2. MECZÛB
2.4. Dil ve Anlatım
Segundo Lago (2006, p.47-48), a Conferência de Estocolmo definitivamente viria a fortalecer a ONU bem como os seus sistemas de organismos como FAO, UNESCO e OMS, especialmente pela forma como ela se organizou (conferências preparatórias), mas também pela possibilidade de diálogo diplomático entre as nações. Aliás, segundo o autor,
o sucesso do modelo de Conferência acabou gerando uma série de outras importantes Conferências nos anos seguintes – como a de População, em Bucareste (1974); a de Mulheres, no México (1975); e a Habitat, em Vancouver (1976) –, mas também porque, de certa maneira, o meio ambiente dava uma nova raison d’être a uma organização acusada de não acompanhar as rápidas mudanças do mundo moderno (LAGO, 2006, p.48).
Ainda para Lago (2006, p.48), “independentemente dos êxitos ou derrotas de países específicos ou de grupos negociadores”, como pode ser observado nos extensos debates políticos que acabaram por não fazer cena no histórico acadêmico da Conferência, evidenciava- se ali, a “entrada definitiva do tema ambiental na agenda multilateral e a determinação das prioridades das futuras negociações sobre meio ambiente”, bem como a criação do Programa
39 Segundo McCormick (1992, p.108), em 1982, dez anos após Estocolmo, estimava-se que havia 2.230 ONGs
ambientalistas nos países menos desenvolvidos, estimando que mais de 60% haviam sido formadas após a conferência de 1972, além de outras 13 mil organizações em atuação nos países desenvolvidos.
das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, assim como o “estímulo à criação de órgãos nacionais dedicados à questão de meio ambiente em dezenas de países que ainda não os tinham”, bem como o “fortalecimento das organizações não-governamentais e a maior participação da sociedade civil nas questões ambientais”. Para o autor,
A entrada definitiva do temário ambiental na agenda multilateral deu-se principalmente pela noção dos principais atores de que seria necessário estar plenamente preparados para enfrentar as ameaças que o tema avançaria e, eventualmente, para aproveitar as oportunidades. A Declaração e o Plano de Ação de Estocolmo criaram a base sobre a qual se iniciaria um processo de negociações que atingiriam tal importância e tamanho grau de complexidade que, à época, nenhum governo podia imaginar (LAGO, 2006, p.48).
Na acepção de Lago (2006, p.48-49), outra importante ação engendrada foi a criação do PNUMA40, que mostrou-se determinante para que se “mantivesse um ritmo mínimo de progresso nos debates sobre meio ambiente no âmbito das Nações Unidas nos anos seguintes”. Todavia, ironicamente, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente é uma “microscópica agência das Nações Unidas, perdida em Nairóbi [Quênia/África]”, cuja difícil missão, “desde a sua criação”, é a de “estimular e coordenar os trabalhos de agências maiores e mais poderosas” dentro do sistema de agências da ONU.
McCormick (1992, p.109), por sua vez, afirma que a Conferência de Estocolmo, ao produzir uma Declaração, uma Lista de Princípios e um Plano de Ação, teria um caráter “inspiracional”, que acabou por registrar os “argumentos essenciais do ambientalismo humano, e atuar como um prefácio para os princípios, delineando metas e objetivos amplos”. Para o autor, foi notável que “tantos países – com sistemas políticos, sociais e econômicos diferentes”, tivessem sido capazes de concordar, apesar dos fervorosos conflitos, com um “um exercício filosófico de espectro tão amplo”.
O autor (McCormick, 1992, p.109-110), argumenta que a Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano [ou Declaração de Estocolmo], sabiamente não forçou a definição para o termo “meio ambiente humano”, justamente porque “sentia-se
40 Desde a sua criação em 1972, o PNUMA tem a função de ser, enquanto órgão diretivo e agência integrante do
sistema de organizações das Nações Unidas, com uma rede de escritórios espalhados pelo mundo, a “principal autoridade global em meio ambiente”, sendo “responsável por promover a conversação do meio ambiente e o uso eficiente de recursos no contexto do desenvolvimento sustentável”. Assertivamente, embora tenha, como apontado por Lago (2006, p.48-49), sérias dificuldades de governança e poder de atuação, ainda assim tem a responsabilidade de manter um contínuo monitoramento ambiental através de parcerias com inúmeras instituições internacionais de pesquisa, além de setores governamentais e não governamentais, acadêmicos e privados, alertando os países sobre as ameaças ao meio ambiente, além de “recomendar medidas para melhorar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das gerações futuras”. Disponível em: <http://www.onu.org.br/onu-no-brasil/pnuma/>. Acesso em: 6 jan. 2014.
que poderia ser difícil, naquele estágio, alcançar uma definição que não fosse indevidamente restritiva”.
