3. BİREYLER VE YÖNTEM
4.3. Değerlendirme Yöntemleri Arasındaki Ġlişkiye Ait Sonuçlar
4.3.4. Diplejik Çocuklarda Postüral Kontrolü Etkileyen Faktörlerle, Postüral
A frequência com que D. Maria de Jesus142 participou dos eventos foi algo que logo se destacou durante as observações feitas na comunidade. Mesmo quando estava doente, essa senhora de 83 anos participava de todas as atividades religiosas programadas na igreja ou em casas de moradores da comunidade. Dentre os cinco sujeitos estudados, é a única que nasceu em Barra do Dengoso e é, atualmente, a moradora mais antiga. Ela é a terceira filha do segundo casamento de seu pai que teve sete filhos: no primeiro casamento, duas filhas e no segundo casamento cinco, sendo que o primeiro (uma menina) e o quarto (um menino) filhos
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morreram ainda bebês, segundo informou, de “mal-de-sete-dias”143. Quando criança, ela morou por dois anos com os avós maternos em função da morte da mãe. Não se lembra de quantos anos tinha na ocasião, lembra-se apenas de que a irmã mais nova ainda era um bebê: “comadre [nome da irmã] ainda engatinhava quando ela [a mãe] morreu”144. Considerando que é a terceira filha e a diferença entre os irmãos, segundo ela, é de mais ou menos dois anos, podemos supor que ela tinha cinco ou seis anos.
Depois desse período com os avós, lembra-se de ter voltado para a casa do pai e de ter morado com a meia-irmã mais velha. A infância ficou marcada pela morte da mãe e D. Maria não conseguiu se lembrar de brincadeiras ou diversões. Lembra-se de ter iniciado, muito cedo, o trabalho nas lavouras da família e nos afazeres cotidianos da casa, ajudando a cuidar dos dois irmãos mais novos. Também marcaram esse período as viagens do pai que era tropeiro e viajava muito para cidades vizinhas e outras bastante distantes, como Januária e Mato Verde, de onde trazia mantimentos para o sustento do grupo familiar. Ela e seus irmãos não estudaram quando criança.
Em relação à participação religiosa, destacou que, desde muito pequena, participava de rezas em casas de vizinhos – lembra-se de que Barra do Dengoso possuía poucos moradores naquela época, entre 1920 e 1930, aproximadamente quinze famílias, e citou nominalmente esses moradores, indicando onde cada um morava. As rezas eram realizadas em pagamento a promessas feitas a santos e durante a quaresma. Destacou, especialmente, os deslocamentos à noite, em meio a trilhas feitas na mata, para participar das novenas, terços e ofícios geralmente muito longos, que eram cantados pelas rezadeiras da comunidade. Durante essas rezas, aprendeu algumas orações, como Pai-Nosso, Ave-Maria, Salve Rainha, no entanto, não conseguiu memorizar a maior parte das orações ouvidas. Disse que seu pai também ensinava algumas orações aos filhos, especialmente, durante a
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quaresma e a semana santa quando todos ficavam, segundo ela, de castigo para poder rezar. Ainda quando criança, tanto o pai quanto o avô tentaram ensinar algumas rezas e benzeções, mas, como não conseguia memorizá-las, eles desistiram e, só quando adulta, aprendeu a benzer com a madrinha e parteira que morava próximo de sua casa. Disse que aprendeu apenas uma oração curta, mas que a fez famosa em benzeção para curar dor de cabeça e dor de dente.
A adolescência de D. Maria de Jesus foi marcada pelo casamento. Não se lembra com precisão de sua idade quando se casou, mas acha que possuía menos de quinze anos e que o pai teria aumentado sua idade para que pudesse se casar. Teve cinco filhos, quatro homens e uma mulher e sempre dividiu o tempo entre cuidar da casa (o que incluía cuidar dos filhos e marido, fiar e tecer), do quintal e trabalhar nas pequenas lavouras de subsistência cultivadas no entorno da casa, além de cuidar da criação de pequenos animais como porcos e aves. Segundo informou, a mamona era o principal produto cultivado na época e era facilmente comercializado, garantindo o dinheiro suficiente para comprar o que não era produzido na propriedade.
