4. FINDINGS
4.8. Discrimination in the Area of Participation in Political Life
4.8.2. Discussing and Interpreting the Discrimination Perception and
Coiote apresenta um deslocamento significativo em relação à Cléo & Daniel e Travesti. Rudolf Flugel, alter ego assumido por Freire definitivamente a partir de Coiote,23 retorna neste novo romance internado num sanatório para
desintoxicação do álcool. Após a conversa com uma mulher também internada no sanatório sobre a região das montanhas de Visconde de Mauá, próximo a Itatiaia, no estado do Rio de Janeiro, decide mudar-se para um pequeno sítio com o objetivo de se recuperar do sanatório.24 João Da Mata recorda as
temporadas em Mauá, ocasião em que observava de perto a relação de Freire, inventor de Flugel, com a escrita: “Roberto produzia muito em Mauá (...) Acordava cedo, escrevia até meio-dia e daí por diante se tornava um ser social. Ele tinha uma dedicação como a de um sapateiro”.25
Publicado somente em 1986, Coiote começou a ser esboçado antes mesmo de viva eu viva tu viva o rabo do tatu, lançado em 1977, ano em que Renato Tapajós, escritor e militante ativo das organizações de combate direto a ditadura militar no final dos anos 1960, era preso por publicar seu romance Em Câmara Lenta. Tapajós foi detido por investigadores do DOPS e acusado pela
23“Uma fantástica e protomutantíssima paixão durante esses últimos anos serviu de estímulo e
catalisação para que terminasse o romance Coiote e fizesse com que eu passasse a ser, definitivamente, o alter ego do Rudolf”, revelou Freire anos mais tarde em Ame e dê Vexame (Freire, 1999: 34).
Secretaria de Segurança Pública de São Paulo de “apologia do terrorismo, da subversão e da guerrilha em todos seus aspectos. É um romance lírico, apaixonado e fanático em que se [ilegível] e se venera o terrorista, o guerrilheiro, e ao mesmo tempo que se execra o policial e o militar” (Silva, 2008: 143).
De modo similar a Flugel em Coiote, Freire explicita com viva eu viva tu viva o rabo do tatu uma reviravolta em sua existência. O livro apresenta o deslocamento de seu engajamento nas atividades como jornalista na década de 1960, a coordenação geral do TUCA e, sobretudo, seu rompimento com a Ação Popular, organização na qual militara por mais de uma década e que havia se tornado desde 1971, a Ação Popular Marxista – Leninista do Brasil.26 Em
conversa com Jorge Goia ele recorda a reação de alguns integrantes do grupo na época do lançamento do livro. “Quando eu publiquei viva eu viva tu viva o rabo do tatu eles ficaram indignados... aí me chamaram e eu falei, então vou sair, não sou mais da AP. E eles perguntaram, ‘vai fazer o quê?’ (...) eu dizia ‘não sei’ (...) mas com vocês eu não continuo, vocês estão virando marxistas-leninistas, vocês estão precisando do autoritarismo” (Freire apud Goia, 2001: 97).
O livro de 342 páginas lançado pela editora Símbolo, dividido em variados capítulos apresentado com a seguinte epígrafe de David Cooper: “’Fazer amor é bom em si e quanto mais isso acontecer de qualquer modo
possível ou concebível entre tantas pessoas quanto possível e o maior número de vezes possível, tanto melhor’” (Freire, 1977: int) é o início do que chamarei de “período ensaístico” e que se encerrará somente no meio da década de 1990. viva eu viva tu viva o rabo do tatu afirma a consolidação dos estudos de Freire acerca do pensamento de Wilhem Reich, sua aproximação com a metodologia da gestalt-terapia através da análise de um ensaio publicado pelo terapeuta Joel Latner, e antecipa a incorporação da prática da capoeira à Soma no capítulo “É luta, é dança é Capoeira”.
