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BÖLÜM 3: GORALILARIN KARŞILAŞTIĞI SORUNLAR

3.6. Dil Sorunları

Este capítulo oferece uma perspectiva do plano de análise dos dados obtidos na visita ao campo. Apresenta-se a seguir a sequência de ações e experiências que permitiram gradativamente avançar na compreensão do sentido e do significado atribuído ao objeto de estudo pelos atores sociais em diferentes situações. As etapas foram delineando-se até permitirem representar o fenômeno central da pesquisa, o processo sucessório. Para tanto, buscou-se apresentar, da melhor forma possível, o desafio imposto pela dinâmica exigida pelo método de Ground Theory.

Haja vista a escolha do método (Ground Theory) adotado na pesquisa, sua dinâmica e proposta de reconhecimento do sentido atribuído pelos informantes, faço aqui uma proposta de narrativa descritiva em primeira pessoa, enriquecida pela inserção da minha participação, na condição de pesquisador, em reuniões e comitês com executivos das instituições. Essa inserção me permitiu relatar as reações dos diferentes atores sociais nos respectivos grupos, mediante suas falas, comportamentos, considerações e discussões sobre o tema, nos diversos espaços e contextos que pude acessar no período de coleta de dados.

A opção pela narrativa em primeira pessoa é recomendada e observada nos textos e relatos de pesquisa de Glaser e Strauss (1967) e Chia (2003) para representar, da melhor maneira possível, a dinâmica da pesquisa no campo, marcada pela adoção de diferentes técnicas de coleta, previstas ou não no plano prévio ao campo. Assim, foi possível seguir e atestar as recomendações e precauções antecipadas nos dois estudos ora mencionados.

Em atendimento à dinâmica requerida pelo método definido como pertinente para a pesquisa, compreendido como o que possibilitaria abordar melhor o tema (conforme já justifiquei no Capítulo 3), tive de dividir a análise dos dados em duas partes e, consequentemente, em dois capítulos. A primeira parte das análises me possibilitou a identificação de aspectos formais que, de certa maneira, eram de conhecimento geral dos atores sociais, independentemente do nível do cargo (i.e., operacional, tático ou estratégico) e do papel (i.e., sucessor, sucedido, consultor interno de RH ou membro de comitês). A segunda parte das análises, conforme tratarei nos Capítulos 4, 5 e 6, ampliou a minha compreensão do objeto de estudo à luz de informações complementares – tanto teóricas quanto de campo – que extrapolaram o conhecimento geral.

A justificativa para dois momentos de análise e inserção de novo referencial teórico complementar poderia ser fundamentada exclusivamente na descrição da experiência de campo de Glaser e Strauss (1967) e de Strauss e Corbin (1990). Não obstante, foi a minha vivência no campo, com o uso da Ground Theory, que ratificou as recomendações (advisory) desses autores, suscitando, necessariamente, a mencionada divisão para melhor atender à proposta da pesquisa.

Tal necessidade de avançar no campo e permitir que ele defina o que é relevante está explícita nos trabalhos de Glaser e Strauss (1967) e de Strauss e Corbin (1990). Como pude experimentar, tal cuidado é ainda mais recomendado quanto mais inexperiente e incipiente na técnica for o pesquisador, ainda mais quando a coleta e as análises competem somente a ele. O trabalho solitário consome tempo e exige atenção para a contínua calibragem do quão profundo e oportuno terá sido o referencial teórico prévio à imersão no campo. Se demasiado, compromete a liberdade do pesquisador de vislumbrar novas categoriais e inferências ainda não abordadas; se superficial, tempo precioso é usado para recolher e analisar informações já sabidas e de pouca relevância.

Como em alguns momentos pude testemunhar, a observação chegava perto de ser comprometida devido a premissas, categorias e definições concebidas previamente, ainda que de forma inconsciente, por influência do mesmo referencial que me preparara para extrair o que o campo ofereceria. Assim sendo, a primeira parte das análises descreve as minhas descobertas a partir da minha inserção inicial no campo e a partir das interações com seus respectivos atores sociais, conforme previamente planejado. A dinâmica da exploração dos significados do processo sucessório exigiu adequações, ajustes e disposição para surpresas que me possibilitaram desafiar definições prévias e dar ocasião a que emergissem as categorias, as influências e as forças que moderam a relação dos atores sociais com as políticas institucionais.

