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Dini Konularda Anlatılanlar

2. Araştırmanın Konusu ve Amacı

1.2. Kavramsal Çerçeve

3.1.5. Dini Konularda Anlatılanlar

Anexos a alguns Relatórios de inspeção procedentes de Lisboa, pudemos encontrar manuscritos de alunos.209 Tratava-se na verdade de exercícios de crianças, provavelmente efetuados pelo professor ou mesmo pelo inspetor no decorrer de sua visita e que haviam sido anexados ao conjunto das informações contidas no texto impresso, supondo-se que o inspetor em questão houvesse julgado significativos aqueles resultados que então encontrara. Aliás, talvez o próprio inspetor houvesse se dado conta de que o fato de somar à apreciação feita sobre as escolas o material das próprias crianças pudesse efetivamente contribuir para elucidar o parecer sobre o temário do ensino tal como esse vinha se desenrolando. Indubitavelmente, essas peças, compostas por lições das próprias

428 crianças, contribuíram muito para que pudéssemos apreender os ecos da atmosfera da sala de aula na escola primária daqueles tempos em Portugal. Eram, de maneira geral, exercícios de cópia ou ditado, provavelmente integrantes da avaliação do inspetor. Havia, ainda, alguns problemas de aritmética e algumas operações com números inteiros e com frações. Os textos escolhidos eram compostos mediante excertos extraídos de várias obras, abarcando um conjunto temático que envolvia uma série de aspectos bastante caros à vida escolar. Assim, temos inúmeras lições sobre matéria moral, espiritual ou relativas mesmo à rememoração do passado glorioso de Portugal, na delimitação e expansão das fronteiras. Nisso tudo, havia um sentimento forte desse desejo de ser português, que cabia à escola incutir naquelas gerações ultra-jovens. De algum modo, podemos constatar a lógica do funcionamento escolar quando chegamos ao texto pertencente à criança - ao menos transcrito por ela, já que a escrita, enquanto ato de expressão do pensamento e manifestação da linguagem, era evidentemente algo que a escola ainda não lhe facultava. A escola era, pois, como fica nítido aqui, alguma coisa bastante alheia ao cotidiano, parecendo mesmo desejar, pelo afastamento, a construção de uma nova linguagem, de novos códigos, enfim, de elos diferenciados para pautar a vida social. A escola era, pelo conteúdo e pelo formato dos textos, a instituição de uma modalidade alternativa ao espaço até então rotineiro, aquilo que por fim separa e fratura a vida de todos os dias.

Na maior parte das vezes, os trechos representavam situações de cariz religioso ou moral, havendo, ainda, recomendações quanto ao estudo e à persistência necessária para o trabalho intelectual, sendo ainda algumas vezes retratadas batalhas ou descrições de grandes e notáveis heróis da história portuguesa. Os erros eram marcados acima da palavra com uma sinalização numérica, de maneira que, a começar no erro 1, o examinador com facilidade avaliava o aluno pela quantidade de palavras grafadas erroneamente. Não aparecia nenhum outro tipo de anotação do educador na folha, exceto algumas vezes a idade do aluno, de modo a confirmar, na maioria das vezes, um bom desempenho para uma pequena trajetória de vida.

O que nos parece importante nesses trechos seletos para a avaliação do aluno é fundamentalmente a disposição da escrita, o traçado do lápis, o capricho da letra, os erros mais frequentes como elementos indicadores das crianças e da vida escolar propriamente dita. O conteúdo do excerto, porém, ainda que fosse na maioria das vezes retirado de algum compêndio daqueles mais utilizados, revela o tom pedagógico da escola; aquilo que inspetor e/ou professor privilegiavam quer como valores, quer como matéria.

A preocupação com os aspectos moralizantes fica nítida logo à partida. A grande âncora da moral situa-se na consciência, mais do que na religião, embora esta também apareça com bastante frequência. A consciência coincide com um sentimento da alma, a partir do qual haverá condenação ou aprovação das ações humanas. Tratando-se de um sentimento involuntário, a consciência coincidiria com o reconhecimento do bem, aquilo que evidentemente nos convidaria a praticá-lo. O desrespeito à consciência produziria como contrapartida o remorso, que por si ocasiona a infelicidade. A lei divina, por sua vez, é apresentada como o “farol” que assinala a possibilidade da salvação. Se o nascimento é igual para todo o gênero humano, as obras singularizam, pela diferença, cada um dos homens entre si.

