Antes de conhecer um dos personagens mais importantes da história política, social e cultural do país, é necessário informar que Getúlio Vargas tem uma trajetória pessoal e política, cujas decisões e opiniões influenciaram tanto o legislativo como o executivo do Rio Grande do Sul e do Brasil. Ocupou diversos mandatos e cargos e os mais importantes, sem dúvida, foram quando ocupou a presidência da República, em dois diferentes períodos. Foi um chefe de estado do
período da República, do Estado Novo, por meio de um processo insurrecional, e da Democracia, por meio de uma eleição direta.
Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja, cidade na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 1882. É necessário esclarecer que a data de nascimento mais conhecida é 1883, alterada, provavelmente, por Vargas, quando jovem. Era filho do fazendeiro e chefe político da região Manuel Nascimento Vargas e de Cândida Dornelles Vargas. O pai era muito ligado à política e quando estava com 20 anos, alistou-se como voluntário no Exército, para poder lutar contra a guerra do Paraguai. Foi como cabo e voltou como coronel, participou de 21 batalhas e recebeu menções honrosas de seus superiores. Retornou para São Borja e prosperou como estancieiro. Em 1872, casou-se com Cândida Dornelles, também de uma família de prestígio na região. Tiveram cinco filhos homens: Viriato (1874-1953), Protásio (1877-1970), Getúlio (1882-1954), Spartacus e Benjamim (1898-1973). Getúlio era o terceiro filho na família.
Para D’Araujo, a
história e as características do Rio Grande do Sul deixaram marcas na formação de Getúlio Dornelles Vargas. Colonizada de início por jesuítas e a seguir por portugueses oriundos do arquipélago dos Açores, a região, a partir do século XVII, foi palco de lutas frequentes entre portugueses e espanhóis. Nos séculos seguintes, outras guerras importantes varreram o solo gaúcho: a Guerra dos Farrapos (1835-1845), a Guerra do Paraguai (1864-1870) – na qual o pai de Getúlio foi herói militar –, a Revolução Federalista de 1893 e a guerra civil de 1923314.
No início da República, dois partidos disputavam o poder estadual. Um deles era o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), fundado em 1882, cuja ideologia era fundamentada na doutrina positivista de Augusto Comte, que atribuía grande poder ao Estado, reconhecia a autonomia do chefe político e a liderança dos homens superiores. Conforme o postulado positivista, de acordo com Abreu, “somente essa elite intelectual tinha a capacidade de governar a sociedade; aos demais caberia à obediência aos rumos traçados315”. Os líderes mais importantes
foram Julio de Castilhos e Joaquim Francisco de Assis. O sucessor de Castilhos na
314 Op. Cit. D’ARAUJO, Maria Celina (Org.). p. 19
315 ABREU, Luciano Aronne de. Getúlio Vargas: a construção de um mito (1928-1930). Porto Alegre: EdiPUCRS, 1996. p. 33
liderança do PRR foi Antônio Augusto Borges de Medeiros, que governou o Rio Grande do Sul por muitos anos.
Os republicanos, também conhecidos como chimangos, faziam oposição ao Partido Federalista Brasileiro. Os federalistas, ou maragatos, defendiam uma de tendência mais descentralizadora e existiam desde 1892.
Vargas viveu sua infância dentro desse contexto histórico e político, na estância denominada Santos Reis. Quando completou 15 anos, “alistou-se no batalhão de infantaria de São Borja, em 1903, após breve estágio como cadete316”.
Assim teve início a sua trajetória profissional, na carreira militar. Integrou o 6º Batalhão de Infantaria, aquartelado em São Borja. Fez a Escola Preparatória e Tática e de Tiro, que ficava em Rio Pardo, no período de 1900 a maio de 1902. Mas porque se solidarizou com dois colegas que tiveram problemas disciplinares, foi desligado. Voltou como 2º sargento para o 25º Batalhão de Infantaria de Porto Alegre. Quando se preparava para deixar o Exército, uma ameaça de conflito entre o Brasil e a Bolívia, que disputavam o território do Acre, Vargas de apresentou ao comandante e partiu para Corumbá, no Mato Grosso.
Deu baixa do Exército quando retornou de Corumbá, em dezembro de 1903, ingressou na Faculdade de Direito de Porto Alegre, como aluno ouvinte. Matriculou- se em 1904 no 2º ano. No espaço acadêmico, o jovem se aproximou do castilhismo e da juventude republicana, e também se interessou pela doutrina evolucionista. Tornou-se, naturalmente, um líder e, em 1906, foi escolhido pelos colegas para saudar o presidente da República, Afonso Pena, durante uma visita à capital gaúcha.