Para o plano de análise, segui as definições de Sampieri, Collado e Lucio (2006, p. 492-495), os quais propõem que os dados sejam revisados à luz do problema de pesquisa e, estando prontos para análise, sejam codificados em níveis primário (categoria) e secundário (subcategorias, desdobramentos subsequentes), de modo que possam ser interpretados e descritos, “assegurando sua confiabilidade e a viabilidade dos resultados” (ibid, p. 494), seja por método dedutivo ou indutivo. Essa proposição de Sampieri, Collado e Lúcio é consonante com Selltiz et al. (1972) – no que diz respeito à confiança da análise, que deve ater-se tanto aos dados quanto ao problema e às hipóteses de pesquisa previamente definidas –; entretanto,

questionada por proponentes de uma abordagem fundamentada na Ground Theory, a exemplo de Glaser e Strauss (1967); Strauss e Corbin (1990); Chia (2003). Para O’Reilly, Paper e Marx (2012), a proposta de uma sequência lógica e estruturada é conveniente para processos dedutivos na busca por validar hipóteses e oportuna para processos indutivos que intentem construir hipóteses, mas ineficaz para a prática da pesquisa de cunho interpretativista (abductive research approach), conforme proposto pela Ground Theory, que se dispõe a definir o problema no próprio campo, com o pesquisador atuando como explorador.

Tal consideração se apoia no argumento de que o campo determinaria a dinâmica, os novos pressupostos e os caminhos a serem investigados, exigindo do pesquisador um constante questionamento dos significados e sentidos atribuídos ao objeto de estudo. À medida que se avança na pesquisa, reconhece-se a necessidade de retroceder aos dados anteriores, ressignificando-os, incluindo novas perspectivas e referenciais, questionando a proposta inicial e, por fim, avaliando a relevância daqueles dados, daqueles informantes e daquele campo propriamente dito. Assim, para Glaser e Strauss (1967), Burrell e Morgan (1979), Benson e Scroggins (2011), há de se considerar o processo indutivo segundo premissas de Ground Theory, seguindo o modelo da Figura 13, como exercício para formulação de teoria substantiva, a partir de evidências objetivas e padrões realistas, deterministas e nomotéticos.

Figura 13: Processo indutivo, teoria substantiva Fonte: elaborada pelo autor.

De um lado, a teoria substantiva busca referenciar e verificar a teoria a partir do resultado de sua aplicação em um campo específico, visando a evidências que sustentem ou neguem as hipóteses formuladas a partir de uma teoria prévia. De outro, o método de Ground

Theory intenta contemplar diferentes perspectivas, grupos e realidades de maneira que as

abstrações, alcançadas por um exercício de razoabilidade, permitam antecipar determinados desdobramentos, haja vista a identificação de um processo atinente e extensivo a diferentes contextos, que devem ser sistematicamente ampliados, verificados e validados. Logo, o

intento não é testar uma teoria (substantiva), mas, sim, permitir-lhe emergir (fundamentada /

grounded).

Sendo assim, a representação da teoria através de axial code (based-process) dar- se-ia mais como uma espiral de avanços e retornos, na qual a teoria é enunciada temporariamente, definindo-se à medida que novos campos são contemplados, negando e confirmando pressupostos e hipóteses, de maneira a obter a saturação necessária para uma teoria formal. Portanto, o método interpretativo segue o modelo proposto por Burrell e Morgan (1979), no qual prevalecem o nominalismo, o voluntarismo e a ideografia, buscando- se verificar o sentido do processo sucessório em cada um dos diferentes agrupamentos de atores sociais da organização.

No intuito de atender às recomendações e assegurar os procedimentos indicados para uma proposta de Ground Theory, apresento, nos capítulos e seções seguintes, dados, catalogações, definições e descrições de eventos, situações e inferências que me permitiram formalizar o processo sucessório, tendo em conta a descrição obtida na narrativa e na percepção de atores sociais em diferentes posições e funções na IF e na IP. A decisão, conforme apresentarei adiante, deve-se à constatação de que a explicitação da consciência dos profissionais em função operacional se restringia a retratar a política para ocupação de novas posições.

Na primeira etapa, é possível a explicitação do processo sucessório através de modelos e esquemas de representação da política de RH, uma vez que as interações iniciais estavam condicionadas aos interlocutores em função operacional. Na segunda parte, quando ouvidos os profissionais em posições táticas a estratégicas, o texto segue uma linha descritiva da dinâmica no campo, sendo enriquecido pela identificação de condições intervenientes ou mediadoras do processo. Essa possibilidade de abstração a partir da descrição da visão de atores sociais em papéis simultâneos permite melhor compreender as estratégias pessoais e de cada grupo para agir em conformidade com a política formal, explícita, e aquelas estratégias definidas e delineadas pelas relações sociais.

Haja vista o intento deste exercício de identificação, descrição e apresentação da realidade a partir de inferências quanto ao sentido que os atores sociais lhe atribuem, fiz uso de modelos e de uma narrativa sobre a experiência no campo que atendessem à dinâmica de coleta, análise e deduções, tendo em conta a visão de grupos em diferentes posições e funções

organizacionais. Prevaleceu tal disposição da minha parte em todas as fases da pesquisa no campo.

