4. DİLEKÇE
4.5. Dilekçe Sahibinin Adresi Bölümü
Quando nos deparamos com os textos do direito positivo não conseguimos “extrair” dele nenhum comando. A linguagem, suporte físico do direito, não nos fornece imediatamente o que buscamos [conduta a ser perseguida (obrigatória ou permitida) ou evitada (proibida)]17. É preciso que, num ato de percepção visual, entremos em contato com esses enunciados (textos), atribuindo significações às palavras que o compõem18. Em ato contínuo, essas significações são agrupadas em nosso intelecto, onde as organizamos para formarem-se as proposições19. Como todo juízo
17 Conforme ensina Lourival Vilanova (1997, p. 95), o direito positivo não aparece de forma padronizada, quer em razão da diversidade de sua estrutura gramatical, quer em razão do idioma em que se manifesta. Em geral, utiliza-se o verbo no modo indicativo-presente ou indicativo- futuro, os quais ocultam o verbo deôntico do dever-ser. Assim, esse se encontra implícito nas formas do verbo ser, acompanhado de adjetivo no particípio: “estar obrigado”, “estar permitido” ou “estar proibido”. Para transformar as múltiplas variedades verbais na estrutura lógico-formal, é preciso reduzi-las à seguinte fórmula: “se se dá um fato F qualquer, então o sujeito S’ deve fazer ou deve omitir a conduta C ante outro sujeito S’ ”. Esta fórmula é o primeiro membro da
proposição jurídica completa e se compõe de hipótese e tese, em forma de implicação..
18 O enunciado refere-se a algo de existência concreta ou imaginária no mundo, que é o seu significado. A palavra ‘casa’ encontra seu significado no objeto ‘casa’. Essa associação entre a palavra o objeto de que temos conhecimento produz em nossa mente uma noção, idéia ou conceito. Separando essa fase de construção associativa a partir do suporte físico e seu significado, passamos a denominar o produto dela como ‘significação’. A significação é, portanto, o produto da associação mental que fazemos entre o suporte físico e o que eles significam. Para detalhes dessa relação triádica entre suporte físico, significado e significação, denominada ‘signo’, ver: Eurico M. Diniz de Santi (2005b, p. 8).
19 Delia Teresa Echave, Maria Eugenia Urquijo e Ricardo Guibourg (2002, p. 35-37) expressam de forma muito clara a distinção entre enunciados e proposições: “No uso corrente da linguagem
significativo, as proposições normativas, construídas a partir do direito positivo, também possuem uma estrutura lógica: a estrutura lógica hipotético- condicional, isto é, relação de implicação entre um antecedente (hipótese) e um conseqüente, forma típica de regulação de condutas (“se…, então”), que associa determinado dado fático a uma conseqüência.
Organizando estas informações, podemos dizer que o processo de interpretação no direito divide-se em quatro fases: (i) ato de percepção visual com os enunciados lingüísticos que compõem o direito positivo; (ii) atribuição de significações às palavras que compõem o texto a ser interpretado; (iii) organização dessas significações na estrutura lógica das normas jurídicas que associam a prática de um determinado comportamento (antecedente) a uma relação jurídica que dessa prática decorrerá (conseqüente) e (iv) associação destas diversas normas jurídicas, estabelecendo-se, entre elas, vínculos de coordenação e subordinação20.
comum, é comum tomarmos como sinônimas as expressões “enunciado” e “proposição”. Ao falar, nos expressamos mediante enunciados, isto é orações como “este é um livro de lógica” […]. Estes conjuntos de palavras são orações porque cumprem com o requisito de serem significativas, de expressar cabalmente uma idéia. Não ocorre o mesmo, por outro lado, com expressões como “verde o é campo” […] Apesar de estarem compostas por palavras conhecidas, sua desordem interna […] as priva de significados e com isso as impedem de se constituírem em enunciados ou orações. […] “Faz Frio” e “It is cold” […] estão compostos por palavras distintas, além de corresponderem a idiomas distintos. Mas também advertimos que […] têm algo em comum: querem dizer o mesmo […], isto é, têm o mesmo significado. Quando vários enunciados têm o mesmo significado, dizemos que eles expressam a mesma proposição. Uma proposição é,
pois, o significado de um enunciado declarativo ou descritivo. Não é o significado mesmo, que está composto por palavras de algum idioma determinado, ordenadas segundo certas regras gramaticais: é o conteúdo do enunciado, que é comum às diversas maneiras de dizer-se a mesma coisa”.
20 Cf. Paulo de Barros Carvalho (2006, p. 61-80): “Se retivermos a observação de que o direito se manifesta sempre nesses quatro planos: o das formulações literais, o de suas significações enquanto enunciados prescritivos, o das normas jurídicas como unidades de sentido obtidas mediante o agrupamento de significações que obedecem a determinado esquema formal (implicação), e o da forma superior do sistema, que estabelece os vínculos de coordenação e subordinação entre as normas jurídicas criadas no plano anterior; e se pensarmos que todo nosso empenho se dirige para estruturar essas normas contidas num estrato de linguagem; não será difícil verificar a gama imensa de obstáculos que se levantam […] na trajetória da
interpretação.” Contudo, como bem observa o autor, “as mencionadas incisões, como é obvio,
Diante destas afirmações, por precisão do discurso, distinguiremos os textos do direito positivo das proposições normativas hipotético-condicionais que construiremos a partir dele, conforme lições de PAULO DE BARROS
CARVALHO21: aqueles, enunciados prescritivos, estas, normas jurídicas22.
