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Din K ül türü ve Ahlak Bilgisi 9

Belgede Din Kültürü ve Ahlak Bilgisi (sayfa 21-24)

Na França, com a consolidação da revolução que pôs fim ao reinado de Luís XVI, sobe ao poder Napoleão, compromissado com os anseios da ascendente burguesia, a qual almejava, essencialmente, o fim dos privilégios da nobreza – com a instituição da igualdade formal de todos perante a lei – e uma maior segurança jurídica que possibilitasse um ambiente mais propício aos seus negócios. Para se atingir o primeiro objetivo, foi proclamada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, cujo art. 1º previa que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.” Já para o segundo, foi promulgado, em 21 de março de 1804, o Code Civil, que também ficou conhecido como Código de Napoleão.

O Código, apesar de ter sido elaborado fundamentalmente com base no Direito Romano – cujo estudo havia sido retomado desde a redescoberta do Corpus Iuris Civilis277

pelos glosadores no século XI –, sofreu também influência dos costumes nacionais franceses e dos ideais iluministas que inspiraram a revolução. Com uma extensão consentânea com sua pretensão de universalidade e completude, o novo diploma, que possuía 2.281 artigos divididos em um título preliminar e três livros, regulava, essencialmente, a relações privadas mantidas entre os particulares, tratando da personalidade jurídica, da propriedade, dos bens, dos contratos, do casamento, das sucessões, dentre outros temas afetos ao Direito Privado.

À época de sua promulgação, não sem razão, ainda imperava no seio da sociedade uma profunda desconfiança para com o Judiciário, cuja imagem, bastante desgastada pelo histórico de corrupção existente durante o período imperial, ainda era associada ao antigo regime deposto278. Com o objetivo, assim, de restringir e controlar a atividade jurisdicional,

277 O Corpus Iuris Civilis foi uma espécie de código jurídico publicado no século VI no reinado do imperador bizantino Justiniano I, tendo por

base o antigo Direito Romano.

278 Como bem pondera FLÁVIA SOUSA DANTAS PINTO, “um dos fatores desencadeadores da Revolução Francesa foi a forte desconfiança

que recaía sobre a magistratura de então, claramente tendenciosa aos interesses das altas classes sociais e à defesa do ancien régime, máxime pelo fato de que os cargos de juiz eram vendidos, herdados e alugados como uma propriedade qualquer e essa ausência de imparcialidade e de vocação para a judicatura fazia com que as querelas que chegassem à sua apreciação se transformassem em instrumentos de chantagens e troca de favores.” (PINTO, Flávia Sousa Dantas. O judiciário Francês sob a Ótica de um Juiz Brasileiro, Revista da ESMARN/Escola da Magistratura do Rio Grande do Norte, v. 8, n. 1, p. 109-136, Mossoró: jan/jun 2008, p. 112).

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surge, então, juntamente com o aludido Código Civil, um movimento jurídico-dogmático que ficou conhecido como Escola da Exegese279. Seguindo uma corrente de pensamento

juspositivista, pregava esta que a função do magistrado deveria se resumir em, diante do caso concreto lhe levado à solução, pronunciar o Direito veiculado pelas normas legais, uma vez que, para a referida escola, o Direito se resumia na lei positivada e esta, por sua vez, encarnava a vontade geral do povo manifestada pelo legislador.

Desta forma, partindo de uma visão rígida do princípio da divisão dos poderes, entendia-se que os juízes deveriam buscar o teor das normas jurídicas através de uma interpretação literal dos textos da lei, atendo-se aos elementos gramaticais e lógicos de uma hermenêutica mecanizada e silogística, baseada na premissa de que ordenamento posto não possuía lacunas280, fornecendo de antemão a solução para qualquer caso litigioso que surgisse,

ainda que para sua descoberta fosse necessário o uso de analogias. Como assevera MAGALHÃES, ao tratar da escola jurídica em apreço:

“A lei, como expressão jurídica da racionalidade humana, seguindo a esteira da crença dominante de sua potencialidade decisiva, traduzia a ideia de que nela estavam plasmadas as soluções para todos os problemas. O sentido de sua literalidade deveria ser buscado mediante uma interpretação estritamente gramatical. Do texto, e tão-somente dele, se poderia extrair o seu real alcance.”281