O desafio e o risco, sempre presentes, conforme sublinham Glaser e Strauss (1967), estiveram em manter a narrativa da pesquisa. Era fundamental obter um alto grau de abstração, de maneira que a narrativa não se restringisse especificamente a um informante, a um grupo ou a uma das instituições, mas sim recuperasse o que o conjunto indica. Ademais, procurei manter um estado de atenção constante, a fim de não me ater ao eventual referencial teórico do qual partiram as minhas inquietações, hipóteses e proposições iniciais para a pesquisa. Busquei, desse modo, minimizar ao máximo o efeito do viés decorrente de escolhas feitas previamente.

As recomendações dos diferentes autores foram vividamente sentidas durante a experiência no campo, nas coletas e nas análises preliminares e subsequentes, conforme retratarei adiante. Por conseguinte, este texto decorre de diferentes versões de narrativas que foram sendo sistematizadas e organizadas até que eu alcançasse aquela que refletisse a visão mais próxima da dinâmica do campo e da pesquisa per se.

Um dos desafios que observei durante a pesquisa, o qual influenciou até mesmo as etapas já vencidas, foi a constatação imanente do viés que herdei da pragmática adotada em pesquisas que realizara anteriormente. Esse viés ficou refletido na forma e no estilo de descrição do campo (população, amostra, coleta e análise), seja pela influência positivista e funcionalista na formação da minha trajetória profissional, seja pela influência da forma de apresentação de argumentos utilizada em artigos que eu já submetera a periódicos. Logo, a versão presente de argumentação foi construída com a representação de esquemas que indicam uma sequência semelhante a um ciclo de retroalimentação (cf. Figura 14) para avanço à nova fase da pesquisa, recorrendo-se aos textos e aos novos significados ou categorias das falas de atores sociais anteriormente entrevistados. Tal medida revelou-se oportuna, constituindo a primeira parte das análises, das respectivas categorias e das definições obtidas daqueles em posições e funções operacionais. Todavia, por essa medida se provar ainda limitada em se tratando do desenvolvimento do texto e da fidelidade à prática experimentada, inseri um capítulo novo de referencial teórico (cf. Capítulo 5) antes da segunda parte das análises.

Alcançar forma e estilo condizentes com a proposta de Ground Theory foi um exercício de afastamento das formas atinentes aos modelos positivista, pós-positivista e

funcionalista, predominantemente objetivos e realistas – formas essas usuais para teorias substantivas, mas limitadas no âmbito da Ground Theory, de proposta interpretativo- construcionista (Glaser e Strauss, 1967; Strauss e Corbin, 1990; Chia, 2003; Charmaz, 2006). A primeira versão do capítulo de análises, que buscava manter a harmonia entre os capítulos, respeitando a impessoalidade com uma narrativa formal, impunha restrições à descrição da diligência reflexiva exigida pelo campo, que se constituía em um retorno insistente às definições prévias sob efeito das coletas seguintes, algo semelhante ao “Eterno Retorno” (Nietzsche, 2005).

Cada nova incursão no campo contava com uma nova concepção da minha parte sobre ele e seus interlocutores, pois considerações, percepções, sentimentos e observações obtidas em coletas anteriores pareciam ganhar novo significado à medida que evoluía a interlocução com diferentes atores sociais. Ainda que uma das interpretações da provocação de Nietzsche possa levar à imagem de uma maldição, o ir, o vir e o devir transformaram-se em uma vertente de novas ideias, concepções, ilações e possibilidades. Tão ampla era essa vertente que intuições e inferências que, decorrentes do processo de reflexão, extrapolaram o objetivo de estudo foram inseridas no capítulo de conclusões como oportunidades de pesquisas futuras.

Figura 14: Ciclo de retroalimentação para definição do modelo teórico Fonte: elaborada pelo autor.

4.1 INÍCIO DA ABORDAGEM AOS INFORMANTES

Em atendimento ao plano inicial de pesquisa, iniciei os contatos com os analistas e coordenadores da área de TI da instituição financeira (IF) para implementação da primeira etapa da fase inicial de pesquisa. Foram contatados, conforme quadro de plano de pesquisa e autorização do executivo de RH, 38 analistas e oito coordenadores, dos quais dez e cinco, respectivamente, aceitaram participar de imediato e contemplaram o primeiro ciclo de entrevistas.

Apresentei a cada um dos convidados o objetivo da pesquisa como sendo “identificar como ocorria o processo de ocupação de novas posições na instituição”, tal qual fora discutido e autorizado pela empregadora. A questão inicial sobre como se dava o processo de ocupação de novas posições na instituição possibilitou que os respectivos atores sociais apresentassem suas perspectivas, sem necessidade de intervenções do pesquisador, exceto quando siglas e expressões próprias da instituição eram citadas e careciam de

REFERENCIAL))