Este trabalho é produto de um estudo interdisciplinar. Trata-se de uma pesquisa que precisa se debruçar sobre diferentes campos teóricos, vindos da sociologia, antropologia, história, design e, não menos importante, da comunicação, área na qual o trabalho se concentra. Talvez seja o caso de enxergar a relação entre as diferentes disciplinas, tais como Comunicação e Design, Comunicação e Sociologia, como uma relação de interfaces conforme sugerido por Braga (2011b), questionando-se o que há de comunicacional nessa interface?
Nesse sentido, no estudo realizado por Braga sobre uma análise geral do campo comunicacional (2011b, p. 64), o autor via quatro possibilidades de recorte do objeto no campo da comunicação. Uma delas tratava de ver o objeto a partir de um holismo, no qual tudo seria comunicação, por conta da presença constante da questão comunicacional nas diversas áreas de conhecimento. O inverso seria o de escolher, selecionar ângulos e objetos específicos, porém correndo-se o risco de determinar como objeto fenômenos baseados em preferências pessoais, excluindo outros fenômenos tão importantes quanto.
A terceira possibilidade de recorte do objeto teria a ver com a visão de que o objeto da Comunicação “seria toda e qualquer ‘conversação’ do espaço social. Ou
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melhor: o que há de propriamente ‘conversacional’ e de troca (simbólica e de práticas interativas) nas diversas instâncias e situações da vida social” (BRAGA, 2011b, p. 65). A quarta forma de ver o objeto da comunicação seria relacionada aos meios de comunicação, à mídia, ainda com um enfoque nos processos comunicacionais.
Atualmente, o autor sugere que o objeto da comunicação seria formado por processos caracterizados por uma perspectiva comunicacional, ou seja, um esforço em perceber os processos sociais em geral pela ótica da comunicação. Dessa forma, a interação social consistiria em “processos simbólicos e práticos que, organizando trocas entre os seres humanos, viabilizam as diversas ações e objetivos em que se veem engajados [...] e toda e qualquer atuação que solicita coparticipação” (BRAGA, 2011b, p. 66), sendo o estar em contato, seja este solidário ou conflitivo.
Isto significa que os objetos estudados no campo comunicacional não pertencem apenas à área da comunicação; de fato, muitos estudos clássicos sobre a área vieram de disciplinas do conhecimento próximas, como a sociologia e a antropologia – no sentido de que comunicação ultrapassaria os limites dos meios de comunicação, sendo compreendida como um processo que envolve trocas simbólicas e a própria cultura. O que vai garantir que o estudo feito é comunicacional acaba sendo a abordagem, o viés que se procura encontrar, as perguntas e a forma de ver e encarar o objeto pesquisado.
Nas palavras de Braga, “um dos riscos de adotar uma perspectiva de objeto comunicacional mais amplo que os processos mediáticos é o de que, nos espaços sociais mais difusos, se perca a especificidade de nosso enfoque, diluído na questão cultural” (2011b, p. 74). Acredita-se aqui, contudo, na importância de se dar atenção aos processos comunicacionais que extrapolam os conteúdos do meio midiático, que se baseiam em formas distintas de suprir necessidades comunicacionais e que mostram outras formas de trocas simbólicas e experiências sociais. Acredita-se que o homem é tão importante quanto o objeto ou a prática social em si.
Nesse sentido, e em proximidade ao pensamento do antropólogo italiano Canevacci, acredita-se que, por conta da familiaridade produzida pela comunicação e para tentar compreender este fenômeno, “é preciso aventurar-se em novos territórios transdisciplinares, aplicando pilhagens e furtos que abalam os tradicionais
confins disciplinares” (1997, p. 31), percebendo também que a comunicação é dialógica, “é um perguntar e responder, um dar e receber” (1997, p. 37).
A crítica ao processo tradicional de comunicação – isto é, uma mensagem que viaja de uma fonte por um canal até um receptor que a decodifica – ressalta as possibilidades reversíveis. A viagem é bidimensional. O receptor não é unicamente um objeto, mas também outro sujeito que se comunica e interage com uma fonte. A comunicação viaja nas duas direções (CANEVACCI, 1997, p. 43).
Assim, afasta-se aqui de uma compreensão da comunicação enquanto um instrumento, e sim como uma prática cultural, que precisa ser abordada em sua complexidade. No caso deste trabalho, ainda existe a necessidade de “observar como a cidade se comunica com os seus edifícios, ruas, insígnias, lojas, e com o fluxo de um tráfego insaciável” (CANEVACCI, 1997, p. 14). O que Canevacci compreende por cidade, tomaremos aqui por lugar de acordo com Santos (2006) – conforme será abordado no tópico seguinte. Em outras palavras, é preciso perceber de que forma a vida social toma forma no lugar que está sendo pesquisado, por exemplo, nos interessa saber como o cenário das ilhas amazônicas pertencentes à Região Metropolitana de Belém se comunica com o seu entorno, tanto em relação às pessoas quanto com os patrimônios materiais e imateriais.