Pode-se dizer que viva eu viva tu viva o rabo do tatu parte de um efeito de liberação na própria existência de Freire. Não à toa ele afirma variadas vezes que se trata de um depoimento, uma tomada de posição pessoal. Explica o que considera este novo posicionamento no capítulo “Gosto Convalescente de Viver”, no qual parte do desabafo do amigo e cineasta Roberto Santos em relação à censura - “É o medo. O grande pavor de dizer as coisas. Tudo está sendo dito nas meias palavras (...) Dá uma vontade de romper com tudo, como tentei há uns quatro anos atrás com ‘Vozes do Medo’, porque de repente você fica bloqueado” -, para falar dos efeitos destrutivos da ditadura sobre a arte e a vida. “O mais grave e lamentável no processo de censura arbitrária e reacionária à liberdade de ação, de criação e de expressão crítica, não é a censura propriamente dita, mas a sua consequência e principal finalidade quando eficientemente aplicada: a autocensura (...) a autocensura é o sucesso do
sistema político repressivo” (Ibidem: 185). Distanciando-se das reivindicações de outros artistas e intelectuais que, em 1976, haviam redigido um Manifesto contra a censura e em defesa da liberdade de expressão, Freire declararia sua indisposição em negociar com “a instituição que se encarrega de silenciar ou emudecer pela violência” (Freire, 1977: 31). Conclui entre as páginas do livro - que não por acaso foi dedicado a Chico Buarque e a Plínio Marcos – que “ou se morre de rebeldia, ou de medo a gente se transforma em mais um censor” (Ibidem: 189).
Um dos principais alvos da escrita liberadora em viva eu viva tu viva o rabo do tatu é o combate à ditadura militar não mais somente como instituição repressora e violenta. A atenção e força de Freire se voltam para um dos efeitos mais devastadores e ínfimos do regime militar, a censura, que deixa de ser um Órgão do Governo e vai sendo incorporada pelos próprios artistas, bloqueando invenções e resistências.27 No início dos anos 1970, Chico Buarque, em desabafo
27
Rogério Duarte chamou de “repressão introjetada” o processo que o levou a destruir parte dos seus escritos e o levou a posteriores internações em Hospitais Psiquiátricos. “68 (...) Fui banido da minha vida de forma traumática durante a semana de 4 de abril desse ano, ao tentar cruzar os umbrais da igreja da Candelária para assistir à missa de 7º dia de Edson Luís, estudante assassinado pela polícia do Rio de Janeiro (...) Esse fato gerou uma indignação popular no Rio, num momento em que a ditadura militar completava a mostragem de seu quadro cruel. Fui arrastado por essa onda de protestos através do meu irmão e da minha namorada, o que resultou na minha prisão ou seqüestro com torturas durante a Semana Santa daquele ano (...) Durante os oito dias fomos submetidos a torturas, espancamentos, interrogatórios, lavagem cerebral, todo um pacote de sistemático de técnicas para desestruturar completamente uma personalidade (...) Estive numa cela onde havia dezenas de placas de papelão presas num suporte de pau com o clássico desenho da caveira e as iniciais E.M., de Esquadrão da Morte (...) Na véspera desse dia, Sexta-Feira da Paixão, com os pulsos amarrados
à equipe do jornal contracultural Bondinho, diz que depois de ter tido grande parte de suas canções proibidas pensou até em mudar de profissão.28
A grande marca de viva eu viva tu viva o rabo do tatu na existência de Freire foi apresentar pela primeira vez sua afirmação anarquista. Em “Anarquismo ou ‘Caminante, no Hay Camino; se Hace Camino al Andar’ “ ele apresenta logo de início a emergência da designação “libertários” como sinônimo de “anarquistas” inventada pelo francês Joseph Déjacques e divulgada por Sebastien Faure como modo de resistir ao “ódio de grandes setores da opinião pública mundial” que identificavam, no final do século XIX, os anarquistas com práticas consideradas terroristas. Recupera também a definição de anarquismo, por de Augustine Hamon, como “revolta visceral” e estanca as práticas libertárias durante a irrupção da Revolução Russa citando a pesquisa do historiador anarquista Vóline. Por fim, diferencia as principais contribuições de Max Stirner, Proudhon, Malatesta, Kropotkin e Bakunin ao
pelas costas, fui deixado de tanga (feita de uma calça rasgada e mijada por toda a corporação) numa ‘geladeira’ com uma carta de cigarros e uma caixa de fósforos nos bolsos (...) Não consegui mais voltar ao mundo anterior à prisão. Daí pra frente foi uma sequência de alienações: Pinel, Engenho de Dentro, Pavilhão Psiquiátrico do Hospital das Clinicas de São Paulo (...) algum tempo depois das denúncias que fiz das torturas dos militares, fui ficar com meu pai na sua Chácara do Limoeiro em Feira de Santana. Eu ficava o tempo todo no quarto e meu pai preocupado, queria que eu saísse daquilo e começasse uma vida nova (...) Um dia disse a ele que não podia começar vida nova porque estava comprometido com o conteúdo de uma caixa onde eu guardava todos os meus escritos (...) fiz um círculo de pólvora e queimei todos os meus papéis (...)” (Duarte,2009: 125).
