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1.2. Gerilimli Bir Süreç Olarak Din Değiştirme

1.2.2. Din Değiştirmede Sonuçlar: Kayıp mı, Kazanım mı?

Ao trazer a consideração as análises de Paul Ricoeur, e aplicá-las a esse episódio, identifica-se que os discursos a respeito do herói missioneiro permitem uma refiguração de sua identidade. A polêmica em torno de

427 TERÁ SEPÉ SEU MONUMENTO?, Jornal do Dia, Porto Alegre, 21 dez. 1955.

428 TERÁ SEPÉ SEU MONUMENTO?, Jornal do Dia, Porto Alegre, 21 dez. 1955.

Sepéreforça seu caráter simbólico, que carrega os mesmos ideais e o mesmo espírito que construíram a aura derepresentação do gaúcho na Guerra dos Farrapos, ou seja, a coragem e a bravura em defesa da pátria rio-grandense:

Se o índio Sepé morreu para ver livre a sua terra e seus índios da pressão invasora e autoritária, Sepé é um símbolo e um símbolo imortal. Símbolo, sr. Governador, da nossa afirmação de independência, como pátria livre, sem senhores feudais. Nele esteve a primeira galhardia e a primeira altivez do gaúcho rio-grandense429.

Em artigo intitulado “Defesa do Parecer da Comissão de História”430, Moysés Vellinho vem a público para rebater os ataques ao julgamento emitido pela Comissão e ratificar que a luta guaranítica não se orientava em prol do território nacional:

Não discuto o abominável episódio do despejo das reduções nem as violências praticadas do nosso lado, mesmo porque em matéria de abominações e violências, na história dos povos e até na história das religiões, ninguém pode atirar a primeira pedra. Por mais piedosos que tenham sido, em si mesmos, os intuitos do sonho jesuítico em terras do Rio Grande do Sul, não resta a menor dúvida que eles aqui operaram como elemento de desintegração nacional, não podendo figurar, portanto, entre os fatores de afirmação da nossa história.431

Os massacres ocorridos na Guerra Guaranítica e a luta de Sepé que ocasiona sua morte não são, para o intelectual, motivos para consagrá-lo como herói. Embora enfatizea valentia do índio missioneiro, ressaltaque sua inscrição deve permanecer apenas como mito, uma vez que sua coragem não era orientada por um sentimento de integração e patriotismo:

Podem nos comover as façanhas de Sepé, podem e devem nos comover, mas a verdade é que o bravo chefe missioneiro se bateu e morreu por uma causa que não era a nossa, que

429TERÁ SEPÉ SEU MONUMENTO?, Jornal do Dia, Porto Alegre, 21 dez. 1955.

430 Utiliza-se aqui o título constante no Apêndice da obra de Mansueto Bernardi já referida. Nos

Anexos da Tese de Eliana Pritsch, a autora recupera este texto do periódico Correio do Povo, Porto Alegre, 31 dez.1955, apresentado pelo título “Sepé Tiaraju e o Rio Grande”.

431 VELLINHO, Moysés. Correio do Povo, Porto Alegre, 31 dez. 1955. BERNARDI, 1957, Defesa

do Parecer da Comissão de História, p. 155.

era, pelo contrário, abertamente oposta à causa que teve como efeito histórico a integração do Brasil meridional em suas divisas atuais. Que Sepé continue no domínio da legenda, de onde a pena de Manoelito de Ornellas foi buscá- lo para o belo poema em prosa que com justiça lhe consagrou432. Daí não devemos tirá-lo433.

Suas análises, que frequentemente englobam a perspectiva sociológica, permitem que se perceba a relação entre a postura do homem e o espaço sociogeográfico ao qual está vinculado. Depreende-se, a partir da leitura de sua produçãoe da sua experiência como advogado, que a avaliação de Vellinho sobre Sepé leva em conta os estudos jurídicos que envolvem a estruturação do Estado, não apenas sob o aspecto político tradicional, mas contempla também as recentes abordagens teóricas sobre o assunto, integrando a concepção culturalista do Direito,a qual reconhece a formação do Estado enquanto fenômeno também de ordem cultural, a ser compreendido através da sociologia e da história.