Por fim, dentro desta discussão interdisciplinar, não se pode esquecer também da relação fundamental entre comunicação e design. Sobre o assunto, o filósofo Vilém Flusser refletiu sobre as imagens e artefatos criados pelo homem, elaborando assim as bases para uma filosofia do design e da comunicação visual. Para ele, ambos constituiriam frutos de um processo de codificação da experiência, no qual todo artefato, todo objeto, seria produzido por meio da ação de dar forma à matéria segundo uma intenção, um propósito.
De acordo com o autor, “a comunicação humana é um processo artificial. Baseia-se em artifícios, descobertas, ferramentas e instrumentos, a saber, em símbolos organizados em códigos” (FLUSSER, 2013, p. 89), sendo que um código seria “um sistema de símbolos [cujo] objetivo é possibilitar a comunicação entre os homens. [...] [porque o homem] precisa “mediar” (vermitteln), precisa dar um sentido ao mundo” (FLUSSER, 2013, p. 130). Trata-se de um processo artificial porque se distancia do caráter animal, natural da vivência humana. Para ficar mais claro, observe o parágrafo abaixo:
O caráter artificial da comunicação humana (o fato de que o homem se comunica com outros homens por meio de artifícios) nem sempre é totalmente consciente. [...] Os códigos (e os símbolos que os constituem) tornam-se uma espécie de segunda natureza, e o mundo codificado e cheio de significados em que vivemos (o mundo dos fenômenos significativos, tais como o anuir com a cabeça, a sinalização de trânsito e os móveis) nos faz esquecer o mundo da “primeira natureza”. (FLUSSER, 2013, p. 90).
Isso significa dizer que o homem cria e habita um mundo codificado em paralelo com o mundo natural, onde símbolos, códigos, signos acabam tornando-se naturalizados, por vezes obscurecendo a natureza anterior. Assim, “a comunicação humana tece o véu do mundo codificado, da arte, da ciência, da filosofia e da religião” (2013, p. 91), conceitos que surgem a partir da necessidade humana de dar sentido ao mundo. A escrita, a linguagem, o design, a comunicação, os meios de comunicação e a indústria do entretenimento se apoiam sobre esse universo de significações. Ainda de acordo com o autor, os estímulos sensoriais não devem ser confiados inteiramente, porque se aprende culturalmente a ver, a enxergar, esse mundo – ou seja, a imagens precisam ser interpretadas.
Flusser não é muito otimista em relação a esse processo. Para ele, a base de toda a cultura é a “tentativa de enganar a natureza por meio da tecnologia, da maquinação” (2013, p. 14). É aqui que entraria o design, enquanto um meio de possibilitar a manutenção deste mundo codificado através da união entre arte e técnica, da substituição do natural pelo artificial (2013, p. 184). É claro que os estudos sobre os fenômenos sociais não precisam ser tão absolutos, nem tão radicais. Mas, acredita-se, contudo, que o pensamento de Flusser pode ser útil para a compreensão de experiências atuais que envolvam a comunicação, o design e os códigos de sentidos presentes na vida social. Por exemplo, ao falar sobre o uso das cores nos dias atuais:
Nosso entorno é repleto de cores que atraem a atenção dia e noite, em lugares públicos e privados, de forma berrante ou amena. Nossas meias e pijamas, conservas e garrafas, exposições e publicidade, livros e mapas, bebidas e ice creams, filmes e televisão, tudo se encontra em tecnicolor. Evidentemente não se trata de um mero fenômeno estético, de um novo “estilo artístico”. Essa explosão de cores significa algo. O sinal vermelho quer dizer “stop!”, e o verde berrante das ervilhas significa “compre-me!”. Somos envolvidos por cores dotadas de significados; somos programados por cores, que são um aspecto do mundo codificado em que vivemos. As cores são o modo como as superfícies aparecem para nós (FLUSSER, 2013, p. 128).
É interessante como o autor desloca o tema de uma fundamentação apenas estética para algo que possui um sentido, um significado social, ao mesmo tempo
em que contextualiza o cenário em que vivemos – uma realidade em que as superfícies, as imagens, passaram a ter lugar de destaque na vida cotidiana. É por esse rumo que o presente trabalho segue, compreendendo que os fenômenos não apenas existem, eles existem com um motivo, com um propósito, seja ele subjetivo, cultural, econômico, político, dentre outros. E que, para compreendê-los, faz-se necessária uma visão pautada na interdisciplinaridade, com a consciência de que a realidade é muito mais complexa do que as teorias, e que se pode tentar interpretá- la, mas não reduzi-la ou explicá-la.