Getúlio Vargas era “estudioso e metódico, dotado de clara inteligência aquisitiva, que lhe permitiu imediata assimilação intelectual, ainda quando se tratava de assuntos ou mais áridos e complexos317” e assim foi considerado um dos
primeiros alunos da turma. Ele concluiu o segundo, terceiro e quarto ano, respectivamente, em 1904, 1905 e 1906 e na banca examinadora obteve a distinção em duas cadeiras: Direito Internacional Público e Privado e Diplomacia e Direito Público e Constitucional. Nas demais cadeiras alcançou a nota plenamente. Segundo Carrazzoni, além de um estudante exemplar, Vargas era um “leitor
316 Op. Cit. HAUSSEN, Doris Fagundes. p. 20
317 CARRAZZONI, André. Perfil do Estudante Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1942. p. 25
apaixonado” e nas horas de lazer lia “tudo quanto às livrarias da Rua da Praia lhe pudessem oferecer à curiosidade insatisfeita, em literatura, ciência, história, filosofia e sociologia318”.
Vargas concluiu o curso quatro anos depois e, na formatura, demonstrou que dominava o uso das palavras. No discurso afirmou que o Brasil ainda não era uma nação porque dependia economicamente de países estrangeiros e a cultura estava embasada em imitações importadas, principalmente da Europa.
Em 1907, o pai de Vargas, Manuel, foi indicado para ser intendente, o prefeito de São Borja pelo PRR. No final desse ano, acrescenta Carrazzoni, Vargas acompanhava “os embates dos dois grandes partidos políticos do Estado, o republicano e o federalista319”. Quando retornou das férias em São Borja, o
momento era de eleição presidencial do Estado. O candidato oficial do Partido Republicano Rio-Grandense era Carlos Barbosa Gonçalves e na oposição estava Fernando Abott.
De acordo com Carrazzoni, “os estudantes que eram favoráveis à candidatura do Sr. Carlos Barbosa resolveram mobilizar-se para a luta das urnas, sob a invocação da fé castilhista320”. Assim surgiu o Bloco Acadêmico Castilhista
que se integrou à campanha. Na diretoria estava Getúlio Vargas, ocupando o cargo de vice-presidente, junto com o presidente Manuel Luiz Pizarro. Durante a campanha, eles lançaram um manifesto favorável aos castilhistas. “Entre os signatários do manifesto, figuravam representantes da mocidade militar, inclusive os futuros generais Eurico Gaspar Dutra e Pedro Aurélio de Góis Monteiro, então alunos da Escola de Guerra de Porto Alegre321”. Desta maneira, diz Carrazzoni,
Vargas entrou “em cheio nos arraiais da política partidária”, deixando de lado as leituras lentas na biblioteca e trocando “pelo borborinho das reuniões e comícios tumultuosos322”.
O Bloco Acadêmico Castilhista que reunia parte dos alunos da Escola de Guerra de Porto Alegre, no casarão da Várzea, entre eles, Eurico Gaspar Dutra e Pedro Aurélio de Góes Monteiro
318 Op. Cit. CARRAZZONI, André. p. 26 319 Idem. p. 28
320 Idem. p. 40 321 Idem. p. 40 322 Idem. p. 41
que exerceriam importante papel na vida e obra de Getúlio Vargas e, principalmente no Exército, como seus Ministro da Guerra e Chefe do Estado-Maior do Exército e executores da ação do presidente Getúlio Vargas, no Exército, objeto da presente interpretação323.
O grupo também foi responsável pelo lançamento do jornal diário O Debate, onde logo Vargas começou a escrever artigos políticos sempre bem argumentados e com uma linguagem viva. A publicação auxiliava o PRR e servia para os acadêmicos atacarem a candidatura de Fernando Abott, que representava um perigo e poderia destruir a obra de Julio de Castilhos. O diário sempre obtinha boas repercussões e o jovem pode exercitar a sua escrita como um jornalista. Ao redigir a primeira coluna, o editorial ou outras seções, ele o fazia num tom sério, às vezes mordaz, nos textos que tinham temas políticos, sociais ou literários da cidade.