Embora tenha falado apenas brevemente sobre o assunto, ficou viúva muito nova e, a partir de então, teve de trabalhar em propriedades vizinhas para conseguir se manter e criar os cinco filhos. Disse que fez um grande esforço para que todos os filhos estudassem, algo muito difícil na época, nos anos 1950, pela falta de oferta regular de vagas na comunidade, conforme informado no capítulo anterior. Disse que, quando havia quem desse aula, os pais tinham de comprar todos os materiais para os filhos e as aulas eram continuamente interrompidas, de modo que os filhos apenas aprenderam a escrever o nome. Lembra-se do primeiro professor que lecionou na comunidade e das várias professoras que se sucederam em salas improvisadas ora em casas, ora em galpões. O esforço em escolarizar os filhos esbarrou tanto na irregularidade de funcionamento dessas salas, quanto na necessidade de trabalhar. Lamenta que tanto os filhos quanto ela mesma não tenham tido meios para estudar mais e aprender a ler e escrever. Demonstrou grande satisfação ao contar que uma neta que foi criada por ela concluiu o ensino médio há alguns anos.
As experiências de escolarização de D. Maria de Jesus ocorreram depois de adulta e parece uma repetição da trajetória dos filhos, uma vez que são marcadas
pela interrupção e pela não aprendizagem. Recentemente, nos anos de 2006 e 2007, matriculou-se em uma turma de Educação de Jovens e Adultos, do Programa “Cidadão Nota Dez”, e aprendeu a escrever o nome. Disse achar “engraçado” o fato de que todas as vezes que iniciou os estudos teve de parar porque os professores acabavam desistindo e parando com as aulas em função de não recebimento de salários ou por serem demitidos por motivação política.
Durante as duas primeiras entrevistas, que aconteceram na casa dela em 2002 e 2007, ela estava sozinha. Em 2009, estava presente uma nora, esposa do filho mais velho que continuou morando com ela após o casamento, realizado em 2008. Na ocasião, a nora foi muito discreta, assumiu os afazeres domésticos, liberando D. Maria para que pudéssemos conversar mais à vontade durante a entrevista. A casa estava sempre muito organizada e limpa. Nas paredes havia poucos adornos. Apenas um calendário (brinde de um supermercado) estava pendurado próximo a uma pequena estante com objetos diversos e uma televisão. Ao lado desse calendário, um quadro com a imagem católica de N. S. Rosa Mística acompanhada de uma oração. Nos primeiros encontros, D. Maria se mostrou um pouco reservada em relação ao material escrito que possuía. Durante a entrevista realizada em 2007, ela apenas apresentou uma pequena bolsa em que guardava seus documentos pessoais.
A documentação de D. Maria é organizada por ela mesma. Ela trouxe do quarto uma pequena bolsa onde guardava os documentos pessoais (CI, CPF) e o cartão bancário para os saques do benefício social. Disse que organizou a documentação quando foi se aposentar, pois não possuía certidão de nascimento nem de casamento. Não teve uma certidão de nascimento. Para conseguir se aposentar como trabalhadora rural, aos 60 anos, foi necessário recorrer ao registro paroquial e solicitar a segunda via da certidão de casamento. Na ocasião, fez a carteira de identidade e o CPF. Lembra-se do processo difícil que enfrentou para conseguir finalmente se aposentar. Para tanto, contou com a ajuda de filhos de uma comadre, vizinha e esposa de um pequeno fazendeiro para quem D. Maria trabalhava.
Na mesma bolsa em que estavam os documentos, ela guardava diversos comprovantes bancários de saque, de saldo da conta e a indicação da data do próximo recebimento. Disse que vai mensalmente a Janaúba receber o benefício,
geralmente sozinha, e aproveita para comprar os produtos de que precisa. Ao perguntar sobre como faz para sacar o dinheiro, disse ser um procedimento muito fácil porque o banco disponibiliza pessoas para o atendimento a idosos e que ela chega com o cartão e o papel em que a senha está anotada, entrega para quem estiver no atendimento que faz todo o processo: confere o saldo para ver se o dinheiro foi creditado, efetua a retirada do dinheiro e informa qual o dia previsto para o próximo pagamento. Disse que “faz falta saber ler para bater os números da senha no computador para tirar dinheiro da aposentadoria”145, mas, ao mesmo tempo, acha bom não ter trabalho porque tem os funcionários que fazem essas operações.