Esses novos estudos mostram que a prática social se revela bastante distinta da abordagem teórica tradicional.Essa abordagem pode ser evidenciada na argumentação de Vellinho, quando sustenta em seu artigo que determinadas linhas teóricas são marcadas pelo caráter utópico, ao apresentar traços valorativos ideais de conduta e de aspectos morais humanos. Acausa de Sepé consiste na defesa de seu território, não como brasileiro ou rio-grandense, mas como membro de uma tribo, na função de corregedor, ou seja, enquanto líder que luta pela manutenção de seu posto:

Se fôssemos cidadãos de um mundo impossível, o mundo que os modernos utopistas chamam “um mundo só”, seria admissível encarar com isenção ou neutralidade os atos ou fatos que direta ou indiretamente se opuseram ao processo da nossa formação. O certo, porém, é que todos nós que vivemos dentro de uma nacionalidade, temos uma tradição cultural, um passado em comum que não podemos renegar sem mentir à própria contingência humana. O homem é

432 Vellinho faz referência ao conto ilustrado “A morte de Tiaraju”, de Manoelito de Ornellas,

publicado na primeira edição da revista Província de São Pedro, em 1945, p. 94-98.

433 VELLINHO, Moysés. Correio do Povo, Porto Alegre, 31 dez.1955. BERNARDI, 1957, Defesa do

Parecer da Comissão de História, p. 156.

mais fiel à sua Geografia e à sua História do que desejariam os devaneios de certos ideólogos.

Em conclusão: por mais piedosos que tenham sido, em si mesmos, os intuitos do sonho jesuítico em terras do Rio Grande do Sul, não resta a menor dúvida que eles aqui operaram como elemento de desintegração nacional, não podendo figurar, portanto, entre os fatores de afirmação da nossa história434.

Vellinhotrata como “devaneios de certos ideólogos” o discurso teórico que sustenta a condição heroica de Sepé como brasileiro.O sonho jesuítico se revela no Rio Grande do Sul como questão de desintegração nacional, não sendo, portanto, condição para a afirmação da história brasileira. Esse posicionamento será reforçado em publicação noCorreio do Povo,de 5 de janeiro de 1957, intitulada“Augusto Meyer e os manes do Padre Teschauer e de João Ribeiro”.

Em Capitania d’ElRey, Vellinho mantém sua posição diante da questão, defendendo a formação lusa e bandeirante do Estado, exposta na introdução de sua obra:

O certo é que os equívocos proliferam, e às vezes sob as formas mais desconcertantes. Ah! A frequência com que o Rio Grande tem sido encarado como um corpo mais ou menos estranho, ou estranho de todo, ao complexo luso- brasileiro! É como se fôssemos uma porção de terra e de gente que se tivesse incorporado ao Brasil menos por um imperativo orgânico da própria expansão e afirmação da nacionalidade do que pelos caprichos ou acasos da História! Nada mais que uma excrescência na configuração sociológica do Brasil.435

Para Moysés Vellinho, no período em que ocorreu a Batalha de Caiboaté, na qual Sepé Tiaraju foi morto, “a fronteira política do mundo luso-brasileiro ainda não havia alcançado o território das reduções missioneiras”436. Para Vellinho, o avanço das divisas rio-grandenses ocorreu aos poucos e só mais de quarenta depois da morte de Sepé é que as terras da região das Missões foram incorporadas, em 1801, ao Brasil.

434VELLINHO, Moysés. Correio do Povo, Porto Alegre, 31 dez.1955. BERNARDI, 1957, Defesa do

Parecer da Comissão de História, p. 156.

435 VELLINHO, Moysés. Capitania d’El Rey: aspectos polêmicos da história do Rio Grande do

Sul. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1970. p. 6. 436

VELLINHO, Moysés. Editorial 21. Província de São Pedro. Porto Alegre: n. 21, 1957.

Vellinho entende que o chefe guarani nasceu em território que não integrava a região do Rio Grande Sul, por, nesse período, a região missioneira estar sob a alçada castelhana. Sepé Tiaraju, portanto, “esteve de armas furiosamente voltadas contra os conquistadores luso-brasileiros”437. Além disso, Vellinho salienta que Sepé não simboliza o típico brasileiro, muito menos o gaúcho: “quanto aos nossos heróis, eles estão dentro e não fora ou à margem do nosso processo histórico. São símbolos de integração e não de desintegração nacional”438.

A polêmica em torno do índio Sepé Tiaraju reafirma a postura crítica que Moysés Vellinho assume desde seus primeiros escritos, quando ainda utilizava o pseudônimo Paulo Arinos.Em sua prática intelectual, mantem sua busca pela unidade e coesão nacional “sujeitas ao denominador comum da tradição luso-brasileira”439

437 VELLINHO, Moysés. Editorial 21. Província de São Pedro. Porto Alegre: n. 21, 1957.

438 VELLINHO, Moysés. Editorial 21. Província de São Pedro. Porto Alegre: n. 21, 1957.

439 Este excerto integra o texto intitulado Nota da 1ª Edição, referente ao lançamento de Letras

da Província, em 1944. A segunda edição, revista e ampliada, publicada em 1960, mantém o

texto, o qual é precedido por Nota à 2ª Edição. VELLINHO, Moysés. Letras da Província. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1960, p. XI.