É necessário destacar ainda que em 1907 ocorreu uma dissidência entre os Republicanos históricos e a geração denominada de 1907, por causa da maneira de encarar os fatos políticos. Abreu destaca que essa cisão pode ser representada pela atuação de Pinheiro Machado, do grupo de Republicanos históricos, mas que tinha atuação nacional marcante e era um mediador entre o governo do Rio Grande do Sul e do Brasil. Enquanto Machado mantinha o “elo de ligação entre as duas instâncias do poder político: a nacional e a regional324”, Borges de Medeiros
mantinha uma política isolacionista em relação ao restante do país. Essa diferença contribuiu para essa dissidência e deixou claro que a ala jovem do PRR concordava mais com as ideias nacionalizantes.
A participação na campanha do PRR contribuiu, com certeza para que o jovem bacharel fosse nomeado para segundo promotor público do Tribunal de Porto Alegre, em fevereiro de 1908. Meses depois, seu nome foi incluído na lista de candidatos do partido para a Assembléia dos Representantes, a assembléia legislativa do Rio Grande do Sul. Indicado, ele passou o lugar de promotor a João Neves da Fontoura, colega de faculdade, e voltou para São Borja, onde constituiu uma banca de advogado e fez contatos com correligionários de seu pai, que garantiram apoio à sua candidatura. Entre eles estavam colaboradores e amigos da escola de Rio Pardo como Mascarenhas de Morais e os generais Bertoldo Klinger e Francisco Paula Cidade.
323 MORETTO, Fúlvia M. L. A Era Vargas. Porto Alegre: Ediplat/CIPEL, 2004. pp. 9-10 324 Op. Cit. ABREU, Luciano Aronne de. p. 34
Abreu salienta que a trajetória política de Vargas teve grande influência de Pinheiro Machado. Como ele, Vargas “esperava pelos acontecimentos para, depois, colocar-se à frente deles325”. Essa admiração e identificação ideológica
com Machado nunca impediram, no entanto, que a geração de 1907 continuasse reverenciando o líder Borges de Medeiros.
Um pouco antes de completar 27 anos, Vargas foi eleito deputado estadual (PPR), de 1909 a 1913. Nesse ínterim, em 1911, casou com Darcy de Lima Sarmanho, que estava com apenas 15 anos, e era filha do estancieiro e comerciante Antônio Sarmanho. Tiveram cinco filhos: Lutero, Jandira, Alzira, Manuel Antônio e Getúlio. Dois anos depois, Vargas é reeleito deputado estadual, com 76.141 votos, sendo o candidato mais votado no Estado. Mas, apesar disso, renunciou ao mandato “em protesto contra a intervenção de Borges nas eleições de Cachoeira, obrigando candidatos eleitos a renunciar para beneficiar outros de seu agrado326”. Durante alguns anos, os Vargas e os Borges se distanciaram
politicamente. As relações foram retomadas quando o Borges de Medeiros decidiu manter Manuel Vargas na chefia do PRR em São Borja e ofereceu a Vargas a chefia de polícia em Porto Alegre, cargo recusado naquele momento e só aceito, em 1917. Incluído na lista de candidatos do partido, ele é reeleito à assembléia estadual em 1921.
Nesse mesmo ano, o Brasil preparava-se para a sucessão do presidente Epitácio Pessoa. De um lado estava Minas Gerais e São Paulo com o candidato Artur Bernardes. Em oposição estavam o Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e o Rio de Janeiro, apoiando a candidatura do fluminense Nilo Peçanha. Apesar dessa união entre os governos, entre eles, Borges de Medeiros, Artur Bernardes venceu a eleição que aconteceu em março de 1922. Durante alguns meses, foram realizadas manifestações contrárias e levantes militares, como o do Forte de Copacabana. Segundo D’Araujo, surgem a partir desses acontecimentos as revoltas tenentistas que marcaram a década.
Também em 1922, Vargas foi eleito deputado federal pelo Partido Republicano, tornou-se líder da bancada gaúcha e permaneceu na Câmara dos Deputados até novembro de 1926 quando, a convite do presidente Washington Luís, foi nomeado Ministro da Fazenda, o mais importante de todos. Uma
325 Op. Cit. ABREU, Luciano Aronne de. p. 36 326 Op. Cit. D’ARAUJO, Maria Celina (Org.). p. 21
deliberação que representou a reconciliação do governo federal com o governo do Rio Grande do Sul. Conforme D’Araujo, nesse cargo, Vargas foi favorável ao pacto político da 1ª República, que “privilegiava os interesses dos cafeicultores. O café, na época, respondia sozinho por cerca de 70% das exportações e era, portanto um produto de interesse estratégico na economia do país327”.
