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“É engraçado as pessoas não se lembrarem de que existe uma língua assim, ao enunciarem a função da articulação dupla como característica da linguagem” (Lacan, 1971/2009, p. 45). Além do Seminário 18, há outro seminário em que é marcante a abundância de referências tanto à língua quanto à escrita chinesa, é o Seminário 9, A identificação106. Nele é possível destacar um modo de retomar a discussão feita em A instância da letra, a respeito das relações e articulações entre a escrita e a linguagem. Então, não é apenas a questão que é recolocada, mas também uma das vias para discuti- la. Lacan o fará tanto lá como aqui, uma passagem pela escrita chinesa, para pensar a

106 Passarei a me referir a este Seminário, ainda inédito, simplesmente como Seminário 9. Utilizo, principalmente, a tradução para o português de Ivan Corrêa e Marcos Bagno do Centro de Estudos Freudianos do Recife, numa publicação para circulação interna, de 2003.

182 articulação da escrita com a linguagem e da letra com o significante. Se, na passagem anterior, o recurso à escrita chinesa era mais sutil e alusiva, embora bastante presente – espero ter contribuído um pouco para localizar isso –, agora ela se mostra bem mais palpável.

Um significante sempre depende de outro significante, sendo-lhe inerente a incapacidade de ser igual a ele mesmo. A sentença em que A = A não vale para o significante que é pura diferença e articulação com outro significante. Por definição ele está impedido de ser ele mesmo. Um significante, enfim, não se identifica a ele mesmo. Disso resulta que, o sujeito, efeito do significante, estará condenado a não ser ele mesmo, frustrando as expectativas de efetivar uma busca de si mesmo num self ou em qualquer natureza que se apoie no significante e na linguagem. Não só o significante, mas também o sujeito é concebível a partir de uma articulação, significante.

Para que seja possível, em termos de significante, suportar a sentença de que A = A, é preciso supor nele algo que comporte uma identidade, ou seja, uma letra. Antes definida como o suporte do significante, aqui aparece como essência. Há um deslocamento entre suporte e essência. Numa relação entre a escrita e a fala, dizer que a letra é o suporte do significante se aproxima de dizer que o fonema é o suporte da fala. Um pouco próximo do que Freud dizia a respeito de que as pulsões sexuais surgiam num apoio sobre as pulsões de auto conservação. A letra como suporte do significante coloca por um lado a escrita como primeira em relação à linguagem, sem que isso indique valor, mas sim temporalidade. Por outro lado, paradoxalmente, ela é secundária hierarquicamente, sendo, tal como nas escritas fonéticas e alfabéticas, a transcrição, a notação, portanto, o apoio para a fala.

Passar a chamá-la de essência muda algumas coisas, mas não tudo. Não muda que a escrita seja primeira, numa anterioridade, bem ao estilo freudiano, aliás. No Seminário 9 a escrita tem uma anterioridade em relação à linguagem. Contudo, o recurso à fonética reduz seu peso. Lacan passa a pensar a letra não tanto como articulada ao fonema, podendo vir daí a extensa referência a uma escrita não alfabética e não fonética durante esse seminário. As inúmeras referências aos caracteres chineses adiantam nos seus traços um distanciamento com relação aos fonemas, e uma aproximação que não deixará de fazer, com outra forma de pensar a materialidade. Lacan ainda não muda a

183 anterioridade da escrita em relação à linguagem, mas inicia o que se tornará um corte. Inicia um trajeto que o permitirá dizer, mais à frente, que não há uma hierarquia entre fala e escrita, assim como não há entre os registros real, simbólico e imaginário. A escrita chinesa se apoia justamente nisso, não há tal hierarquia, a escrita não está a serviço da fala, meramente como uma forma de notação dos fonemas. Ela exige uma independência do fonocentrismo grego, mas não um isolamento.

É preciso observar que o fato do significante não poder ser ele mesmo por ser pura diferença não implica um defeito, e sim, onde reside toda a sua fecundidade; e Lacan pode contar com a língua chinesa para demonstrar, e o fará novamente, sua teoria do significante. Na passagem do Seminário 18 citada acima, na crítica ao linguista Georges Mounin, vemos como pode recorrer à língua chinesa para demonstrar sua teoria do significante. Analogamente, uma língua onde uma palavra pode ser um verbo, um adjetivo, um adverbio, um pronome e até uma simples conjunção, já é suficiente para falar do significante. Isso não o impedirá de fazer usá-la também, para falar da letra e da escrita, sem que isso seja uma contradição ou inconsistência. A fecundidade do significante reside no ponto em que ele não é a letra, o que não impede que a letra seja a essência do significante, podendo usa a mesma língua e a mesma escrita para pensar tanto um quanto o outro, e principalmente a relação entre eles.

A letra como essência do significante convida a uma outra metáfora, que será cara a Lacan para falar da relação entre escrita e linguagem: osso e carne. O deslocamento entre suporte e essência é correlato de um deslocamento do fonetismo ao corpo. A letra é a essência do significante faz alusão a uma metáfora buscada no organismo, naquilo que a escrita é o osso e a linguagem será a carne (Lacan, 1971). Esse trajeto tem no Seminário 9 um grande impulso, de tal modo que se tornará difícil pensar a letra e a escrita desconectadas da dimensão do corpo, tal como o gozo e a pulsão. A letra como essência do significante é um passo dado na inscrição da letra no corpo sem deixar de tocar a dimensão da linguagem. O problema já enfrentado por Freud, das relações entre linguagem e pulsão, linguagem e corpo, vai assumindo os contornos do traço... da letra. Do traço e da letra e, do traço da letra.

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Benzer Belgeler