Lynch (1998) ressalta que os elementos móveis da cidade (pessoas e suas atividades) são tão importantes quanto os elementos imóveis (estrutura física) da mesma. O autor defende que o ambiente não é percebido pelo sujeito de modo neutro, sofrendo a influência de aspectos sensoriais, dos objetivos do indivíduo e de suas memórias. Ele aponta a existência de duas formas de conhecimento sobre os ambientes, sendo o primeiro, conhecimento locativo, que se refere aos elementos estruturais, os quais permitem à pessoa deslocar-se; e um conhecimento não locativo, ligado ao significado do ambiente para a pessoa, relacionado às suas experiências subjetivas.
Vale salientar que Lynch (1998) define o processo de atribuição de significado ao espaço, como bilateral, pois embora existam sinais objetivos a serem observados, cabe ao sujeito selecionar, organizar e dotar de sentido aquilo que percebe.
Okamoto (2002) enfatiza que o uso dos sentidos está perdendo importância devido a obsessão pelo rigor científico, fazendo com que a riqueza perceptual restrinja-se ao conjunto dos cinco sentidos convencionais: olfato, paladar, tato, audição e visão, salientando mais uma vez a valorização do último como elemento principal de contato com o mundo.
A visão, assim como os demais sentidos, possui características peculiares, ela capta configurações, formas, cores e constrói imagens das relações entre os objetos no ambiente. Devido a sua propriedade de apreender informações à distância, a visão, conforme aponta Okamoto (2002) destaca-se como elemento de segurança para o homem, que está apto para perceber ameaças com um maior nível de antecipação. Segundo este autor mais de 80% das informações transmitidas ao cérebro do ser humano são provenientes da visão. Contudo
Kastrup, Carijó e Almeida (2009) contestam esta afirmação, segundo a qual os cegos teriam acesso a menos de 20% do mundo, propondo que os objetos não possuem existência prévia, independente da relação cognitiva de apreensão estabelecida com o homem.
As características do aparelho sensorial de cada espécie são compartilhadas por seus membros, por isso Tuam (1983) afirma que é mais fácil para uma pessoa compreender a forma como outro homem percebe o mundo do que como um cachorro, pois este possui receptores sensoriais com propriedades específicas, que, apesar de apresentar menor acuidade visual, detém maior capacidade de recepção e diferenciação de estímulos olfativos.
Vigotsky (1991a) descreve a percepção humana como um mecanismo complexo, no qual os elementos físicos são tanto identificados quanto categorizados. Além das formas, ele destaca a capacidade de atribuir sentido e realidade àquilo que é percebido:
Um aspecto especial da percepção humana - que surge em idade muito precoce - é a percepção de objetos reais. Isso é algo que não encontra correlato análogo na percepção animal. Por esse termo eu entendo que o mundo não é visto simplesmente em cor e forma, mas também como um mundo com sentido e significado. (p. 37).
A percepção é uma função elementar que com o desenvolvimento da fala e da manipulação de instrumentos modifica-se constituindo uma das funções psicológicas superiores, diferenciando-a da percepção dos outros animais (VIGOTSKY, 1991a). A associação entre percepção e signos está presente na memória mediada, na qual signos auxiliam o processo de recuperação das lembranças. As associações entre signos e recordações são estabelecidas pelo homem conforme suas necessidades, por meio de técnicas indiretas. Esta capacidade de recordar baseada em signos fornece condições de igualdade de acesso ao mundo a pessoas com deficiência visual, que embora não usufruindo das mesmas percepções, compartilham os códigos de comunicação.
O mundo, tal como é percebido pela criança, passa a ser nomeado, categorizado e descrito por meio da fala, que por sua vez relaciona-se de modo arbitrário com o objeto que representa, dada a associação cultural entre palavra e objeto. Após este estágio inicial em que a fala é empregada para rotular a percepção, ela adquire uma nova função e passa a desempenhar um papel de síntese da percepção (VYGOTSKI, 1991a). Assim se estabelece uma cultura visuocêntrica, na qual as formas de registro escrito, as comunicações, parte do acervo cultural, as atividades, os meios de transporte e as estruturas arquitetônicas são planejados para o uso com base na visão.
Entretanto, ainda que o olfato, o paladar, o tato e a audição tenham sido considerados como sentidos inferiores, cada um deles possui um papel fundamental na
construção das várias imagens do mundo e dos pensamentos e emoções humanas. Como afirma Günther:
O espaço físico igualmente é multifacetado. A percepção dos cenários físicos não somente passa por múltiplos sentidos (visão, audição, etc.), mas registra múltiplos estímulos ao mesmo tempo. Entretanto, dificilmente, responde-se ou se é atingido por apenas um aspecto deste ambiente físico, mas por sua gestalt, composta por múltiplos estímulos. (GÜNTHER, 2003, p. 274).
Apesar dessa diversidade de estímulos, a concepção visuocêntrica predominante faz com que aqueles que não se utilizam da visão como sentido de referência sejam submetidos a condições desiguais de acesso à cidade e a seus equipamentos em geral, uma vez que tais estruturas são construídas baseando-se no uso da percepção visual como meio de contato e captação da realidade.
O homem como um ser ativo, social e histórico, constrói-se a partir de suas relações objetivas com o ambiente social e físico que o rodeia, devendo considerar-se também as condições históricas, culturais, econômicas que permeiam sua existência. Não é possível dissociar objetividade e subjetividade, pois à medida que o ser humano interage com o mundo, ambos são alterados. Dessa forma pode-se pensar na influência que os grandes centros urbanos tem sobre a subjetividade de seus habitantes, ao afetar diretamente seus modos de vida, criando simultaneamente limites e possibilidades, que são lidos e interpretados de formas diversas por seus moradores, pois cada um faz sua própria leitura do mundo como afirma Damásio (2000, p. 406):
O cérebro é um sistema criativo. Em vez de refletir fielmente o ambiente que o circunda, como seria o caso com um mecanismo engendrado para o processamento de informações, cada cérebro constrói mapas desse ambiente usando seus próprios parâmetros e sua própria estrutura interna, criando, assim, um mundo único para a classe de cérebros estruturados de modo comparável.
Damásio ratifica por intermédio de uma descrição neurobiológica as idiossincrasias existentes entre os homens, também relacionadas a sua história e matrizes culturais e sociais. Tomando-se por base uma abordagem transacional da relação pessoa- ambiente, conforme apresentam Aragonés e Amérigo (1998) compreende-se que homem e ambiente implicam-se mutuamente, formando uma totalidade de acordo com o contexto e a cultura. Nessa perspectiva o espaço não é estático, mas construído socialmente e subjetivamente levando-se em consideração o tempo e a cultura.