28 Ver entrevista com Chico Buarque em Bondinho Entrevistas, livro organizado por Sergio Cohn
que chamou de “anarquismos”,29 para escrever: “quero dizer claramente que
sou um anarquista, um socialista libertário” (Freire, 1977: 267).
Entretanto, é no ensaio “Paraíso, Agora” que Freire reafirma a principal força anarquista que afeta sua prática libertária. Escreve que acredita no anarquismo “não como uma promessa de um futuro longínquo e incerto na história (o Paraíso Comunista, por exemplo) ou para depois da morte (o Paraíso Celestial, também por exemplo), mas como propôs Julien Beck no somático e somaterápico espetáculo de massa Living Theater: Paradise, now (Paraíso, agora)” (Freire, 1977: 266). Neste ensaio, retoma as reflexões antipsiquiátricas trabalhadas em outras partes do livro para articulá-las, agora, às práticas libertárias. Conclui que as internações de jovens considerados doentes mentais, nos anos 1970, no Brasil e em outros cantos do planeta, servem somente “para aliviar os problemas daqueles que, conscientes ou não, são os responsáveis pelo comportamento ‘esquizofrênico’: a família e os estados repressivos” (Ibidem: 275).
29Diferente das afirmações de Edson Passetti e Margareth Rago do anarquismo como
multiplicidades, coexistências, Freire emprega o plural de anarquismo apenas para descrever a variedade das atividades políticas que havia experimentado até aquele momento de sua vida. “Embora a leitura e o conhecimento das obras históricas fundamentais datem da minha juventude, foi em 1970 que as relendo e fazendo um balanço de minhas frustrações com os acontecimentos históricos e políticos na União Soviética, bem como suas conseqüências em todo o mundo, é que entendi porque nunca militei no Partido Comunista Brasileiro, sem entretanto perder a fé socialista e sem nunca deixar de contestar o capitalismo e o imperialismo, nas minhas diferentes formas de atuar socialmente. Existem muitos socialismos, como diferentes anarquismos” (Freire, 1977: 267).
Assumindo um novo jeito de fazer política, diferente do que experimentara nos anos 1960, Freire aponta que cabe tanto a Antipsiquiatria como a certos anarquistas não somente desafiar as autoridades, familiares ou estatais, mas arruinar estas relações de sujeição. Todavia, alguns contraposicionamentos anarquistas, segundo ele, ainda baseavam-se em concepções psicanalíticas de autoridade. Referindo-se especialmente a Herbert Read comentou: “discordando de Read (...) o anarquista para mim não é uma pessoa que desafia autoridades, mas simplesmente alguém que não a reconhece e que não a exerce” (Ibidem: 289).
viva eu viva tu viva o rabo do tatu esboça a primeira sistematização de Freire para a invenção da Soma e expõe nitidamente um novo contraposicionamento político. O livro explicita seu objetivo de articulação dos anarquismos com as reflexões realizadas por David Cooper e Ronald Laing30 e
também de certa atualização da psicologia reichiana. “Tentei fazer um esboço de como o anarquismo, o ideal libertário, tornou-se a base filosófica e política para qualquer uma das minhas formas de trabalho, inclusive a terapia (somaterapia). Para alguns, talvez isso baste para que me faça entender clara e
30 Embora Gregory Bateson, a primeira leitura de Freire sobre a antipsiquiatria, seja uma
importante referência da Soma por meio da sua descoberta dos “duplos vínculos”, David Cooper e Ronald Laing ganham importância na literatura e nos ensaios de Freire. Sobre estes dois antipsiquiatras ingleses ele disse: “ Ele [Cooper] foi um homem de uma cultura filosófica fantástica, de uma lucidez muito grande sobre a origem da doença mental. As pesquisas dele com o Ronald Laing em Londres são das mais importantes para comprovar de que a doença
completamente, isto é, eu assim teria terminado de responder porque, para quê e para quem faço terapia e escrevo meus romances”, concluiu (Idem: 292).