A descoberta da “vontade do legislador” deveria, pois, ser o norte da atuação jurisdicional, de modo que, se não revelada à evidência pela literalidade da lei, haveria aquela de ser alcançada através de métodos que não lhe desvirtuassem o sentido original. Um discurso de caráter técnico-prático substituía, assim, qualquer preocupação com questões jusfilosóficas ou sistêmicas, afastando também a aplicação de quaisquer métodos interpretativos que pretendessem se valer de elementos extralegais em auxílio à tarefa de identificação do sentido e do alcance do Direito veiculado pela norma. Com a lei formal assumindo a centralidade de um sistema supostamente racional, buscava-se atingir um grau de objetividade na aplicação do Direito que talvez somente qualidades sobre-humanas por parte dos seus operadores pudessem

279 Também denominada de Escola Filológica do Direito.

280 É o que se extrai do teor do art. 4º do Código, cuja redação – aqui em sua versão em inglês – era a seguinte: “Art. 4º The judge who shall refuse to determine under pretext of the silence, obscurity, or insufficiency of the law, shall be liable to be proceeded against as guilty of a refusal of justice.”

281 MAGALHÃES, Vinícius de Mattos. O construtivismo de François Geny e a metódica estruturante de Friedrich Müller: há um paralelismo possível entre a escola da livre investigação científica e a teoria estruturante do direito?, THEMIS - Revista da ESMEC/Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará, v. 8, n. 2, p. 15-27, Fortaleza: ago/dez 2010, p. 16/17.

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garantir282. É nesse sentido também que leciona BONAVIDES ao se reportar à referida fase da

dogmática jurídica:

“Sendo a lei o instrumento central do sistema, segundo a concepção puramente abstrata, o juiz, quer se trate de legislação ordinária, quer de legislação constitucional, há de exteriorizar sempre sua objetividade interpretativa, rejeitando os pressupostos extralegais e ficando de todo adstrito ao rigor da disposição normativa, no sentido clássico, tradicionalmente civilístico, da ‘boca que profere a palavra da lei’ ou que, no ato interpretativo da Constituição, longe de criar um novo direito, se cinge tão-somente a anunciar ‘aquilo que o constituinte já havia decidido’”283.

Tomando-se o Código – identificado com o próprio Direito – como autopoiético, defendiam os exegesistas a desnecessidade epistemológica da elaboração de um arsenal conceitual e teórico para que o magistrado desenvolvesse sua atividade, na medida em que o caráter sistemático da própria legislação já traria em si as chaves de sua própria compreensão. Como assevera COSTA, esse modo de pensar é essencialmente anti-metodológico, “pois ele desconfia que toda metodologia é uma forma de escapar da evidência, que a interpretação é uma espécie de malabarismo retórico como a função distorcer o sentido correto das normas”284. Daí porque a referida escola não pôde oferecer uma metodologia hermenêutica

propriamente dita, “na medida em que ela se constituía por meio de uma quase negação da própria interpretação judicial, que deveria reduzir-se a uma mera aplicação”285.

Como se nota, subjaz a tal concepção a crença de que subordinar a aplicação do Direito à interpretação dos juízes significaria conferir a estes uma competência criadora que haveria de ser privativa do legislador, na linha de uma visão estreita e ortodoxa do princípio da separação dos poderes.

282 Sobre o tema, mais uma vez trazemos a lição de VINÍCIUS MAGALHÃES: “Estilhaçava-se o sentido e exaltava-se a literalidade da lei, exumando-se a sepultada noção pandectista de que o aplicador do Direito era um mero autômato, instrumentalizador de uma ‘geometria pretensiosa’, apenas lhe restando a função simples de equalizar os casos concretos nos meandros da gramática consagrada na literalidade da lei. Esta, por sua vez, gozava de um relevante prestígio, sentimento que se convencionou chamar de fetichismo legal.” (Ibid. p. 17). 283 BONAVIDES, Paulo. Op. cit. p. 134.

284 COSTA, Alexandre Araújo. Hermenêutica Jurídica, p. 48 Disponível em <http://www.arcos.org.br/livros/hermeneutica-juridica/>, acessado em 11 de Jul. de 2014.

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