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BÖLÜM 1: KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE KUR’AN OKUMA

1.4. Dini Açıdan Kur’an Okuma Kavramı

Como vimos, o nome da estação ferroviária Hector Legru, centro irradiador da ocupação daquelas terras, estendeu-se ao povoado e posteriormente ao distrito. Reflexo da mentalidade do fim do Império e início da República, período em que o topônimo foi marcado pelas homenagens de cunho político e econômico. Nesse sentido, a primeira denominação com a qual nos deparamos está em perfeita consonância com a toponímia de São Paulo e do país, haja vista que o nome do banqueiro belga se repetiu em Santa Catarina, sendo posteriormente substituído ali pelo do engenheiro Eugênio de Mello.

A substituição do nome Hector Legru por Promissão, em 1921, pode ser justificada pela influência de interesses econômicos do grupo que comercializava terras na região, composto por amigos e partidários do prefeito de Penápolis, Coronel Manoel Bento da Cruz. No entanto, podemos verificar, pela análise da ocupação do solo e da formação do grupo, que há no novo denominativo a expressão do desejo de realização de potencialidades individuais:

[...] lembrando o coronel, a necessidade de mudar-lhe o nome para Promissão, pois Hector Legru, financista belga que emprestara o dinheiro para a construção da linha Noroeste, nada significava em relação à fertilidade das terras e nenhuma relação histórica possuía com sua auspiciosa povoação. (MARTINS, 1968, p. 144)

A seleção do signo promissão – na definição de Houaiss (2001, p. 2.310): “séc. XIII. 1. ato ou efeito de prometer; promessa (Canaã é chamada na Bíblia de Terra da Promissão) 2. por ext. coisa prometida” – implicou a observância do significado daquelas terras para os moradores, estabelecendo uma relação entre o signo lingüístico e os anseios da população.

mesmo que impulsionara, séculos antes, os bandeirantes: o enriquecimento. A busca por ouro e esmeraldas esgotou as minas. Agora a riqueza viria por meio da agricultura do café, e as terras do recém-criado distrito apontavam um futuro promissor para essa cultura.

A sujeição dos indivíduos aos mesmos processos sociais gera uma identidade grupal, também chamada self, que opera sobre as realizações humanas diárias. O topônimo funciona como um representante ou símbolo desse self e, como afirma Benveniste (2005, p. 29), “a transformação simbólica dos elementos da realidade ou da experiência em conceitos é o processo pelo qual se cumpre o poder racionalizante do espírito”.

Dessa forma, a carga semântica do topônimo Promissão referencializa o “conhecimento” do grupo sobre o espaço que habita, no sentido aferido por Arnauld e Lancelot e Arnauld e Nicole, abordado no Capítulo 1 desta dissertação. Essa referência é ratificada miticamente pelo epíteto da cidade: “a Canaã da Noroeste”. A identificação com o mito bíblico da Terra Prometida descortina a esperança do denominador. É preciso lembrar que a reverência aos santos e apóstolos foi durante séculos a marca da onomástica dos grupos católicos, revelando a crença na proteção do santo pela doação de seu nome a um indivíduo ou lugar.

O que verificamos, no entanto, no caso de Promissão, é um fenômeno de outra ordem. Atentemos ao fato de que essa cidade se formou num período em que a Igreja não era mais a tutora da administração pública nem o centro irradiador da ocupação da terra. O município não se originou a partir da capela, mas sim da estação de trem e do interesse de negociantes de terras. Esse dado já coloca a cidade num divisor de processos geradores de nomes. A esperança contida na escolha do nome não diz respeito à proteção divina, como acontecia anteriormente; ela remete à crença na força criadora da palavra proferida e repetida e na transposição de atributos entre seres e lugares pela utilização da mesma denominação. Esse processo denominativo poderia ser relacionado ao que Foucault (1981, p. 40) chamou de

simpatia: atração entre as coisas por características exteriores e visíveis, que seria, neste caso, a atração pelos nomes.

A substituição do topônimo pode ser explicada como uma reflexão do grupo sobre o espaço e sua representatividade para os indivíduos, capaz de suscitar determinada seleção paradigmática. Como ressalta Sapir (1969), a relevância de determinado traço ambiental dentro da sociedade pode determinar maior variedade e especificidade no campo lexical correspondente, sem, contudo, incorrer em variações morfossintáticas.

Outro fator a ser considerado é o critério de distinção entre os seres, surgido no século XVII com as ciências naturais (FOUCAULT, 1981). Esse critério considera a identidade e a diferença entre os indivíduos. Os seres que contêm em si as mesmas identidades, e que não comportam diferenças, recebem o mesmo nome. Os seres que não possuem identidades entre si e apresentam muitas diferenças recebem nomes diferentes. Assim, dentro de um quadro de correlações, o nome une e desune tanto indivíduos como lugares.

No momento da renomeação de Hector Legru, houve a intenção de evidenciar a identidade do crescente distrito com a cidade bíblica repleta de dádivas e, ao mesmo tempo, evidenciar a distinção em relação a suas vizinhas, pelos valores morais e econômicos contidos no signo lingüístico promissão. Seguindo o pensamento de Ricouer (1991), o reconhecimento mútuo dos indivíduos que compartilham valores morais, história, heróis e desejos opera ativamente para a construção do self do grupo.

Temos então uma dupla função do signo toponímico Promissão. Num primeiro momento, ele operou como um produto do self grupal, selecionado dentre uma variedade de lexias de representação eufemística para expressar o ethos do grupo. O nome foi ratificado pelo epíteto “Canaã da Noroeste”, que, por sua vez, remete à história da estrada de ferro e à esperança no progresso da região. Mas ele também opera como construtor do self grupal, já

nomeação, somos capazes de identificar os valores morais e as características histórico-sociais do grupo denominador, ou seja, sua “personalidade”.