A docilidade é apresentada como a disposição para acatar os conselhos das pessoas esclarecidas, supostamente mais vividas ou experientes que a infância. É necessária e deverá ser temperada com a severidade e com a prudência - seria, por definição, a aplicação da experiência e do bom juízo à vida cotidiana. As virtudes humanas, recebidas das mãos da natureza, deveriam ser, no entanto, desenvolvidas e equilibradas pela força do raciocínio. A ociosidade é posta como a mãe de todos os demais vícios, dado que seria o tempo livre em demasia quem afastava o homem de seus deveres, chamando-o à corrupção dos costumes. A ociosidade é aqui identificada como a prática decorrente da ausência de hábito em um trabalho qualquer. Não acostumar-se portanto a ofício algum acarretaria a

429 sensação da miséria; e o homem que se toma por miserável tende a cometer delitos que apenas confirmam o parecer que já tinha sobre si próprio. Virtude seria, então, a prática do bem comum e a disposição de fazer tudo quanto pudesse ser útil aos outros e a si próprio. Assim, se o amor de Deus aparece como a virtude cristã por excelência, o amor dos homens e da humanidade é posto como a primeira dentre as virtudes morais.

O estudo é apresentado como um bem individual de inestimável valor porque instrui a mocidade, embelezando-lhe a razão, de modo a proporcionar ainda a beleza da velhice. Método de salvação da ignorância e, como decorrência dela, do jugo alheio, a instrução possibilitaria ao homem o falar e o escrever sobre qualquer assunto, tornando-se, a partir disso, um instrumento de domínio e de poder, libertando por sua vez o indivíduo da sujeição ao erro. Ainda que o conhecimento se aproximasse da ética, em uma certa propensão natural para conduzir o homem para o campo do julgamento justo, libertando-o com isso da ignorância e das crendices, paira uma certa dúvida sobre essa rota exclusivamente benéfica do estudo: a soberba - dizia um outro trecho - agia exatamente no sentido de esconder do homem suas imperfeições. Havia, portanto, de se recorrer ao silêncio como método. Ainda sobre o tema do estudo, há trechos (extremamente difíceis e complexos para a compreensão do aluno da escola primária, diga-se de passagem) a propósito do embaraço que o excessivo uso da memória poderia acarretar para o raciocínio. Oprimida com um peso excessivo de aprendizado inútil, a memória teria por técnica automática libertação desse excesso. Reconhece-se pois que o aprendizado escolar era fugaz e incentivava-se o aluno, não apenas a aprender, mas a tratar de não esquecer o que aprendeu. O que se desejava , porém, que se retivesse com tanto estudo? Diz um trecho que a pretensão efetiva da educação portuguesa resumia-se a um bem ouvir e bem responder.

Procura-se incutir, subrepticiamente, a virtude da resignação de classe, aproximando a idéia da fortuna da acepção de saúde corporal que, entre os homens, apresentaria profundas diferenças. Há que se aceitar, por tal razão, a fortuna com que a nossa natureza nos dotou, gerindo-a do melhor modo possível: “gozar dela quando é boa, ter paciência quando não é, não usar de remédio senão na extrema necessidade.”210 Para viver

bem, então, o que era preciso? Apenas moderar os desejos. Desse modo, recomendava-se que os meninos aprendessem o que a sociedade deles esperava, de modo muito particular. Para isso, recordava o próprio exercício do aluno aquilo que seria caracterizado como leis: “o homem de juízo pensa sempre o que diz; mas nem sempre diz o que pensa.”211 Havia que,

em silêncio, aprender como se nada já se soubesse para, na sequência, cuidar de não esquecer o que foi aprendido. Mais do que isso, aconselha-se o menino que quer caminhar pela trilha da prudência:

“A virtude consiste em preencher exatamente os próprios deveres, e em sofrer com resignação qualquer adversidade que nos aconteça. Por pequeno que seja um menino, tem deveres e obrigações que cumprir. Deve pois dar mostras de docilidade; ter o maior respeito a seus pais; numa palavra, é necessário que saiba reconhecer as diligências e cuidados dos mestres que lhe

formam o coração e lhe cultivam o espírito.”212

A formação do patriota era prioridade desse pequeno mosaico de saberes escolares e derivava basicamente da integração dos demais aspectos acima trabalhados. A tríade da formação civil/moral/religiosa persistia sendo o eixo norteador da conduta pública

210 MR 1054.

211 MR 1055. Distrito: Lisboa. Concelho: Bairro d’ Alcântara.

430 preconizada, conduta esta, aliás, que teria representado a norma e a vida de todos os portugueses ilustres. Portugal significa, portanto, vocação, e a virtude é coroada como integrante dessa alma construída pelos passos e caminhos da história. A ação exemplar e o feitio da coragem, do despreendimento e da lealdade eram marcas acentuadas na construção de um dado imaginário sobre a nacionalidade portuguesa:

“Que é isto Portugueses? Desamparais o vosso Rei? Entregais a vossa Pátria? E antes de morrer cedeis a vitória. Onde estão os vossos brios? Com tamanha baixeza, quereis infamar uma nação tão valorosa que Marte se prezara de ser seu soldado? Estas palavras que com o exemplo acompanhava fizeram tal impressão nos portugueses que, dando sobre os castelhanos, desbarataram completamente, alcançando a famosa vitória que decidiu de uma vez a nossa

liberdade e independência.”213

Não era só para o civismo que, entretanto, se pretendia dirigir a formação daquela juventude escolar. Talvez a forma de a escola educar se voltasse essencialmente para a composição dos hábitos da conduta social. Assim, regras de comportamento vinham prescritas por uma pedagogia onde instrução era nitidamente combinada à ordenação de uma aparência pública, capaz de regrar, até onde isso é possível, o tumultuado convívio dos homens em sociedade.

“Que se deve observar quando o dono da casa estiver ocupado a falar com alguém, ou a fazer alguma coisa? - Em lugar de o interromper, pede a civilidade que se espere de parte até que haja

concluído aquilo que o ocupar.”214

Os deveres em relação aos pais eram postos como o primeiro exemplo das relações hierárquicas do convívio humano. Obedecer aos pais era mandamento imperioso, ou dever intransitivo da criança, posto que seria a ordem natural das coisas quem determinava a necessidade extrema dessa gratidão pela vida. Por outro lado, na subordinação perante os pais estaria, ainda, contido o hábito e o exercício de obediência e de disciplina, de resignação e de submissão. Aceitar-se-ia desde cedo a idéia de que há desigualdades no próprio gênero humano, desigualdades quanto ao poder, quanto à fortuna e quanto às aptidões, desigualdades estas que a instrução diminui mas não corrige; a instrução, antes, nos induz a acatá-las.

“Não te esqueças jamais do amor dos trabalhos e dos cuidados que deves a teus pais; porque nada há mais detestável a Deus e aos homens que o filho ingrato, para quem estão reservados os mais

horríveis castigos.”215

213 MR 1055.

214 MR 1055. Este exercício teria sido composto por José Joaquim Pereira da Costa, aluno do Concelho de S.

Thiago de Cacém, no distrito de Lisboa, sendo seu professor António Machado, da escola 1 do mapa da inspeção.

431 As relações com Deus pautariam a dinâmica da convivência entre os homens. Os sentimentos revelados pela fé seriam, pois, primordiais para a consolidação de outras formas de sentir e, nessa medida, a fé adquiriria caráter instrumental para o aprendizado das virtudes escolarizadas. O elenco de tais virtudes abarcaria, portanto, o consolo da relação íntima perante um Ente Supremo, a quem são dirigidas todas as ações humanas e que, por sua onipotência, controla e detém consigo os critérios de justiça e de retribuição que, por vezes, não compete ao homem apreender. Para com a justiça divina, caberia à humanidade acatar, homenagear, amar, venerar, reconhecer, submeter-se e resignar-se. A disposição da vida coletiva e dos poderes distribuídos e organizados configurava um conjunto harmonioso, mesmo que a lógica de tal harmonia parecesse incognoscível a cada um individualmente. Amar a Deus, em suma, ajudaria a aceitar o existente como natural; ajudaria a perceber no humano a revelação do desejo do sagrado. Isso facilitaria a vida em sua acepção coletiva. Por essa rota, a escola portuguesa fazia-se - naquele último quartel do XIX - catequética e profundamente conservadora. Por outro lado, entretanto, havia algo de desordem, desorganização, carência de métodos e de técnicas, que dificultava, para a ação pedagógica, a obtenção da uniformidade e da normatização necessárias à eficiência. Por essa razão, a cultura que essa escola vinha produzindo era, acima de tudo, consolidada mediante conflitos, tensões, resistências e lutas de representações. Haveria, nessa medida, algo para além do exercício manifesto da sala de aula. O que fazia e o que dizia essa escola sobre o comportamento cotidiano de seus atores principais? Como interagiam no espaço escolar professores e alunos, nas relações de educação e de poder que entre eles necessariamente se estabeleciam? Para reconstituir esse traçado, procuramos remeter a indagação para o outro

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O ritual escolar: entre vozes e versões

Benzer Belgeler