A leitura do livro articulada às experiências realizadas no Centro de Estudos Macunaíma, no início da década de 1970, desvelam um pouco da incorporação do pensamento antipsiquiátrico de David Cooper por Roberto Freire. No livro Soma uma terapia anarquista: A alma é o corpo, dedicado a Cooper e Flávio Império, ele diz que o antipsiquiatra inglês chama a atenção para a comunicação daquela existência considerada esquizofrênica com as pessoas com as quais se relaciona afetivamente. Liberando estas vidas tanto das relações, na maioria dos casos relações familiares, que de certo modo constroem a loucura, quanto afastando as da possibilidade de internamento psiquiátrico, Cooper propõe, segundo Freire, uma comunidade experimental “sem os preconceitos habituais, sem um caráter exclusivamente clínico e de dominação médica” na qual “os indivíduos não teriam de lutar contra os desejos alienados dos outros, nem a força seria usada como instrumento de comunicação” (Freire, 1988: 183). É importante ressaltar que a incorporação do pensamento de David Cooper em viva eu viva tu viva o rabo do tatu ocorre em paralelo à abertura de Freire para novas pesquisas, efeito de seu rompimento com a militância marxista-leninista em que haviam se enredado seus companheiros de Ação Popular. Portanto, a cisão vital com a AP articula-se diretamente não somente à afirmação anarquista, de Freire, mas, também, à sua pesquisa antipsiquiátrica.
Entretanto, ao mesmo tempo em que afirma esta prática proposta por Cooper, a qual articula as experiências do Centro de Estudos Macunaíma, Freire em certos momentos se posiciona apenas como crítico das práticas psiquiatriátricas, deixando inalterado em seus textos construções tais como “doença mental”. Desta maneira, sem problematizar o coração destas construções, reivindica a liberdade da loucura “do alto da fortaleza que a tem como prisioneira”, como escrevera Michel Foucault no prefácio para A história da loucura, em 1961. Diferente do filósofo francês, Freire não se atém a problematizar a loucura como doença mental.
Foucault introduz o breve prefácio de A história da loucura com uma passagem de Dostoievski, “não é isolando seu vizinho que nos convencemos de nosso próprio bom senso”. Para ele, a criação da chamada doença mental corrobora com a divisão, inexistente antes do século XVIII, entre loucura e razão. “A constituição da loucura como doença mental, no final do século XVIII, estabelece a constatação de um diálogo rompido, dá a separação como já adquirida, e enterra no esquecimento todas essas palavras imperfeitas, sem sintaxe fixa, um tanto balbuciantes, nas quais se fazia a troca entre a loucura e a razão” (Foucault, 2006: 153). Na Idade Média e no Renascimento, analisa Foucault, os loucos existiam no interior da sociedade sendo separados desta somente em casos extraordinários. Contudo, a partir do século XVII, com o início da sociedade industrial, “estabelecimentos de grande dimensão foram
criados para internar não apenas os loucos, mas os velhos, os desempregados, os ociosos, as prostitutas, todos aqueles que se encontravam fora da ordem social. A sociedade industrial capitalista não podia tolerar a existência de grupos de vagabundos” (Idem: 265). No entanto, é somente durante o século XIX, com o aceleramento do desenvolvimento industrial, que ocorreu a diferenciação nestes espaços entre os que eram capazes de trabalhar e, portanto, foram libertados e os que não tinham a faculdade de trabalhar, isto é, os loucos. Estes foram deixados presos e foram considerados “pacientes cujos distúrbios tinham causas que se referiam ao caráter ou natureza psicológica. Assim, o que foi até então um estabelecimento de internação tornou-se um hospital psiquiátrico, um organismo de tratamento”. Desde então, “os distúrbios mentais tornaram-se o objeto da medicina e uma categoria social chamada psiquiatria nascera” (Idem: 266), argumentou Foucault.
Com viva eu viva tu viva o rabo do tatu, Freire desloca-se em relação a suas práticas na década de 1960. Porém, trava consigo mesmo as dificuldades e batalhas para liberar-se também de sua formação de médico e psiquiatra, profissões exercidas por ele na década de 1950, antes mesmo do exercício da psicanálise. Mesmo se referindo posteriormente ao exercício da psiquiatria como uma farsa, Freire não abandona a dicotomia saúde-doença. Desabafa anos mais tarde que a psiquiatria “não faz nada pelo cliente. Apenas ameniza a dor que os internados podem estar sentindo, mas sem nenhum prognóstico de
cura”31 (Freire apud Goia, 2001: 90). Palavras podem ser “antigas armaduras”
certa vez disse William Burroughs. As transformações na existência, os passos a frente segundo o escritor beat, “são realizados ao abrirmos mão de antigas armaduras porque as palavras são fabricadas dentro de você – nós não percebemos a armadura de palavras que carregamos, suavemente digitadas no nosso ventre” (Burroughs, 2010: 115).