Foi durante a revolução de 1923, quando atuou como mediador entre o governo federal e o estadual que Vargas conquistou o respeito e a confiança de seus pares no PRR. Tanto que em 1926 Borges de Medeiros, que não podia concorrer ao governo novamente, indicou Vargas para ser seu sucessor no governo gaúcho. Era uma liderança política nova que poderia “conter o avanço oposicionista, que já ameaçava a hegemonia política do PRR sobre o Rio Grande do Sul328”. Abreu diz que o nome de Vargas era “o único capaz de congregar em
torno de si um maior número de apoios políticos329” e assim foi a solução
encontrada para os problemas existentes, “o que assinala mais um momento importante no processo de construção de seu mito330”.
Vargas foi eleito governador do Rio Grande do Sul em 27 de novembro de 1927, e tomou posse em 25 de janeiro de 1928, quando estava com 46 anos, assumiu o governo. Para manter a independência de Medeiros, organizou o seu secretariado com pessoas de sua confiança como Osvaldo Aranha, (Interior e Justiça) e Firmino Paim Filho (Fazenda). “No plano econômico, procurou amparar a lavoura e a pecuária e incentivar a criação de sindicatos de produtores331” e no
político concedeu algumas garantias à oposição, “que em março de 1928 se congregou no Partido Libertador, sucessor da Aliança Libertadora332”. Na área
econômica, o novo governador adotou uma postura diferente de Borges de Medeiros que, durante seus 25 anos a frente do Estado, acreditava que o estado não deveria intervir diretamente na economia. Vargas agiu de forma oposta e incentivou, por exemplo, a criação de sindicatos e de associações, de um banco de crédito para as classes produtoras.
Quando iniciaram as articulações para as eleições presidenciais que sucederiam Washington Luís, previstas para 1º de março de 1930, ainda em 1929,
327Op. cit. D’ARAUJO, Maria Celina (Org.). p. 25 328 Op. Cit. ABREU, Luciano Aronne de. p. 62 329 Idem. p. 62
330 Idem. p. 62 331 Idem. p. 26 332 Idem. p. 26
Vargas foi escolhido pelos dirigentes da Aliança Liberal para disputar a presidência da República. O outro candidato era Júlio Prestes, presidente de São Paulo. Segundo Fausto, a campanha eleitoral começou no final de julho de 1929, com o lançamento da candidatura de Vargas. “A iniciativa partiu de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, que se opuseram à chapa governista Júlio Prestes-Vital Soares, com a posterior adesão da Paraíba333”.
Durante o pleito, observa Fausto, as principais associações industriais de São Paulo lançaram um manifesto, em 30 de julho de 1929, apoiando Júlio Prestes. O documento foi assinado pelo Centro dos Industriais de Fiação e Tecelagem, Centro das Indústrias de Papelão, Centro do Comércio e Indústrias de Madeiras de São Paulo, Centro dos Industriais de Papel do Estado de São Paulo, União dos Fabricantes Nacionais de Papel, Associação dos Industriais e Comerciantes Gráficos, Centro dos Industriais de Calçados de São Paulo. Além disso, o texto foi publicado no Correio Paulistano com destaque.
Analisando o contexto pelo viés político, Fausto enfatiza que
a Frente única gaúcha, reunindo libertadores e republicanos em torno da candidatura Getúlio Vargas, é uma composição de velhos oligarcas da política estadual e alguns jovens que surgem no interior das agremiações partidárias, mais como equipe de substituição do que de ruptura334.
As duas maiores lideranças eram representadas por Borges de Medeiros, do Partido Republicano, e Assis Brasil, pelo Partido Libertador. Ambos eram estancieiros e ligados ao meio rural, complementa Fausto.
Vargas perdeu o pleito para Prestes, realizado em 1º de março de 1930. Foram 737 mil votos contra 1,1 milhão de Prestes. No entanto, os aliados e integrantes da Aliança Liberal não se conformaram com o resultado e se organizaram para derrubar Washington Luís, acusado de favorecer o eleito. Meses depois, em 3 de outubro, a revolução foi desencadeada em Porto Alegre, Minas Gerais e Nordeste, ao mesmo tempo. No dia seguinte, destaca D’Araujo,
333 FAUSTO, Boris. A revolução de 1930 – historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 29
todas as unidades militares da capital gaúcha já estavam sob o controle dos revolucionários, o que levou Vargas a fazer um pronunciamento inflamado ao povo gaúcho. Em poucos dias o movimento estava vitorioso em quase todo o país, com a adesão de grande parte da população, dos militares e das polícias estaduais335.