As normas jurídicas são compostas de duas variáveis, associadas pelo vínculo da implicação formal23: o antecedente e o conseqüente. Cada uma destas variáveis pode apresentar critérios específicos, dependendo do grau de concretização em que se encontra o processo de positivação do direito: podem ser preenchidas por fatos passados ou futuros e relações jurídicas gerais ou individuais.
As normas jurídicas construídas a partir da interpretação do direito positivo são denominadas de normas gerais e abstratas, pois seus
no trato superficial com a literalidade dos textos”. No mesmo sentido, Lourival Vilanova (1997, p. 96) afirma que “não cabe, como dissemos, interpretar a hipótese como proposição prescritiva […]: nada se prescreve na hipótese. É descritiva, mas sem valor veritativo […]. O deôntico não reside na hipótese como tal, mas no vínculo entre a hipótese e a tese”.
21 Segundo as palavras do autor, “Um dos alicerces que suportam esta construção [decomposição dos textos do direito positivo em quatro subsistemas] reside no discernir entre enunciados e normas jurídicas. […] Os primeiros […] se apresentam como frases, digamos assim soltas, como estruturas atômicas, plenas de sentido […]. Entretanto, sem encerrar uma unidade completa de significação deôntica, na medida que permanecem na expectativa de juntar-se a outras unidades da mesma índole. Com efeito, terão de conjugar-se a outros enunciados, consoante específica estrutura lógico-molecular, para formar normas jurídicas, estas, sim, expressões completas de significação deôntico-jurídica” (CARVALHO, 2006, p. 62-63).
22 Kelsen (1998, p. 4) já distinguia entre texto e norma, esta entendida como “esquema de interpretação”, ou seja, como “juízo em que se enuncia que um ato de conduta humana que constitui um ato jurídico (ou antijurídico) é resultado de uma interpretação específica, a saber, de uma interpretação normativa”.
23 Chamamos de vínculo de implicação formal, o conector lógico denominado “condicional”, cuja função é de ligar, artificialmente, por ato de autoridade competente, um pressuposto a uma conseqüência. Embora aparentemente haja uma relação de causalidade entre antecedente e conseqüente, note-se que essa relação, por ser artificial, difere-se, neste aspecto, do que se denomina, especificamente, de causalidade natural. Nas palavras de Hans Kelsen (1998, p. 86-
87), “Tal-qualmente uma lei natural, também uma proposição jurídica liga entre si dois elementos. Porém, a ligação que se exprime na proposição jurídica tem um significado completamente diferente daquela que a lei natural descreve, ou seja, da causalidade. Sem dúvida alguma que o crime não é ligado à pena, o delito civil à execução forçada, […] como uma causa é ligada ao seu efeito.”
antecedentes descrevem fatos de forma abstrata, isto é, que podem ou não ocorrer, e relações jurídicas genéricas, ou seja, entre sujeitos indeterminados.
Vale, aqui, a transcrição das palavras esclarecedoras de PAULO DE
BARROS CARVALHO24:
A regra assume, portanto, uma feição dual, estando as proposições implicante e implicada unidas por um ato de vontade da autoridade que legisla. E esse ato de vontade, de quem detém o poder jurídico de criar normas, expressa-se por um “dever-ser” neutro, no sentido de que não aparece modalizado nas formas “proibido”, “permitido” e “obrigatório”. “Se o antecedente, então deve-ser o conseqüente”. Assim diz toda e qualquer norma jurídico-positiva.
A proposição antecedente funcionará como descritora de um evento de possível ocorrência no campo da experiência social, sem que isso importe submetê-la ao critério de verificação empírica, assumindo os valores “verdadeiro” e “falso”, pois não se trata, absolutamente, de uma proposição cognoscente do real, apenas de proposição tipificadora de um conjunto de eventos.
Anote-se que o suposto normativo não se dirige aos acontecimentos do mundo com o fim de regrá-los. Seria inusitado absurdo obrigar, proibir ou permitir as ocorrências factuais, pois as subespécies deônticas estarão unicamente no prescritor. […] Se a proposição- hipótese é a descritora de um fato de possível ocorrência no contexto social, a proposição-tese funcionará como prescritora de condutas intersubjetivas. […] Na verdade, o prescritor da norma é, invariavelmente, uma proposição relacional, enlaçando dois ou mais sujeitos de direito em torno de uma conduta regulada como proibida, permitida ou obrigatória. […] Costuma-se referir a generalidade e a individualidade da norma ao quadro de seus destinatários: geral, aquela que se dirige a um conjunto de sujeitos indeterminados quanto ao número; individual, a que se volta a certo indivíduo ou a grupo identificado de pessoas. Já a abstração e a concretude dizem respeito ao modo como se toma o fato descrito no antecedente. A tipificação de um conjunto de fatos realiza uma previsão abstrata, ao passo que a conduta especificada no espaço e no tempo dá caráter concreto ao comando normativo.
Para passarmos da norma geral e abstrata à individual e concreta, é necessário operar-se o que se denomina de incidência, a qual, conforme será
24 2006, p. 26-27, 30-31 e 35-36.
demonstrado em item seguinte, nada mais é que, sob a perspectiva da filosofia da linguagem, a aplicação daquela aos fatos constituídos a partir das provas, fazendo-se irradiar a relação jurídica individualizada ou relação jurídica strictu sensu.
II.2 Incidência e Aplicação: das normas gerais e abstratas às normas