A mediação de pessoas que sabem ler e escrever se destaca, em seus depoimentos, como fundamental para que possa usar a escrita, tanto quando foi se aposentar, quanto quando faz as compras e precisa realizar operações bancárias e participa das celebrações na igreja. Como lembra Galvão (2005), a mediação do outro (filhos, parentes próximos, vizinhos, por exemplo) é uma forma de participação no mundo letrado e, no caso em estudo, foi uma estratégia amplamente empregada pelos entrevistados. No momento de fazer as compras, informou que pega os produtos de que precisa, pede a alguém que esteja por perto ou a um funcionário da mercearia que diga o preço e, segundo informou, já vai calculando o total da conta. Novamente, disse que sente falta de saber ler para identificar o preço dos produtos. Disse que não faz lista de compras, olha o que falta na despensa e sabe o que precisa comprar. Para ela, o fato de não saber ler não era problema até muito recentemente, afinal não havia a necessidade e, nem mesmo, material escrito disponível para leitura na comunidade. Disse que resolvia quase tudo sem saber ler e escrever: comprava nas vendas e gravava o que devia e quanto devia; trabalhava e sabia a quantidade de dias e o quanto tinha a receber; as rezas eram cantadas ou rezadas “de cor”, memorizadas e repetidas, ano a ano nas rezas de santo e outras celebrações religiosas. Destaca, nesse ponto, que entre as rezadeiras famosas que “rodavam esse Dengoso todo... ninguém tinha livro, ninguém sabia ler, era tudo de cor”146.
Na igreja, conforme seus depoimentos e as observações feitas nas diferentes situações em que ela estava presente (culto dominical, missas, terços,
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velórios etc), ela se une ao grupo que faz segundo coro e repete em ritmo um pouco mais lento o que é dito ou lido. No caso de terços e ofícios, ela tem os textos parcialmente memorizados em função da frequência com que são rezados na igreja e em celebrações em casas. Nos cultos e nas missas, os textos são lidos em voz alta e, nos momentos em que todos na assembleia têm de responder, o leitor ou celebrante avisa (diz “todos”) e lê pausadamente frases ou trechos curtos e todos repetem o que foi lido. De acordo com D. Maria, é fácil seguir a celebração do culto porque “quando começa lá [na igreja] já tô sabendo de tudo... só num sei é ler... mas de cor eu já tô sabendo... quando é todos... repete né?”. Informou, também, como faz se o texto por ela decorado sofre alguma mudança. De acordo com o ano litúrgico, são feitas alterações no texto do folheto “quando muda [algum texto do folheto]... no início quando começa a gente fica meio assim devagar... mas aí vai mais devagar... deixa eles [os que estão com o folheto em mãos] irem na frente a gente fica mais por fora... depois a gente decora... decora tudo”147. E destaca que os leitores sabem que tem gente sem folheto, então, leem mais pausadamente e pedem para as demais pessoas repetirem.
Embora ainda não tenha conseguido aprender a ler, mesmo depois da última experiência de escolarização, ela sabe como funciona as escritas a que tem acesso: materiais escolares, livros e catecismos, anotações diversas, senha e cartão magnético para acessar o computador e receber o pagamento, o folheto que traz um roteiro relativamente fixo das celebrações religiosas de que participa. É uma participação discreta, porque ela reza muito baixo, mesmo sentada ao seu lado é difícil escutar o que balbucia durante as celebrações. Pode-se dizer, no entanto, que é uma participação intensa porque é regular, pois esteve presentes a todos os eventos observados, e rezou junto, apoiando-se na memorização e, principalmente, na audição e repetição dos textos enunciados pelos dirigentes ou leitores.
3.1.2 D. Justiniana Altina: entre o texto escrito e o memorizado – saber ler e