Verificada a derrota, em 24 de outubro Washington Luís renunciou, e uma Junta Governativa, composta pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo almirante Isaías de Noronha assumiu o poder. Em 3 de novembro, os militares entregaram a Vargas a chefia do Governo Provisório brasileiro, que se estenderia até a promulgação da nova Constituição da República, em 16 de julho de 1934.
Figura 2: Getúlio Vargas e revolucionários passando pelo Paraná rumo ao Rio, na Revolução de 1930.
Fonte: D’ARAUJO, Maria Celina (Org.). Getúlio Vargas – Perfis Parlamentares. Nº 62. Câmara dos Deputados. Brasília: Edições Câmara, 2011.
Conforme Abreu, a revolução de 1930 foi outro momento crucial no processo de construção do mito Vargas.
Quando não havia mais possibilidade de conciliação política, ante a intransigência do governo federal, Getúlio Vargas foi guindado a líder revolucionário, aquele que veio para dar ao Brasil as liberdades há muito clamadas336.
335Op. cit. D’ARAUJO, Maria Celina (Org.). pp. 27-28 336 Op. Cit. ABREU, Luciano Aronne de. p. 111
A partir dessa data, ele se manteve na presidência durante 15 anos que tiveram três fases distintas. A primeira, que vai de 1930 a 1934, chama-se Governo Provisório e marca a derrubada da República Velha e o surgimento da República Nova. A segunda chama-se Governo Constitucional e durou de 1934 a 1937. E a terceira, de 1937 a 1945, conhecida como Estado Novo, quando Vargas governou o país sob um regime ditatorial, que durou de 10 de novembro de 1937 a 29 de outubro de 1945.
Com a autoridade presidencial concedida pelos militares, se desfez a política café-com-leite. Um arranjo político que vigorou na República Velha e envolveu as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais que controlavam o processo sucessório na presidência, sempre alternando o mandato entre esses dois estados. Com o apoio popular, Vargas implementou algumas mudanças envolvendo os interesses da burguesia, das oligarquias rurais, dos trabalhadores e dos militares. Nesses quatro anos, Vargas cumpriu várias promessas realizadas durante a Revolução de 1930.
No discurso de posse, o novo presidente propôs um programa de reconstrução nacional que previa o aumento da produção nacional, organização do trabalho, representação por classe, saneamento e educação. Em 11 de novembro, por meio do decreto nº 19.398, o governo provisório ganhou uma configuração legal. Com esse instrumento nas mãos, dissolveu o Congresso Nacional e os demais órgãos legislativos até a eleição de uma Assembléia Constituinte e nomeou interventores para os estados. Em seguida, em 14 de novembro, criou o Ministério da Educação e Saúde Pública e, 28 de novembro, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (28 de novembro).
No ano de 1931, Vargas criou o Conselho Nacional do Café, a Lei de Sindicalização, que regulamentou a sindicalização das classes patronais e operárias; a Lei dos 2/3, que garantiu a presença mínima de 2/3 de empregados nacionais em quaisquer estabelecimentos industriais e comerciais; o estatuto das universidades brasileiras, a organização da Universidade do Rio de Janeiro e realizou a reforma do ensino secundário. Em 1932, ele sancionou novas leis, como as que concederam novos benefícios aos trabalhadores vinculados às caixas de aposentadoria e pensões, fixando o limite de oito horas para a jornada de trabalho, introduziu novas regulamentações para o trabalho de mulheres e de menores e instituiu a carteira profissional.
Haussen registra que de 1930 a 1932,
houve muitos choques entre os tenentes que se organizavam no Clube 3 de outubro e as antigas oligarquias estaduais. Os confrontos provocaram grande mobilização pela reconstitucionalização do país e São Paulo foi o principal ponto da campanha, cuja intensidade levou à guerra civil pela Constituinte337.
Em 1932, a Revolução Constitucionalista perdeu para os militares, mas a proposta por uma Assembléia Constituinte venceu e foi promulgada como a nova Carta do Brasil, “com Getúlio Vargas eleito pelos constituintes para a Presidência da República338”. A publicação do novo código eleitoral, em 24 de fevereiro desse
ano, deixou os constitucionalistas satisfeitos, completa Skidmore. Os tenentes se opuseram e “revidaram no dia seguinte, enviando uma turba para depredar a redação do jornal anti-tenentista, Diário Carioca339”. Vargas sugeriu que os
tenentes fizessem um trabalho de “propaganda pacífica”. A partir de 1932, os