Resíduos adequados às especificidades locais. Soma-se a isso, a ausência de registros atualizados sobre as características físicas, químicas e biológicas dos resíduos produzidos, instrumento importante na elaboração de um sistema de gerenciamento e tratamento de RSU.
A pesquisa indicou que na maioria dos municípios, as leis e regulamentos aplicáveis a resíduos sólidos contam apenas com Lei Orgânica, conforme mostram as tabelas 4 e 5.
Tabela 4-Instrumentos de planejamento existentes no município da Mesorregião Norte Mesorregião Norte
Municípios Leis e regulamentos aplicáveis a
resíduos sólidos no município Instrumentos de planejamento existentes no município e no estado.
Amapá Lei Orgânica Não se encontrou dados nas secretarias visitadas que informassem a existência de nenhum tipo de plano de gerenciamento de resíduos.
Oiapoque Código de Postura, Lei Orgânica Possui Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela antiga ADAP (hoje Secretaria das Cidades). Está em fase de finalização do Plano de Saneamento Básico em parceria com a FUNASA e Plano de Gerenciamento de resíduos por empresa contratada (MDL Ambiental).
Calçoene Lei Orgânica Possui somente Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela antiga ADAP (hoje Secretaria das Cidades), e está em fase de elaboração do Plano de
Saneamento Básico em parceria com a FUNASA.
Tartarugalzinho Código de Posturas, Lei Orgânica do município, e está iniciando as reuniões para elaboração do Plano Diretor.
Possui Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela antiga ADAP (hoje Secretaria das Cidades) e está em fase de elaboração do Plano de Saneamento em parceria com a FUNASA.
Pracuúba Lei Orgânica Recentemente apresentou Projeto de Instalação de Aterro Sanitário de pequeno porte, elabora por empresa contratada. Também está em fase de elaboração do Plano de Saneamento em parceria com a FUNASA.
Fonte: Elaborada pela autora
Laranjal do Jari, Ferreira Gomes, Porto Grande, Oiapoque e Serra do Navio já contam com Leis de uso e ocupação do solo.
O que precisa ser visto é que os municípios consideram que a solução de seus problemas são os Planos de Saneamento Básico. Os municípios da Mesorregião Norte destacam-se por quatro dos cinco municípios já terem iniciado a elaboração de seus Planos de Saneamento Básico, é o caso do Oiapoque, Calçoene, Pracuúba e Tartarugalzinho. Os recursos para isso são todos oriundos da FUNASA.
Já na Mesorregião Sul, o quadro não é tão animador, somente o de Porto Grande já está em elaboração do PSB. Esta elaboração foi fruto dos programas socioambientais da instalação da UHE Cachoeira Caldeirão ao município.
Tabela 5 - Instrumentos de planejamento existentes no município na Mesorregião Sul Mesorregião Sul
Municípios Leis e regulamentos aplicáveis a
resíduos sólidos Instrumentos de planejamento existentes no município e no estado
Mazagão Lei Orgânica Possui somente Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela antiga ADAP (hoje Secretaria das Cidades).
Laranjal do Jari Lei Orgânica e Lei de uso e ocupação do solo
- Ferreira Gomes Lei Orgânica e Lei de uso e ocupação do
solo. Possui somente Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela antiga ADAP (hoje Secretaria das Cidades).
Porto Grande Lei Orgânica e Código de Postura–o Plano Diretor está em Elaboração desde 2012.
Possui Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela empresa Ferreira Gomes Energia e já foi assinado contrato para elaboração do Plano de Saneamento pela SEMA e UHE Cachoeira Caldeirão, com recursos do PBA da hidrelétrica.
Itaubal Lei orgânica Possui somente Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado pela antiga ADAP (hoje Secretaria das Cidades).
Cutias Lei orgânica Possui somente Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado por empresa terceirizada. Serra do Navio Lei orgânica, Lei de uso e ocupação do
solo Pedra Branca do
Amapari Lei Orgânica e Lei de uso e ocupação do solo Possui Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborado e executado pela empresa mineradora Anglo Gold. Também possui Plano de
Gerenciamento, porém não foi implementado. Vitória do Jari Há Lei Orgânica
Fonte: Elaborada pela autora.
Um ponto positivo é que na Mesorregião Norte os municípios de Calçoene, Oiapoque e Tartarugalzinho e na Mesorregião Sul, Ferreira Gomes, Itaubal e Mazagão, já possuem Projeto de Instalação de Aterro Sanitário, elaborados pela ADAP, hoje denominada Secretaria das Cidades. Cutias e Pracuúba também possuem Projetos de Instalação de Aterro Sanitário de pequeno porte (em análise no IMAP), elaborados por empresas terceirizadas.
Por outro lado, somente Pedra Branca já possui Plano de Gerenciamento de Resíduos, que ainda não se efetivou e o do Oiapoque está em elaboração.
Ressalta-se que os planos são instrumentos definidos pela PNRS, que auxiliam a tomada de decisão dos gestores municipais quanto às melhores alternativas para a gestão de resíduos, permitem ainda, a redução do consumo de recursos naturais, abertura de novos mercados, geração de trabalho e renda, inclusão social e tem seu conteúdo mínimo definido no artigo 15 da Lei 12.305/2010.
No caso dos municípios com menos de 20 mil habitantes, a Lei prevê que o Plano poderá ser elaborado de forma simplificada, à exceção de municípios integrantes de áreas de especial interesse turístico, inseridos na área de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental de âmbito regional ou nacional e cujo território abranja, total ou parcialmente, Unidades de Conservação (UC). No caso dos municípios do Amapá, a grande maioria, 12 dos 14 municípios objeto da pesquisa, é afetada por UC, sendo assim, o plano não pode ser simplificado. Esta situação ecológica do estado tem os seguintes desdobramentos:
1- Diminui o percentual de áreas disponíveis a serem usadas para fins de aterro sanitário e dificulta a identificação de áreas favoráveis a esta atividade;
2- Aumenta a exigência quanto à Elaboração dos planos de gerenciamentos quando comparada aos demais municípios considerados de pequeno porte. Essa exigência é prevista no decreto de regulamentação da PNRS.
Segundo levantamento realizado pelo Departamento de Ambiente Urbano do Ministério das Cidades, em 2015, dos 3.842 municípios com menos de 20 mil habitantes, somente 1.606 elaboraram seus planos de gestão de resíduos (41,8%).
As análises das efetividades dos planos, projetos e leis que amparam a temática, permitem concluir que houve relativos avanços, porém, ainda não saíram do papel.