McCormick (1992, p.110), organiza os vinte e seis princípios da Declaração de Estocolmo em cinco grupos principais de proposições que, em sua visão, afirmam:
1) Os recursos naturais deveriam ser resguardados e conservados, a capacidade da terra de produzir recursos renováveis deveria ser mantida e os recursos não renováveis deveriam ser compartilhados.
2) O desenvolvimento e a preocupação ambiental deveriam andar juntos e deveria ser dada toda a assistência e incentivo aos países menos desenvolvidos no sentido de promover uma administração ambiental racional. (Este grupo tinha o propósito de tranqüilizar os países menos desenvolvidos.)
3) Cada país deveria estabelecer seus próprios padrões de administração ambiental e explorar recursos como desejasse, mas não deveria colocar em perigo outros países. Deveria existir cooperação internacional voltada para o melhoramento ambiental.
4) A poluição não deveria exceder a capacidade do meio ambiente de se recuperar e a poluição dos mares deveria ser evitada.
5) Ciência, tecnologia, educação e pesquisa deveriam ser utilizadas para promover a proteção ambiental.
McCormick (1992, p.110), afirma ainda que o documento final, que tornou-se a declaração oficial, tanto para as expectativas quanto para os dissabores, não provocou grandes discordâncias e, de fato, levou a Assembleia-Geral da ONU a concluir que o “intercâmbio de informações subsequentes a Estocolmo, não deveria ser encarado como um instrumento que capacitasse um estado a interferir no desenvolvimento dos recursos naturais de outro”.
No mais, para o autor, evidenciava-se o fato de que os princípios da declaração não interfeririam no direito dos países de explorar os recursos naturais que tinham disponíveis, somente deixavam clara a “responsabilidade de assegurar que estes não causassem dano a outros estados, e que deveriam cooperar no sentido de desenvolver uma legislação internacional sobre responsabilidade e compensação” (McCORMICK, 1992, p.110).
Por fim, a declaração afirmava que as políticas ambientais de todos os Estados “deveriam aumentar e não afetar adversamente o desenvolvimento presente ou potencial dos países em desenvolvimento” (McCORMICK, 1992, p.110).
Particularmente no tocante à educação, a Declaração de Estocolmo, além de ser considerada um símbolo dos efetivos esforços globais, governamentais e intergovernamentais,
por parte dos países mais desenvolvidos e em-desenvolvimento e suas respectivas sociedades, permitiu ensejar uma discussão importantíssima.
Embora, de fato, não seja contundente no âmbito daquilo que conhecemos hoje como
Educação Ambiental, permitiu fomentar o movimento para a sua consolidação, como ver-se-ia
nos anos seguintes. Cabe, então, a este respeito as seguintes considerações:
Primeiro, enquanto “proclamação” contida na Declaração, o termo [educação] aparece com o significado de [ausência], ou seja, o item 4 das proclamações, insere que os problemas ambientais estão motivados pelo subdesenvolvimento, situação na qual “milhões de pessoas seguem vivendo muito abaixo dos níveis mínimos necessários para uma existência humana digna, privada de alimentação e vestuário, de habitação e educação, de condições de saúde e de higiene adequadas”41.
Neste sentido, [educação], aparece com um dos itens, entre outros, que são essenciais à desejável qualidade de vida e que encontra-se ausente nos países em-desenvolvimento (e pobres), que não conseguem atender, adequadamente, às suas populações.
O elemento [educação], do ponto de vista discursivo, pode representar tanto que a pobreza é uma consequência de sua ausência (ou precariedade, falta de investimentos, etc.), como também uma (co)responsável pelo próprio martírio do subdesenvolvimento e, desta forma, pelas consequências dos problemas ambientais existentes.
A este aspecto, veja-se a conclusão da proclamação, ao discorrer que os “problemas ambientais” nos países mais desenvolvidos (e, consequentemente, mais industrializados), estão geralmente relacionados, à “industrialização e o desenvolvimento tecnológico”, que, de fato, somente seriam possíveis em uma sociedade relativamente desenvolvida do ponto de vista educacional.
O outro (e último) momento em que aparece o elemento [educação], é constatado no princípio 19 da Declaração. Nele, evidencia-se que é “indispensável um esforço para a educação em questões ambientais”, referindo-se que esta deve ser “dirigida tanto às gerações jovens como aos adultos”, notadamente na forma de prestar “atenção ao setor da população menos privilegiado, para fundamentar as bases de uma opinião pública bem informada, e de uma conduta dos indivíduos”, bem como de “empresas e das coletividades”.
A essência deste princípio, na perspectiva do discurso, volta-se ao fomento da educação enquanto fonte de instrução e informação aos indivíduos em todas as fases da vida, o
41 Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, 21ª Reunião Plenária do
que incluiu o ambiente empresarial e coletivo, incluindo os meios de comunicação, que são instados a contribuir com campanhas educativas.
Particularmente, nestes princípios postos a partir desta Declaração, a educação toma o sentido de educar para o conhecimento ambiental, informando os sujeitos menos privilegiados, excluídos em sua maioria do processo educativo, das questões que envolvem a problemática ambiental, evidenciando que o meio ambiente é um elemento deteriorável quando exposto à inconsequente exploração humana.
Já o Plano de Ação, com suas 109 recomendações, nas palavras de McCormick (1992, p.110), consistiu em um documento genérico com propósitos idem, composto por um “conjunto de atividades internacionalmente coordenadas”, cujo objetivo seria “o desenvolvimento do conhecimento sobre as tendências ambientais e seus efeitos sobre homens e recursos” e “a proteção e o aumento da qualidade do meio ambiente e da produtividade dos recursos através de uma administração e planejamento integrados”. No contexto, o documento, com suas recomendações específicas e gerais, poderia ser organizado em três grandes categorias: de “avaliação ambiental”, de “administração ambiental” e de “medidas de apoio”.
Para McCormick (1992, p.110-111), quase a metade das recomendações versava sobre a “conservação de recursos”, enquanto o restante cobria “questões relativas a assentamentos humanos, poluição e poluição marinha, desenvolvimento e meio ambiente, além de educação e informação”.
Na visão de McCormick (1992, p.111), a Conferência de Estocolmo foi o “acontecimento isolado que mais influiu na evolução do movimento ambientalista internacional”. Para o autor, a conferência apresentou quatro resultados importantes, sendo o primeiro o fato de que ela “confirmou a tendência em direção a uma nova ênfase sobre o meio ambiente humano”, permitindo que o pensamento global progredisse das metas “limitadas de proteção da natureza e conservação dos recursos naturais”, para uma visão mais “abrangente da má utilização da biosfera por parte dos humanos”. Além disso, nas palavras do autor,
a própria natureza do ambientalismo mudou: da forma popular, intuitiva e provinciana com a qual emergiu nos países mais desenvolvidos no final dos anos 60, para uma forma de perspectivas mais racionais e globais, a qual enfatizava o esforço no sentido de uma compreensão plena dos problemas e do acordo sobre uma ação legislativa efetiva. O Novo Ambientalismo evoluiu para termos que eram politicamente mais aceitáveis, encorajando mais governos nacionais a fazer do meio ambiente uma questão de política (McCORMICK, 1992, p.111).
O segundo aspecto positivo que McCormick (1992, p.111), define para a Conferência, foi o fato de que a mesma forçou um “compromisso entre as diferentes percepções sobre o meio ambiente defendidas pelos países mais e menos desenvolvidos”, o que seria, na visão do autor, uma constatação irônica, pois a conferência foi “inicialmente produto da preocupação existente nos países industrializados na década de 60”.
Durante os primeiros debates da ONU na conferência, os países menos desenvolvidos fizeram uso de seu poder de voto na Assembleia-Geral das Nações Unidas para compelir os países mais desenvolvidos a reconhecer a necessidade de equilibrar as prioridades na administração ambiental com os objetivos do desenvolvimento econômico. Os países mais desenvolvidos foram pelo menos incentivados a começar a reinterpretar as prioridades do ambientalismo, a assumir uma visão mais ampla do caráter globalmente correlato de muitos problemas e a começar a entender quantas dessas questões estavam arraigadas em problemas políticos e sociais, particularmente nos países menos desenvolvidos (McCORMICK, 1992, p.111).
O autor realça que, antes de Estocolmo, as prioridades ambientais foram, muito amplamente, “determinadas pelos países mais desenvolvidos” e, pós-Estocolmo, “as necessidades dos países menos desenvolvidos tornaram-se um fator chave na determinação de políticas internacionais” (McCORMICK, 1992, p.111).
A terceira constatação que McCormick (1992, p.111), faz sobre a Conferência consiste no papel que as ONGs tiveram durante o evento, marcando o “começo de um papel novo e mais persistente no trabalho dos governos e das organizações intergovernamentais”.
Por fim, o quarto produto inestimável da Conferência de Estocolmo, segundo o autor, foi a criação do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA) e, embora com suas limitações e deficiências, foi “provavelmente a melhor forma institucional possível naquelas circunstâncias” para se concretizar um plano global para o meio ambiente.
OS DESDOBRAMENTOS DA CONFERÊNCIA DE ESTOCOLMO-1972